Poema “Canto dos Palmares”, de Elisa Lucinda

Poema “Canto dos Palmares”, de Elisa Lucinda

Narração: Carmem Imaculada de Brito

Poema “Canto dos Palmares”, de Elisa Lucinda

Eu canto aos Palmares

sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões

porque o meu canto é o grito de uma raça

em plena luta pela liberdade!

Há batidos fortes

de bombos e atabaques em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

invadidas pelos fugitivos…

Eu canto aos Palmares

odiando opressores

de todos os povos

de todas as raças

de mão fechada contra todas as tiranias!

Fecham minha boca

mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos do maldito senhor!

Meu poema libertador

é cantado por todos, até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

muitos filhos deixaram

e todos sabem plantar e manejar arcos

Muitas amadas morreram

mas muitas ficaram vivas,

dispostas a amar

seus ventres crescem e nascem novos seres.

O opressor convoca novas forças

vem de novo ao meu acampamento…

Nova luta.

As palmeiras ficam cheias de flechas,

os rios cheios de sangue,

matam meus irmãos, matam minhas amadas,

devastam os meus campos,

roubam as nossas reservas;

tudo isto para salvar a civilização e a fé…

Nosso sono é tranqüilo

mas o opressor não dorme,

seu sadismo se multiplica,

o escravagismo é o seu sonho

os inconscientes entram para seu exército…

Nossas plantações estão floridas,

Nossas crianças brincam à luz da lua,

nossos homens batem tambores,

canções pacíficas,

e as mulheres dançam essa música…

O opressor se dirige aos nossos campos,

seus soldados cantam marchas de sangue.

O opressor prepara outra investida,

confabula com ricos e senhores,

e marcha mais forte,

para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr…

Ainda sou poeta

meu poema levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta,

os tambores não são mais pacíficos,

até as palmeiras têm amor à liberdade…

Os civilizados têm armas e dinheiro,

mas eu os faço correr…

Meu poema é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas cantam comigo,

enquanto os homens vigiam a terra.

O tempo passa

sem número e calendário,

o opressor volta com outros inconscientes,

com armas e dinheiro,

mas eu os faço correr…

Meu poema é simples,

como a própria vida.

Nascem flores nas covas de meus mortos

e as mulheres se enfeitam com elas

e fazem perfume com sua essência…

Meus canaviais ficam bonitos,

meus irmãos fazem mel,

minhas amadas fazem doce,

e as crianças lambuzam os seus rostos

e seus vestidos feitos de tecidos de algodão

tirados dos algodoais que nós plantamos.

Não queremos o ouro porque temos a vida!

E o tempo passa, sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto,

mente ao mundo

e parte para prender-me novamente…

– É preciso salvar a civilização,

Diz o sádico opressor…

Eu ainda sou poeta e canto nas selvas

a grandeza da civilização

a Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos batem com as mãos,

acompanhando o ritmo da minha voz….

– É preciso salvar a fé,

Diz o tratante opressor…

Eu ainda sou poeta e canto nas matas

a grandeza da fé a Liberdade…

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos batem com as mãos,

acompanhando o ritmo da minha voz….

Saravá! Saravá!

repete-se o canto do livramento,

já ninguém segura os meus braços…

Agora sou poeta,

meus irmãos vêm comigo,

eu trabalho, eu planto, eu construo

meus irmãos vêm ter comigo…

Minhas amadas me cercam,

sinto o cheiro do seu corpo,

e cantos místicos sublimizam meu espírito!

Minhas amadas dançam,

despertando o desejo em meus irmãos,

somos todos libertos, podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

os frutos do amor dos meus irmãos,

nos alimentamos do fruto da terra,

nenhum homem explora outro homem…

E agora ouvimos um grito de guerra,

ao longe divisamos as tochas acesas,

é a civilização sanguinária que se aproxima.

Mas não mataram meu poema.

Mais forte que todas as forças é a Liberdade…

O opressor não pôde fechar minha boca,

nem maltratar meu corpo,

meu poema é cantado através dos séculos,

minha musa esclarece as consciências,

Zumbi foi redimido…

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