Poema “Para ela, que perdeu o filho”, de Abelardo Rodrigues

Poema “Para ela, que perdeu o filho”, de Abelardo Rodrigues

Narração:Carmem Imaculada de Brito

Poema “Para ela, que perdeu o filho”, de Abelardo Rodrigues

Eu não moro no gueto

mas dentro de mim

um gueto se estilhaça

de sangue

tiros drogas álcool e morte.

Por isso eu canto

a dor do outro tão pele de mim.

Eu não moro no gueto

onde a sobrevivência sempre foi

alvo de morte

para eles

Histórias

que ouvimos

num rap

que até o lado rico

da cidade cantarola

Eu não moro no gueto

onde a violência réptil

transpassa nos olhos

policialescos

dos capitães de mato fardados

dizimando jovens que se

aventuram pelo outro lado

do Sonho.

A nossa pele é um gueto

charqueada

eu sei

Masmorra da qual

eu não

renuncio

nem pelo

prazer de não ter

mais dor.

A dor de cantar

a impotência

da mãe ao ver o filho

que morreu pelo desafio de respirar

um outro sol

sem amarras de ódio

e de muros que nos ferem

a vista e a vida humana, nossas.

Mas porque me sinto

ilhado pelo medo de sempre

que passa raivoso com as

viaturas a alvejarem

nossos jovens em seus sonhos

eu combato esse medo

com um poema

mesmo

que não o leia, mãe.

Eu sei que ele não te aliviará

nesta dor maior do que

a dor

do próprio parto, dele.

e que o seu mundo despedaçado

será, agora, um

rezar rezar rezar

até as lágrimas secarem

e outras vierem

salobras

num ódio de impotência a

rondar teu viver.

É isso que nos une:

esse gueto imenso

Atlântica Dor

sem bússola

rondando

nossa alma

sofrida de silêncios

Eu, agora,

mais velho,

entendo os nossos antigos

poetas que bateavam

palavras de apagar

nossa dor

enquanto sobreviviam

nesse mar

imorredouro

de angústias

nesse muro que nos detém

à mercê de um tempo

que continua nosso inimigo. 

Eu moro num

gueto qualquer

deste país varonil:

O meu é

uma estrada longa

de desafios e mortos

que buscam a paz

além

dos cemitérios

e bondades coloniais.

Meu gueto:

minha alma

incrustada nas palavras

de ordem da minha poesiaminha forma dolorosa

de abater

o silêncio comparsa

que nos rodeia.

Abelardo Rodrigues (Memória da noite revisitada & outros poemas, p. 96.)

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Edição e Divulgação: Frei Gilvander Moreira, da CPT, das CEBs, do CEBI, do SAB e da assessoria de Movimentos Populares, em Minas Gerais. Edição: Nádia de Oliveira, colaboradora da CPT/MG. Acompanhe a luta pela terra e por Direitos também via www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com  www.cebimg.org.br  – www.cptmg.org.br  – www.gilvander.org.br  – www.cptminas.blogspot.com.br  – www.freigilvander.blogspot.com.br  

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