Poema “Morte de Soledad Barret”, de por Mario Benedetti

Poema “Morte de Soledad Barret”, de por Mario Benedetti

Narração: Carmem Imaculada de Brito

Poema “Morte de Soledad Barret”, de por Mario Benedetti

(Tradução de Urariano Mota)

Viveste aqui por meses ou por anos

traçaste aqui uma reta de melancolia

que atravessou as vidas e a cidade

Faz dez anos tua adolescência foi notícia

te marcaram as coxas porque não quiseste

gritar viva Hitler nem abaixo Fidel

eram outros tempos e outros esquadrões

porém aquelas tatuagens encheram de assombro

a certo Uruguai que vivia na lua

e claro então não podias saber

que de algum modo eras

a pré-história do íbero

agora metralharam no recife

teus vinte e sete anos

de amor de têmpera e pena clandestina

talvez nunca se saiba como nem por quê

os telegramas dizem que resististe

e não haverá mais jeito que acreditar

porque o certo é que resistias

somente em te colocares à frente

só em mirá-los

só em sorrir

só em cantar cielitos com o rosto para o céu

com tua imagem segura

com teu ar de menina

podias ser modelo

atriz

miss Paraguai

capa de revista

calendário

quem sabe quantas coisas

porém o avô Rafael o velho anarco

te puxava fortemente o sangue

e tu sentias calada esses puxões

Soledad solidão não viveste sozinha

por isso tua vida não se apaga

simplesmente se enche de sinais

Soledad solidão não morreste sozinha

por isso tua morte não se chora

simplesmente a levantamos no ar

desde agora a nostalgia será

um vento fiel que flamejará tua morte

para que assim apareçam exemplares e nítido

as franjas de tua vida

ignoro se estarias

de minissaia ou talvez de jeans

quando a rajada de Pernambuco

acabou completo os teus sonhos

pelo menos não terá sido fácil

cerrar teus grandes olhos claros

teus olhos onde a melhor violência

se permitia razoáveis tréguas

para tornar-se incrível bondade

e ainda que por fim os tenham encerrado

é provável que ainda sigas olhando

Soledad compatriota de três ou quatro povos

o limpo futuro pelo qual vivias

e pelo qual nunca te negaste a morrer.

48 anos sem a poetisa!

Hoje, 8 de janeiro de 2021, completam-se 48 anos de um dos mais brutais crimes políticos cometidos no Brasil. Trata-se do monstruoso assassinato da poetisa e intelectual paraguaia Soledad Barrett Viedma, ela foi cruelmente torturada e morta pela Ditadura Militar aqui mesmo em Pernambuco. Soledad estava grávida de quatro meses, e mesmo assim não foi poupada. Soledad foi encontrada nua, dentro de um barril numa poça de sangue, tendo aos pés o feto de 4 meses, expelido provavelmente durante as sessões de torturas. Este foi um dos mais hediondos crimes cometidos nos anos de regime militar no Brasil.

Antes, de nos posicionar admiráveis e saudosos a elogios a atos de crueldade e tortura, faz-se necessário saber que houve aqui, uma Soledad, e que sua História foi real!

– Que sua memória jamais seja esquecida.

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Edição e Divulgação: Frei Gilvander Moreira, da CPT, das CEBs, do CEBI, do SAB e da assessoria de Movimentos Populares, em Minas Gerais. Acompanhe a luta pela terra e por Direitos também via www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com  www.cebimg.org.br  – www.cptmg.org.brwww.cptminas.blogspot.com.br   

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