“O choro pode durar uma noite…!” (Sl 30,6): Temos o direito de chorar nossos mortos? Por Frei Rivaldave

O choro pode durar uma noite…!” (Sl 30,6): Temos o direito de chorar nossos mortos? Por Frei Rivaldave Paz Torquato, O. Carm.

 Conhecidas são as frases: “o choro é expressão de fraqueza”, “o choro é a arma dos fracos”. Uma variante um tanto machista diz: “homem que é homem não chora”. Mais grave que isso, porém, é o desdenho, o desprezo, o desrespeito pelo choro de milhares de enlutados que choram seus mortos a partir de setores do alto escalão do governo e sequazes. Grande parte da população está relegada ao abandono “como ovelhas sem pastor” (Ez 34,1-10; Mt 9,36; Mc 6,34). A dor e o luto alheios já não sensibilizam mais. É a lei da indiferença. A covid-19 mata e a insensibilidade também. Tem-se a impressão que o choro da população gera prazer e gozo em muitos políticos. É o cúmulo do sadismo. Embora chamá-los de sádicos e cínicos soa-lhes um elogio. É uma parte da humanidade que vai se “animalizando” sem perceber. Algo que, certamente, faz até mesmo o Cristo chorar (cf. Lc 19,41-42). Um “genocídio” está em curso enquanto muitas autoridades (políticas) subordinam o luto e a dor da nação aos privados (e não raro escusos) interesses políticos e econômicos. São pastores que apascentam a si mesmos (Ez 34,2.10) e sem escrúpulos. Como diz o dito: “Enquanto Roma pega fogo, Nero toca flauta!” Obviamente que o governo não tem que ter respostas mágicas a um problema que nem mesmo a ciência ainda encontrou solução. Trata-se do sarcasmo, que para além de qualquer orientação partidária, de qualquer polarização capitalista ou comunista, fere ainda mais as vítimas. Este quadro é a miséria humana despindo suas últimas peças de roupa…! Nesse ínterim, boa parte da população desolada continua chorando sem ter quem a console. 

O choro é um fenômeno físico-biológico. O corpo e, mais exatamente, os olhos derramam lágrimas. Mas chorar é também o externalizar de emoções, de estados da alma, dos sentimentos, portanto, algo psicológico. É ainda um fenômeno humano e, portanto, é um dado antropológico: é um fato que o ser humano chora. Seria também teológico (ou bíblico)?

Chorei muitas vezes na vida. Chorei quando levei umas boas palmadas de minha mãe, mas o choro profundo e amargo foi quando ela morreu sem ter a possibilidade de me despedir e estar presente no seu sepultamento. Embora eu tenha chorado muitas vezes e saiba chorar, não sou um expert em choro. Ouvi, porém, Dom Joel Portella Amado, Secretário-geral da CNBB, dizer numa live: “A morte passou não apenas a ser vista, mas ela passou a incomodar, a apavorar, sem o direito de chorar os mortos e cauterizar as feridas através dos ritos”.[1] O chorar como expressão do luto, como forma de trabalhar a perda dos queridos e aliviar a dor, como parte do ritual das Exéquias e, mais ainda, como direito. O choro é catártico, vem do e vai ao âmago, tem força curativa, é parte dos ritos de separação e de entrega dos/as nossos/as queridos/as que partem. Precisamos disso. Ora, esta realidade tão humana teria passado despercebida à Bíblia?

Por ocasião da morte da matriarca Sara o hagiógrafo registra: “Abraão veio cumprir o luto por Sara e chorá-la” (Gn 23,2). O patriarca Jacó crê na notícia da morte do filho José (Gn 37,31-35) e outra vez o hagiógrafo não deixa escapar um detalhe: “e seu pai o chorou” (v. 35b). Mais tarde, morre Jacó (Gn 49,33), José chora sua morte (Gn 50,1). Da mesma forma ocorre na morte do irmão de Moisés: “Toda a comunidade viu que Aarão havia expirado e toda a casa de Israel chorou Aarão durante trinta dias” (Nm 20,29). Na morte do grande líder, outra vez o hagiógrafo nota: “Os israelitas choraram Moisés nas estepes de Moab durante trinta dias, até o término do pranto em luto por Moisés” (Dt 34,8). Quando morre Samuel, “todo o Israel se reuniu e guardou luto” (I Sm 25,1; cf. 28,3). Chora-se a morte de Saul e seu filho Jonatas (II Sm 1,12). Nesta ocasião Davi compôs uma elegia fúnebre (vv. 17-27). O rei e o povo choram e lamentam a morte de Abner (II Sm 3,30-34). Em II Sm 13,36-37 os filhos do rei choram a morte de Amnon e o rei guarda luto por seu filho. Davi chora a morte do filho Absalão (II Sm 19,1-3a). Um profeta pranteia e sepulta um homem de Deus (I Rs 13,29-30). Todo Israel pranteia a morte de Abias, filho do rei Jeroboão (I Rs 14,18). Todo o Judá e Jerusalém pranteiam a morte do rei Josias (II Cr 35,24-25). Os irmãos choram a morte de Judas Macabeu e todo Israel a lamenta e guarda luto (I Mc 9,19-21). Raquel chora seus filhos (Jr 31,15; Mt 2,18). Jerusalém, por ocasião do exílio, como viúva (Lm 1,1) chora o quadro de morte e ruína deixado pelos babilônicos (Lm 1,2.16; 3,48-51). Jeremias conclui o lamento: “Ah, se a minha cabeça fosse uma fonte de água e os meus olhos um manancial de lágrimas! Eu choraria noite e dia pelos mortos do meu povo” (Jr 8,23). O profeta vincula o lamento e o choro como parte do luto, do acompanhar os mortos (Jr 16,4.7; 25,33).

Também no Novo Testamento os casos continuam: na morte da filha de Jairo, muitos choram (Mc 5,38-39; Lc 8,52). Maria chora a morte do irmão Lázaro (Jo 11,33). A viúva de Naim chora o seu filho a caminho da sepultura (Lc 7,13). Chora-se a morte de Tabita (At 9,39). Madalena chora Jesus (Jo 20,11.13.15) e seus amigos também (Mc 16,10). Estas ocorrências encontram seu auge, sem dúvida, na postura de Jesus por ocasião da morte de Lázaro: “Quando Jesus a viu chorar e também os judeus que a acompanhavam, comoveu-se interiormente e ficou conturbado. (…) E Jesus chorou” (Jo 11,33.35).

Estes exemplos bastam para mostrar que chorar os mortos na Bíblia é, portanto, um fato e não raro ganha proporções locais e nacionais. Expressa a comoção da nação. Jesus define os que choram como “Bem-aventurados” (Mt 5,4). O sofrimento, a dor pode ser uma ocasião que aproxima o ser humano de Deus. Para muitos, porém, é apenas uma ocasião de rebelião, de revolta contra ele. O choro e a possibilidade de lamentar, no entanto, conservam o vínculo com aquele que (se fere) cura a ferida (cf. Dt 32,39; Jó 5,18; Sl 147,3; Os 6,1). Todavia, a Bíblia não deixa escapar um detalhe de extrema relevância. Quando morre Jacó, os egípcios fazem o lamento e o luto com José (Gn 50,9-11). Quando Efraim chora a morte do filho, “seus irmãos vieram consolá-lo” (I Cr 7,22). Não o deixam sozinho em sua dor. Quando Lázaro morre deixando enlutadas as suas irmãs, os vizinhos as consolam (Jo 11,19.31). Paulo transforma esta postura do estar junto ou estar com o enlutado num grande imperativo pastoral: “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12,15). É o princípio da empatia paulina e, nele, o princípio do compadecer-se, isto é, padecer com o enlutado. É fazer-se livre e gratuitamente um Cireneu (cf. Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26)! Ceder o ombro para que o outro chore sua dor, seu luto.

Nas palavras de Qohelet (Eclesiastes): “Há tempo de chorar e tempo de rir; tempo de gemer e tempo de bailar” (Ecle 3,4).[2] Estamos na estação do choro, mas ninguém precisa chorar sozinho. Chorar é um direito humano, se não estiver na Constituição brasileira, está na constituição humana, isto é, é constitutivo do ser humano, está inscrito na nossa natureza. Assim, se a dor chegar e persistir não tenha receio de deixar verter as suas lágrimas. Chorar é também um dever que emerge do espírito de solidariedade, da compaixão. É direito do enlutado chorar seus mortos e é dever nosso não deixá-lo só na sua dor. Jesus não fica apenas no choro, a sua comoção o move a reverter o quadro, despertando Lázaro (Jo 11,43-44) e, cheio de compaixão, desperta o filho da viúva de Naim (Lc 7,13-15) ou a filha de Jairo (Mc 5,41-42). Estes fatos mostram que ele, de fato, veio “para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte” (Lc 1,79). Sua postura nos ensina assim a romper com a indiferença, pois ela fere mais que a morte. Um discípulo autêntico de Jesus jamais será indiferente à dor alheia. Pode-se lavar as próprias mãos. É o que fez Pilatos (Mt 27,24).[3] No entanto, o Cristo lavou os pés alheios (Jo 13,1-17). Tudo é lavar. Neste caso, porém, o objeto lavado e a pertença do mesmo definem em qual sequela estamos. Posso tocar flauta, mas posso oferecer o ombro a quem chora, enxugar suas lágrimas ou chorar junto. Toca a cada cristão e à Igreja, portanto, a criatividade de encontrar uma forma, sobretudo nesta pandemia em que os familiares muitas vezes não têm a possibilidade nem de ver seu ente querido uma última vez e nem de enterrá-lo, de ajudar os enlutados a chorar seus mortos. Eis a pastoral e a liturgia do consolo. 

A morte faz parte da vida. Mas não fomos educados para isso. Nossa educação tem aí uma lacuna, a morte nos é estranha até a hora que ela chega. Irrompe a dor e o choro. Então emerge logo em nós a pergunta: “como consolar e o que dizer nestas horas?”. Não é questão de receitas ou de fórmulas, é antes de tudo uma questão do estar junto, sofrer com quem sofre. Esteja calado, mas esteja lá. Todavia, esteja lá sabendo que a morte não é o fim. Ajuda a atitude de Ester que se dirige a Deus dizendo: “Ouve minha oração… muda nosso luto em alegria” (Est 4,17h, adição grega). Deus ouviu e o evento se tornou uma festa (Purim), cuja base é: “a aflição deu lugar a alegria e o luto às festividades” (Est 9,22). A alegria e o luto estão nas mãos de Deus, Senhor da vida e da morte (cf. I Sm 2,6; Dt 32,39). Ele pode transformar nossas festas em luto (Am 8,10), mas pode igualmente transformar o luto em dança (Sl 30,12a; Jr 31,13), o choro em alegria (Jo 16,20). Ele enxugará toda lágrima (Ap 21,4; cf. Is 25,8). Os que choram hão de rir (Lc 6,21b). Nele e com ele a dor da morte pode se reverter em esperança de vida. Os dias de luto cessarão (Is 60,20). A covid-19 vai passar e a vida seguirá seu caminho. Então os que “semearam entre lágrimas, cantando hão de ceifar” (Sl 126,5). Não podemos encarar a vida como se ele fosse uma única estação. O outono abre o caminho que leva à primavera. Completando o verso inicial: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30,6).

Rivaldave Paz Torquato, O. Carm., é professor titular do Departamento de Teologia da FAJE, em Belo Horizonte, MG.

30/7/2020

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[1] Cf. Live das Jornadas de Teologia Pastoral [EP1], dia 26/06/2020 – CNBB/PUC-Rio:

<https://www.youtube.com/watch?v=mCDMUkiE2fE&feature=youtu.be> acessado em 04/07/2020, cursivo nosso.

[2] Qohelet não conhece ainda a vida futura ou pelo menos não a verbaliza. Para ele a morte é o fim de todo homem, mas ela faz o vivo refletir (Ecle 7,2) e por isso: “o coração dos sábios está na casa em luto, o coração dos insensatos está na casa em festa” (v. 4). Mesmo no nível meramente humano é sensato e bom também para quem se faz solidário na morte e no luto alheio.

[3] “Lavar as mãos” é, na verdade, expressão de inocência (cf. Dt 21,6-7; Sl 26,6; 73,13). Na mentalidade comum, porém, o gesto tornou-se expressão de omissão e indiferença de quem podia fazer algo para livrar Jesus da morte e não o fez, ou seja, uma forma de dizer: “não tenho nada com isso!”.

Fonte: https://www.faculdadejesuita.edu.br/artigo/temos-o-direito-de-chorar-nossos-mortos–28072020-122351

One comment

  1. Muito bom e profundo a exposição do padre Gilvander . Grandes teólogos são formados no seio da Comunidade Jesuíta. Parabéns! Saudades da FAGE! Fiz o curso de Teologia Pastora de 2010 a 2013. Só tenho a agradecer a todos os professores que com carinho e desprendimento se dispuseram a a nos ensinar. Obrigada FAGE!

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