Diário da resistência, de Antônio Souza Capurnan

Diário da resistência, de Antônio Souza Capurnan

Narração:Carmem Imaculada de Brito

Diário da resistência, de Antônio Souza Capurnan

Recebi, esta semana, a décima carta de uma testemunha de Jeová.

Deliciosamente manuscritas, letra de professora, as cartas são deixadas no meu escaninho. A remetente se chama Lílian. Não nos conhecemos, mas ela sabe de mim porque me chama de pecador.  Vem, por meio das cartas, me convidar a uma conversão. Pede que eu leia a bíblia e pergunta se não me preocupa o fim dos tempos.

Não sabe a minha interlocutora que eu tenho uma religião: a vida, a luta para transformá-la, a literatura, a música, os amigos, os companheiros e companheiras de conquistas, de bares, de derrotas e de fracassos. E de sonhos. Tudo isso que pulsa é a minha religião. Eu vivo cada dia, cada tarde, cada árvore muito intensamente.                                                         

E até falo com os gatos e os cachorros nos dias de febre.

Queria dizer a Lílian que não creio no Deus que a maioria das igrejas vêm me oferecer, porque o Deus da maioria das igrejas me parece estranho e falso. O Deus da minha fé é inteligente, sensível e, por tudo isso, deixou um filho nascer aqui entre nós. Um filho que eu prezo muito, com admiração e respeito e nunca temor. Um filho que nasceu sem-teto, que cresceu entre os pobres, caminhou com eles, nunca comungou com os ricos, não se enriqueceu às custas dos pobres, acolheu com ternura as crianças, defendeu uma prostituta, vestia como deve vestir um homem do povo. E enfrentou um império. E Por causa de sua prática foi assassinado na cruz.  

Não consta na biografia deste filho do Deus da minha fé um único ato de exclusão, preconceito e intolerância.

Queria dizer a Lílian que a maioria das pessoas religiosas que conheço não levam a sério o Evangelho de Jesus Cristo. Muitas delas prostituíram-no. E, em nome dele, cometem barbaridades e ou se silenciam diante das barbaridades cometidas contra o povo. Falam de um paraíso onde entram apenas os seus iguais; os diferentes ficam fora. Um paraíso onde vão viver indiferentes às grandes tragédias humanas.  Não, não quero para mim esse paraíso e nem o desejo a ninguém.

Quero, se possível, ajudar na construção de um paraíso já aqui na terra – como está dito no Pai Nosso. Um lugar onde todas e todos tenham vida plena; um paraíso onde os jovens negros possam circular sem o risco de serem assassinados pela polícia; onde as mulheres sejam respeitadas; onde a terra – dom de Deus! – não seja propriedade de meia-dúzia de homens, homens brancos como no Brasil. Um paraíso possível de rios limpos e de toda a natureza respeitada e a serviço de todos e de todas.

Pelo que conheço, Lilian, o Deus de sua igreja não é o Deus da minha fé. O meu Deus caminha com a vida e se implica na transformação da vida concreta. Perde noites de sono refletindo sobre como convencer a humanidade de que todos e todas precisam de carinho, de cuidado e de acolhida: os negros, as lésbicas, os gays, os ateus, os sem-casa os sem-teto…

O Deus da minha fé se lança em alto-mar para salvar da escravidão os foragidos das guerras e das tempestades.

O Deus da minha fé não toma assento com os ricos, ao contrário, denuncia as atrocidades promovidas por eles, porque sabe, o Deus da minha fé, que o discurso da paz será sempre falso e hipócrita enquanto perdurar a injustiça.

O Deus da minha fé sabe das minhas fraquezas, das minhas intemperanças, dos meus exageros, mas sabe também que eu faço, cotidianamente, das tripas coração para caminhar  com os pobres, para organizá-los e com eles ajudar a transformar a vida.

Com todo respeito, Lílian fica dito que não creio no Deus da sua fé. Não posso acreditar num Deus que não dance a dança dos pobres, que caminha paralelo e indiferente à história. Nenhuma religião pode ser levada a sério se não conspira com os excluídos.

Não há outra saída.

Se a igreja esqueceu o pobre, diz D. Pedro Casaldáliga, esqueceu o Evangelho.

Não adianta a suposta seriedade do terno e da gravata. Para nada serve o templo grandioso. Não adianta a beleza do vaso com flores no altar da igreja. É tudo bonito, mas… precário, vazio de sentido, como uma bolha de sabão.

Está escrito em Eclesiastes que quem caminha com os ricos caminha para o abismo.

Não é possível viver o Evangelho se não se sorri, se não se sofre, se não se conspira juntamente com os pobres. Não há vivência do Evangelho fora disso. Tudo é falso.

E, por fim, respondendo à sua indagação, devo dizer que preocupa-me, sim, o fim dos tempos. Sonho, luto, sofro e bebo para que sejamos capazes de decretar o fim deste tempo injusto, cujo Deus é o dinheiro E inauguremos outro tempo: um tempo bom.

Decretemos, juntos, o fim deste tempo iníquo, de barbárie e solidão!

Na rua onde você mora há um cachorro com fome, há oito dias. Há uma mulher que apanha do marido e há um homem solitário na esquina, a ver navios. Há desemprego e há muita incerteza no olhar da juventude. Pense nisso com carinho. E com um pouco de ternura. E deixe-me cartas sobre a sua conversão ao Evangelho de Jesus Cristo.

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Edição e Divulgação: Frei Gilvander Moreira, da CPT, das CEBs, do CEBI, do SAB e da assessoria de Movimentos Populares, em Minas Gerais. Acompanhe a luta pela terra e por Direitos também via www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com  www.cebimg.org.br  – www.cptmg.org.brwww.cptminas.blogspot.com.br   

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