“Alturas de Machu Picchu”, estrofe X, em seu Canto General, de Pablo NERUDA

“Alturas de Machu Picchu”, estrofe X, em seu Canto General, de Pablo NERUDA

Narração:Carmem Imaculada de Brito

“Alturas de Machu Picchu”, estrofe X, em seu Canto General, de Pablo NERUDA

Pedra na pedra, o homem, onde esteve?

Ar no ar, o homem, onde esteve?

Tempo no tempo, o homem, onde esteve?

Foste também o pedacinho roto

de homem inconcluso, de águia vazia

que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,

que pelas folhas de outono morto

vai machucando a alma até a tumba?

A pobre mão, o pé, a pobre vida…

Os dias da luz esfiapada

em ti, como a chuva

sobre as bandeirinhas da festa,

deram pétala a pétala de seu alimento escuro

na boca vazia?

Fome, coral do homem,

fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,

fome, subiu tua linha de arrecife

até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sai dos caminhos,

mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,

roer com um palito os estames de pedra,

subir todos os escalões do ar até o vazio,

rascar a entranha até tocar o homem.

Machu Picchu, puseste

pedra na pedra, e na base, farrapos?

Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?

Fogo no ouro, e nele, temblando a vermelha

goteira do sangue?

Devolve-me o escravo que enterraste!

Sacode das terras o pão duro

do miserável, mostra-me os vestidos

do servo e sua janela.

Diz-me como dormiu quando vivia.

Diz-me se foi seu sonho

rouco, entreaberto, como um buraco negro

feito pela fatiga sobre o muro.

O muro, o muro! Se sobre seu sonho

gravitou cada piso de pedra, e se caiu sob ela

como sob uma lua, com o sonho!

Antiga América, noiva submergida,

também teus dedos,

ao sair da selva para o alto vazio dos deuses,

sob os estandartes nupciais da luz e do decoro,

mesclando-se ao trovão dos tambores e das lanças,

também, também teus dedos,

os que a rosa abstrata e a linha do frio, os

que o peito sangrento do novo cereal trasladaram

até a tela de matéria radiante, até as duras cavidades,

também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo

no amargo intestino, como uma águia, a fome?

= = = = = = =

Da Tradução: Igor Fracalossi

Referência: NERUDA, Pablo. “Alturas de Machu Picchu”, estrofe X, em seu Canto General, 1950.

Edição e Divulgação: Frei Gilvander Moreira, da CPT, das CEBs, do CEBI, do SAB e da assessoria de Movimentos Populares, em Minas Gerais. Edição: Nádia de Oliveira, colaboradora da CPT/MG. Acompanhe a luta pela terra e por Direitos também via www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com  www.cebimg.org.br  – www.cptmg.org.br  – www.gilvander.org.br  – www.cptminas.blogspot.com.br  – www.freigilvander.blogspot.com.br  

No Instagram: Frei Gilvander Moreira (gilvanderluismoreira)

No Spotify: Frei Gilvander luta pela terra e por direitos

*Inscreva-se no Canal Frei Gilvander Luta pela Terra e por Direitos, no link: https://www.youtube.com/user/fgilvander , acione o sininho, receba as notificações de envio de vídeos e assista a diversos vídeos de luta por direitos sociais.

Se assistir e gostar, compartilhe. Sugerimos. #DespejoZero #ÁguasParaaVida #BarragemNão #FreiGilvander #NaLutaPorDireitos #PalavrasDeFéComFreiGilvander #PalavraÉticacomFreiGilvander

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *