Poema “Descoberta da Usina”, de João Cabral de Melo Neto

Poema “Descoberta da Usina”, de João Cabral de Melo Neto

Narração:Carmem Imaculada de Brito

Poema “Descoberta da Usina”, de João Cabral de Melo Neto

Até este dia, usinas

eu não havia encontrado.

Petribu, Muçurepe,

para trás tinham ficado,

porém o meu caminho

passa por ali muito apressado.

De usina eu conhecia

o que os rios tinham contado.

Assim, quando da Usina

eu me estava aproximando,

tomei caminho outro

do que vi o trem tomar:

tomei o da direita,

que a cambiteira vi tomar,

pois eu queria a Usina

mais de perto examinar.

Vira usinas comer

as terras que iam encontrando;

com grandes canaviais

todas as várzeas ocupando.

O canavial é a boca

com que primeiro vão devorando

matas e capoeiras,

pastos e cercados;

com que devoram a terra

onde um homem plantou seu roçado;

depois os poucos metros

onde ele plantou sua casa;

depois o pouco espaço

de que precisa um homem sentado;

depois os sete palmos

onde ele vai ser enterrado.

Muitos engenhos mortos

haviam passado no meu caminho.

De porteira fechada,

quase todos foram engolidos.

Muitos com suas serras,

todos eles com seus rios,

rios de nome igual

como crias de casa, ou filhos.

Antes foram engenhos,

poucos agora são usinas.

Antes foram engenhos,

agora são imensos partidos.

Antes foram engenhos

com suas caldeiras vivas;

agora são informes

partidos que nada identifica.

Encontro com a Usina

Mas nas Usina é que vi

aquela boca maior

que existe por detrás

das bocas que ela plantou;

que come o canavial

que contra as terras soltou;

que come o canavial

e tudo o que ele devorou;

que come o canavial

e as casas que ele assaltou;

que come o canavial

e as caldeiras que sufocou.

Só na Usina é que vi

aquela boca maior,

a boca que devora

bocas que devorar mandou.

Na vila da Usina

é que fui descobrir a gente

que as canas expulsaram

das ribanceiras e vazantes;

e que essa gente mesma

na boca da Usina são os dentes

que mastigam a cana

que a mastigou enquanto gente;

que mastigam a cana

que mastigou anteriormente

as moendas dos engenhos

que mastigavam antes outra gente;

que nessa gente mesma,

nos dentes fracos que ela arrenda,

as moendas estrangeiras

sua força melhor assentam.

Por esta grande usina

olhando com cuidado vou,

que esta foi a usina

que toda esta mata dominou.

Numa usina se aprende

como a carne mastiga o osso,

se aprende como mãos

amassam a pedra, o caroço;

numa usina se assiste

à vitória, de dor maior,

de brando sobre o duro,

do grão amassando a mó;

numa usina se assiste

à vitória maior e pior,

que é a da pedra curta

furada de suor.

Para trás vai ficando

a triste povoação daquela usina

onde vivem os dentes

com que a fábrica mastiga.

Dentes frágeis, de carne,

que não duram mais de um dia;

dentes são que se comem

ao mastigar para a Companhia;

de gente que, cada ano,

o tempo da safra é que vive,

que, na braça da vida,

tem marcado curto o limite.

Vi homens de bagaço

enquanto por ali discorria;

vi homens de bagaço

que morte úmida embebia.

E vi todas as mortes

em que esta gente vivia:

vi a morte por crime,

pingando a hora da vigia;

a morte por desastre,

com seus gumes tão precisos,

como um braço se corta,

cortar bem rente muita vida;

via morte por febre,

precedida de seu assovio,

consumir toda a carne

com um fogo que por dentro é frio.

Ali não é a morte

de planta que seca, ou de rio:

é morte que apodrece,

ali natural, que visto.

Em homenagem aos trabalhadores/as cortadores/as de cana aos quais o dia 16 de janeiro é dedicado, acima, Trecho do livro O RIO, de João Cabral de Melo Neto, de 1953.

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Edição e Divulgação: Frei Gilvander Moreira, da CPT, das CEBs, do CEBI, do SAB e da assessoria de Movimentos Populares, em Minas Gerais. Acompanhe a luta pela terra e por Direitos também via www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com  www.cebimg.org.br  – www.cptmg.org.brwww.cptminas.blogspot.com.br   

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