Dezenas de famílias Sem Terra foram despejadas em Capitão Enéas, no norte de Minas Gerais: INJUSTIÇA AGRÁRIA!

Dezenas de famílias Sem Terra foram despejadas em Capitão Enéas, no norte de Minas Gerais: INJUSTIÇA AGRÁRIA!

Despejo no Acampamento Recanto das Águias, na fazenda Norte América, localizado no município de Capitão Eno norte de Minas Gerais, dia 10/12/2019. Fotos: CPT/MG.

As famílias do acampamento Recanto das Águias, na fazenda Reunidas Norte América Nova Holanda, localizado no município de Capitão Enéas, no norte de Minas Gerais, estão sendo despejadas de seus barracos após decisão do juiz da Vara Agrária do Tribunal de (In)Justiça de Minas Gerais (TJMG). O sonho de fazer a reforma agrária nas terras do latifúndio Norte América está sendo abortado novamente por decisão inconstitucional e injusta do juiz da Vara Agrária do TJMG, Walter Zwicker Esbaille Júnior.  Aos poucos a Polícia Militar do estado de MG vem despejando as famílias, evitando assim maiores custos para o Governo de Minas e garantindo que o fazendeiro Leo Andrade retome toda a fazenda. As famílias estavam acampadas numa parte da fazenda, em 556 hectares – área presumivelmente de  terras devolutas -, por resultado de um acordo judicial. O despejo em “etapas” está marcado para finalizar amanhã, quarta-feira, dia 11 de dezembro de 2019. Diante da pressão da Polícia Militar, da ordem injusta do juiz e assombradas por duas tentativas de massacres, as famílias são obrigadas a um passo atrás na conquista do sonho de ter um pedaço de terra para produzir e sustentar sua família. Os Sem Terra vivem exilados no próprio país, enquanto que fazendeiro Léo Andrade está solto, mesmo sendo o mandante de um crime recente, no qual contratou 20 pistoleiros que quase matou um sem-terra e feriu vários outros, mesmo após mandato de prisão preventiva. Decidindo assim, o TJMG deixa de ser Tribunal de Justiça e passa a ser Tribunal de Injustiça. Como também vários outros criminosos que participaram do massacre estão soltos. Representantes do movimento “Segurança no Campo” – nova UDR (União “Democrática” Ruralista) -, do qual Léo Andrade participa, acompanharam ativamente o despejo, definindo formas de transportar o povo, acusando os acampados de delitos e circulando livremente pelo acampamento. Todas as moradias e as plantações foram destruídas durante o despejo. No dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, presenciamos mais um conluio do Estado com fazendeiros em um ataque aos pobres do campo. Até quando o Estado brasileiro estará contra seu próprio povo e permanecerá do lado do capital, dos capitalistas, dos latifundiários e do Agronegócio?

A FNL denuncia ainda que, durante quase todas as semanas desde o início desse ano, efetivos da PM, comandados pelo tenente-coronel Rômulo Gonçalves, do Batalhão de Montes Claros, cercaram e invadiram sem ordem judicial o acampamento ameaçando os camponeses e procurando por suas lideranças. No dia 23 de janeiro de 2019, os policiais militares invadiram o acampamento acompanhados por Leonardo Andrade, até o atual momento tido como o principal suspeito pela tentativa de massacre ocorrida a menos de um ano. 

O latifúndio Norte América foi palco, no dia 08/03/2018, de uma tentativa de massacre promovida pelo “Movimento Paz no Campo”, na pessoa de Leonardo Andrade, segundo denunciam os camponeses. Na ocasião, vários camponeses foram agredidos e torturados e o dirigente estadual da FNL, Tiago Coimbra, foi alvejado com tiros nas duas pernas, tórax e cabeça, ficando hospitalizado em estado grave durante vários dias.

Como ficou comprovado no período, por meio do próprio inquérito policial e divulgado pelos monopólios de imprensa, toda a ação criminosa encabeçada por Leonardo Andrade, que contou com a participação de muitos pistoleiros, foi planejada dentro da Sociedade Rural de Montes Claros (principal entidade representativa dos latifundiários na região). Leonardo Andrade e alguns de seus comparsas chegaram a ser indiciados e ficaram foragidos por alguns dias, mas, como geralmente ocorre em tais episódios, seguem impunes. 

Cinco famílias Sem Terra despejadas foram acolhidas na comunidade José Bandeira, situada na Fazenda da Prata no município de Pirapora,MG. Estas famílias perderam tudo que tinham e precisam recomeçar suas vidas, reconstruir sua dignidade. Elas precisam de lona para construir seus barracos. Esperamos a solidariedade de quem possa ajudar na reconstrução da vida e dignidade destas famílias.

Os profetas do meio do povo maldizem os opressores, no campo ou na cidade, no Estado ou nos poderes econômico e político. O profeta Isaías alerta: “Ai dos que ajuntam casa a casa, dos que acrescentam campo a campo, até que não haja mais lugar, de modo que habitem sozinhos no meio da terra!” (Isaías 5,8). Os autores do livro de Salmos, na Bíblia, invocam a ira de Deus: “Que a mesa à sua frente seja uma armadilha, sua abundância uma cilada! Que seus olhos fiquem escuros e não vejam mais! Faze os seus rins estarem sempre doentes. Derrama sobre eles o teu furor! Que o ardor da tua ira os atinja! Sejam riscados do livro da vida…” (Salmo 69,23-29). O profeta Miqueias amaldiçoa os opressores com veemência: “Ai daqueles que nas suas camas intentam a iniquidade, e maquinam o mal; à luz da manhã o praticam, porque está no poder da sua mão! E cobiçam campos e roubam, cobiçam casas, e arrebatam; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (Miqueias 2, 1-2).

Com os profetas bíblicos profetizamos: “Os pobres possuirão a terra!” (Salmo 37,11). Com Jesus Cristo afirmamos: “Felizes os humildes, porque conquistarão a terra” (Mateus 5,5).

Assina esta Nota:

Comissão Pastoral da Terra (CPT/MG).

Belo Horizonte, MG, 10 de dezembro de 2019.

ENTENDA O CONFLITO AGRÁRIO E SOCIAL QUE OCORRE EM CAPITÃO ENEIAS, NO NORTE DE MG, lendo e olhando as fotografias da Nota, no link, abaixo.

http://www.cptmg.org.br/portal/ataque-do-latifundio-contra-sem-terras-em-capitao-eneias-norte-de-minas-gerais/

Algumas fotografias do despejo de dezenas de famílias Sem Terra em Capitão Eneias, no norte de MG, dia 10/1/2019.

Não deixaram nenhum barraco ou casa de pé. Destruíram tudo.
Todos os barracos e casas de alvenaria foram destruídas com tratores pelo dono da fazenda com escolta da PM.
Barracos de famílias Sem Terra foram incendiados
Todas as plantações dos Sem Terra foram destruídas com tratores e grades.
Famílias Sem Terra com seus móveis velhos e quebrados foram transportados em caminhão de carregar bom. De foto, no Brasil, os bois são muito melhor tratados do que os seres humanos.
Quem puder ajudar, desde já, muito obrigado.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *