POEMA “Madreúscula”, de Antônio Souza Capurnan

Poema “Madreúscula”, de Antônio Souza Capurnan

Narração: Carmem Imaculada de Brito

Poema Madreúscula, de Antônio Souza Capurnan

Mãe foi no sempre uma mulher de coragem, andeios e travessia.

Contam que certa feita, lá na roça, Mãe, quieta, calada, torrava farinha de manjoca, e pai, com seu feitio de homem tempestivo, enfezava Mãe, numa briga de voz apunhalada. À certa altura, ela se descuidou de si, e ele veio por trás e a jogou no chão. Mãe não se fez de triste abatida não. Alevantou-se e pôs um tição aceso no olho direito de pai, que nunca mais se atreveu a bater em Mãe.

Noutra ocasião, o que contam, mãe de pai, minhavó, foi atacada por uma vaca enraivecida. Dizem que pai gritava, chamuscava, xingando para que um fosse lá espantar a vaca, mas pai mesmo não tinha coragem de enfrentar o bicho alevantado.  Mãe se arrevestiu de força, pegou num enxadão, enfrentou a vaca e, despois, esbravejou pai com o enxadão triscando em punho.

Mãe foi de sempre uma senhora mulher de bem e rezadeira. De palavra. Entendia Deus, e Deus a entendia. Num cochicho de beranoite. Padre e pastô?! Ela nunca teve não. De religião mesmo, Mãe só tinha e bendizia a inteira vida. Sua escola, sua letra e leitura.

Mas Mãe não foi de ignorãças.

Negraíndia,  de zoios cor de palha seca e coração de riacho em permanente fundo.

In certo dia, Mãe encasquetou com pai que encasquetô  cum Mãe que trovejou a tarde e encasquetou-se o dia como se a tarde fosse uma serepente enrodilhada.

 Adicidiu-se Mãe mudar de ventos, de terra e tempestades. 

Pois é, Vereda o  nome da fazenda de meu pai que divisava com as terras de Joaquim Japira.

Vereda em rio, Vereda in árvore, Vereda ni toda gente dali.

Parece que pai se acabrunhou. Pois valentia e mando do bicho-homem só termina é na virtude da mulher. Assim é no batente, senhora. Assim é na pulítica. É disso que macho tem medo: virtude. E pai se acabrunhou.

Mãe recolheu meninos, juntou a trouxa, arreou coragem e reza e, dispois, rasgou estrada com os filhos na enfieira. Enveredou chão por onze léguas, noite adentro, no enfrentar de bichos e fantasmas.

Não éramos muitos naquela noite da diáspora. Éramos in dez. Não. Digo nove, que Maria Mãe deixou  cum pai, por uns tempos e distempos. Cuidando dele.

Mãe era mulher de muita sensatez e sincera. Ponderava sempre, realçando no que pai tinha de bom e no que tinha de ruim. Nunca se desajeitou por saudades dele, mas senhorava-se que fôssemos lá tomar a bênção.

Desconfio que Mãe nunca amou meu pai.

Desconfio que pai nunca amou minha Mãe.

E a gente tinha de amar os dois. Por devoção e respeito.

Com o tempo já não éramos dez lá dentro de casa.

Pai nunca pôs os pés no indentro de casa. E Mãe.

Teve de ser tudo: foi pão, cãtoria, escola, conselho e beliscão. Ajeitou no prato de cada um o seu quinhão de ternura. E nunca fraquejou no adverso.

Na primeira viagem que fez para a Capital, quando parou em Toflotone, Mâe pediu água para banhar um neto. Meio de banda o rapazinho lhe falou que a água era vendida. Mãe estatalou seu zoio de folha seca e pediu que arrepetisse. No que disse:

 Cumé qui podi si vendê água, meu Deus? Maldiçuou  aquilo. E resmungou: Ofimdumundo.

Foi a primeira desavença de Mãe com a Mudernidade.

Mãe era lavadeira de roupa, senhora. E tinha água do Norte todo santo-dia na berada da saia.

Nun si pode negá agua! Num se pode vendê agua!

Um dia, dona Querô, a terceira mulher de pai, veio ficar em casa nossa na Capital, pois que precisava ela de tratamento de saúde. Mãe acolheu dona Querô em sua casa. Uma vizinha incomodada com aquilo indagou Mãe do fato em si:

– Cumo é qui a sinhora consegue? Dexá ni sua casa a mulhé di seu ezmarido?

Mãe serenou-se de meio sorriso esfregando as mãos:

– É puriço mesmo: ezmarido! Eu tive poblema com ele; eu num tive poblema cum ela.

E os tempos se foram indo: o preto ficando branco na cabeça de Mãe.

Até o dia em que o coração de Mãe pediu arrego.

No dia em que Mãe virou riacho fez vento forte na cidade.

Eu já era moço crescido.

Desdessidia eu fiquei ruim da cabeça, esbarro no tempo, nas coisas, escrevo no ar. Troco de letra e palavra.

Nas luas cheias, fico com as vistas tortas, o coração pequeno, falando e cantando sozinho. Converso com as paredes.

Nenhum remédio me cura.

Sou um Zé Velho na beirada do tempo.

Só vou ficando melhorzinho quando me oferecem um lápis, uma parede, um papel.

Que aí eu escrevo.

Tenho muito medo, quase medonho, de não escrever e também virar um riacho.

Que Mãe me ensinou água em peneira, fulorzinha no pote, mas num me ensinou a digerir as tempestades.

Guardo não. Nenhum rancor de meu Pai.

Quando fico com muita sede, sinhora, dou dimão com a saudade e vou lá no riacho, lugar bunito e de frescor, onde Mãe vive dibem com os peixes.

Meu irimão Kelezin tamém ficou ruim da cabeça e me disse na derradera lua nova que Mãe é a palavra mar bonita da língua portuguesa.

Já eu, fio e desconfio um tanto: penso que Mãe é coisa maior que dinheiro.

Um arbusto maior que a cidade!

Coisa mais grande que palavra!

Maior do que toda a religião!

Mãe é um coisa de Deus!,

Um milagre!

= = = = = = =

Poeta Antônio Souza Capurnan

Se gostar, compartilhe. Sugerimos.

*Inscreva-se no You Tube, no Canal Frei Gilvander Luta pela Terra e por Direitos, no link: https://www.youtube.com/user/fgilvander, acione o sininho, receba as notificações de envio de vídeos e assista a diversos vídeos de luta por direitos sociais.

#FreiGilvander #NaLutaPorDireitos #PalavrasDeFéComFreiGilvander #CoraçãoDaDivisa

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *