{"id":10928,"date":"2021-12-05T16:41:04","date_gmt":"2021-12-05T19:41:04","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=10928"},"modified":"2021-12-05T16:41:06","modified_gmt":"2021-12-05T19:41:06","slug":"galatas-nao-esquecam-os-pobres-gl-210-e-sejam-livres-gl-513-por-frei-gilvander","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/galatas-nao-esquecam-os-pobres-gl-210-e-sejam-livres-gl-513-por-frei-gilvander\/","title":{"rendered":"G\u00c1LATAS: &#8220;N\u00e3o esque\u00e7am os Pobres!&#8221; (Gl 2,10) e \u201cSejam livres!\u201d (Gl 5,13). Por Frei Gilvander."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>G\u00c1LATAS: &#8220;N\u00e3o esque\u00e7am os Pobres!&#8221; (Gl 2,10) e<\/strong> <strong>\u201cSejam livres!\u201d (Gl 5,13)<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong> Por Frei Gilvander Lu\u00eds Moreira<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/CARTA-AOS-GALATAS-1024x771.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10929\" width=\"780\" height=\"587\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/CARTA-AOS-GALATAS-1024x771.jpg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/CARTA-AOS-GALATAS-300x226.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/CARTA-AOS-GALATAS-768x578.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/CARTA-AOS-GALATAS-1536x1156.jpg 1536w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/CARTA-AOS-GALATAS.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>CANTO DA CARTA AOS G\u00c1LATAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(M\u00fasica: \u201cQuando teu Pai revelou&#8230;:<strong><em>Waldeci Farias. <\/em><\/strong>Letra-Par\u00f3dia:<strong><em>Marysa Saboya<\/em><\/strong>.)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4\u00aa Estrofe: Como agir quando o enriquecer de poucos resulta no empobrecer de muitos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 a PARTILHA dos bens, livre, mas <em>premiada<\/em>,<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Daria In\u00edcio ao Fim da INJUSTI\u00c7A instalada.<\/p>\n\n\n\n<p>Oh, se a Favela pudesse seu sonho maior gritar!<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo a Cidade fizesse pra colaborar!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um mutir\u00e3o de Irmandade abrindo a estrada,&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Povo trazendo os pol\u00edticos para a jornada,<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como se faz quando h\u00e1 pressa e a calamidade vem:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contra o Mal, s\u00f3 fazendo o Bem!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refr\u00e3o.<em> Paulo s\u00f3 quer saber \u00e9 do Cristo Jesus,<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Morto em cruz, qual rebelde \u00e0 <\/em><\/strong><strong>Opress\u00e3o<em>, mas que o Pai ressurgiu,<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Com seu Sopro de Amor! Para n\u00f3s!<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Rumo da prosa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>N\u00e3o esque\u00e7am os pobres!<\/em>&#8221; (Gl 2,10) e \u201c<em>sejam livres!\u201d <\/em>(Gl 5,13) \u2013 eis duas colunas mestras imprescind\u00edveis na Carta do ap\u00f3stolo Paulo aos crist\u00e3os e crist\u00e3s da regi\u00e3o da Gal\u00e1cia: os G\u00e1latas. A utopia \u00e9 construir uma sociedade de pessoas livres e libertadas e a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 cuidar bem dos pobres e defend\u00ea-los de toda e qualquer rela\u00e7\u00e3o social que cause empobrecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Com Paulo, a partir de G\u00e1latas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Jesus n\u00e3o nasceu Cristo, mas tornou-se Cristo, o ap\u00f3stolo Paulo n\u00e3o nasceu disc\u00edpulo de Jesus Cristo e do seu Evangelho. Ali\u00e1s, Paulo nasceu Saulo, judeu e depois, fariseu; tornou-se perseguidor de crist\u00e3os antes de ter a revela\u00e7\u00e3o do Evangelho de Jesus Cristo. Ap\u00f3s estudar muito e se tornar um intelectual org\u00e2nico, na conviv\u00eancia com o povo escravizado, fora da Palestina, Paulo passou por grandes vicissitudes, que duraram muito tempo. Enfrentou \u2018noites escuras\u2019 e caminhou por desertos, \u201c<em>foi para a Ar\u00e1bia<\/em>\u201d (Gl 1,17). Suportou muita incompreens\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o e, por fim, foi martirizado \u2013 segundo a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja, identificando-se radicalmente com Jesus Cristo \u2013 \u201c<em>N\u00e3o sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim<\/em>\u201d (Gl 2,20). E assim, foi condenado \u00e0 pena de morte pelos podres poderes da religi\u00e3o institucional, da pol\u00edtica imperial e de um modelo econ\u00f4mico escravocrata. Ao longo da vida, Paulo se transfigura: de judeu perseguidor contumaz das comunidades crist\u00e3s, a um apaixonado mission\u00e1rio de Jesus Cristo e do seu Evangelho. Paulo se descobriu chamado por Deus, \u201cnosso Pai\u201d, desde o ventre materno (Cf. Gl 1,15), assim como o profeta Jeremias e outros profetas e profetisas, ele descobriu a voca\u00e7\u00e3o de ser \u2018ap\u00f3stolos dos gentios\u2019, considerados pag\u00e3os e deserdados (Cf. Gl 1,16). Paulo aprendeu a amar radicalmente as pessoas das comunidades fundadas ou animadas por ele, como a m\u00e3e que, por amor, enfrenta as dores de parto, pois sabe que gerar\u00e1 um\/a filho\/a muito amado\/a: \u201c<em>Meus filhos, sofro novamente como que dores de parto, at\u00e9 que Cristo esteja formado em voc\u00eas<\/em>\u201d (Gl 4,19).<\/p>\n\n\n\n<p>Inserida no Segundo Testamento ap\u00f3s as tr\u00eas primeiras Cartas: a escrita aos Romanos e as duas endere\u00e7adas aos Cor\u00edntios, a Carta aos G\u00e1latas, com seis cap\u00edtulos, n\u00e3o \u00e9 menos importante e nem menos eloquente que nenhuma outra carta paulina. Dirigida n\u00e3o apenas a uma comunidade, mas a v\u00e1rias, da mesma regi\u00e3o, essa Carta foi escrita por um Paulo profundamente indignado e irado diante das cal\u00fanias e ataques que \u201cfalsos irm\u00e3os\u201d lhe desferiram pelas costas. Eles divulgaram no ambiente eclesial da regi\u00e3o da Gal\u00e1cia, que ele n\u00e3o era Ap\u00f3stolo. E acrescentaram que todos os fi\u00e9is, inclusive os <em>n\u00e3o-judeus<\/em> deveriam se circuncidar e cumprir a Lei judaica, como condi\u00e7\u00e3o para participar das comunidades crist\u00e3s. Essas acusa\u00e7\u00f5es e esses questionamentos ao Evangelho por ele anunciado, n\u00e3o atingiam apenas Paulo, mas, caso n\u00e3o fossem desmentidos, poderiam implodir as comunidades crist\u00e3s que se inspiravam no ensinamento e testemunho de Paulo. Em contexto de diversas tend\u00eancias e posi\u00e7\u00f5es na evangeliza\u00e7\u00e3o, que vinham desde o desentendimento entre Paulo e Pedro em Antioquia (Cf. Gl 2,14) e por causa do conflito com &#8220;falsos irm\u00e3os&#8221; (Cf. Gl 2,4), G\u00e1latas \u00e9 uma Carta de resist\u00eancia e de luta contra os ataques sofridos por Paulo. Tudo isso afetava as bases da vida em comunidade, a luta pela supera\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es sociais escravizantes e a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es objetivas que viabilizassem rela\u00e7\u00f5es diferentes: de liberdade, de equidade e de respeito \u00e0 dignidade da pessoa humana. A Carta aos G\u00e1latas nos convida \u00e0 supera\u00e7\u00e3o de uma vida crist\u00e3 fundamentalista, presa ao ritualismo, ao espiritualismo moralista, religi\u00e3o do consolo e da autoajuda \u2013 e conclama-nos ao compromisso radical com o Evangelho de Jesus. Esta \u00e9 a Boa Nova que defende a causa de todos\/as os\/as escravizados\/as da hist\u00f3ria e exige que abracemos, pelo nosso modo de vida, um estilo simples e austero, uma op\u00e7\u00e3o de classe. Exige ainda que batalhemos, ao lado dos empobrecidos, na luta pela conquista de seus direitos: \u00e0 terra, ao teto, ao trabalho com sal\u00e1rio justo, ao meio ambiental sustent\u00e1vel e \u00e0 supera\u00e7\u00e3o de todos os preconceitos e discrimina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Que tipo de f\u00e9 Paulo assimilou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Paulo se sentia Ap\u00f3stolo, n\u00e3o conforme a institui\u00e7\u00e3o religiosa hegem\u00f4nica, (como seria a Comunidade de Jerusal\u00e9m, os Doze Ap\u00f3stolos e os familiares de Jesus), mas autorizado <em>diretamente <\/em>por Jesus Cristo e por Deus, que ele compreendia como \u201cnosso Pai\u201d (Cf. Gl 1,3) e como quem ressuscitou Jesus Cristo (Cf. Gl 1,1), o qual \u00e9 o \u201cSenhor\u201d de nossas vidas. Afirmar Jesus Cristo como Senhor (<em>Kyrios<\/em>, em grego) \u00e9 algo tremendamente subversivo e revolucion\u00e1rio, pois \u201cSenhor\u201d, no Imp\u00e9rio Romano, era o imperador divinizado. Sustentar que \u2018Senhor de nossas vidas\u2019 \u00e9 Jesus Cristo, aquele <em>fora da lei<\/em>, <em>transgressore subversivo<\/em> condenado \u00e0 morte pela pena mais execr\u00e1vel, a crucifix\u00e3o, era \u2018cutucar com vara curta\u2019 o divinizado imperador romano e assumir o risco de sofrer a mesma condena\u00e7\u00e3o do galileu Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo \u00e9 elo vivo de um movimento comunit\u00e1rio de resist\u00eancia: \u201c<em>eu e todos os irm\u00e3os que est\u00e3o comigo<\/em>\u201d (Gl 1,2) e que s\u00e3o os autores da Carta aos G\u00e1latas. Segundo Paulo, Jesus n\u00e3o quis nos tirar do mundo, mas \u201c<em>do mundo mau<\/em>\u201d (Gl 1,4), ou seja, de um mundo com rela\u00e7\u00f5es sociais escravistas e alienadoras. Paulo abomina a ideia de \u201c<em>v\u00e1rios evangelhos<\/em>\u201d (Cf. Gl 1,6-7), como se fosse poss\u00edvel <em>moldar<\/em> o Evangelho de Jesus Cristo segundo interesses de classe e <em>domestic\u00e1-lo<\/em> para justificar posturas hip\u00f3critas e c\u00famplices das rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o. As comunidades crist\u00e3s n\u00e3o podem se reduzir a um grande guarda-chuva que abriga \u201c<em>gregos e troianos<\/em>\u201d, opressores e oprimidos, cada um\/a com o tipo de religiosidade que lhe agrada. Esse relativismo \u00e9 fulminado por Paulo. De forma enf\u00e1tica, ele afirma: \u201c<em>N\u00e3o existe outro Evangelho<\/em>\u201d (Gl 1,7), al\u00e9m do de Jesus Cristo, revelado a ele nas entranhas das rela\u00e7\u00f5es humanas conflituosas (Cf. Gl 1,12). \u201c<em>Maldito quem anunciar a voc\u00eas um evangelho diferente do que anunciamos<\/em>\u201d (Gl 1,8-9). Paulo faz perguntas inquietantes: \u201c<em>Busco aprova\u00e7\u00e3o dos homens ou de Deus? Procuro agradar aos homens<\/em>?\u201d (Gl 1,10). \u00c9 claro que aqui Paulo n\u00e3o se refere a todo e qualquer homem, toda e qualquer pessoa humana, mas certamente n\u00e3o busca a aprova\u00e7\u00e3o dos homens de poder, dos que sustentam e reproduzem rela\u00e7\u00f5es sociais escravocratas. Paulo tamb\u00e9m n\u00e3o aceita adocicar o Evangelho de Jesus Cristo para \u201c<em>agradar aos homens<\/em>\u201d, seja os que est\u00e3o no poder, seja o pov\u00e3o alienado e escravizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo n\u00e3o abre m\u00e3o da verdade, mesmo sabendo que a verdade liberta, mas d\u00f3i. \u201c<em>Ser\u00e1 que me tornei inimigo, s\u00f3 porque lhes disse a verdade?<\/em>\u201d (Gl 4,16). \u201c<em>Quem foi que colocou obst\u00e1culo para que voc\u00eas n\u00e3o obede\u00e7am mais \u00e0 verdade?<\/em>\u201d (Gl 5,7). Lamentavelmente, muitas pessoas, para manter as amizades aparentes, preferem n\u00e3o dizer a verdade que precisa ser dita, fazem \u2018pol\u00edtica da boa vizinhan\u00e7a\u2019, se omitem e se tornam c\u00famplices ao n\u00e3o refutar mentiras\/fake news, se precavendo para n\u00e3o melindrar rela\u00e7\u00f5es de amizade hip\u00f3crita. Paulo n\u00e3o se pauta por esse caminho c\u00f4modo, mas est\u00fapido e reprodutor de mentiras que corroem as rela\u00e7\u00f5es sociais deixando imperar mentiras. Paulo \u00e9 aut\u00eantico e exige autenticidade nas rela\u00e7\u00f5es humanas como condi\u00e7\u00e3o \u2018<em>sine qua non\u2019<\/em> para se colocar em pr\u00e1tica o Evangelho de Jesus Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo se entende como \u201c<em>servo de Cristo<\/em>\u201d (Gl 1,10), que \u00e9 servo de Deus. Mas como Jesus Cristo se tornou servo de Deus? Diz certo tipo de senso comum que Jesus Cristo \u00e9 servo de Deus, porque \u2018morreu por nossos pecados para nos salvar\u2019. H\u00e1 pessoas ing\u00eanuas que exclamam: \u201cQue bom que Jesus morreu para nos salvar!\u201d Como compreender esta afirma\u00e7\u00e3o? Temos que fazer alguns questionamentos interpelantes: Como \u00e9 poss\u00edvel que Deus aceite uma v\u00edtima no lugar de outro transgressor? \u00c9 justo um transgredir e outro ser punido? Como \u00e9 poss\u00edvel que Deus possa aceitar os sacrif\u00edcios enquanto tais e justificar rela\u00e7\u00f5es humanas que ferem a alian\u00e7a com Deus? Admitir que, em um rito est\u00e1 o poder de substituir uma rela\u00e7\u00e3o humana real por outra comercial, contribui para qu\u00ea? Admitir isso n\u00e3o seria \u2018dar um jeitinho\u2019 para driblar a eventual ira de Deus? N\u00e3o seria tentar barganhar com Deus para se salvar? O Deus no qual acreditamos: Deus solid\u00e1rio e libertador, Deus da Vida e da Liberdade de todos\/as n\u00e3o \u00e9 s\u00e1dico e nem masoquista. Mas Jesus ter doado sua vida por n\u00f3s n\u00e3o substitui a necessidade de doarmos nossa vida, como fez o mestre galileu. Pelo fato de ter morrido na cruz, Jesus n\u00e3o tira automaticamente nossos pecados. Jesus se faz solid\u00e1rio aos\/\u00e0s sofredores\/as e injusti\u00e7ados\/as para nos indicar o caminho a ser trilhado rumo \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o, voca\u00e7\u00e3o de todos\/as. Quanto mais nos humanizarmos mais estaremos caminhando rumo \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o\/salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo percebe que a quest\u00e3o de impor a circuncis\u00e3o aos n\u00e3o-judeus e o respeito \u00e0 Lei judaica n\u00e3o se reduz apenas a quest\u00e3o de observ\u00e2ncia da tradi\u00e7\u00e3o, mas que o atrelamento \u00e0s quest\u00f5es da tradi\u00e7\u00e3o judaica era meio de continuar garantindo a escraviza\u00e7\u00e3o do povo, roubando-lhe as condi\u00e7\u00f5es que viabilizam a liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em G\u00e1latas, Paulo est\u00e1 em sintonia com a fina flor da experi\u00eancia b\u00edblica segundo a qual \u201c<em>Deus n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas<\/em>\u201d (Gl 2,6; At 10,34), n\u00e3o discrimina ningu\u00e9m, ama a todos\/as independente de classe, etnia, g\u00eanero ou orienta\u00e7\u00e3o sexual. Todas as pessoas s\u00e3o imagem e semelhan\u00e7a de Deus (Gn 1,26-27) e todas as criaturas \u2013 seres vivos \u2013 s\u00e3o \u201c<em>muito boas<\/em>\u201d (Gn 1,31), ou seja, s\u00e3o sagradas, a luz e a for\u00e7a divina permeiam e perpassam toda a realidade. O autor de Atos dos Ap\u00f3stolos diz: \u201c<em>Deus n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o entre as pessoas. Deus aceita quem pratica a justi\u00e7a, independente do povo a que pertence<\/em>\u201d (At 10,34-35). Segundo Atos dos Ap\u00f3stolos, Pedro, passando fome no meio dos impuros \u2013 Sim\u00e3o, em miss\u00e3o fora de Jerusal\u00e9m, estava na casa de outro Sim\u00e3o, um curtidor de couro (At 10,43), profiss\u00e3o considerada a mais impura de todas \u2013 faz a experi\u00eancia, por meio de uma vis\u00e3o, de que para Deus n\u00e3o h\u00e1 nada impuro. \u201c<em>N\u00e3o chame de impuro o que Deus purificou<\/em>\u201d (At 10,15), isto \u00e9, tudo \u00e9 sagrado. Em algum momento da sua vida, o ap\u00f3stolo Pedro deve ter vivido esta experi\u00eancia que o fez se libertar das amarras do juda\u00edsmo enrijecido, tanto \u00e9 que terminou martirizado, segundo a tradi\u00e7\u00e3o da igreja, como Jesus e Paulo. Entretanto, historicamente \u00e9 mais prov\u00e1vel que o ap\u00f3stolo Paulo, na d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo I, tenha vivenciado esta experi\u00eancia antes de Pedro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Paulo e Pedro em Atos dos Ap\u00f3stolos e nas Cartas Paulinas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Escrevendo uns 30 anos ap\u00f3s a Carta aos G\u00e1latas, o autor de Atos dos Ap\u00f3stolos, sob o impacto dram\u00e1tico da expuls\u00e3o de crist\u00e3os e crist\u00e3s das sinagogas, nos anos 80, busca promover e favorecer a unidade entre crist\u00e3os e judeus e, acima de tudo, busca provar que os crist\u00e3os n\u00e3o eram sect\u00e1rios e nem separatistas. Nesta inten\u00e7\u00e3o, em Atos dos Ap\u00f3stolos, Pedro \u00e9 paulinizado e Paulo \u00e9 petrinizado, ou seja, o autor de Atos dos Ap\u00f3stolos credita a Pedro fatos que, historicamente, devem ter acontecido primeiro com Paulo, como os Atos de Pedro narrados no cap\u00edtulo 10 de Atos dos Ap\u00f3stolos. Pedro defende as propostas de Paulo no Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m e advoga, em conson\u00e2ncia com Paulo e Barnab\u00e9, a supera\u00e7\u00e3o da circuncis\u00e3o, a maior barreira e fardo pesad\u00edssimo que os \u201cfalsos irm\u00e3os\u201d insistiam em impor sobre as comunidades da Gal\u00e1cia, de Antioquia, em suma: do mundo helenista.&nbsp; O autor de Atos dos Ap\u00f3stolos mostra Pedro como um grande mission\u00e1rio \u201c<em>percorrendo todos os lugares<\/em>\u201d (At 9,32): Lida Jope, Cesareia e outros locais. Chega a caracterizar Pedro como \u201c<em>ap\u00f3stolos das na\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d (At 15,7). Por\u00e9m, historicamente, bem antes de Pedro, Paulo \u00e9 quem deve ter sido chamado o \u201cap\u00f3stolo dos gentios\u201d, dos de fora, dos considerados b\u00e1rbaros. Para dirimirmos contradi\u00e7\u00f5es aparentes existentes entre Atos dos Ap\u00f3stolos e as Cartas Paulinas \u00e9 sensato seguir o princ\u00edpio segundo o qual as Cartas Paulinas t\u00eam mais consist\u00eancia hist\u00f3rica do que Atos dos Ap\u00f3stolos, pois foram escritas cerca de 30 anos antes de Atos e tamb\u00e9m por serem cartas. Atos dos Ap\u00f3stolos s\u00e3o, acima de tudo, <em>Teologia da Hist\u00f3ria<\/em> e jamais <em>Hist\u00f3ria das Primeiras Comunidades Crist\u00e3s<\/em>. Podemos atribuir algum valor hist\u00f3rico a informa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em Atos dos Ap\u00f3stolos apenas em casos sobre os quais n\u00e3o h\u00e1 qualquer informa\u00e7\u00e3o em nenhuma carta paulina. Assim, por exemplo, as restri\u00e7\u00f5es apresentadas no final de Atos dos Ap\u00f3stolos, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da circuncis\u00e3o, n\u00e3o devem ter sido dos anos 49\/50 quando parece ter acontecido uma reuni\u00e3o entre Paulo, Barnab\u00e9, Pedro, Tiago e Jo\u00e3o, em Jerusal\u00e9m, segundo G\u00e1latas 2,1-10, reuni\u00e3o que o autor de Atos dos Ap\u00f3stolos, 30 anos depois, narra como tendo sido uma Assembleia ampliada. Segundo o autor de Atos, nesta Assembleia ampliada, a circuncis\u00e3o foi abolida, com algumas condi\u00e7\u00f5es: \u201c<em>abster-se de carnes sacrificadas aos \u00eddolos, do sangue, das carnes sufocadas e das uni\u00f5es ileg\u00edtimas<\/em>\u201d (At 15,29). Estas restri\u00e7\u00f5es devem ser dos anos 80 e impostas, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o de Tiago, o irm\u00e3o de Jesus e que tinha sido l\u00edder da Igreja M\u00e3e, em Jerusal\u00e9m, nos in\u00edcios. Em G\u00e1latas, Paulo, faz quest\u00e3o de enfatizar que Pedro, Jo\u00e3o e Tiago \u201c<em>pediram apenas que nos lembr\u00e1ssemos dos pobres, e isso eu tenho procurado fazer com muito cuidado<\/em>\u201d (Gl 2,10).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se sustenta a interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica, com aspecto dualista, segundo a qual Lucas, em Atos dos Ap\u00f3stolos, faz uma \u2018Teologia da Gl\u00f3ria\u2019 e Paulo, em suas cartas, faz \u2018Teologia da Cruz\u2019, abrindo brecha para se concluir que Lucas <em>esquecia<\/em> o Cristo Crucificado e Paulo <em>esquecia<\/em> o Cristo Ressuscitado. Em um olhar mais atento, observamos que Lucas, em Atos dos Ap\u00f3stolos, n\u00e3o <em>esquece<\/em> a cruz: \u201c<em>Depois da sua paix\u00e3o<\/em>\u201d (At 1,3), enfatiza o sofrimento de Jesus e as apari\u00e7\u00f5es de modo convincente (Cf. Lc 24,38-43). Em Lucas, o Cristo Ressuscitado n\u00e3o aparece vindo da Gl\u00f3ria, mas <em>de baixo para cima<\/em>: \u201c<em>Porventura n\u00e3o convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua gl\u00f3ria?<\/em>\u201d (Lc 24,26). Logo, dizer que em Atos dos Ap\u00f3stolos est\u00e1 uma Teologia da Gl\u00f3ria, em contraposi\u00e7\u00e3o a uma Teologia da Cruz (das Cartas paulinas) n\u00e3o condiz muito com a Teologia Lucana. Atos dos Ap\u00f3stolos afirma uma Teologia da Gl\u00f3ria, do Jesus Cristo Ressuscitado, a partir de uma Teologia da Cruz, subjacente. Lucas n\u00e3o nega a cruz e enfatiza que a Ressurrei\u00e7\u00e3o brota a partir do assumir radicalmente o projeto de Deus, o que implica passar pelo mart\u00edrio sofrido por Jesus Cristo e por muitos outros disc\u00edpulos de Deus e de Cristo. Por outro lado, n\u00e3o condiz com a Teologia Paulina dizer que Paulo faz uma Teologia da Cruz ignorando uma Teologia da Gl\u00f3ria. Paulo enfatiza o Cristo Crucificado, mas em momento algum, diminui a import\u00e2ncia da f\u00e9 em Jesus Cristo Ressuscitado. A diferen\u00e7a \u00e9 s\u00f3 da \u00eanfase, requerida pelos contextos diferentes em que atuavam o ap\u00f3stolo Paulo e, uns 30 anos depois, o autor de Atos dos Ap\u00f3stolos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. Em G\u00e1latas: Op\u00e7\u00e3o pelos Pobres e postura anti-escravid\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Paulo busca manter a unidade entre as comunidades em uma imensa diversidade, mas assevera que a Op\u00e7\u00e3o pelos Pobres \u00e9 inegoci\u00e1vel. \u201c<em>N\u00e3o esque\u00e7am os pobres!<\/em>\u201d (Gl 2,10), Paulo chega a colocar isso na boca dos chefes da Igreja de Jerusal\u00e9m. Mais adiante, ao longo da sua argumenta\u00e7\u00e3o buscando sempre afirmar a liberdade diante de tudo o que escraviza, Paulo afirma de forma lapidar: \u201c<em>N\u00e3o h\u00e1 mais diferen\u00e7a entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos voc\u00eas s\u00e3o um s\u00f3 em Jesus Cristo<\/em>\u201d (Gl 3,28).<\/p>\n\n\n\n<p>Na Carta aos G\u00e1latas transparece de forma muito forte Paulo reprovando a realidade de escravid\u00e3o, tanto das rela\u00e7\u00f5es sociais escravocratas do imp\u00e9rio romano, quanto da escravid\u00e3o em que tinha se tornado a Lei judaica sendo imposta inclusive sobre os n\u00e3o-judeus. Paulo repete v\u00e1rias vezes as palavras \u2018escravo\u2019, \u2018escrava\u2019 e \u2018escravid\u00e3o\u2019 ao longo da Carta aos G\u00e1latas, para enfatizar que:<\/p>\n\n\n\n<p>a) est\u00e1 abolida a diferen\u00e7a entre escravo e livre (Gl 3,28);<\/p>\n\n\n\n<p>b) quem est\u00e1 agarrado \u00e0 Lei judaica continua escravizado;<\/p>\n\n\n\n<p>c) \u201c<em>\u00e9ramos escravos<\/em>\u201d (Gl 4,1. 3);<\/p>\n\n\n\n<p>d) \u201c<em>voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 escravo, mas filho<\/em>\u201d (Gl 4,7);<\/p>\n\n\n\n<p>e) \u201c<em>voc\u00eas foram escravos de deuses<\/em>\u201d (Gl 4,8);<\/p>\n\n\n\n<p>f) \u201c<em>voc\u00eas querem recair na escravid\u00e3o?<\/em>\u201d (Gl 4,9);<\/p>\n\n\n\n<p>g) na hist\u00f3ria houve \u201c<em>filhos da escrava Agar gerados para a escravid\u00e3o<\/em>\u201d (Gl 4, 22-25);<\/p>\n\n\n\n<p>h) \u201c<em>Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres. Portanto, fiquem firmes e n\u00e3o se submetam de novo ao jugo da escravid\u00e3o!<\/em>\u201d (Gl 5,1).<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo revela que o ego\u00edsmo e o individualismo estimulados pela ideologia dominante de uma sociedade escravocrata \u00e9 um caminho suicida, pois leva \u201c<em>todos a se morderem e a se devorarem uns aos outros e at\u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua<\/em>\u201d (Gl 5,15). Como intelectual de alto quilate, Paulo n\u00e3o fazia uma an\u00e1lise ing\u00eanua, nem idealista, nem rom\u00e2ntica da realidade conflituosa na qual os crist\u00e3os e as crist\u00e3s das comunidades da Gal\u00e1cia viviam. Certamente, Paulo percebia tamb\u00e9m que n\u00e3o apenas com solidariedade e cuidado dos pobres se superariam as rela\u00e7\u00f5es sociais escravocratas estimuladas aos quatro ventos pela ideologia dominante do imp\u00e9rio romano e tamb\u00e9m por express\u00f5es religiosas e culturais que pavimentavam o caminho para a reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais. Al\u00e9m de cuidar dos pobres, sendo solid\u00e1rio\/a \u00e9 preciso enfrentar os lobos vorazes e cru\u00e9is, muitas vezes, travestidos de bons samaritanos, seja no mundo da pol\u00edtica, da economia ou da religi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em G\u00e1latas, Paulo afirma \u00e0 exaust\u00e3o que todas as pessoas s\u00e3o livres e devem se comportar como pessoas libertadas e jamais recair nas garras de nenhum tipo de escraviza\u00e7\u00e3o. Paulo terminou sendo martirizado, porque quanto mais radicalizava sua miss\u00e3o mais revelava a incompatibilidade entre o projeto defendido por ele a partir da f\u00e9 em Jesus Cristo e o projeto imperial ecoado pelos arautos da ideologia imperial. Ontem, o imp\u00e9rio romano e as religi\u00f5es domesticadas que serviam aos interesses da classe dos de cima. Atualmente, o sistema capitalista que, de mil formas, empobrece, violenta e mata o povo, a m\u00e3e terra, as fontes de \u00e1gua e todos os ecossistemas. O ap\u00f3stolo Paulo, nos dias de hoje, no nosso meio, certamente diria que enquanto perdurar a estrutura fundi\u00e1ria pautada no latif\u00fandio e no agroneg\u00f3cio com pol\u00edtica econ\u00f4mica capitalista neocolonial, com Estado subserviente aos interesses das grandes mineradoras e do grande empresariado do campo e da cidade, n\u00e3o teremos a supera\u00e7\u00e3o da pobreza, da fome, da mis\u00e9ria e de tantas escraviza\u00e7\u00f5es que se reproduzem cotidianamente e explodem em cenas dram\u00e1ticas, por meio do feminic\u00eddio, do racismo estrutural, da homofobia, de express\u00f5es religiosas burguesas que desencarnam a f\u00e9 crist\u00e3, espiritualizam a mord\u00eancia hist\u00f3rica de Deus que, por amor infinito, assumiu a condi\u00e7\u00e3o humana em Jesus Cristo. Portanto, acolher a mensagem do ap\u00f3stolo Paulo na Carta aos G\u00e1latas implica em se comprometer com todas as lutas libert\u00e1rias justas e necess\u00e1rias da atualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo n\u00e3o quer somente fraternidade &#8220;espiritual&#8221; ou de amizade, mas exige principalmente fraternidade econ\u00f4mica<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>, pol\u00edtica e cultural. N\u00e3o agrada ao Esp\u00edrito de Deus pessoas que se encontram para a Eucaristia aos domingos, mas que durante a semana s\u00e3o umas opressoras das outras. Paulo quer superar as oposi\u00e7\u00f5es de classes. Se ricos e pobres, judeus e n\u00e3o-judeus, homens e mulheres, trabalhadores e patr\u00f5es&#8230; comem em lugares diferentes, moram em casas de qualidades muito diferentes, o cristianismo ter\u00e1 um conte\u00fado diferente para cada grupo e n\u00e3o haver\u00e1 realmente uma comunh\u00e3o. \u00c9 hip\u00f3crita e c\u00ednica uma comunidade e sociedade na qual uns poucos se banqueteiam enquanto a maioria passa fome, na qual uns t\u00eam casas pr\u00f3prias luxuosas e a maioria geme debaixo da pesad\u00edssima cruz de alugu\u00e9is ou da humilha\u00e7\u00e3o que \u00e9 sobreviver morando de favor na casa de parentes. Sociedade e comunidade na qual uns recebem remunera\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias enquanto milh\u00f5es sobrevivem somente com o sal\u00e1rio m\u00ednimo ou com migalhas do trabalho informal. \u00c9 escravocrata uma sociedade na qual uns vivem luxuosamente enquanto milhares sobrevivem do\/no lixo; na qual uns det\u00eam o muito poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico, midi\u00e1tico e religioso e as massas s\u00e3o subjugadas. Igrejas que se apegam ao poder e com ele se casam, trocaram o Evangelho por uma alian\u00e7a com a mentira, coisa diab\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em G\u00e1latas, Paulo defende uma comunh\u00e3o eclesial que seja antes de tudo comunh\u00e3o integral, fruto de condi\u00e7\u00f5es materiais que garantam os corpos estarem lado a lado, com respeito \u00e0 dignidade de todos\/as, e comendo da mesma comida, partilhando alegrias e ang\u00fastias. Paulo nos faz recordar o padre Alfredinho, da Fraternidade do Servo Sofredor, que gostava de dizer: \u201c<em>Os ricos se salvar\u00e3o quando aprenderem a passar fome<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na comunidade de Jerusal\u00e9m, quando a distribui\u00e7\u00e3o se tornou maior do que a entrada ou a produ\u00e7\u00e3o de recursos, chegou uma hora em que os bens acabaram e a fome se generalizou. Sem produ\u00e7\u00e3o suficiente, n\u00e3o se pode consumir e\/ou distribuir. Em contexto de aumento da pobreza e de muita gente passando fome, sob a lideran\u00e7a do ap\u00f3stolo Paulo e Barnab\u00e9, o esp\u00edrito de comunidade nascido da f\u00e9 em Jesus Cristo levou comunidades crist\u00e3s de outras regi\u00f5es a fazerem doa\u00e7\u00f5es para minorar a fome dos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Isto era tamb\u00e9m uma express\u00e3o de unidade. O fato de pensar diferente n\u00e3o era motivo para \u2018lavar as m\u00e3os\u2019 como Pilatos diante do sofrimento de outras pessoas e comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. Ontem, G\u00e1latas; hoje, n\u00f3s. \u201cE agora, Jos\u00e9?\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Paulo, em G\u00e1latas, aponta que quem deseja seguir a Jesus deve armar-se de disponibilidade para a cruz, ou seja, tornar pr\u00f3prias as disposi\u00e7\u00f5es daquele que o precede, identificando seu projeto com o do Mestre. Jesus n\u00e3o temeu ser considerado um fora-da-lei pela sociedade estabelecida. E seus seguidores: o que mais temem? Paulo nos convida a ver, na cruz injusta de cada um\/a de nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s, pr\u00f3ximo ou distante, um crime hediondo contra a humanidade e contra Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, terminamos este texto no qual buscamos pescar raios de luz e for\u00e7a para a caminhada crist\u00e3 pessoal e comunit\u00e1ria, apontando se n\u00e3o o maior, um dos maiores perigos da atualidade: <em>&#8220;Penso que o maior perigo para a Pedagogia de hoje est\u00e1 na arrog\u00e2ncia dos que sabem, na soberba dos propriet\u00e1rios de certezas, na boa consci\u00eancia dos moralistas de toda esp\u00e9cie, na tranquilidade dos que j\u00e1 sabem o que dizer a\u00ed ou o que se deve fazer e na seguran\u00e7a dos especialistas em respostas e solu\u00e7\u00f5es. Penso, tamb\u00e9m, que agora o urgente \u00e9 recolocar as perguntas, reencontrar as d\u00favidas e mobilizar as inquietudes.&#8221;<\/em> (LARROSA, Jorge. <em>Pedagogia profana: dan\u00e7as, piruetas e mascaradas. <\/em>Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2004. p. 8.)<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Este artigo est\u00e1 publicado no livro <strong>Carta aos G\u00e1latas: Evangelho segundo Paulo, para todos os tempos \u2013 Uma leitura da Carta aos G\u00e1latas feita pelo CEBI-MG<\/strong>; VV.AA; MOREIRA, Gilvander Lu\u00eds (Org.), CEBI-MG, Belo Horizonte, 2021, pp. 73-81.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP\/SP; mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico, em Roma, It\u00e1lia; agente e assessor da CPT\/MG, assessor do CEBI e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de Teologia b\u00edblica no SAB (Servi\u00e7o de Anima\u00e7\u00e3o B\u00edblica), em Belo Horizonte, MG; colunista dos sites <a href=\"http:\/\/www.domtotal.com\">www.domtotal.com<\/a> , <a href=\"http:\/\/www.brasildefatomg.com.br\">www.brasildefatomg.com.br<\/a> , <a href=\"http:\/\/www.revistaconsciencia.com\">www.revistaconsciencia.com<\/a> , <a href=\"http:\/\/www.racismoambiental.net.br\">www.racismoambiental.net.br<\/a> e outros. E-mail:&nbsp;<a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> &nbsp;\u2013&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &nbsp;\u2013&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a><em>Premiada<\/em>, antes de tudo por Deus e, em segundo lugar pelo reconhecimento da sociedade, de TODOS. Cabe a cada um de n\u00f3s <em>premiarmos,<\/em> com o <em>reconhecimento,<\/em> os gestos de partilha feitos por quem quer que seja \u2013 em favor dos desfavorecidos da sociedade. O reconhecimento p\u00fablico estimular\u00e1 mais pessoas a fazerem o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a>Dom Moacyr Grechi, ao investigar den\u00fancias de torturas de trabalhadores rurais b\u00f3ias-frias, disse: &#8220;<em>Quero uma reuni\u00e3o somente com os trabalhadores, pois junto com os patr\u00f5es eles n\u00e3o estar\u00e3o livres para dizer a verdade<\/em>.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>G\u00c1LATAS: &#8220;N\u00e3o esque\u00e7am os Pobres!&#8221; (Gl 2,10) e \u201cSejam livres!\u201d (Gl 5,13)[1] Por Frei Gilvander Lu\u00eds Moreira[2] CANTO DA CARTA AOS G\u00c1LATAS (M\u00fasica: \u201cQuando teu Pai revelou&#8230;:Waldeci Farias. 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