{"id":10,"date":"2010-10-05T20:31:16","date_gmt":"2010-10-05T23:31:16","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=10"},"modified":"2010-10-05T20:31:16","modified_gmt":"2010-10-05T23:31:16","slug":"frei-carlos-mesters","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/frei-carlos-mesters\/","title":{"rendered":"Frei Carlos Mesters fez uma longa entrevista com o Ap\u00f3stolo Paulo"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><strong>Frei Carlos Mesters fez uma longa  entrevista com o Ap\u00f3stolo Paulo<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Antes da entrevista Frei Mesters faz uma introdu\u00e7\u00e3o. Diz  ele:<\/strong><strong><br \/><\/strong><br \/> O  objetivo deste subs\u00eddio \u00e9 abrir uma porta de entrada para a vida do ap\u00f3stolo  Paulo e, assim, oferecer uma chave de leitura para as cartas que ele  escreveu.<\/p>\n<p>\u00c9 uma  porta em forma de entrevista que procura fornecer a ficha completa do ap\u00f3stolo.  Serve como exerc\u00edcio. Formulamos uma s\u00e9rie de 40 perguntas e procuramos as  respostas na pr\u00f3pria B\u00edblia e nas informa\u00e7\u00f5es que temos do contexto daquele  tempo, tanto judaico como helenista-romano.<\/p>\n<p>As  perguntas que fizemos revelam apenas alguns aspectos da vida de Paulo. Outras  perguntas poder\u00e3o revelar outros aspectos da sua vida e da vida das comunidades  daquele tempo.<\/p>\n<p>  <!--more-->   <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As  respostas s\u00e3o dadas na terceira pessoa e n\u00e3o na primeira pessoa de &#8220;Eu,  Paulo&#8221;, como se esperaria numa entrevista. \u00c9 por dois motivos: 1. N\u00e3o tive  coragem; 2. Respondendo na primeira pessoa, fica mais dif\u00edcil relativizar as  conclus\u00f5es ainda incertas da pesquisa hist\u00f3rica em torno da vida de Paulo. Pois  nem tudo \u00e9 certo e claro. H\u00e1 v\u00e1rios pontos obscuros que n\u00e3o passam de  hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Existe  uma discuss\u00e3o entre os exegetas sobre a autenticidade de v\u00e1rias cartas que a  B\u00edblia atribui ao ap\u00f3stolo Paulo. Elas n\u00e3o seriam de Paulo, mas de um disc\u00edpulo  de Paulo. Para a finalidade desta breve entrevista achamos n\u00e3o ser necess\u00e1rio  discutir esta quest\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Tomamos  as cartas da maneira como aparecem na B\u00edblia. Um estudo mais aprofundado, por\u00e9m,  n\u00e3o poder\u00e1 ignorar a quest\u00e3o da autenticidade. A d\u00favida se alguma carta \u00e9 ou n\u00e3o  \u00e9 de Paulo n\u00e3o diminui em nada o seu valor como palavra inspirada de  Deus.<\/p>\n<p>A  entrevista imagin\u00e1ria \u00e9 feita depois da primeira pris\u00e3o de Paulo em Roma, pouco  antes da sua morte, quando ele estava com mais ou menos 63 anos de  idade.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma entrevista com o Ap\u00f3stolo Paulo <\/strong><\/p>\n<p><strong>I  Parte<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>1. Qual \u00e9 o seu nome? <\/strong><\/p>\n<p>O  primeiro nome \u00e9 Sha\u00fal ou Saulo (At 7,58), o que significa, &#8220;implorado&#8221;,  &#8220;desejado&#8221;. Naquele tempo, al\u00e9m do primeiro nome em hebraico ou aramaico, era  costume ter um segundo nome latinizado ou helenista. O segundo nome era Paulo  (At 13,9). \u00c9 este o nome que ele prefere e usa em todas as suas cartas. Outros  exemplos de nome duplo: Jo\u00e3o Marcos (At 12,12; 15,37), Jos\u00e9 Barsabas Justo (At  1,23), Sime\u00e3o Niger (At 13,1), Tabita Dorcas (At 9,36).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>2. Quando voc\u00ea nasceu?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  deve ter nascido em torno do ano 5 da nossa era. Pois, quando escreveu a carta  para o amigo Filemon, ele j\u00e1 se considerava &#8220;velho&#8221; (Fm 9). Velho, conforme os  padr\u00f5es daquele tempo, era a pessoa que tinha al\u00e9m dos 55 anos de idade. A carta  para Filemon foi escrita quando Paulo estava na pris\u00e3o (Fm 9), provavelmente na  primeira pris\u00e3o romana que durou dois anos, de 58 at\u00e9 60. Deduzindo os 55 anos  de 60, se obt\u00e9m o ano 5. Como se v\u00ea, o c\u00e1lculo da idade e da cronologia de Paulo  depende de muitas conjeturas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>3. Voc\u00ea nasceu aonde?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  nasceu em Tarso na Cil\u00edcia da \u00c1sia Menor (At 9,11; 21,39; 22,3; cf. 9,30;  11,25). Tarso ficava a uns quinze quil\u00f4metros do Mar Mediterr\u00e2neo, perto da  embocadura do Rio Cidno que, pouco antes de entrar no mar, formava um grande  lago. Tarso era uma cidade enorme. Conforme os c\u00e1lculos feitos por alguns  historiadores, tinha cerca de 300 mil habitantes. Ela possu\u00eda um porto muito  ativo, de grande movimento. A estrada romana que fazia a liga\u00e7\u00e3o entre o Oriente  e o Ocidente passava por l\u00e1. Tarso era tamb\u00e9m um importante centro de cultura.  Foi ainda em Tarso que o imperador Marco Ant\u00f4nio viu pela primeira vez a  Cle\u00f3patra ( <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"38 a\">38 a<\/st1:metricconverter> .C.), fato que  mudou a hist\u00f3ria do imp\u00e9rio romano. Ao sul, a cidade se abria para o mar. Para o  norte, ela se espremia ao p\u00e9 da serra, chamada Taurus, que subia at\u00e9 tr\u00eas mil  metros de altura.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>4. Sendo judeu, como \u00e9 que voc\u00ea foi nascer numa cidade  helenista? A sua fam\u00edlia \u00e9 de l\u00e1 ou migrou para l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o  Jer\u00f4nimo (s\u00e9c. IV) conservou uma tradi\u00e7\u00e3o antiga conforme a qual Paulo teria  nascido em Giscala, na Galil\u00e9ia. Esta tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser verdadeira, pois  contradiz a afirma\u00e7\u00e3o de Lucas nos Atos dos Ap\u00f3stolos, onde Paulo diz: &#8220;Nasci  em Tarso&#8221; (At 22,3). Mas ela pode ter um fundo de verdade. \u00c9 prov\u00e1vel que a  fam\u00edlia de Paulo tenha a sua origem na Galil\u00e9ia e tenha migrado de l\u00e1 para Tarso  bem antes do nascimento de Paulo. Naquele tempo, a migra\u00e7\u00e3o de Judeus da  Palestina para as cidades costeiras do Mar Mediterr\u00e2neo era muito comum, desde o  quinto s\u00e9culo antes de Cristo. Em todas elas havia comunidades judaicas bem  organizadas que, juntas, formavam a assim chamada di\u00e1spora. Havia uma  comunica\u00e7\u00e3o muito intensa entre as comunidades da di\u00e1spora e a cidade de  Jerusal\u00e9m que era o centro espiritual de todos os judeus.<\/p>\n<p>Assim se  entende como Paulo, nascido em Tarso, foi criado em Jerusal\u00e9m (At 22,3; 26,4-5)  e como ele tinha uma irm\u00e3 casada que morava em Jerusal\u00e9m (At 23,16). Ele mesmo  diz: &#8220;O que foi minha vida desde minha juventude e como desde o in\u00edcio vivi no  meio da minha na\u00e7\u00e3o, em Jerusal\u00e9m mesmo, sabem-no todos os judeus&#8221; (At  26,4).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5. Quais os estudos que voc\u00ea fez, aonde e com  quem?<\/strong><\/p>\n<p>Conforme  os costumes judeus da \u00e9poca, Paulo deve ter recebido a sua forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica como  judeu, primeiro, na casa dos pais e, em seguida, na sinagoga local de Tarso e na  escola ligada \u00e0 sinagoga. A forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica comum dos judeus compreendia:  aprender a ler e escrever; o estudo da lei e da hist\u00f3ria povo&#8221;; a transmiss\u00e3o  da sabedoria da vida e das tradi\u00e7\u00f5es religiosas; aprendizagem das ora\u00e7\u00f5es. O  m\u00e9todo era: pergunta e resposta; repetir e decorar; insist\u00eancia na disciplina e  na conviv\u00eancia. Al\u00e9m disso, ainda em Tarso, ele deve ter aprendido a cultura  grega que ele conhecia e usava (cf. At 17,28).Al\u00e9m desta forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, Paulo  recebeu uma forma\u00e7\u00e3o superior <st1:personname productid=\"em Jerusal\uffe9m. Desde\">em Jerusal\u00e9m. Desde<\/st1:personname> a sua  juventude, estudou aos p\u00e9s de Gamaliel, neto e disc\u00edpulo do c\u00e9lebre doutor  Hillel (At 22,3). Ele mesmo confessa que foi um aluno aplicado e esfor\u00e7ado (Fm  3,6).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>6. Voc\u00ea se formou como rabino, doutor da lei? <\/strong><\/p>\n<p>Quais os  cursos?Naquele tempo, n\u00e3o havia cursos como hoje. Havia os grandes mestres que  reuniam ao seu redor um grupo de disc\u00edpulos. Na \u00e9poca de Paulo, isto \u00e9, no  primeiro s\u00e9culo, ainda n\u00e3o havia uma gradua\u00e7\u00e3o oficial para algu\u00e9m poder usar o  t\u00edtulo de rabino ou doutor da lei. Isto s\u00f3 aconteceu a partir da reuni\u00e3o de  Yabne, realizada em torno do ano 90 d.C. Naquela assembl\u00e9ia, os rabinos da linha  dos fariseus estabeleceram as condi\u00e7\u00f5es para algu\u00e9m poder ser admitido e  reconhecido como rabino. Paulo nunca usou o t\u00edtulo de Rabino, e nunca foi  chamado como tal. Por isso, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que ele tenha estudado para se  formar como rabino ou doutor da lei. No entanto, o conhecimento de que ele d\u00e1  provas nas suas cartas, mostra que, mesmo n\u00e3o sendo rabino oficial, possu\u00eda uma  s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, igual \u00e0 dos rabinos.<\/p>\n<p>O estudo  superior abrangia as seguintes mat\u00e9rias: 1. Estudo da Lei, a Tora, atrav\u00e9s de  leituras freq\u00fcentes, at\u00e9 conhec\u00ea-la de cor. 2. Estudo da Halak\u00e1, isto \u00e9, da  Tradi\u00e7\u00e3o dos Antigos. A Halak\u00e1 procurava regulamentar a vida do povo de acordo  com a Lei. Era a assim chamada Tradi\u00e7\u00e3o Oral que tinha tanto valor e autoridade  quanto o texto escrito da Lei. Paulo estudou a Halak\u00e1 dos fariseus e n\u00e3o a dos  saduceus (cf. Fm 3,5; At 23,6-8). 3. Estudo da Hagad\u00e1, isto \u00e9, das hist\u00f3rias do  passado, descritas na B\u00edblia. A maneira que se usava para lembrar e contar as  hist\u00f3rias do passado capacitava o aluno a ler os fatos do seu tempo \u00e0 luz da f\u00e9.  4. As regras do Midrash, isto \u00e9, da interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. Midrash significa  busca, do verbo darash &#8211; buscar. Indica a busca do sentido que a Sagrada  Escritura tem para a vida do povo e das pessoas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>7. Quais as suas leituras preferidas?<\/strong><\/p>\n<p>Qual o  significado que a B\u00edblia tem para voc\u00ea?A leitura preferida de Paulo era, sem  d\u00favida, a &#8220;Sagrada Escritura&#8221;, aprendida &#8220;desde crian\u00e7a&#8221;, conforme o costume  do povo judeu da \u00e9poca (2Tm 3,15). Da Sagrada Escritura ele tirava &#8220;a sabedoria  que conduz \u00e0 salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 <st1:personname productid=\"em Jesus Cristo'\">em Jesus Cristo&#8217;<\/st1:personname> &#8216; (2Tm 3,15).  Tirava &#8220;ensinamento&#8221;, &#8220;perseveran\u00e7a e consola\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;esperan\u00e7a&#8221; (Rm 15,4).  Ele se considerava destinat\u00e1rio daqueles escritos antigos: &#8220;Foram escritos para  a nossa instru\u00e7\u00e3o, n\u00f3s que tocamos o fim dos tempos&#8221; (1Cor 10,11). Ele  acreditava que o Esp\u00edrito de Deus agia sobre o povo atrav\u00e9s da Escritura  Sagrada: &#8220;Toda Escritura \u00e9 inspirada por Deus e \u00fatil para instruir, para  refutar, para corrigir, para educar na justi\u00e7a, a fim de que o homem de Deus  seja perfeito, qualificado para toda boa obra&#8221; (2Tm  3,16-17).<\/p>\n<p>Naquele  tempo, a Sagrada Escritura compreendia s\u00f3 os livros que hoje pertencem ao Antigo  Testamento, pois o Novo Testamento ainda n\u00e3o existia como escrito. Por ora,  existia s\u00f3 como comunidade nova, que comunicava vida nova e olhar novo. O  escrito do Novo Testamento estava sendo feito.<\/p>\n<p>A  express\u00e3o Antigo Testamento vem do pr\u00f3prio Paulo (2Cor 3,14). Era uma maneira  nova de indicar a B\u00edblia, que deve ter desagradado aos irm\u00e3os judeus. Para  Paulo, o Antigo se tornava Novo atrav\u00e9s da vida nova e do olhar novo, nascidos  da convers\u00e3o para Cristo na comunidade (cf. 2Cor 3,16). Paulo lia e interpretava  os livros do Antigo Testamento a partir deste novo olhar. N\u00e3o parava na &#8220;letra  que mata&#8221;, mas buscava o &#8220;Esp\u00edrito que comunica vida&#8221; (2Cor 3,6). Procurava  descobrir (darash &#8211; midrash) como toda a hist\u00f3ria antiga estava orientada por  Deus para encontrar em Cristo e na comunidade o seu verdadeiro e definitivo  sentido: &#8220;Todas as promessas de Deus encontram nele o seu SIM!&#8221; (2Cor 1,20)  &#8220;Tudo foi escrito para n\u00f3s que tocamos o fim dos tempos&#8221; (1Cor 10,11).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>8. Voc\u00ea tem alguma obra escrita?<\/strong><\/p>\n<p>Qual?Paulo n\u00e3o escreveu nenhum livro, nenhum tratado,  nenhuma &#8220;ep\u00edstola&#8221; (entendida como obra liter\u00e1ria em forma de carta, dirigida  a um p\u00fablico an\u00f4nimo), mas escreveu algumas cartas para as comunidades e para os  companheiros de caminhada. As cartas tratam de assuntos e problemas bem  concretos da vida das comunidades e das pessoas.<\/p>\n<p>No  geral, Paulo segue o esquena normal das cartas daquela \u00e9poca: apresenta\u00e7\u00e3o do  autor e dos destinat\u00e1rios, sauda\u00e7\u00e3o inicial, etc. Geralmente ele ditava as  cartas a um secret\u00e1rio (cf. Rm 16,22) e, no fim, as assinava de pr\u00f3prio punho  (2Ts 3,17; Gl 6,11; 1Cor 16,21; Cl 4,18; Fm 19). Parece que s\u00f3 a carta para  Filemon foi escrita inteiramente pelo pr\u00f3prio Paulo, sem a ajuda de um  secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na  maioria das vezes, Paulo n\u00e3o escrevia sozinho, mas junto com os companheiros de  miss\u00e3o que aparecem ao lado dele na sauda\u00e7\u00e3o inicial ou nas lembran\u00e7as finais  das cartas (Rm 16,21-23: 1Cor 1,1; 16,19; 2Cor 1,1; Gl 1,2; Fm 1,1; 4,21; Cl  1,1; 4,10-13; 2Ts 1,1; 3Ts 1,1; 2Tm 4,21; Fm 1 e 23).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>9. Al\u00e9m dos estudos que fez, voc\u00ea aprendeu alguma  profiss\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Qual e  por qu\u00ea?Paulo tinha a profiss\u00e3o de fabricante de tendas e de outros objetos de  couro (At 18,3). Alguns exegetas acham que ele tenha aprendido esta profiss\u00e3o  durante a sua estadia em Jerusal\u00e9m, enquanto estudava aos p\u00e9s de Gamaliel. Pois,  assim dizem, o ideal do bom rabino era ter uma profiss\u00e3o e viver do pr\u00f3prio  trabalho. Neste caso, a profiss\u00e3o e o trabalho teriam um papel apenas secund\u00e1rio  na vida de Paulo. O importante seria o fato de ele ser rabino ou doutor. Mas,  como j\u00e1 vimos, ao que tudo indica, Paulo n\u00e3o estudou para ser rabino ou doutor.  Nem \u00e9 certo que este ideal de rabino j\u00e1 existisse assim no primeiro s\u00e9culo. E  como ainda veremos, a profiss\u00e3o e o trabalho tinham um papel n\u00e3o secund\u00e1rio, mas  central na vida de Paulo.<\/p>\n<p>O mais  prov\u00e1vel \u00e9 que ele, como todo menino daquele tempo, tanto do mundo grego como do  mundo judeu, tenha aprendido a profiss\u00e3o do pr\u00f3prio pai, isto \u00e9, l\u00e1 mesmo  <st1:personname productid=\"em Tarso. A\">em Tarso. A<\/st1:personname> profiss\u00e3o era uma caracter\u00edstica da fam\u00edlia. Passava de pai para filho. O  aprendizado na oficina do pai come\u00e7ava aos 13 anos de idade e durava dois ou  tr\u00eas anos. O menino tinha que trabalhar de sol a sol, obedecendo a uma  disciplina muito r\u00edgida. Ele aprendia a profiss\u00e3o do pai ou para ter um meio de  vida ou para se capacitar na condu\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios como sucessor do pai. Isto  dependia do tamanho da fortuna e do neg\u00f3cio do pai.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>10. Seu pai era rico?<\/strong><\/p>\n<p>Tinha  grandes neg\u00f3cios?Paulo fazia quest\u00e3o de dizer que era &#8220;Cidad\u00e3o de Tarso&#8221; (At  21,39) e &#8220;Cidad\u00e3o de Roma&#8221; (At 16,37; 22,25) e que tinha este direito n\u00e3o  porque o comprou, mas por nascimento (At 22,28). Com outras palavras, recebeu-o  do pai. Isto quer dizer que o pai de Paulo n\u00e3o era pobre. Pelo contr\u00e1rio, era da  elite da cidade, pois chegou a apropriar-se do direito de &#8220;Cidad\u00e3o de Roma&#8221; a  ponto de poder pass\u00e1-lo para os filhos!<\/p>\n<p>Alguns  int\u00e9rpretes acham que o pai de Paulo, sendo fabricante de tendas, tenha  produzido tendas para o ex\u00e9rcito romano que precisava delas para as suas  numerosas expedi\u00e7\u00f5es militares. Assim eles explicam como ele, sendo judeu, possa  ter recebido o t\u00edtulo de &#8220;Cidad\u00e3o de Roma&#8221; como um direito  heredit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Deste  modo, \u00e9 prov\u00e1vel que Paulo tenha aprendido a profiss\u00e3o de fabricante de tendas,  n\u00e3o tanto para ter um meio de sobreviv\u00eancia atrav\u00e9s do trabalho, mas muito mais  para poder suceder o pai na condu\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios. A convers\u00e3o para Cristo,  por\u00e9m modificou todos estes planos!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>II  Parte<\/strong><\/p>\n<p><strong>11. Paulo, de que maneira a convers\u00e3o para Cristo modificou  seus planos?<\/strong><br \/>Como Cidad\u00e3o de  Tarso, Cidad\u00e3o de Roma, aluno de Gamaliel com forma\u00e7\u00e3o superior, criado e  formado muito provavelmente para tomar conta da oficina do pai, Paulo pertencia  \u00e0 elite da sociedade daquele tempo. Tinha diante de si um grande futuro e a  possibilidade real de uma brilhante carreira. Mas a entrada de Cristo na sua  vida modificou tudo isto!<br \/>Ele mesmo diz: &#8220;Por causa dele perdi tudo e tenho  tudo como esterco para poder ganhar a Cristo e ser achado nele!&#8217; (Fil 3,8) &#8220;O  que era lucro, eu o tive como perda, por amor a Cristo!&#8221; (Fil 3,7).<br \/>Perdeu  tudo! Qual o tudo que ele perdeu?Uma parte do tudo que perdeu era o seguinte: a  entrada de Cristo na sua vida o tirou de uma posi\u00e7\u00e3o na sociedade e o colocou em  outra, bem inferior. Paulo mudou de classe. Em vez de empregador, dono de uma  oficina com seus empregados e escravos, acabou sendo ele mesmo um empregado, um  trabalhador assalariado com aspecto de escravo, que mal e mal ganhava o  suficiente para poder sobreviver e que dependia da solidariedade dos amigos para  n\u00e3o morrer de fome (2Cor 11,9; 2Ts 3,8).<br \/>A convers\u00e3o para Cristo era um lado  da medalha. O outro lado era a sua identifica\u00e7\u00e3o cada vez maior com os pobres,  os assalariados, os escravos.<\/p>\n<p><strong>12. Explique-se melhor: depois de  convertido para Cristo, o que foi que voc\u00ea fez da profiss\u00e3o que aprendeu? Chegou  a exerc\u00ea-la? Como arrumava emprego?<\/strong><br \/> A entrada de Cristo na sua vida criou  para Paulo uma situa\u00e7\u00e3o nova e diferente, em que ele foi obrigado a buscar uma  outra maneira de sobreviver. De um lado, como que de repente, Paulo foi cortado  da comunidade judaica, perdeu o c\u00edrculo de amizades que tinha e deve ter perdido  tamb\u00e9m sua clientela no meio dos judeus, pois eles chegaram ao ponto de querer  mat\u00e1-lo (At 9,23). De outro lado, vivendo na nova comunidade dos crist\u00e3os, Paulo  foi enviado para a miss\u00e3o (At 13,2-3) e, durante mais de 14 anos, levou uma vida  de mission\u00e1rio ambulante, sem domic\u00edlio, sem oficina e sem clientela fixa. Como  sobreviver nestas condi\u00e7\u00f5es?<br \/>Como mission\u00e1rio ambulante, havia v\u00e1rias  alternativas de sobreviv\u00eancia, de acordo com o costume dos professores,  fil\u00f3sofos e mission\u00e1rios ambulantes da \u00e9poca: havia alguns destes professores  que impunham um pre\u00e7o pelo ensino que davam; outros, mas bem poucos, viviam de  esmolas que eles pediam nas pra\u00e7as; a maioria, por\u00e9m, se instalava em alguma  casa de fam\u00edlia de gente mais rica, como professor particular dos filhos, e l\u00e1  eles viviam, sem trabalhar com as m\u00e3os, como filhos da casa, dependendo em tudo  da fam\u00edlia e recebendo dela at\u00e9 alguma ajuda em dinheiro.<\/p>\n<p>Ora,  Paulo, por uma quest\u00e3o de princ\u00edpio, n\u00e3o aceitou nenhuma destas tr\u00eas  alternativas: embora reconhecesse aos outros o direito de receber um sal\u00e1rio  (1Cor 9,14-15), ele mesmo fazia quest\u00e3o de n\u00e3o aceitar um sal\u00e1rio pelo ensino  que dava, pois queria anunciar o evangelho de gra\u00e7a (1Cor 9,17-18); n\u00e3o aceitava  esmola nem ajuda para si, a n\u00e3o ser de uma \u00fanica comunidade (Fil 4,15); n\u00e3o  queria depender da comunidade nem ser peso para ela (1Ts 2,9; 2Ts 3,7-9; 2Cor  12,13-14).<\/p>\n<p>Paulo  escolheu uma quarta alternativa: trabalhar com as pr\u00f3prias m\u00e3os (1Cor 4,12). E  neste ponto lhe foi de muito proveito a profiss\u00e3o que aprendeu, mas com uma  grande diferen\u00e7a: aprendeu a profiss\u00e3o como filho de pai influente e rico, e  acabou por exerc\u00ea-la como oper\u00e1rio necessitado, obrigado pelas circunst\u00e2ncias  duras da vida a procurar um emprego nas oficinas perto do mercado das grandes  cidadesC\u00edcero, c\u00e9lebre orador e senador romano, dizia: &#8220;Uma oficina n\u00e3o tem  nada que possa beneficiar um homem livre&#8221;. Por isso, para um homem livre como  Paulo, n\u00e3o era f\u00e1cil conseguir um emprego. Em geral, as grandes oficinas  empregavam s\u00f3 escravos por serem mais baratos. Quando um homem livre procurava  trabalho em alguma oficina, ele fazia algo que o humilhava. Foi o que aconteceu  com Paulo. Ele escreve com certa ironia: &#8220;Ter\u00e1 sido falta minha anunciar-vos  gratuitamente o evangelho, humilhando-me a mim mesmo para vos exaltar?&#8221; (2Cor  11,7). Procurando emprego nestas condi\u00e7\u00f5es, Paulo assumia a condi\u00e7\u00e3o de um  escravo: &#8220;Mesmo sendo livre, fiz-me escravo de todos&#8221; (1Cor  9,19).<\/p>\n<p><strong>13. Por que voc\u00ea insiste tanto no valor do &#8220;trabalho com  as pr\u00f3prias m\u00e3os&#8221;?<\/strong><strong><br \/> <\/strong>Na sociedade helenista, trabalhar com as pr\u00f3prias m\u00e3os era visto como  um trabalho pr\u00f3prio de escravo e impr\u00f3prio para um homem livre. O ideal dos  gregos era uma vida intelectual sem trabalho manual. Da\u00ed que os outros  mission\u00e1rios, fil\u00f3sofos e professores ambulantes, cultivando o ideal da \u00e9poca,  n\u00e3o trabalhavam com as m\u00e3os e eram sustentados pela comunidade. A comunidade,  por sua vez, os acolhia de bom grado, pois via neles um s\u00edmbolo do ideal que  todos queriam atingir. Embora alimentado por todos e para todos, este ideal era  vi\u00e1vel apenas para uma pequena elite.<\/p>\n<p>Paulo  rompe com o ideal cultivado pela sociedade e pela cultura helenista. Pois ele  insiste em querer sustentar-se atrav\u00e9s do trabalho manual: \u201cVoc\u00eas sabem como  devem imitar-nos: n\u00f3s n\u00e3o ficamos sem fazer nada quando estivemos entre voc\u00eas,  nem pedimos a ningu\u00e9m o p\u00e3o que comemos; pelo contr\u00e1rio, trabalhamos com fadiga  e esfor\u00e7o, noite e dia, para n\u00e3o sermos um peso para nenhum de voc\u00eas. N\u00e3o porque  n\u00e3o tiv\u00e9ssemos direito a isso, mas porque n\u00f3s quisemos ser um exemplo para voc\u00eas  imitarem&#8221; (2Ts 3,7-10).<\/p>\n<p>Apresentando-se ao povo como um mission\u00e1rio que vive do  trabalho de suas pr\u00f3prias m\u00e3os, ele faz com que o evangelho entre por uma porta  diferente, provoque uma ruptura na vida do povo e lhe apresente um novo ideal de  vida. Ele diz: &#8220;Empenhem a sua honra em levar uma vida tranq\u00fcila, ocupando-se  das suas pr\u00f3prias coisas e trabalhando com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Assim levar\u00e3o uma  vida honrada aos olhos dos de fora e n\u00e3o passar\u00e3o mais necessidade de coisa  alguma&#8221; (1Ts 4,11-12). Como entender o alcance deste  texto?<\/p>\n<p>Apresentando-se ao povo como um mission\u00e1rio que vive do  trabalho de suas pr\u00f3prias m\u00e3os, ele faz com que o evangelho entre por uma porta  diferente, provoque uma ruptura na vida do povo e lhe apresente um novo ideal de  vida. Ele diz: &#8220;Empenhem a sua honra em levar uma vida tranq\u00fcila, ocupando-se  das suas pr\u00f3prias coisas e trabalhando com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Assim levar\u00e3o uma  vida honrada aos olhos dos de fora e n\u00e3o passar\u00e3o mais necessidade de coisa  alguma&#8221; (1Ts 4,11-12). Como entender o alcance deste  texto?<\/p>\n<p>Paulo  deu o exemplo (1Ts 2,9; 2Ts 3,7-9; At 20,34-35; 1Cor 4,12). Ele era um homem  livre que n\u00e3o precisava trabalhar como um escravo. Como mission\u00e1rio ambulante,  ele podia ser sustentado pela comunidade, e a comunidade o aceitaria de bom  grado. Mas ele recusou este direito (1Cor 9,15). Fez quest\u00e3o de trabalhar com as  pr\u00f3prias m\u00e3os. Deste modo, ajudava os irm\u00e3os pobres a quebrar a ideologia  dominante e a perceber onde estava a fonte da verdadeira honradez. E foi  exatamente neste ponto que Paulo recebeu os maiores ataques dos outros  mission\u00e1rios que n\u00e3o chegavam a entender a sua atitude e que pensavam mais de  acordo com a ideologia dominante (1Cor 9,1-18; 2Cor  11,7-15).<\/p>\n<p>Resumindo: o trabalho ocupa um lugar central na vida de  Paulo. Atrav\u00e9s do trabalho, ele se tornou um exemplo vivo e ajudava as  comunidades a compreender que era precisamente na sua condi\u00e7\u00e3o de trabalhadores  e escravos que estava a base para se poder criar uma situa\u00e7\u00e3o nova em que o povo  j\u00e1 n\u00e3o passasse necessidade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>14. Qual o seu sal\u00e1rio? D\u00e1 para viver? Tem outra fonte de  renda?<\/strong><\/p>\n<p>Ao que  tudo indica, o sal\u00e1rio de Paulo n\u00e3o deve ter sido alto, pois ele tinha que  trabalhar &#8220;dia e noite&#8221; para poder viver sem depender dos outros (1Ts 2,9; 2Ts  3,8). Ele fala de cansa\u00e7o, provocado pelo trabalho manual (1Cor 4,12), e de  &#8220;vig\u00edlias&#8221;, (isto \u00e9, horas-extras) (2Cor 6,5; 11,27). Mas mesmo fazendo  vig\u00edlias, ele passava necessidade (2Cor 11,9). N\u00e3o tinha dinheiro nem para  comprar comida e roupa, pois ele fala de fome e nudez (2Cor 11,27). Vivia como  um &#8220;indigente&#8221; (2Cor 6,10).<\/p>\n<p>Um dos  motivos do sal\u00e1rio insuficiente \u00e9 o fato de Paulo estar sempre viajando e n\u00e3o  ter um domic\u00edlio fixo. Por isso, n\u00e3o conseguia montar uma oficina pr\u00f3pria com  clientela est\u00e1vel, nem criar um nome de bom profissional que pudesse atrair os  compradores de tendas e de outros artigos de couro. Na maioria dos lugares por  onde passou, ele deve ter vivido de algum emprego, conseguido numa das oficinas  que costumavam ficar perto do mercado.<br \/>Em Corinto, teve a sorte de ter  encontrado \u00c1quila e Priscila, em cuja oficina conseguiu um emprego (At 18,3). Em  \u00c9feso, onde passou tr\u00eas anos, ao que parece, n\u00e3o teve tanta sorte, pois de l\u00e1  escrevia aos cor\u00edntios: &#8220;Fatigamo-nos trabalhando com as pr\u00f3prias m\u00e3os&#8221; (1Cor  4,12). Ainda em \u00c9feso, Paulo &#8220;ensinava diariamente na escola de um tal  Tiranos&#8221; (At 19,9). Um texto variante, conservado no assim chamado &#8220;textus  occidentalis&#8221;, diz que o ensinamento di\u00e1rio era feito &#8220;entre a quinta e a  d\u00e9cima hora&#8221;, isto \u00e9, entre 11 da manh\u00e3 e 4 da tarde, ou seja, durante a hora  do almo\u00e7o e do descanso. O resto do tempo, ele tinha que trabalhar na oficina,  desde cedo da manh\u00e3 at\u00e9 tarde da noite (1Ts 2,9; 2Ts 3,8).<\/p>\n<p>Outras  fontes de renda ele n\u00e3o tinha, a n\u00e3o ser uma ajuda que recebia s\u00f3 da comunidade  de Filipos (Fil 4,15; 2Cor 11,8-9). Quando necess\u00e1rio, ele sabia fazer coleta e  pedir dinheiro, n\u00e3o para si, mas para os outros, os pobres de Jerusal\u00e9m.  Realizava, assim, a partilha (1Cor 16,1-4).<\/p>\n<p><strong>15. E o que voc\u00ea fez  com o seu direito de cidad\u00e3o? Como voc\u00ea participa da vida p\u00fablica da sua cidade?  Como exerce os seus direitos?<\/strong><\/p>\n<p>Como  Cidad\u00e3o de Roma, Paulo gozava de alguns privil\u00e9gios: n\u00e3o podia ser flagelado,  n\u00e3o podia ser crucificado, podia apelar para o Supremo Tribunal em Roma, para  C\u00e9sar. De vez em quando, ele recorria a estes privil\u00e9gios: em Filipos, quando  foi preso e flagelado sem forma de processo (At 16,37); em Jerusal\u00e9m, quando o  centuri\u00e3o romano quis flagel\u00e1-lo (At 22,25); em Ce sar\u00e9ia, quando corria perigo  de ser entregue na m\u00e3o dos judeus e por eles ser assassinado (At  25,3.11).<\/p>\n<p>Como  Cidad\u00e3o de Tarso, Paulo fazia parte da elite da cidade. Cidad\u00e3o era todo aquele  que era reconhecido oficialmente como membro da Cidade. S\u00f3 os Cidad\u00e3os de uma  cidade eram considerados povo (d\u00e8mos) daquela cidade, e s\u00f3 os cidad\u00e3os \u00e9 que  podiam participar dasassembl\u00e9ias, onde se tomavam as decis\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o ao  destino da cidade. Este tipo de organiza\u00e7\u00e3o se chamava demo (povo) &#8211; cracia  (governo). Mas por mais que dissessem que era &#8220;governo do povo&#8221;, o povo mesmo  n\u00e3o participava, pois n\u00e3o participavam os escravos e os libertos, nem os assim  chamados &#8220;peregrinos&#8221;, isto \u00e9, moradores, estrangeiros, gente que veio de  fora. Participava s\u00f3 uma pequena elite.<\/p>\n<p>N\u00e3o  temos not\u00edcia da participa\u00e7\u00e3o efetiva e direta de Paulo na vida pol\u00edtica ou  p\u00fablica da sua cidade. Mas o que sabemos \u00e9 que ele participava ativamente na  vida e na organiza\u00e7\u00e3o da comunidade a que pertencia. Por exemplo, antes da  convers\u00e3o, ele chegou a ser delegado oficial do Sin\u00e9drio para Damasco (At  9,1-2). O exegeta J. Murphy O&#8217;Connor acha que Paulo foi membro do Sin\u00e9drio, isto  \u00e9, do Supremo Tribunal da comunidade judaica. Depois da sua convers\u00e3o, Paulo  participava intensamente da vida das comunidades crist\u00e3s a ponto de ser indicado  como respons\u00e1vel pela evangeliza\u00e7\u00e3o entre os pag\u00e3os (Gl  2,7-9).<\/p>\n<p><strong>16. Quais as fun\u00e7\u00f5es e tarefas que voc\u00ea j\u00e1 exerceu na sua  vida?<\/strong><br \/> Sendo homem  de participa\u00e7\u00e3o ativa, Paulo recebeu e exerceu muitas tarefas e fun\u00e7\u00f5es. Sinal  de que era uma pessoa com qualidades de lideran\u00e7a. Percorrendo rapidamente os  Atos dos Ap\u00f3stolos e as cartas, consegui encontrar dez tarefas ou fun\u00e7\u00f5es de que  Paulo foi incumbido.<\/p>\n<p>Uma  leitura mais atenta poder\u00e1 descobrir outras. Eis a lista:<br \/>1. Testemunha  auxiliar no apedrejamento de Est\u00eav\u00e3o (At 7,58; 8,1); 2. Provavelmente, membro do  Sin\u00e9drio, isto \u00e9, do Supremo Tribunal de Jerusal\u00e9m; 3. Emiss\u00e1rio do Sin\u00e9drio  para Damasco em vista da persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os (At 9,2; 22,5; 26,12); 4.  Delegado da comunidade de Antioquia para Jerusal\u00e9m (At 11,30); 5. Delegado da  mesma comunidade de Antioquia para a miss\u00e3o em Chipre e na \u00c1sia Menor (At  13,2-3); 6. Delegado dos crist\u00e3os convertidos do paganismo para o Conc\u00edlio  Ecum\u00eanico de Jerusal\u00e9m (At 15,2); 7. Delegado oficial do Conc\u00edlio junto \u00e0s  comunidades crist\u00e3s do mundo pag\u00e3o (At 15,22.25); 8. Respons\u00e1vel oficial pela  evangeliza\u00e7\u00e3o dos pag\u00e3os (Gl 2,7-9); 9. Organizador e portador da grande coleta,  feita nas comunidades crist\u00e3s do mundo pag\u00e3o em benef\u00edcio dos pobres de  Jerusal\u00e9m, imitando assim o costume judeu dos d\u00edzimos e da liga\u00e7\u00e3o estreita com  a Igreja-M\u00e3e (Gl 2,10; Rm 15,25-28; 2Cor 8-9; 1Cor 16,1-4; At 24,17);  <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"10. A\">10. A<\/st1:metricconverter> tarefa mais  importante: &#8220;Ai de mim!, se eu n\u00e3o anunciar o Evangelho!&#8221; (1Cor  9,16).<\/p>\n<p><strong>17. Voc\u00ea que viajou tanto, quais os pa\u00edses que visitou e  qual o seu domic\u00edlio atual?<\/strong><br \/> Naquele tempo n\u00e3o havia pa\u00edses como hoje. Havia o grande imp\u00e9rio romano  que era como um mosaico enorme, feito de reinos, povos, cidades, tribos. Cada  pedrinha do mosaico mantinha a sua autonomia relativa e suas pr\u00f3prias leis, mas  todas juntas estavam integradas e organizadas dentro dos interesses comuns do  grande imp\u00e9rio, a saber: pagar os impostos e as taxas; n\u00e3o fazer guerras entre  si; fornecer soldados para o ex\u00e9rcito romano; reconhecer a autoridade divina do  imperador.<\/p>\n<p>Por este  imp\u00e9rio imenso Paulo andou, viajando por mar e por terra. Andou pelas estradas  imperiais, a p\u00e9, ao todo mais de 15 mil quil\u00f4metros!Pelo que se sabe, de todas  as \u00e9pocas da antig\u00fcidade, a \u00e9poca <st1:personname productid=\"em que Paulo\">em que Paulo<\/st1:personname> vivia era a mais prop\u00edcia  para viajar. Em <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"63 a\">63 a<\/st1:metricconverter> .C., pouco  antes de invadir a Palestina, o general romano Pompeu tinha derrotado e  eliminado os piratas que tornavam perigosas as viagens pelo Mar Mediterr\u00e2neo. Em  <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"31 a\">31 a<\/st1:metricconverter> .C., ap\u00f3s a  vit\u00f3ria de Octaviano sobre Marco Ant\u00f4nio, tinha come\u00e7ado a Pax Romana que  favorecia a tranq\u00fcilidade nas estradas. Havia estradas boas, consertadas  regularmente e mantidas em bom estado de conserva\u00e7\u00e3o. Cada <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"30 quil?metros\">30  quil\u00f4metros<\/st1:metricconverter> (um dia de viagem), costumava haver uma  hospedaria que oferecia seguran\u00e7a aos viajantes contra os ladr\u00f5es e outros  perigos.<\/p>\n<p>Ora, os  crist\u00e3os souberam utilizar esta rede de estradas para a difus\u00e3o do Evangelho.  Eles viajavam muito entre as v\u00e1rias cidades. Estabeleceu-se uma rede de  comunica\u00e7\u00e3o entre as comunidades. Vale a pena voc\u00ea passar o pente pelos Atos dos  Ap\u00f3stolos e pelas Cartas de Paulo e fazer um levantamento minucioso das viagens  dos primeiros crist\u00e3os: quem viajava; de onde para onde; com que meios; por que  estradas; com que finalidade; etc.<br \/>Paulo nasceu em Tarso na Cil\u00edcia da \u00c1sia  Menor, criou-se em Jerusal\u00e9m na Palestina, foi enviado a Damasco na S\u00edria.  Depois da sua convers\u00e3o andou pela Ar\u00e1bia. Passando por Jerusal\u00e9m, voltou para  Tarso e, alguns anos depois, veio morar na comunidade de Antioquia na S\u00edria. De  l\u00e1 foi enviado para a miss\u00e3o e, junto com os companheiros, andou por muitas  regi\u00f5es, sem parar: Chipre, Panf\u00edlia, Pis\u00eddia, Lica\u00f4nia, Gal\u00e1cia, M\u00edsia,  Maced\u00f4nia, Ac\u00e1ia, Gr\u00e9cia, etc. Passou pela \u00c1sia e entrou para a Europa. Andou de  navio pelo Mar Mediterr\u00e2neo e foi at\u00e9 Malta e Roma. Tinha projeto de viajar at\u00e9  a Espanha.<\/p>\n<p>O  domic\u00edlio natural de Paulo era Tarso. Mas depois que tomou consci\u00eancia da sua  miss\u00e3o, n\u00e3o teve mais domic\u00edlio fixo. Era um peregrino sem repouso. Vivia em  canto nenhum, e se sentia em casa em todo canto (1Cor  4,11).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>18. Como \u00e9 que voc\u00ea faz para se comunicar com tanta gente  difrente? Quantas l\u00ednguas voc\u00ea fala e onde as aprendeu?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  falava o grego (At 21,37), aprendido em Tarso, sua cidade natal, e escrevia  corretamente, como o comprovam as suas cartas. O grego era a l\u00edngua comum  (koin\u00e8) do com\u00e9rcio e do imp\u00e9rio, como o ingl\u00eas hoje <st1:personname productid=\"em dia. Era\">em dia. Era<\/st1:personname> a l\u00edngua do povo das  cidades.<\/p>\n<p>Paulo  falava tamb\u00e9m o hebraico (At 21,40; 26,14), l\u00edngua na qual foi escrita a maior  parte do Antigo Testamento e que se usava quase exclusivamente na celebra\u00e7\u00e3o da  palavra nas sinagogas. Falava ainda o aramaico que era a l\u00edngua falada pelo povo  da Palestina. N\u00e3o se sabe se ele falava tamb\u00e9m o latim dos romanos de  Roma.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>19. Voc\u00ea tem algum problema de comunica\u00e7\u00e3o? Como o  resolve?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  deve ter tido muitos problemas de comunica\u00e7\u00e3o por causa da grande variedade de  l\u00ednguas faladas pelos diferentes povos do imp\u00e9rio romano. Ele falava em grego,  mas nem todos os ouvintes entendiam o grego. Seria como falar em portugu\u00eas aos  \u00edndios do interior de Roraima. Nem todos os \u00edndios entendem o  portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Assim,  na regi\u00e3o dos g\u00e1latas, no centro da \u00c1sia Menor, a l\u00edngua materna do povo era o  dialeto g\u00e1lico, l\u00edngua parecida com o franc\u00eas. Fazia pouco tempo que os g\u00e1latas  tinham migrado da Europa para aquela regi\u00e3o da \u00c1sia Menor. Muitos deles n\u00e3o  entendiam nada do grego de Paulo. Paulo resolvia o problema da falta de  comunica\u00e7\u00e3o com gestos e desenhos. Pois ele lembra na carta: &#8220;Diante de voc\u00eas  foi desenhada a imagem de Jesus crucificado&#8221; (Gl 3,1).<\/p>\n<p>Mas nem  sempre resolvia o problema com tanta facilidade. Certa vez, em Listra na  Lica\u00f4nia da \u00c1sia Menor, depois da cura de um paral\u00edtico por Paulo e Barnab\u00e9, o  povo exclamou: &#8220;Deuses em forma humana vieram at\u00e9 n\u00f3s!&#8221; (At 14,11) O povo  falava em l\u00edngua lica\u00f4nica que Paulo n\u00e3o entendia. Por isso n\u00e3o percebeu que o  povo estava querendo prestar-lhe um culto divino e oferecer-lhe um bezerro como  sacrif\u00edcio de louvor e a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. Foi um equ\u00edvoco muito desagrad\u00e1vel.  Provavelmente, foi por meio de um int\u00e9rprete que conseguiram desfazer o  equ\u00edvoco. (At 14,14.18).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>III Parte<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>20. Qual a sua nacionalidade? Mudou alguma  vez?<\/strong><\/p>\n<p>Naquele  tempo n\u00e3o era como hoje. Hoje em dia, a nacionalidade de algu\u00e9m tem a ver com a  sua perten\u00e7a a uma na\u00e7\u00e3o-estado que concede ou nega cidadania e passaporte aos  seus membros. Naquele tempo, a nacionalidade tinha a ver com a perten\u00e7a da  pessoa a uma na\u00e7\u00e3o-ra\u00e7a. Ou seja, Paulo, apesar de ser natural de uma cidade  helenista na \u00c1sia Menor, conservava a consci\u00eancia muito clara de ser da ra\u00e7a de  Israel (Fm 3,5), descendente de Abra\u00e3o (2Cor 11,22), da tribo de Benjamim (Rm  11,1), hebreu (2Cor 11,22), judeu (At 22,3). Ele dizia: &#8220;Vivi no meio da minha  na\u00e7\u00e3o aqui em Jerusal\u00e9m&#8221; (At 26,4). E neste ponto, apesar de tantas viagens e  mudan\u00e7as, mesmo apesar da sua convers\u00e3o para Cristo, ele nunca mudou de  nacionalidade, isto \u00e9, nunca deixou de ser judeu. Nunca esqueceu a sua origem.  No entanto, a experi\u00eancia de Cristo ressuscitado na sua vida fez com que ele,  sem deixar de ser judeu, percebesse os limites da sua nacionalidade. Para ele,  ser da ra\u00e7a de Israel j\u00e1 n\u00e3o era t\u00edtulo de privil\u00e9gio diante de Deus, pois,  &#8220;tanto os judeus como os gregos, est\u00e3o todos debaixo do pecado&#8221; (Rm 3,9).  Todos, indistintamente, necessitam da gra\u00e7a que vem por Jesus Cristo (Rm  3,23-24). J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais distin\u00e7\u00e3o entre judeu e grego (Rm 10,12). Paulo se fez  judeu com os judeus, sem lei com os sem lei, para ganhar todos para Cristo (1Cor  9,20-23). Em Cristo, todos s\u00e3o iguais (1Cor 12,13; Gl 3,28; Cl  3,11).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>21. Voc\u00ea \u00e9 judeu e cidad\u00e3o romano. Como \u00e9 que consegue  combinar estas duas coisas?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o era  f\u00e1cil combinar estas duas coisas. O cidad\u00e3o romano tinha a obriga\u00e7\u00e3o de  participar do culto ao imperador, coisa que era absolutamente proibida aos  judeus em nome da sua f\u00e9 <st1:personname productid=\"em Deus. Mas\">em  Deus. Mas<\/st1:personname> estes conseguiram achar uma forma vi\u00e1vel de  conviv\u00eancia sem conflito.Na maioria das cidades do imp\u00e9rio, os judeus, viviam  organizados em associa\u00e7\u00f5es chamadas politeuma. Um politeuma era uma associa\u00e7\u00e3o  oficialmente reconhecida pela polis, isto \u00e9, pelas autoridades da cidade. Um  politeuma, possu\u00eda uma certa independ\u00eancia e gozava de alguns privil\u00e9gios. Seus  membros registrados podiam fazer valer estes seus direitos. Os politeumas dos  judeus nas v\u00e1rias cidades lutavam sobretudo por dois objetivos bem precisos: 1.  De um lado, queriam a plena integra\u00e7\u00e3o dos seus membros corno cidad\u00e3os; assim,  os judeus teriam direito aos privil\u00e9gios dos &#8220;Cidad\u00e3os da Cidade&#8221;, sobretudo  com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 isen\u00e7\u00e3o das taxas e dos impostos; 2. De outro lado, queriam plena  liberdade para poder praticar a pr\u00f3pria religi\u00e3o; a liberdade religiosa que eles  pleiteavam consistia no seguinte: n\u00e3o ser obrigado a trabalhar no s\u00e1bado; ser  isento do servi\u00e7o militar; n\u00e3o participar do culto ao Imperador; ter o direito  de seguir os seus pr\u00f3prios costumes alimentares; pautar a vida conforme as suas  pr\u00f3prias leis.<\/p>\n<p>Desde os  tempos de J\u00falio C\u00e9sar, entre 47 e <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"44 a\">44 a<\/st1:metricconverter> .C., os judeus  foram favorecidos com estes privil\u00e9gios como recompensa pelos servi\u00e7os prestados  ao imp\u00e9rio. Por isso mesmo, os judeus da di\u00e1spora, contrariamente aos da  Palestina, n\u00e3o tinham tanto problema de conviv\u00eancia com os romanos. Tinham at\u00e9  uma certa simpatia pelo imp\u00e9rio e sua organiza\u00e7\u00e3o.Em alguns lugares, os  privil\u00e9gios especiais dos judeus provocaram a animosidade da popula\u00e7\u00e3o local  contra eles, sobretudo por causa dos seus costumes alimentares diferentes e por  causa da sua religi\u00e3o que n\u00e3o aceitava o culto ao imperador e \u00e0s divindades  locais. Uma ou outra vez, surgiram alguns conflitos com o imp\u00e9rio. V\u00e1rias vezes,  os judeus tentaram recorrer \u00e0 autoridade romana contra os crist\u00e3os (At 13,8.50;  14,5; 17,5-9; etc.).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>22. Como cidad\u00e3o romano, voc\u00ea chegou a prestar servi\u00e7o  militar?<\/strong><\/p>\n<p>Um  cidad\u00e3o romano era obrigado a prestar servi\u00e7o militar nas legi\u00f5es romanas. Mas \u00e9  prov\u00e1vel que Paulo tenha ficado isento, pois, como j\u00e1 vimos, os judeus  conseguiram o privil\u00e9gio da isen\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o militar por v\u00e1rios motivos, todos  religiosos: 1. o servi\u00e7o militar dificultava a observ\u00e2ncia do s\u00e1bado; 2. impedia  a observ\u00e2ncia da lei da pureza e dos costumes alimentares pr\u00f3prios; 3. exigia  dos soldados o culto ao imperador, proibido aos judeus em nome da sua f\u00e9 em  Deus.<\/p>\n<p><strong>23. Voc\u00ea j\u00e1 teve problema com a pol\u00edcia? Sofreu alguma  persegui\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Muitas  vezes! Desde a sua primeira viagem mission\u00e1ria, ou melhor, desde o dia da sua  convers\u00e3o, Paulo encontrou resist\u00eancia, era perseguido e molestado. Para impedir  ou dificultar a a\u00e7\u00e3o de Paulo, os seus advers\u00e1rios recorriam \u00e0 for\u00e7a da pol\u00edcia,  ao poder das autoridades ou a outros meios de press\u00e3o: em Damasco (At 9,23-24),  em Jerusal\u00e9m (At 9,29), em Chipre (At 13,8), em Antioquia da Pis\u00eddia (At 13,50),  em Ic\u00f4nio (At 14,5), em Lica\u00f4nia (At 14,19), em Filipos (At 16,22), em  Tessal\u00f4nica (At 17,5-9), em Ber\u00e9ia (At 17,13), em Corinto (At 18,12), em \u00c9feso  (At 19,23-40), em Jerusal\u00e9m (At 21,27-30). Ele mesmo informa que, &#8220;foi  flagelado tr\u00eas vezes. Cinco vezes recebeu 40 golpes menos um&#8221; (2Cor 11,25). Uma  vez, a pol\u00edcia salvou a vida de Paulo. Foi em Jerusal\u00e9m, quando ele corria  perigo de ser linchado pela multid\u00e3o na pra\u00e7a do templo. (At  21,31-32).<\/p>\n<p><strong>24. Voc\u00ea j\u00e1 teve problema com a justi\u00e7a? J\u00e1 teve que  comparecer diante do tribunal?<\/strong><\/p>\n<p>Em  Corinto, pressionado pelos judeus, Paulo teve que comparecer diante do tribunal  romano, onde Gallio, irm\u00e3o de S\u00eaneca, era pro-consul. Este deu ganho de causa a  Paulo contra os judeus (At 18,12-16).<\/p>\n<p>Em  Jerusal\u00e9m, a pedido do centuri\u00e3o romano, Paulo teve que comparecer diante do  tribunal dos judeus, o sin\u00e9drio (At 22,30). Foi nesta ocasi\u00e3o que ele provocou  um conflito entre os membros do pr\u00f3prio tribunal ao dizer que estava sendo  julgado pela sua f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o (At 23,6-7). Deste modo, jogou os fariseus  contra os saduceus e conseguiu impedir que fosse condenado. Nem houve julgamento  (At 23,8-10).<\/p>\n<p>Levado  para Cesar\u00e9ia, Paulo teve que comparecer diante de F\u00e9lix, o governador romano,  que protelou o assunto e o deixou preso, sem julgamento, durante dois anos (At  24,22-27). Festo, o novo governador, quis que Paulo fosse julgado no tribunal de  Jerusal\u00e9m (At 25,9). Foi nesta ocasi\u00e3o que Paulo apelou para o tribunal de C\u00e9sar  em Roma (At 25,10-11). Ele sabia que a proposta de se fazer o julgamento em  Jerusal\u00e9m era apenas um pretexto para poder assassin\u00e1-lo numa emboscada durante  a viagem para l\u00e1 (At 25,3).Em Roma, ele continuou preso, por mais dois anos,  aguardando o julgamento que, ao que tudo indica, n\u00e3o aconteceu por falta de  provas (At 28,30-31).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>25. Quantas vezes j\u00e1 esteve preso, aonde e por  qu\u00ea?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  foi preso v\u00e1rias vezes: em Filipos (At 16,23), em Jerusal\u00e9m (At 21,33), em  Cesar\u00e9ia (At 23,23), em Roma (At 28,20). Al\u00e9m disso, ele deve ter sofrido uma  pris\u00e3o muito pesada em \u00c9feso, de onde mandou cartas para os Filipenses (Fil  1,13), para os Colossenses (Co 4,18) e, talvez, para Filemon (9 e 13). A pris\u00e3o  em \u00c9feso foi t\u00e3o pesada, que ele chegou a perder a esperan\u00e7a de sobreviver (2Cor  1,8-9). Foi como &#8220;uma luta contra animais selvagens&#8221; (1Cor 15,32). Ele mesmo,  fazendo um resumo da sua vida, sugere que passou por muitas pris\u00f5es (2Cor  11,23).<\/p>\n<p>O motivo  aduzido pelos advers\u00e1rios para prend\u00ea-lo nem sempre era o mesmo. Em Filipos, a  acusa\u00e7\u00e3o diz a prop\u00f3sito de Paulo e Silas: &#8220;Estes homens est\u00e3o provocando  desordem em nossa cidade; s\u00e3o judeus e pregam costumes que a n\u00f3s, romanos, n\u00e3o \u00e9  permitido aceitar nem seguir&#8221; (At 16,20-21). Em Jerusal\u00e9m, os judeus gritavam  ao povo contra Paulo: &#8220;Israelitas, socorro! Este \u00e9 o homem que anda ensinando a  todos e por toda a parte contra o nosso povo, contra a lei e contra este lugar.  Al\u00e9m disso, ele trouxe gregos para dentro do &#8220;Templo, profanando este santo  Lugar&#8221; (At 21,28). Em Cesar\u00e9ia, o governador recebeu a seguinte escrita do  oficial romano de Jerusal\u00e9m a respeito de Paulo: &#8220;Verifiquei que ele era  incriminado por quest\u00f5es referentes \u00e0 lei que os rege, n\u00e3o havendo nenhum crime  que justificasse morte ou pris\u00e3o&#8221; (At 23,29). E diante do tribunal a acusa\u00e7\u00e3o  dos pr\u00f3prios judeus dizia: &#8220;Verificamos que este homem \u00e9 uma peste: ele promove  conflitos entre os judeus do mundo inteiro e \u00e9 tamb\u00e9m um dos l\u00edderes da seita  dos nazareus. Ele tentou inclusive profanar o templo; por isso, o prendemos&#8221;  (At 24,5-6).<\/p>\n<p>Apesar  de preso, Paulo continuava livre: escrevia cartas e anunciava o Evangelho &#8220;com  firmeza e sem impedimento&#8221; (At 28,31).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>26. Dizem que voc\u00ea \u00e9 uma pessoa doente. \u00c9 verdade? Como vai  de sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  deve ter tido uma sa\u00fade de ferro para poder levar a vida que levou. Dos 40 aos  60 anos de idade, viajava a p\u00e9 pelo mundo, percorrendo ao todo mais de 15 mil  quil\u00f4metros, suportando canseiras, pris\u00f5es, a\u00e7oites, perigos de morte,  flagela\u00e7\u00f5es, apedrejamento, naufr\u00e1gios, perigos nas estradas, nos rios, nas  serras, perigos por parte dos judeus e por parte dos falsos irm\u00e3os, a  preocupa\u00e7\u00e3o constante pelas comunidades, sem contar o trabalho profissional como  fabricante de tendas de manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite, com sal\u00e1rio minguado que o deixava  com fome e sede e o obrigava a fazer vig\u00edlias e horas-extras (cf. 2Cor  11,23-28). S\u00f3 mesmo com muita sa\u00fade!<br \/>Mesmo assim, durante a segunda viagem  mission\u00e1ria, a doen\u00e7a apareceu na vida de Paulo e o obrigou a fazer uma parada  for\u00e7ada na Gal\u00e1cia da \u00c1sia Menor (Gl 4,13). Ele aproveitou da ocasi\u00e3o para  anunciar o Evangelho aos habitantes da regi\u00e3o e, assim, contribuiu para que  surgisse a comunidade dos G\u00e1latas. Tratava-se, provavelmente, de uma doen\u00e7a nos  olhos, pois os G\u00e1latas queriam at\u00e9 &#8220;arrancar os pr\u00f3prios olhos para d\u00e1-los a  Paulo&#8221; (Gl 4,15).<br \/>Alguns exegetas acham que o misterioso &#8220;aguilh\u00e3o na  carne&#8221;, de que ele fala na Carta aos Cor\u00edntios (2Cor 12,7), tamb\u00e9m tenha sido  uma doen\u00e7a. \u00c9 dif\u00edcil saber o que era na verdade, pois Paulo n\u00e3o o  explica.<\/p>\n<p>O fato  de Paulo mostrar-se preocupado com a sa\u00fade dos companheiros e de recomendar a  Tim\u00f3teo que bebesse um pouco de vinho por causa do est\u00f4mago e das freq\u00fcentes  fraquezas (1Tm 5,23), revela uma pessoa realista que sabia apreciar o imenso dom  de uma boa sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>27. Como voc\u00ea se distrai e se diverte? Tem  algum passa-tempo? \u00c9 admirador de algum esporte?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9  dif\u00edcil saber o que o divertia e distra\u00eda. Durante toda a sua vida, sobretudo  depois da sua convers\u00e3o, aquilo que o ocupava e o dilatava por dentro era o que  ele chamava a agap\u00e8, o amor (1Cor 13,1-13). Por este amor, permitia que o outro,  a comunidade, entrasse dentro dele, ocupasse todo o espa\u00e7o, morasse a\u00ed dentro  como o dono real da casa e o distra\u00edsse de si mesmo, do seu pr\u00f3prio centro, para  o bem-estar dos outros.<\/p>\n<p>No fim  da vida, j\u00e1 depois dos 50 anos de idade, aquilo que mais o<br \/>ocupava e  preocupava por dentro era &#8220;a solicitude por todas as comunidades&#8221; (2Cor  11,28). Ele n\u00e3o deve ter tido muito tempo nem ocasi\u00e3o para se divertir. \u00c9  dif\u00edcil saber se tinha algum passatempo. Nas horas livres e nas horas de  trabalho na oficina ou no mercado, ele discutia o assunto da Boa Nova de Jesus  com o pessoal (At 17,11.17).<\/p>\n<p>Mesmo  assim, tem alguma coisa nas cartas que nos revela o gosto e a prefer\u00eancia de  Paulo. Quando menino, ele deve ter gostado muito de assistir \u00e0s corridas no  est\u00e1dio da cidade, pois delas ele continua falando, at\u00e9 depois de velho, mesmo  para comparar a mensagem do Evangelho e as suas exig\u00eancias para a vida (Gl 2,2;  5,7; 1Cor 9,24-26; Fil 2,16; 3,12-14; 2Tm 4,7; Hb 12,1).<\/p>\n<p>Paulo \u00e9  nascido e criado em cidade grande. Tarso tinha mais ou menos 300 mil habitantes.  Uma cidade assim tinha o seu est\u00e1dio de esportes e organizava os seus jogos de  atletismo, cada quatro anos: corridas, lutas, lan\u00e7amento de disco, acertar no  alvo, etc. Paulo pode n\u00e3o saber muito de ro\u00e7a e de plantas, mas ele entende de  jogos urbanos. As compara\u00e7\u00f5es que ele usa s\u00e3o quase todas tiradas dos jogos e  ele sup\u00f5e que os seus leitores as entendam: ganhar a coroa (1Cor 9,25),  prosseguir o alvo (Fil 3,14), alcan\u00e7ar o pr\u00eamio (Fil 3,14), lutar sem soltar  soco no ar (1Cor 9,26), correr na dire\u00e7\u00e3o certa (1Cor 9,26). Ele fala em  &#8220;luta&#8221; e &#8220;combate&#8221; (2Tm 4,7), em &#8220;pugilato&#8221; (1Cor 9,26). Conhece o esfor\u00e7o  e a disciplina dos atletas (1Cor 9,25). Provavelmente, mesmo depois de velho,  ele acompanhava o resultado dos jogos e, quem sabe, torcia por algum  time!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>28. O que lhe causou mais tristeza na  vida?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  teve muitas tristezas e problemas na vida. Ele as enumera na segunda carta aos  Cor\u00edntios (2Cor 11,23-29). Teve tristezas nas comunidades, sobretudo  <st1:personname productid=\"em Corinto. Mas\">em Corinto.  Mas<\/st1:personname> a tristeza maior parece ter sido a recusa dos seus irm\u00e3os,  os judeus, de crer em Jesus e de aceit\u00e1-lo como o messias prometido e esperado.  A isto ele se refere quando diz: &#8220;Tenho uma grande tristeza, uma dor incessante  no cora\u00e7\u00e3o&#8221; (Rm 9,2). Ele chega a dizer que gostaria de ser &#8220;separado de  Cristo&#8221;, se com isto pudesse ganhar os seus irm\u00e3os para Cristo (Rm 9,3).  Est\u00eav\u00e3o questionou a Paulo e conseguiu lev\u00e1-lo \u00e0 convers\u00e3o. Paulo, uma vez  convertido, questionou os outros judeus, mas n\u00e3o conseguiu lev\u00e1-los \u00e0 convers\u00e3o.  Pelo contr\u00e1rio, provocou a raiva deles a ponto de ser perseguido por eles com  \u00f3dio de morte, pois n\u00e3o o perdoavam de, como eles diziam, ter se levantado  contra o povo, contra a lei e contra o templo (At 21,28; cf. At 9,23; 21,31;  23,12; 25,3).<br \/>Outro sofrimento muito grande de Paulo vinha dos &#8220;falsos  irm\u00e3os&#8221; (2Cor 11,26), ou &#8220;falsos ap\u00f3stolos&#8221; (2Cor 11,13). Os &#8220;falsos  irm\u00e3os&#8221; eram judeus convertidos que n\u00e3o concordavam com a abertura de Paulo com  rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada dos pag\u00e3os na Igreja. Eles achavam que os pag\u00e3os, ao entrarem  na comunidade, deviam observar toda a lei e praticar a circuncis\u00e3o (At 15,1.10;  Gl 6,12-13).<\/p>\n<p>Por  isso, procuravam solapar a base do trabalho de Paulo, dizendo que a sua prega\u00e7\u00e3o  n\u00e3o tinha a aprova\u00e7\u00e3o dos grandes ap\u00f3stolos (Gl 2,1-10). Obrigaram Paulo a fazer  a sua defesa (cf. 2Cor 11 e 12). Se Paulo se defende, n\u00e3o \u00e9 por causa dele  mesmo, mas por causa das comunidades por ele fundadas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>29. Paulo, qual o lugar que a religi\u00e3o ocupa em sua  vida?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  sempre foi profundamente religioso, tanto antes como depois da sua convers\u00e3o  para Cristo. Antes da convers\u00e3o, ele vivia conforme a lei e a esperan\u00e7a do seu  povo (At 24,14-15; 22,3; 26,6-7), identificado com o ideal da religi\u00e3o de seus  pais. Na pr\u00e1tica da religi\u00e3o, ele seguia o grupo mais observante que era o grupo  dos fariseus (At 26,5). Ele mesmo confessa que era irrepreens\u00edvel na mais  estrita observ\u00e2ncia da lei (Fil 3,6). Paulo era um homem de zelo (Fil 3,6; At  22,3), &#8220;zelo pelas tradi\u00e7\u00f5es paternas&#8221; (Gl 1,14). Para defender a tradi\u00e7\u00e3o dos  pais chegou a perseguir os crist\u00e3os (At 26,9; 22,4; Gl  1,13).<\/p>\n<p>Era na  viv\u00eancia fiel desta religi\u00e3o dos pais, que Paulo procurava a sua seguran\u00e7a junto  de Deus. O testemunho de Est\u00eav\u00e3o, por\u00e9m, abalou-o profundamente. Foi o come\u00e7o da  mudan\u00e7a!A convers\u00e3o para Cristo significou uma mudan\u00e7a profunda na vida de  Paulo, mas n\u00e3o significou uma mudan\u00e7a ou troca de Deus. Pelo contr\u00e1rio! Paulo  continuou fiel ao mesmo Deus dos pais, pois em Jesus reencontrou e reconheceu o  mesmo Deus de sempre, o Deus de Abra\u00e3o, o Deus de Isaque, o Deus de Jac\u00f3. A  diferen\u00e7a profunda entre antes e depois \u00e9 que, agora, ele j\u00e1 n\u00e3o coloca a sua  seguran\u00e7a na observ\u00e2ncia da lei, mas no amor gratuito de Deus por ele,  manifestado e experimentado em Jesus (Gl 2,20-21). \u00c9 na certeza absoluta deste  amor, que est\u00e1 o fundamento \u00faltimo da nova seguran\u00e7a que encontrou junto de Deus  (Rm 8,31-39).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>30. Explique melhor porque voc\u00ea aprovou a morte de Est\u00eav\u00e3o  e perseguiu os crist\u00e3os.<\/strong><br \/>Paulo  procurava atingir a justi\u00e7a atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia da lei (Fil 3,5-6). A sua  vida e a vida do seu povo estava organizada e estruturada, desde s\u00e9culos, em  torno do cumprimento das exig\u00eancias da Alian\u00e7a, que Deus tinha feito com seu  povo. Observando plenamente as cl\u00e1usulas da Alian\u00e7a, o povo teria alcan\u00e7ado a  justi\u00e7a, seria justo. Esta era a teoria, a doutrina ensinada ao povo. A pr\u00e1tica,  por\u00e9m, era outra.<\/p>\n<p>Na  pr\u00e1tica, Paulo experimentava dolorosamente que ele, apesar de todo o esfor\u00e7o,  n\u00e3o era capaz de cumprir tudo o que a lei mandava. O seu esfor\u00e7o n\u00e3o bastava  para alcan\u00e7ar a justi\u00e7a. Paulo continuava em falta com Deus e n\u00e3o alcan\u00e7ava a  paz da consci\u00eancia. Queria fazer o bem e n\u00e3o o conseguia (Rm 7,14-24). Mesmo  assim, apesar da pr\u00e1tica deficiente, ningu\u00e9m duvidava da exatid\u00e3o da doutrina  ensinada pelos fariseus.<\/p>\n<p>O  testemunho de Est\u00eav\u00e3o, por\u00e9m, abalou na raiz este mundo de Paulo e questionou  radicalmente a exatid\u00e3o do caminho que ele seguia para alcan\u00e7ar a justi\u00e7a e a  paz com Deus. Na hora de morrer apedrejado, Est\u00eav\u00e3o disse: &#8220;Vejo os c\u00e9us  abertos e o Filho do Homem de p\u00e9 \u00e0 direita de Deus&#8221; (At 7,56). Neste  testemunho, Est\u00eav\u00e3o dava prova de estar na presen\u00e7a de Deus e de ser acolhido  por Ele, tranq\u00fcilo, em paz com a pr\u00f3pria consci\u00eancia, e, portanto, de possuir a  justi\u00e7a que Paulo procurava e n\u00e3o alcan\u00e7ava. E mais: Est\u00eav\u00e3o possu\u00eda a justi\u00e7a  n\u00e3o como resultado da observ\u00e2ncia da lei, mas como um dom gratuito de Deus  atrav\u00e9s de Jesus, vivo, de p\u00e9, \u00e0 direita de Deus; o mesmo Jesus que, alguns anos  atr\u00e1s, tinha sido condenado como her\u00e9tico e blasfemo pela suprema autoridade dos  judeus e morrera vergonhosamente numa cruz!Este testemunho t\u00e3o breve e t\u00e3o  simples era a nega\u00e7\u00e3o radical do ideal de justi\u00e7a de Paulo. Ou Est\u00eav\u00e3o, ou  Paulo! Os dois n\u00e3o podiam ser verdadeiros ao mesmo tempo. Eram dois caminhos  totalmente diferentes, dois mundos opostos! Ou um, ou outro!Paulo estava  convencido de que o seu caminho era o caminho certo.<\/p>\n<p>Para  ele, o caminho de Est\u00eav\u00e3o era falso e corruptor dos bons costumes. Por isso,  aprovou a morte de Est\u00eav\u00e3o e come\u00e7ou a perseguir os crist\u00e3os. Agia por  ignor\u00e2ncia (1Tm 1,13). Pensava estar prestando um servi\u00e7o a Deus em defesa da  tradi\u00e7\u00e3o dos pais. Mas no fundo, quem sabe, se Paulo procurava calar a voz de  Est\u00eav\u00e3o e dos crist\u00e3os, era porque queria abafar a voz da pr\u00f3pria consci\u00eancia  que come\u00e7ava a incomod\u00e1-lo. Paulo estava fugindo de si mesmo e de Deus, at\u00e9 que  Deus interveio e o derrubou na estrada de Damasco.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>31. Como foi a entrada de Jesus na sua vida? Qual o  significado e o alcance que a experi\u00eancia na estrada de Damasco teve para  voc\u00ea?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>A  entrada de Jesus foi o divisor das \u00e1guas. A vida de Paulo se divide em antes e  depois da experi\u00eancia na estrada de Damasco. Os fen\u00f4menos externos que  acompanharam o processo interno da convers\u00e3o e os termos e compara\u00e7\u00f5es usados  para descrev\u00ea-la sugerem que a entrada de Jesus na vida de Paulo n\u00e3o foi uma  brisa leve e tranq\u00fcila, mas uma tempestade violenta, repentina. Ela sacudiu tudo  e atingiu as funda\u00e7\u00f5es da sua exist\u00eancia. Fez desmoronar todo um mundo, uma  tradi\u00e7\u00e3o antiga, montada desde s\u00e9culos, e fez aparecer um novo come\u00e7o.<br \/>Deus  n\u00e3o pediu licen\u00e7a. Entrou sem mais e jogou Paulo no ch\u00e3o (At 9,4; 22,7; 26,14).  Quando levantou, estava cego, e cego ficou durante tr\u00eas dias (At 9,8-9). Apesar  de ser o guia do grupo, Paulo teve que ser guiado pelos pr\u00f3prios s\u00faditos (At  9,8). Ele mesmo diz que o nascimento dele para Cristo n\u00e3o foi normal. Deus o fez  nascer de maneira for\u00e7ada e violenta, atrav\u00e9s de um aborto (1Cor  15,8).<\/p>\n<p>Paulo  n\u00e3o estava esperando: &#8220;Fui apanhado!&#8221; (Fil 3,12). Mesmo assim, depois que tudo  aconteceu, teve que reconhecer que era isto que ele estava esperando desde  sempre. Foi para isto que Deus o separou e o colocou \u00e0 parte, desde o seio  materno (Gl 1,15). Ele o viveu como sendo o seu destino, a sua voca\u00e7\u00e3o, a sua  miss\u00e3o. Uma quase fatalidade, da qual j\u00e1 n\u00e3o podia escapar: o seu destino,  agora, \u00e9 anunciar o Filho de Deus entre os pag\u00e3os (Gl 1,16). \u00c9 uma necessidade  para ele: &#8220;Ai de mim se n\u00e3o anunciar o Evangelho!&#8221; (1Cor 9,16). Ao mesmo  tempo, ele viveu aquela hora como um momento de miseric\u00f3rdia por parte de Deus.  Deus o acolheu, quando ele mesmo era insolente e perseguidor (1Tm 1,13). Foi o  momento em que superabundou nele a gra\u00e7a de Deus (1Tm 1,14). Foi assim que  Cristo o formou para o seu servi\u00e7o. (1Tm 1,12).<br \/>Agora, para Paulo, o viver \u00e9  Cristo (Fil 1,21). J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ele que vive, mas \u00e9 Cristo que vive nele (Gl 2,20).  Paulo sabe que \u00e9 amado: &#8220;Ele me amou e se entregou por mim!&#8221; (Gl 2,20). Daqui  para a frente, ele j\u00e1 n\u00e3o quer saber outra coisa a n\u00e3o ser Jesus crucificado  (1Cor 2,2). Quer completar na sua pr\u00f3pria carne o que falta na paix\u00e3o de Cristo  (Cl 1,24). Por amor a Jesus largou tudo para poder possu\u00ed-lo a ele e ser  encontrado nele (Fil 3,8-9). Participa da paix\u00e3o de Cristo para poder  experimentar a sua ressurrei\u00e7\u00e3o (Fil 3,10-11). Traz a agonia de Jesus no corpo,  para que se manifeste nele a vida (2Cor 4,10-12; Gl 6,17). Paulo vive uma total  identifica\u00e7\u00e3o com Jesus morto e ressuscitado.<\/p>\n<p>Por  causa desta experi\u00eancia de Cristo morto e ressuscitado, tudo mudou na vida de  Paulo: de elite virou periferia, de livre virou escravo, de honrado virou  expulso, de rico virou pobre! (Veja respostas \u00e0s perguntas <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"11 a\">11 a<\/st1:metricconverter> 13). Por causa  de Cristo, suporta tudo e vive entregue, dia e noite (1Cor 13,4-6). Um novo  crit\u00e9rio invadiu sua vida: a gra\u00e7a libertadora de Deus tomou forma concreta em  Jesus, &#8220;que me amou e se entregou por mim&#8221; (Gl 2,20).<\/p>\n<p><strong>32. Qual  foi a \u00faltima raz\u00e3o que levou voc\u00ea a aceitar Jesus como  Messias?<\/strong><\/p>\n<p>Houve o  encontro na estrada de Damasco que derrubou Paulo e o deixou cego durante tr\u00eas  dias. Foi a experi\u00eancia mais forte e mais duradoura da sua vida. No entanto, n\u00e3o  foi s\u00f3 isto que o levou a aceitar Jesus e a reconhec\u00ea-lo como Messias. Dentro  desta experi\u00eancia, \u00fanica e avassaladora, alumiou para Paulo a certeza de que  Jesus \u00e9 o SIM de Deus \u00e0s promessas feitas ao povo no passado (2Cor  1,20).<\/p>\n<p>Com  outras palavras, aceitando Jesus como Messias, Paulo n\u00e3o estava sendo infiel ao  seu povo, nem estava deixando de ser judeu, mas se tornava mais judeu ainda. No  fundo, foi a vontade de ser fiel ao seu povo e \u00e0s suas esperan\u00e7as, suscitadas  pelas promesas de Deus, que o obrigava a aceitar Jesus como Messias. A sua  fidelidade a Cristo e a sua experi\u00eancia de Cristo de um lado, e a sua fidelidade  ao seu povo e a sua experi\u00eancia de povo de outro lado, eram como dois lados da  mesma medalha.<\/p>\n<p>Paulo  nunca se sentiu traidor do seu povo, por mais que o acusassem disso. Ao  contr\u00e1rio, vivendo em Cristo, sentia-se mais judeu do que antes, possuidor da  esperan\u00e7a do seu povo. Era a fidelidade ao Antigo Testamento que o levou a  aceitar o Novo Testamento.<\/p>\n<p><strong>33. Voc\u00ea brigou com Barnab\u00e9 no come\u00e7o  da segunda viagem mission\u00e1ria. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o  Marcos, sobrinho de Barnab\u00e9, acompanhou Paulo e Barnab\u00e9 na primeira viagem, mas  o abandonou na metade (At 13,13). Quando Paulo convidou Barnab\u00e9 para uma segunda  viagem, este quis que Jo\u00e3o Marcos fosse junto outra vez (At 15,37). &#8220;Mas Paulo  era de opini\u00e3o que n\u00e3o se devia levar junto aquele que os havia abandonado na  Panf\u00edlia e n\u00e3o os acompanhara no trabalho&#8221; (At 15,38). Foi a\u00ed que os dois  brigaram e se separaram, um do outro, por causa de Marcos (At  15,38-40).<\/p>\n<p>Mais  tarde houve a reconcilia\u00e7\u00e3o. Paulo tornou-se, novamente, amigo de Marcos e  reconheceu o valor dele para o an\u00fancio do Evangelho, pois ele escreve a Tim\u00f3teo:  &#8220;Procure Marcos e traga-o com voc\u00ea, porque ele pode ajudar-me no minist\u00e9rio&#8221;  (2Tm 4,11). E na Carta aos Cor\u00edntios, Barnab\u00e9 \u00e9 lembrado como companheiro fiel e  exemplar de Paulo (1Cor 9,6).<\/p>\n<p><strong>34. Voc\u00ea brigou tamb\u00e9m com Pedro.  Foi pelo mesmo motivo?<\/strong><\/p>\n<p>A crise  mais profunda das primeiras comunidades surgiu por ocasi\u00e3o da entrada dos pag\u00e3os  na igreja. No come\u00e7o, ningu\u00e9m pensava em converter os pag\u00e3os. S\u00f3 se anunciava o  Evangelho aos judeus (At 11,19). Caso um pag\u00e3o quisesse entrar na igreja,  aplicava-se o costume antigo. Desde s\u00e9culos, quando um pag\u00e3o se convertia para o  Deus de Israel, ele devia assumir tamb\u00e9m todos os compromissos da Alian\u00e7a que  este Deus tinha conclu\u00eddo com o seu povo, a saber, a observ\u00e2ncia da lei de  Mois\u00e9s, a circuncis\u00e3o, os costumes, etc. Esta era a teoria antiga que continuava  em vigor, aceita por todos. Mas a pr\u00e1tica dos crist\u00e3os correu na frente da  teoria e modificou o quadro.<\/p>\n<p>Em  Antioquia, os crist\u00e3os, todos eles judeus convertidos, fugidos de Jerusal\u00e9m na  \u00e9poca da grande persegui\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a falar de Jesus tamb\u00e9m aos pag\u00e3os (At  11,19-20). &#8220;A m\u00e3o do Senhor estava com eles, e bom n\u00famero abra\u00e7ou a f\u00e9 e  converteu-se ao Senhor&#8221; (At 11,21). Fato consumado! Os pag\u00e3os entraram, sem  passar pelas observ\u00e2ncias judaicas! A\u00ed surgiu o problema te\u00f3rico: N\u00e3o pode! &#8220;Se  n\u00e3o forem circuncidados como ordena a lei de Mois\u00e9s, voc\u00eas n\u00e3o poder\u00e3o  salvar-se!&#8221; (At 15,1).<\/p>\n<p>Dividiu-se a igreja! Um grupo, concentrado em Antioquia,  tomou a defesa da entrada direta dos pag\u00e3os, sem passar pela observ\u00e2ncia da lei  de Mois\u00e9s. Paulo e Barnab\u00e9 faziam parte deste grupo. Um outro grupo, concentrado  em Jerusal\u00e9m, dizia o contr\u00e1rio: &#8220;\u00c9 preciso circuncidar os pag\u00e3os e impor-lhes  a observ\u00e2ncia da lei de Mois\u00e9s&#8221; (At 15,5). Alguns deste grupo eram fariseus  convertidos (At 15,5).<\/p>\n<p>Convocou-se uma reuni\u00e3o, um Conc\u00edlio, para resolver o  problema e decidir a quest\u00e3o (At 15,6).<\/p>\n<p>O  Conc\u00edlio decidiu em favor da entrada dos pag\u00e3os, sem a imposi\u00e7\u00e3o da lei de  Mois\u00e9s e da circunsi\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o estava baseada na pr\u00e1tica, nos fatos e na  experi\u00eancia. A pr\u00e1tica: tudo aquilo que acontecera nas viagens de Paulo e Bamab\u00e9  (At 15,3-4.12); os fatos: a convers\u00e3o de Corn\u00e9lio e o seu batismo por Pedro (At  15,7-9); a experi\u00eancia: a incapacidade sentida pelos judeus de conseguirem a  justi\u00e7a atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia da lei (At 15,10). Foi deste modo que o Conc\u00edlio  releu e atualizou a teoria antiga e chegou \u00e0 conclus\u00e3o: &#8220;\u00c9 pela gra\u00e7a do Senhor  Jesus que acreditamos ser salvos&#8221; (At 15,11).A decis\u00e3o do Conc\u00edlio foi um marco  importante na hist\u00f3ria das primeiras comunidades. Mas nem todos entenderam o seu  alcance.<br \/>Alguns se apegavam \u00e0 letra do documento conciliar (At 15,23-29) e  negavam o seu esp\u00edrito. Ora, \u00e9 dentro deste contexto das tens\u00f5es  p\u00f3s-conciliares, que vai aparecer a briga de Paulo com Pedro.Certa vez, Pedro  chegou de visita na comunidade de Antioquia. Fiel ao esp\u00edrito do Conc\u00edlio,  convivia com todo mundo, sem fazer distin\u00e7\u00e3o entre pag\u00e3o e judeu (Gl 2,12). A  essa altura chegou de Jerusal\u00e9m um grupo de gente mais conservadora que n\u00e3o se  misturava com os pag\u00e3os. Com medo das cr\u00edticas deste grupo, Pedro se afastou dos  pag\u00e3os (Gl 2,12). A mudan\u00e7a no comportamento de Pedro levou muita gente a fazer  o mesmo. &#8220;At\u00e9 Barnab\u00e9 se deixou levar pela hipocrisia&#8221; (Gl 2,13). Foi um  impacto muito grande na comunidade.<br \/>Por causa de Pedro, os pag\u00e3os ficavam com  a impress\u00e3o de serem crist\u00e3os de segunda categoria. Crist\u00e3o mesmo, cem por  cento, de primeira categoria, seria s\u00f3 o judeu convertido que observava toda a  lei de Mois\u00e9s! Fiel \u00e0 letra do Conc\u00edlio, Pedro, sem se dar conta, negava o seu  esp\u00edrito na pr\u00e1tica. O seu comportamento era, &#8220;digno de censura&#8221; (Gl  2,11).Quando Paulo percebeu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, reagiu fortemente e brigou  com Pedro. Ele mesmo descreve o fato: &#8220;Quando vi que eles n\u00e3o estavam agindo  direito conforme a verdade do Evangelho, eu disse a Pedro, na frente de todos:  &#8220;Voc\u00ea \u00e9 judeu, mas j\u00e1 viveu como os pag\u00e3os e n\u00e3o como os judeus. Como ent\u00e3o  pode, agora, obrigar os pag\u00e3os a viverem como judeus?&#8221; (Gl 2,14).<br \/>A rea\u00e7\u00e3o  de Paulo revela a profundidade da experi\u00eancia que ele teve no caminho de  Damasco. Foi l\u00e1 que ele experimentou, de um lado, a pr\u00f3pria incapacidade de  atingir a justi\u00e7a pela observ\u00e2ncia da lei e, do outro lado, a miseric\u00f3rdia de  Deus que o acolhia de gra\u00e7a e lhe comunicava a justi\u00e7a pela f\u00e9 <st1:personname productid=\"em Jesus Cristo. Reagindo\">em Jesus Cristo.  Reagindo<\/st1:personname> contra Pedro, Paulo, de certo modo, estava defendendo  a experi\u00eancia que teve de Deus no caminho de Damasco, e tirava dela uma li\u00e7\u00e3o  para a vida de toda a igreja.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>35. Por que voc\u00ea n\u00e3o casou? \u00c9 contra o  casamento?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  n\u00e3o era casado (1Cor 7,8). Alguns exegetas acham que ele era vi\u00favo. N\u00e3o sei qual  o argumento que eles t\u00eam para fazer tal afirma\u00e7\u00e3o. Paulo n\u00e3o se casou, n\u00e3o  porque era contra o casamento, mas porque n\u00e3o quis casar. Era a maneira como ele  via a sua voca\u00e7\u00e3o pessoal e procurava ser fiel a ela. O n\u00e3o querer casar tinha a  ver com a sua experi\u00eancia pessoal de Cristo (1Cor 7,32) e com o fato de que em  Cristo o fim dos tempos j\u00e1 tinha chegado (1Cor 7,29-31; cf. Mc  12,25).<\/p>\n<p>Mesmo  n\u00e3o casando, Paulo defendia o direito que ele tinha de casar (1Cor 9,5). N\u00e3o era  contra o casamento. Pelo contr\u00e1rio, considerava como &#8220;doutrina demon\u00edaca&#8221;,  &#8220;hipocrisia de mentirosos&#8221; e &#8220;f\u00e1bulas \u00edmpias de gente caduca&#8221; a teoria  daqueles que proibiam o casamento (1Tm 4,1-7).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>36. Muita gente n\u00e3o gosta de voc\u00ea por causa da sua atitude  negativa para com as mulheres. \u00c9 verdade que voc\u00ea \u00e9 contra a participa\u00e7\u00e3o da  mulher na comunidade?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Alguns  textos de Paulo causam real dificuldade. Neles, a mulher aparece em posi\u00e7\u00e3o  inferior, n\u00e3o devidamente valorizada. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel clarear toda esta quest\u00e3o  numa resposta breve como esta.<\/p>\n<p>Vou  enumerar s\u00f3 alguns fatores a serem levados em conta num eventual estudo mais  aprofundado.<\/p>\n<p>Em  primeiro lugar, n\u00e3o se pode esquecer que a cultura e a consci\u00eancia daquele tempo  n\u00e3o eram as mesmas de hoje na quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o da mulher na vida da  comunidade. Aqueles mesmos textos de Paulo que quando comparados com hoje,  representam um retrocesso, podem representar um avan\u00e7o, quando devidamente  situados dentro do contexto da cultura e da sociedade daquela  \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em  segundo lugar, conv\u00e9m ver o contexto mais amplo da vida e da atividade do  pr\u00f3prio Paulo: a sua maneira de se relacionar com as mulheres; o papel que ele  reservava para as mulheres na vida e na organiza\u00e7\u00e3o das comunidades por ele  fundadas; quais e quantas mulheres que aparecem nas cartas, nas lembran\u00e7as  finais e no relato das viagens.<br \/>Em terceiro lugar, conv\u00e9m lembrar que aqueles  textos mais dif\u00edceis n\u00e3o exp\u00f5em uma doutrina universal a ser aplicada tal qual  em todos os tempos, mas, na maioria das vezes, querem resolver problemas  concretos que estavam perturbando a vida da comunidade. Por isso, al\u00e9m do  contexto da cultura, da sociedade e da vida de Paulo, deve ser examinado o  contexto conflitivo da comunidade que levou Paulo a escrever daquela maneira  negativa sobre a participa\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>Vejamos  como exemplo o texto de 1Tm 2,8-15, escrito para Tim\u00f3teo, coordenador da  comunidade de \u00c9feso (1Tm 1,3). O que vou dizer tirei de um artigo de Alan  Padgett, Mulheres ricas em \u00c9feso; 1Tm 2,8-15 colocado dentro do seu contexto  social; publicado em ingl\u00eas em 1987 na revista Interpretation, p\u00e1ginas  <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"19 a\">19 a<\/st1:metricconverter> 31.<\/p>\n<p>Na  comunidade de \u00c9feso infiltrou-se um grupo de falsos doutores (1Tm 1,3.6). Eles  inventavam doutrinas fabulosas (1Tm 1,3-4), interpretavam mal a Escritura (1Tm  1,7), n\u00e3o aceitavam a ressurrei\u00e7\u00e3o (2Tm 2,18), proibiam o casamento (1Tm 4,3) e  declaravam m\u00e1s as coisas boas que Deus criou (1Tm 4,3-5). Faziam quest\u00e3o de  guardar as apar\u00eancias de piedade (2Tm 3,5), mas na realidade fizeram da piedade  uma fonte de lucro (1Tm 6,5.9-10).<\/p>\n<p>Como  professores ambulantes, de acordo com o costume da \u00e9poca, procuravam ser  acolhidos nas casas de fam\u00edlias mais ricas (2Tm 3,6).<\/p>\n<p>Era o  come\u00e7o do gnosticismo penetrando nas comunidades.Ligado a este grupo dos falsos  doutores aparece o grupo de algumas mulheres. Pois, para realizar o seu  objetivo, aqueles doutores conseguiram influenciar e cativar algumas mulheres,  desejosas de aprender coisas novas (2Tm 3,6-7), sobretudo algumas vi\u00favas bem  jovens ainda (1Tm 5,6-7.11). Provavelmente, eram mulheres rec\u00e9m-convertidas,  pois participavam ainda das &#8220;instru\u00e7\u00f5es&#8221; (1Tm 2,11; cf. 3,6). Eram ricas, pois  usavam objetos de ouro, p\u00e9rolas e vestidos suntuosos (1Tm 2,9). Em todo caso,  n\u00e3o eram pobres. Por serem mulheres de certa posse eram visadas pelos falsos  doutores, pois, sendo ricas, elas podiam acolh\u00ea-los e sustent\u00e1-los, al\u00e9m de  oferecer outras vantagens e prazeres (1Tm 5,6.11; 2Tm  3,6).<\/p>\n<p>Aquelas  mulheres tinham uma sede muito grande de saber: estudavam sempre (2Tm 3,7),  rodeavam-se de professores para aquilo que lhes convinha (2Tm 4,3), sem jamais  atingir o conhecimento da verdade (2Tm 3,7). Muito provavelmente, elas  procuravam o conhecimento em vista de uma lideran\u00e7a maior dentro da comunidade;  queriam &#8220;ensinar e dominar&#8221; (1Tm 2,12).<br \/>Influenciadas pelos falsos  doutores, aceitavam qualquer doutrina estranha (1Tm 4,1-2), rejeitavam o  casamento (1Tm 4,3; cf. 5,14), andavam de casa em casa, (provavelmente, de  comunidade em comunidade) (1Tm 5,13) e j\u00e1 n\u00e3o cuidavam da pr\u00f3pria fam\u00edlia (1Tm  5,8), provocando brigas, discuss\u00f5es, raiva e fofocas (1Tm 1,4; 2,8; 5,13;  6,4-5). Destru\u00edam a paz na comunidade.<\/p>\n<p>Ora,  lendo o texto de 1Tm 2,8-15 contra este pano de fundo, fica claro o seguinte:  Paulo n\u00e3o fala sobre a mulher em geral, mas est\u00e1 pensando naquele grupo de  senhoras da comunidade de \u00c9feso. Ele n\u00e3o \u00e9 contra que a mulher estude, mas pede  que aquelas senhoras estudem com calma e humildade enquanto ainda estiverem na  instru\u00e7\u00e3o inicial (2Tm 2,11). N\u00e3o \u00e9 contra a participa\u00e7\u00e3o e a lideran\u00e7a da  mulher na comunidade, mas questiona as pretens\u00f5es daquele grupo de vi\u00favas ricas  que, por serem ricas, eram visadas pelos falsos doutores e deixavam manipular-se  ingenuamente por eles. Por isso pede que sejam mais modestas, para n\u00e3o provocar  ainda mais aqueles doutores (2Tm 2,9-10). N\u00e3o quer ensinar que o homem \u00e9  superior \u00e0 mulher, mas quer que, durante a fase da instru\u00e7\u00e3o inicial, os  respons\u00e1veis pelo ensino na igreja tenham preced\u00eancia sobre os alunos, sobretudo  naquela \u00e9poca de tantas doutrinas variadas e estranhas (1Tm 2,11-12). N\u00e3o quer  ensinar que toda mulher deva tornar-se m\u00e3e para poder salvar-se, mas acha que,  no caso daquelas vi\u00favas jovens que desprezavam o casamento, s\u00f3 havia um \u00fanico  jeito para elas se recuperarem, a saber, casar de novo e ser m\u00e3e (1Tm 2,15;  5,14-15).<br \/>Comparado com o contexto daquela \u00e9poca, este texto de 1Tm 2,8-15  representa um avan\u00e7o. Apesar de todas as reservas contra aquele grupo de  senhoras de \u00c9feso, Paulo sup\u00f5e como sendo a coisa mais normal que a mulher  receba instru\u00e7\u00e3o, coisa que n\u00e3o era t\u00e3o comum na sinagoga.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>37. Por que voc\u00ea n\u00e3o levantou a voz contra a escravid\u00e3o e  contra a explora\u00e7\u00e3o de tanta gente pelo sistema do imp\u00e9rio romano? \u00c9 verdade que  voc\u00ea \u00e9 amigo ou simpatizante do imp\u00e9rio romano?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Aqui  tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00e1rios os fatores que devem ser levados em conta para se poder chegar  a uma resposta mais ou menos completa, pois trata-se de um assunto complexo e  dif\u00edcil. Como na resposta anterior, vou apenas indicar alguns destes fatores a  serem aprofundados num eventual estudo que algu\u00e9m queira fazer do  assunto.<\/p>\n<p>Em  primeiro lugar, a consci\u00eancia a respeito da problem\u00e1tica social era diferente. A  situa\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os no imp\u00e9rio romano era diferente da situa\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os  hoje na Am\u00e9rica Latina. Hoje, na Am\u00e9rica Latina, n\u00f3s crist\u00e3os temos quase 500  anos de idade, somos mais ou menos 90% da popula\u00e7\u00e3o do continente e temos uma  tremenda responsabilidade hist\u00f3rica na origem da estrutura anti-evang\u00e9lica que  existe por aqui. Nos tempos de Paulo, os crist\u00e3os n\u00e3o tinham nem 30 anos de  idade, n\u00e3o chegavam nem sequer a meio por cento da popula\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio e, como  crist\u00e3os, n\u00e3o estiveram presentes na origem quando foi criado o sistema  explorador do imp\u00e9rio romano.<\/p>\n<p>Em  segundo lugar, o tipo de an\u00e1lise que hoje fazemos da sociedade n\u00e3o existia  naquele tempo. Havia consci\u00eancia do problema social, mas este n\u00e3o era percebido  de maneira t\u00e3o clara como hoje. A pergunta que fizemos a Paulo \u00e9 leg\u00edtima, mas \u00e9  uma pergunta a partir das nossas preocupa\u00e7\u00f5es e a partir de nosso n\u00edvel de  consci\u00eancia e da nossa an\u00e1lise do problema social. Uma resposta mais completa  exigiria um uso maior das ci\u00eancias sociais no estudo do texto de Paulo, o que j\u00e1  est\u00e1 come\u00e7ando a acontecer na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Em  terceiro lugar, conv\u00e9m lembrar que os judeus, desde a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m em  <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"587 a\">587 a<\/st1:metricconverter> .C., viviam  sob governos estrangeiros e se acostumaram a isto. Chegaram a ver nisto uma  express\u00e3o da vontade de Deus. Esdras chegou a identificar a Lei de Deus e a Lei  do rei (Esd 7,26). Aprenderam a conviver. Al\u00e9m disso, conv\u00e9m lembrar a diferen\u00e7a  que havia neste ponto entre os judeus da Palestina e os judeus da di\u00e1spora, de  que j\u00e1 falamos na resposta \u00e0 pergunta n\u00ba 21.<\/p>\n<p>Em  quarto lugar, Paulo teve uma experi\u00eancia profunda de Deus. Uma experi\u00eancia assim  relativiza todo o resto, tanto a riqueza como a pobreza, tanto o possuir como o  n\u00e3o possuir. Eis alguns textos: &#8220;Vivemos como indigentes e, n\u00e3o obstante,  enriquecemos a muitos; como nada tendo, embora tudo possuamos&#8221; (2Cor 6,10).  &#8220;Aprendi a adaptar-me \u00e0s necessidades; sei viver modestamente, e sei tamb\u00e9m  como haver-me na abund\u00e2ncia; estou acostumado com toda e qualquer situa\u00e7\u00e3o:  viver saciado e passar fome; ter abund\u00e2ncia e sofrer necessidade. Tudo posso  naquele que me fortalece!&#8221; (Fil 4,11-13). &#8220;Se temos comida e roupa,  contentemo-nos com isso&#8221; (1Tm 6,8). &#8220;O tempo se fez curto. Aqueles que  compram, sejam como se n\u00e3o comprassem; os que usam deste mundo, como se n\u00e3o  usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo&#8221; (1Cor  7,29.30-31).<\/p>\n<p>Em  quinto lugar, havia em Paulo uma consci\u00eancia bem clara do novo tipo de  fraternidade a ser vivida na comunidade crist\u00e3. Nela devia estar superado todo  relacionamento de domina\u00e7\u00e3o proveniente da religi\u00e3o (judeu-grego), da classe  (livre-escravo), do sexo (homem-mulher) ou da ra\u00e7a (grego-b\u00e1rbaro). Pois nela  n\u00e3o podia haver mais diferen\u00e7a entre &#8220;judeu e grego, escravo e livre, homem e  mulher, grego e b\u00e1rbaro&#8221; (cf. Gl 3,28; Cl 3,11; 1Cor 12,13). Uma comunidade  assim n\u00e3o deixa de ser um fator profundamente revolucion\u00e1rio, uma semente  explosiva, mesmo que os seus membros n\u00e3o tenham plena consci\u00eancia deste  aspecto.<\/p>\n<p>Em sexto  lugar, comparando os conflitos da primeira viagem mission\u00e1ria (At 13,1-14,28)  com os da segunda viagem mission\u00e1ria (At 15,36-18,22), percebe-se o seguinte: 1.  Um envolvimento progressivo do imp\u00e9rio e das suas institui\u00e7\u00f5es nestes conflitos;  2. O imp\u00e9rio pode ter pessoas boas e simp\u00e1ticas ao cristianismo, como o  proc\u00f4nsul S\u00e9rgio Paulo de Chipre (At 13,6-12), mas tem leis e institui\u00e7\u00f5es que  s\u00e3o usadas contra os crist\u00e3os (At 13,50; 14,5; 16,19-24.35-37; 17,5-9;  18,12-16); 3. Na primeira viagem, o conflito com o mundo pag\u00e3o era mais no n\u00edvel  religioso (At 14,8-18), enquanto na segunda viagem j\u00e1 se situava mais no n\u00edvel  econ\u00f4mico (At 16,16-40) e no n\u00edvel cultural e ideol\u00f3gico (At 17,16-34); 4.  Nestes conflitos, os crist\u00e3os aparecem como gente sem poder: n\u00e3o conseguem que a  opini\u00e3o p\u00fablica esteja a seu favor, nem conseguem movimentar a classe alta a seu  favor; 5. As institui\u00e7\u00f5es do imp\u00e9rio e a classe alta conseguem ser usadas contra  os crist\u00e3os por gente que se sente prejudicada pela mensagem crist\u00e3, mas n\u00e3o  conseguem ser usadas pelos crist\u00e3os para defender a justi\u00e7a e a verdade contra a  injusti\u00e7a e a falsidade. Tudo isto revela uma incompatibilidade crescente entre  o imp\u00e9rio e o evangelho.<\/p>\n<p>Em  s\u00e9timo lugar, \u00e9 poss\u00edvel que Paulo, como judeu da di\u00e1spora, tenha tido uma certa  simpatia para com o imp\u00e9rio romano. O mesmo se diga de Lucas que escreveu os  Atos dos Ap\u00f3stolos. Mas mesmo tendo uma poss\u00edvel simpatia, Paulo n\u00e3o adaptou o  evangelho \u00e0s suas simpatias, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o teria provocado aquela escalada  progressiva do imp\u00e9rio contra as comunidades. E n\u00e3o conv\u00e9m esquecer que Paulo  morreu condenado pelo imp\u00e9rio romano por causa do amor que ele tinha ao  evangelho.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>38. Por que voc\u00ea ficou t\u00e3o desanimado e enfraquecido depois  daquele discurso fracassado em Atenas? Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 homem de ficar desanimado.  Havia alguma raz\u00e3o mais profunda?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Paulo  vinha vindo de uma maratona ao longo das cidades da \u00c1sia Menor e da Gr\u00e9cia. Era  a sua segunda viagem mission\u00e1ria (At 15,36ss.). Tinha fundado v\u00e1rias comunidades  na Gal\u00e1cia, em Filipos, Tessal\u00f4nica e Ber\u00e9ia. Em quase todas estas cidades, ele  foi perseguido e torturado. Teve que fugir v\u00e1rias vezes. Nada, por\u00e9m, era capaz  de amedront\u00e1-lo ou de desanim\u00e1-lo. Finalmente, ele chegou em Atenas, capital da  cultura helenista (At 17,15).<br \/>Convidado pelo pessoal que o escutava na pra\u00e7a  do mercado, teve que expor suas id\u00e9ias no are\u00f3pago (At 17,16-21). Preparou um  discurso, no qual tentou comunicar a Boa Nova de Jesus (At 17,22-31). O discurso  n\u00e3o teve muito efeito. Quando falou da ressurrei\u00e7\u00e3o, os ouvintes se  desinteressaram, zombaram dele e suspenderam a sess\u00e3o (At 17,32). Pouca gente  acreditou (At 17,34). Ora, Paulo, que parecia ter for\u00e7a e coragem para enfrentar  qualquer contratempo, inclusive persegui\u00e7\u00e3o, pris\u00e3o e tortura, este mesmo Paulo  perdeu o \u00e2nimo ap\u00f3s o fracasso da sua a\u00e7\u00e3o <st1:personname productid=\"em Atenas. Saiu\">em Atenas. Saiu<\/st1:personname> de l\u00e1 e foi para  Corinto (At 18,1), onde, no dizer dele mesmo, chegou &#8220;cheio de fraqueza, receio  e tremor&#8221; (1Cor 2,3), &#8220;em meio a muita ang\u00fastia e tribula\u00e7\u00e3o&#8221; (1Ts 3,7). Por  que Paulo ficou assim? O que provocou nele aquele des\u00e2nimo feito de &#8220;fraqueza,  receio, tremor, ang\u00fastia e tribula\u00e7\u00e3o&#8221;?<\/p>\n<p>Certos  defeitos escondidos s\u00f3 aparecem no decorrer da caminhada.<br \/>Aos poucos, os  pr\u00f3prios fatos da vida v\u00e3o tirando a casca, revelando quem somos, de fato,  frente a Deus e frente aos outros. A convers\u00e3o \u00e9 um processo permanente, tamb\u00e9m  para Paulo! Apesar de ter experimentado a gratuidade da a\u00e7\u00e3o de Deus, dentro  dele continuava ainda um resto da mentalidade das &#8220;obras&#8221;. Ele pensava poder  derrubar e converter os pag\u00e3os com a for\u00e7a e a l\u00f3gica dos seus argumentos. Em  vista disso montou um discurso bem feito (At 17,22-31), baseado nas leis da  l\u00f3gica e da orat\u00f3ria. Mas teve que experimentar a total inutilidade dos seus  argumentos. Em vez de derrubar, foi derrubado na sua pretens\u00e3o de vencer o  inimigo. O sistema da cultura helenista n\u00e3o se abalou, nem se alterou. Pouca  gente se converteu. A maioria do pessoal nem se interessou. N\u00e3o era nem a favor  nem contra. N\u00e3o quis nem discutir o assunto: At\u00e9 logo! &#8220;Fica para outra vez!&#8221;  (At 17,32).<\/p>\n<p>Paulo  descobriu e experimentou a fraqueza e os limites da sua pretens\u00e3o. O nascimento  doloroso para Cristo, iniciado no caminho de Damasco, continuava. Mas ele soube  tirar a li\u00e7\u00e3o dos fatos. Na carta aos Cor\u00edntios, ele descreve como chegou por  l\u00e1, ap\u00f3s o fracasso em Atenas: &#8220;Irm\u00e3os, eu mesmo, quando fui ao encontro de  voc\u00eas, n\u00e3o me apresentei com o prest\u00edgio da orat\u00f3ria ou da sabedoria, para  anunciar-lhes o mist\u00e9rio de Deus. Entre voc\u00eas, eu n\u00e3o quis saber outra coisa a  n\u00e3o ser Jesus Cristo, e Jesus Crucificado. Estive no meio de voc\u00eas cheio de  fraqueza, receio e tremor; minha palavra e minha prega\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham brilho nem  artif\u00edcios para seduzir os ouvintes, mas a demonstra\u00e7\u00e3o residia no poder do  Esp\u00edrito, para que voc\u00eas acreditassem, n\u00e3o por causa da sabedoria dos homens,  mas por causa do poder de Deus&#8221; (1Cor 2,1-5). Parece um outro Paulo, diferente  do Paulo que discursava no are\u00f3pago com orat\u00f3ria e l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Aprendeu  a li\u00e7\u00e3o! Ficou mais humilde. Soube dar a Deus o lugar que Ele merece, sem que  isto o levasse a uma passividade. Sendo judeu, teve que aprender da pr\u00e1tica como  lidar com o pessoal da cultura helenista e com o pr\u00f3prio Deus. Aprendeu  apanhando e sofrendo!Depois da queda na estrada de Damasco, foi a chegada de  Ananias que o reanimou e o tirou da cegueira (At 9,17-19). Agora, depois da  queda em Atenas, foi a chegada de Tim\u00f3teo com boas not\u00edcias da comunidade rec\u00e9m  fundada de Tessal\u00f4nica, que o ajudou a superar o des\u00e2nimo e reencontrar a fonte  da for\u00e7a e da coragem: &#8220;Agora estamos reanimados!&#8221; (1Ts 3,8). A partir daquele  momento, Paulo teve novamente disposi\u00e7\u00e3o para dedicar-se inteiramente ao an\u00fancio  da Palavra (At 18,5).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>39. Quando n\u00f3s, hoje, falamos das comunidades que voc\u00ea  andou fundando por a\u00ed, imaginamos comunidades perfeitas de gente santa. \u00c9  verdade? Diante de tanta santidade, ficamos at\u00e9 desanimados, pois hoje \u00e9 t\u00e3o  dif\u00edcil viver <st1:personname productid=\"em comunidade. O\">em  comunidade. O<\/st1:personname> que voc\u00ea nos tem a dizer sobre  isto?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>O que  Paulo nos tem a dizer \u00e9 aquilo que ele mesmo viveu e conheceu, tanto da sua  pr\u00f3pria experi\u00eancia, como da experi\u00eancia da comunidade dos primeiros crist\u00e3os  <st1:personname productid=\"em Jerusal\uffe9m. A\">em Jerusal\u00e9m.  A<\/st1:personname> narra\u00e7\u00e3o dos fatos vividos \u00e9 o que mais ajuda a desfazer a  id\u00e9ia de que as primeiras comunidades fossem feitas s\u00f3 de gente santa sem  problemas.<\/p>\n<p>O livro  dos Atos dos Ap\u00f3stolos apresenta a primeira comunidade de Jerusal\u00e9m como o ideal  para as comunidades de todos os tempos. Lucas caprichou naqueles pequenos  resumos que ele fez da vida dos primeiros crist\u00e3os (At 2,42-47; 4,32-35;  5,12-16). Neles, descreve n\u00e3o tanto o que existiu de fato, mas sim o que deveria  existir sempre em toda e qualquer comunidade. O ideal da comunidade, ele o  colocou bem perto da fonte, que \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus.<br \/>Mas Lucas n\u00e3o  escondeu a realidade dura da caminhada. Lendo nas linhas e nas entrelinhas, a  gente percebe que havia muitos problemas e dificuldades. N\u00e3o era gente t\u00e3o santa  e t\u00e3o diferente de n\u00f3s, como, \u00e0s vezes imaginamos. Eis a lista de alguns destes  problemas da primeira comunidade:1. Tentativa de Ananias e Safira de usar a  comunidade para se promover (At 5,1-11); 2. Briga entre os &#8220;hebreus&#8221; (judeus  convertidos da Palestina) e os &#8220;helenistas&#8221; (judeus convertidos da di\u00e1spora)  por causa da assist\u00eancia diferente dada \u00e0s vi\u00favas (At 6,1); 3. Tens\u00e3o interna  por causa da lideran\u00e7a nova de Est\u00eav\u00e3o: o grupo dos helenistas, ligado a  Est\u00eav\u00e3o, \u00e9 perseguido e deve fugir, enquanto os ap\u00f3stolos, (provavelmente, o  grupo dos hebreus), continuam em Jerusal\u00e9m (At 8,1); 4. Tentativa de alguns de  comprarem o carisma e o dom do Esp\u00edrito Santo por meio de dinheiro (At 8,19); 5.  Falta de gente para anunciar o evangelho (At 8,31); 6. Persegui\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os  por parte dos sacerdotes (At 4,1-3) e, mais tarde, por parte dos fariseus (At  8,1-3: Saulo \u00e9 fariseu); 7. Conflito entre os crist\u00e3os vindos do juda\u00edsmo e os  que tinham vindo do paganismo (At 15,1); 8. Incerteza e d\u00favida de Pedro: n\u00e3o  sabe como se comportar nem como enfrentar o problema (Gl 2,11-12); 9. Cobran\u00e7a  feita a Pedro por parte de um grupo mais conservador que n\u00e3o concordava com ele  (At 11,2-3.18); 10. Falta de coordena\u00e7\u00e3o geral, pois as coisas v\u00e3o acontecendo e  os ap\u00f3stolos s\u00f3 ficam sabendo depois (At 11,19-22).<\/p>\n<p>Mesmo  assim, apesar de todas estas dificuldades, a anima\u00e7\u00e3o do pessoal era muito  grande. Eles n\u00e3o desanimavam, e as comunidades cresciam (At 2,41.47; 4,4; 5,14;  6,1.7; 9,31; 11,21.24; 16,5; etc.).<\/p>\n<p>As  comunidades eram um novo modo de ser Povo de Deus!Ora, o mesmo vale para as  comunidades fundadas por Paulo nas grandes cidades do imp\u00e9rio romano. S\u00f3 que  nelas os conflitos e os problemas eram bem maiores. Algumas destas dificuldades  j\u00e1 foram vistas nesta entrevista. Vou tentar lembr\u00e1-las aqui, acrescentando  algumas outras. Indico apenas o fato. N\u00e3o \u00e9 aqui o lugar de aprofundar este  assunto. Eis a lista provis\u00f3ria:1. Falta de instru\u00e7\u00e3o at\u00e9 por parte de l\u00edderes  como Apolo que nada entendia do batismo (At 18,25-26); 2. Continuava a  influ\u00eancia de Jo\u00e3o Batista, a ponto de v\u00e1rias pessoas s\u00f3 conhecerem o batismo  dele; nada sabiam do Esp\u00edrito Santo (At 19,1-3); 3. Divis\u00f5es internas por causa  das linhas diferentes de Paulo, de Apolo e de Pedro (1Cor 1,12; 4,6); 4.  Mentalidade grega em choque com a mentalidade judaica: o conceito de autoridade  do grego \u00e9 mais &#8220;democr\u00e1tico&#8221; (vem por discuss\u00e3o aberta), e o do judeu \u00e9 mais  &#8220;tradicional&#8221; (vem por tradi\u00e7\u00e3o), o que foi uma das causas do conflito que  havia entre Paulo e a comunidade de Corinto (2Cor 10,8-11; 12,11-18; 13,2-4); 5.  Os crist\u00e3os vindos do juda\u00edsmo tinham chegado ao ponto de tentar destruir o  trabalho dos crist\u00e3os vindos do paganismo: eram os &#8220;falsos irm\u00e3os&#8221; (Gl 2,4-5;  6,12-13; 1Ts 2,14-16); 6. Brigas pessoais de Paulo com Barnab\u00e9 por causa de  Marcos (At 15,37-39), e de Paulo com Pedro por causa da linha diferente (Gl  2,11-14); 7.<\/p>\n<p>Mentalidade grega que n\u00e3o conseguia aceitar a ressurrei\u00e7\u00e3o  (At 17,32; 1Cor 15,12); 8. Falsos doutores espalhando confus\u00e3o nas comunidades  (1Tm 4,1-7); 9. Problemas com a religiosidade popular dos povos da \u00c1sia Menor  (At 14,11-18); 10. O problema do lugar da mulher nas comunidades: nem tudo  estava claro (1Cor 11,3-12; 14,34-35; 1Tm 2,9-15); 11. O problema dos carismas,  usados por alguns para se promover a si mesmos e n\u00e3o para construir a comunidade  (1Cor 14,1-32); 12. Falta de respeito de uns para com a fragilidade da  consci\u00eancia dos outros (1Cor 8,7-13; Rm 14,1-15); <st1:metricconverter tabindex=\"0\" productid=\"13. A\">13. A<\/st1:metricconverter> pretens\u00e3o de  alguns de usar a liberdade em Cristo como pretexto para a libertinagem (1Cor  6,12-20; 5,1-13); 14. Divis\u00e3o social e falta de ordem durante a realiza\u00e7\u00e3o da  Ceia Eucar\u00edstica (1Cor 11,17-34); 15. Vontade de alguns de seguirem o ideal  grego da vida intelectual sem trabalhar com as pr\u00f3prias m\u00e3os, enquanto Paulo  queria exatamente o contr\u00e1rio (2Ts 3,10-12).<\/p>\n<p>Os  problemas eram muitos e o povo das comunidades n\u00e3o era santo nem perfeito. Era  espelho do que acontece hoje, onde gente bem intencionada de diferentes origens  e mentalidades decide caminhar juntos. A fraternidade \u00e9 um desafio!Grande parte  destes problemas eram problemas de transi\u00e7\u00e3o. As comunidades eram o novo modo de  ser Povo de Deus. A transi\u00e7\u00e3o do modo antigo para o modo novo n\u00e3o foi f\u00e1cil.  Paulo foi o instrumento para ajudar nesta transi\u00e7\u00e3o sem a qual a igreja teria  naufragado e jamais teria chegado at\u00e9 n\u00f3s.<\/p>\n<p>Foi a  transi\u00e7\u00e3o do mundo judaico para o mundo grego; do mundo rural da Palestina para  o mundo urbano da \u00c1sia Menor e da Gr\u00e9cia; do mundo mais ou menos harmonioso e  coerente do juda\u00edsmo para o mundo pluralista das grandes cidades do imp\u00e9rio,  cheias de conflitos; de uma situa\u00e7\u00e3o de comunidades soltas, quase sem  organiza\u00e7\u00e3o, para uma situa\u00e7\u00e3o de comunidades bem organizadas; de uma igreja  fechada, feita s\u00f3 de judeus convertidos, para uma igreja aberta, que acolhe a  todos; do per\u00edodo dos ap\u00f3stolos, ou seja, da primeira gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes, para a  igreja p\u00f3s-apost\u00f3lica da segunda gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes que j\u00e1 n\u00e3o tinham tido  contato com Jesus pessoalmente; de uma igreja, cuja doutrina e disciplina vinham  em grande parte do juda\u00edsmo, para uma igreja que come\u00e7ava a elaborar e organizar  a sua pr\u00f3pria liturgia, doutrina e disciplina; de uma religi\u00e3o ligada \u00e0s  comunidades bem situadas dos judeus da di\u00e1spora, para uma religi\u00e3o mais ligada  ao povo pobre das periferias urbanas das grandes cidades do imp\u00e9rio romano; de  uma religi\u00e3o que cultivava o ideal da classe dominante, para uma religi\u00e3o que  tinha a coragem de apresentar um novo ideal de vida ao povo trabalhador:  &#8220;ocupar-se das suas pr\u00f3prias coisas e trabalhar com as pr\u00f3prias m\u00e3os: assim n\u00e3o  passar\u00e3o mais necessidade de coisa alguma&#8221; (1Ts 4,11-12).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>40. Olhando para tr\u00e1s, como \u00e9 que voc\u00ea agora enxerga a sua  vida?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>A vida  de Paulo tem quatro per\u00edodos bem distintos. O primeiro vai do nascimento at\u00e9 aos  28 anos de idade. \u00c9 o per\u00edodo antes da convers\u00e3o, em que ele vive como israelita  fiel e observante. O segundo vai desde a convers\u00e3o aos 28 anos at\u00e9 o envio para  a miss\u00e3o aos 41 anos. Per\u00edodo pouco conhecido. O terceiro vai dos 41 anos at\u00e9  aos 53 anos. \u00c9 o per\u00edodo das viagens mission\u00e1rias. O \u00faltimo vai dos 53 at\u00e9 \u00e0  morte aos 63 anos de idade. \u00c9 o per\u00edodo das pris\u00f5es e da organiza\u00e7\u00e3o das  comunidades.<\/p>\n<p>Apesar  de diferentes, estes quatro per\u00edodos tem algo em comum: \u00e9 sempre o mesmo Paulo,  a f\u00e9 no mesmo Deus, a perten\u00e7a ao mesmo povo de Deus; \u00e9 a mesma vontade de ser  fiel a Deus e \u00e0 sua alian\u00e7a, e de chegar \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 paz com Deus.<br \/>Muitas  coisas da vida de Paulo j\u00e1 foram vistas nesta entrevista, outras jamais poder\u00e3o  ser vistas, pois s\u00e3o para sempre o segredo s\u00f3 dele. Pouco sabemos do primeiro  per\u00edodo. Quase nada sabemos do que se passou entre o momento da convers\u00e3o aos 28  anos e o envio para a miss\u00e3o aos 41 anos. S\u00e3o 13 anos de sil\u00eancio!  Provavelmente, foi neste per\u00edodo que ele teve as grandes experi\u00eancias m\u00edsticas  de que fala numa das suas cartas (2Cor 12,1-10). Pouco ou nada sabemos do que  aconteceu depois da primeira pris\u00e3o em Roma at\u00e9 \u00e0 sua morte. O per\u00edodo mais  conhecido \u00e9 o das viagens mission\u00e1rias. Por a\u00ed se deduz que o interesse da  B\u00edblia na pessoa de Paulo n\u00e3o \u00e9 tanto por causa de Paulo enquanto Paulo, mas  enquanto ele \u00e9 o grande animador das comunidades.<\/p>\n<p>A grande  novidade que marcou a vida de Paulo foi a sua experi\u00eancia de Jesus ressuscitado  no caminho de Damasco: experi\u00eancia profundamente pessoal e, ao mesmo tempo,  essencialmente comunit\u00e1ria, pois ela s\u00f3 se tornou clara e manifesta no momento  <st1:personname productid=\"em que Ananias\">em que  Ananias<\/st1:personname> imp\u00f4s as m\u00e3os em Paulo e o acolheu na comunidade  dizendo: &#8220;Paulo, meu irm\u00e3o!&#8221; (At 9,17).<br \/>A experi\u00eancia no caminho de Damasco  foi como um diamante lapidado que recebe a luz do sol. Atrav\u00e9s das suas muitas  facetas, ele fraciona a luz em m\u00faltiplas cores e dela revela, assim, as  diferentes qualidades. A luz do sol \u00e9 Deus que se fez presente na vida de  Paulo.<br \/>O diamante \u00e9 a experi\u00eancia de Jesus ressuscitado. As suas in\u00fameras  facetas fracionam a luz e dela revela as infinitas qualidades: experi\u00eancia da  fidelidade de Deus (2Cor 1,20); experi\u00eancia da vit\u00f3ria sobre a morte (Cl  2,12-13; Ef 1,19-20; Rm 6,1-4); experi\u00eancia do pr\u00f3prio nada (Rm 7,24);  experi\u00eancia da pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o (Gl 1,15-16); experi\u00eancia da paix\u00e3o,  morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo (Fil 3,10-11); experi\u00eancia da sua perten\u00e7a ao  povo (Rm 9,1-5); identifica\u00e7\u00e3o m\u00edstica com Cristo (Gl 2,20); experi\u00eancia  profunda do amor gratuito de Deus (Rm 8,31-39)&#8230; Vale a pena fazer um  levantamento e classificar todos os aspectos da experi\u00eancia de Deus em Cristo,  vivida por Paulo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O: Qual a sua maior esperan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Aqui  desisto de responder. Teria que copiar a maior parte das cartas, pois tudo nelas  fala de esperan\u00e7a. Para Paulo, Jesus \u00e9 a esperan\u00e7a prometida e realizada do seu  povo, ap\u00f3s longos s\u00e9culos de espera.<\/p>\n<p>Em Jesus  ressuscitado, ele encontrou a raz\u00e3o de ser do seu povo. Atrav\u00e9s da vida, morte e  ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, o grande mist\u00e9rio do amor de Deus, confiado ao povo de  Israel, se abriu para todos os povos. Foi esta a grande Boa Nova que Paulo  descobriu em Jesus e que ele come\u00e7ou a transmitir no mundo  inteiro.<\/p>\n<p>Aquilo  que apontou no horizonte do povo na \u00e9poca do ex\u00edlio, o universalismo; aquilo que  se esbo\u00e7ou timidamente na pequena comunidade p\u00f3s-ex\u00edlica e que foi retardado  (mas conservado e protegido) por Esdras e Neemias; aquilo que os helenistas do  tempo de Ant\u00edoco quiseram realizar por imposi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e, em vez de  realizar, estragaram mais ainda, provocando a rea\u00e7\u00e3o justa e violenta dos  Macabeus; aquilo que, desde o come\u00e7o estava no ch\u00e3o do chamado, na semente do  apelo, no rumo da voca\u00e7\u00e3o, tudo isto apareceu <st1:personname productid=\"em Jesus Cristo\">em Jesus Cristo<\/st1:personname> !<br \/>Em Jesus  desabrochou a esperan\u00e7a do povo judeu e, nela, se revelou a grande esperan\u00e7a da  humanidade, o SIM de Deus \u00e0s promessas e esperan\u00e7as que est\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o de todo  ser humano, de todos os povos, sobretudo dos pobres.<\/p>\n<p>Paulo,  por uma gra\u00e7a especial de Deus, percebeu este mist\u00e9rio, esta imensa Boa Nova  para toda a humanidade. Ela se instalou nele, e ele sofreu por ela. Foi a sua  raz\u00e3o de ser! &#8220;Pela gra\u00e7a de Deus sou o que sou; e sua gra\u00e7a dada a mim n\u00e3o foi  est\u00e9ril. Ao contr\u00e1rio, trabalhei mais do que todos eles; n\u00e3o eu, mas a gra\u00e7a de  Deus que est\u00e1 comigo!&#8221; (1Cor 15,10).<\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Carlos Mesters fez uma longa entrevista com o Ap\u00f3stolo Paulo Antes da entrevista Frei Mesters faz uma introdu\u00e7\u00e3o. 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