{"id":115,"date":"2011-11-22T09:44:13","date_gmt":"2011-11-22T11:44:13","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=115"},"modified":"2011-11-22T09:44:13","modified_gmt":"2011-11-22T11:44:13","slug":"ocupar-e-invadir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/ocupar-e-invadir\/","title":{"rendered":"Ocupar e Invadir &#8211; Dandara: Modelo para o mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Ocupar e invadir<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">de&nbsp;<\/span><\/span><\/span><\/span>Jo\u00e3o Paulo Cunha,<strong> <\/strong>editor de Cultura do Jornal Estado de Minas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A.S.: Ao lado de uma fotografia panor\u00e2mica, linda, da comunidade Dandara, com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cOcupa\u00e7\u00e3o Dandara, no C\u00e9u Azul, Regi\u00e3o da Nova Pampulha, em Belo Horizonte: MODELO PARA O MUNDO, o artigo, abaixo, de Jo\u00e3o Paulo Cunha, foi publicado no Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 19\/11\/2011, p. 2.<\/p>\n<p>  <!--more-->   <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Ocupar e invadir<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">de Jo\u00e3o Paulo Cunha, editor de Cultura do Jornal Estado de Minas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;\u201c<strong><em>Entre os gringos de Nova York e os sem casa do Brasil, h\u00e1 um mesmo gesto de contesta\u00e7\u00e3o: s\u00f3 a representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta<\/em><\/strong>.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;As palavras n\u00e3o s\u00e3o isentas, trazem carga emocional e pol\u00edtica, traduzem vis\u00f5es de mundo. O recente movimento Occupy Wall Street parece ter dado novo sentido \u00e0 palavra ocupa\u00e7\u00e3o. Se num pa\u00eds, que sempre foi modelo ideol\u00f3gico de liberdade, a popula\u00e7\u00e3o \u2013 principalmente os jovens \u2013 est\u00e1 nas ruas ocupando pra\u00e7as e centros simb\u00f3licos do poder econ\u00f4mico, h\u00e1 algo que precisa ser melhor entendido. Em primeiro lugar, a liberdade que serve aos prop\u00f3sitos econ\u00f4micos n\u00e3o tem a mesma tradu\u00e7\u00e3o quando se trata de manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Al\u00e9m disso, a aus\u00eancia de padr\u00e3o de conviv\u00eancia com as pessoas na rua mostra que a dimens\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia corrente na sociedade em que privatizar \u00e9 um ju\u00edzo moral positivo. Por fim, a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de discord\u00e2ncia deixa de ser pontual para ir ao cora\u00e7\u00e3o do sistema. N\u00e3o d\u00e1 mais para esperar o show da pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que os jovens de v\u00e1rias partes do mundo t\u00eam mostrado \u00e9 que a ilus\u00e3o do futuro ruiu. A crise nas economias ricas, com a diminui\u00e7\u00e3o do crescimento, parece mostrar que as bases da economia mundial n\u00e3o se sustentam mais. As pessoas perceberam que, mesmo que fa\u00e7am tudo como manda o figurino, nada est\u00e1 garantido. A mutipolariza\u00e7\u00e3o do mundo impede que as dificuldades sejam hoje exportadas. Durante d\u00e9cadas, as regras do mercado n\u00e3o davam aos pa\u00edses perif\u00e9ricos condi\u00e7\u00f5es de igualdade, o que fazia deles v\u00e1lvulas de escape dos dist\u00farbios centrais. Hoje, com mercados internos fortes e alian\u00e7as que passam ao largo das grandes economias, os pa\u00edses pobres e em desenvolvimento precisam se dar conta das pr\u00f3prias expectativas de crescimento e liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro fato que vai se tornando cada vez menos aceito \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o financeira da economia, como se a garantia a ser dada aos bancos e institui\u00e7\u00f5es insolventes fosse indispens\u00e1vel \u00e0 sa\u00fade de todo o sistema. Bancos passaram a ser vistos como de fato s\u00e3o: vendedores de cr\u00e9dito e cobradores de juros. E, muitas vezes, incompetentes, quando n\u00e3o criminosos, nas duas opera\u00e7\u00f5es: vendem o que n\u00e3o possuem e cobram al\u00e9m do razo\u00e1vel. Se por muito tempo as pessoas projetaram p\u00f4r o dinheiro para trabalhar a seu favor, hoje sabem que nada substitui a produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o emprego e a educa\u00e7\u00e3o se tornaram os grandes ativos de confiabilidade no mundo l\u00edquido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro mito que cai com a crise da economia \u00e9 a atra\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica entre democracia e desenvolvimento. O mundo ocidental patrocinou as mais cruentas ditaduras contempor\u00e2neas para preservar sua estrutura de ganhos. Escravizou popula\u00e7\u00f5es para preservar o suprimento de petr\u00f3leo e, quando a crise extrapolou a dimens\u00e3o meramente energ\u00e9tica e se revelou na contram\u00e3o de movimentos internos de liberdade, comemorou a liberta\u00e7\u00e3o de \u201cseus\u201d ditadores e ainda inventou que tudo s\u00f3 foi poss\u00edvel por causa do Facebook. As democracias ocidentais est\u00e3o na origem das ditaduras do Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica, e n\u00e3o no seu desenlace.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os jovens americanos e europeus ocupam pra\u00e7as e ruas est\u00e3o dando um passo \u00e0 frente, mas n\u00e3o inovam em termos de atitude pol\u00edtica. Ao sul do planeta, as ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia e contesta\u00e7\u00e3o ao modelo de concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. E n\u00e3o \u00e9 de hoje. Por isso \u00e9 interessante entender a dial\u00e9tica que parece opor palavras como ocupa\u00e7\u00e3o e invas\u00e3o. Atr\u00e1s delas est\u00e3o vis\u00f5es de mundo e interesses que apontam para formas tamb\u00e9m diferenciadas de se praticar a pol\u00edtica e o protagonismo social. Entre os gringos de Nova York e os sem casa de Belo Horizonte, h\u00e1 um mesmo gesto de contesta\u00e7\u00e3o: s\u00f3 a representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta. No limite, a possibilidade de conviver com a participa\u00e7\u00e3o direta \u00e9 o \u00edndice de democracia de um Estado liberal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><span style=\"color: #008000;\">&nbsp;<strong>Sem tudo<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;No Brasil, o significante \u201cinvas\u00e3o\u201d se relaciona com o crime, com o desrespeito \u00e0 propriedade privada, com a apropria\u00e7\u00e3o de bem demarcado em sua posse e sentido econ\u00f4mico. Os invasores tomam o que n\u00e3o \u00e9 deles, destroem a produ\u00e7\u00e3o, impedem a aplica\u00e7\u00e3o da lei e subvertem a no\u00e7\u00e3o de Justi\u00e7a. O invasor \u00e9 elemento que desestrutura aquilo que \u00e9 funcional: derruba p\u00e9s de laranja, quer trocar milh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os por uma feira de produtos org\u00e2nicos, estabelece padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o atendem \u00e0s necessidades externas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a da palavra invas\u00e3o encontra, no entanto, limites na pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o da lei, que defende, constitucionalmente (portanto acima de qualquer norma inferior) o valor social da propriedade. Al\u00e9m disso, a produ\u00e7\u00e3o extensiva de carne e gr\u00e3os no Brasil conflita n\u00e3o apenas com a l\u00f3gica da necessidade de alimentar a popula\u00e7\u00e3o (o que a soja transg\u00eanica n\u00e3o faz, j\u00e1 que ningu\u00e9m se alimenta de soja, a n\u00e3o ser carneiros e porcos), mas com a pr\u00f3pria ci\u00eancia contempor\u00e2nea e as diretrizes da sustentabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi em raz\u00e3o disso que os movimentos sociais, preocupados com a dimens\u00e3o simb\u00f3lica das palavras e de sua tradu\u00e7\u00e3o na vida social, assumiram a palavra \u201cocupa\u00e7\u00e3o\u201d, em lugar de invas\u00e3o. Quem ocupa tem como fundamento de seu ato a legalidade, a moralidade, a ci\u00eancia e a pol\u00edtica, todas no sentido mais alto: legalidade constitucional, moralidade p\u00fablica, ci\u00eancia contempor\u00e2nea e pol\u00edtica como express\u00e3o da liberdade, inclusive com a capacidade de assumir formas novas de relacionamento e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os (como a educa\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o prioridade nos assentamentos). Os sem terra brasileiros j\u00e1 fazem o movimento \u201cocupe\u201d h\u00e1 muitos anos e, n\u00e3o fosse isso, a estrutura inflex\u00edvel das rela\u00e7\u00f5es no campo n\u00e3o teria se mexido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossa cidade, Belo Horizonte, um movimento de ocupa\u00e7\u00e3o que merece destaque. Na regi\u00e3o da Nova Pampulha, o Dandara re\u00fane cerca de 4 mil pessoas, que vivem numa ocupa\u00e7\u00e3o \u201crururbana\u201d, em \u00e1rea desprezada h\u00e1 40 anos, e que s\u00f3 agora vem despertando o interesse de uma construtora que reclama sua posse, depois de deixar a \u00e1rea abandonada e sem qualquer forma de prote\u00e7\u00e3o. Organizada, com v\u00e1rios projetos fundados na solidariedade, a comunidade aponta para o d\u00e9ficit habitacional da cidade, hoje em torno de 200 mil unidades (cerca de 55 mil fam\u00edlias). A cidade tem 80 mil im\u00f3veis desocupados. A desapropria\u00e7\u00e3o do Dandara custa menos que um d\u00e9cimo das obras da Copa. E n\u00e3o deveria custar nada. O movimento vem sendo tratado com viol\u00eancia pelas autoridades, sendo sujeito de estrat\u00e9gias recorrentes de amea\u00e7a de uso da for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das originalidades da ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a uni\u00e3o dos princ\u00edpios das reformas agr\u00e1ria e urbana na mesma \u00e1rea. Hoje, a reforma agr\u00e1ria vai al\u00e9m da luta pela posse da terra para reivindicar novo modelo de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, sustent\u00e1vel e ecol\u00f3gico, apontando para bandeiras universais. Do mesmo modo, os movimentos por moradia despertaram para a cr\u00edtica da configura\u00e7\u00e3o urbana e de suas estrat\u00e9gias de especula\u00e7\u00e3o. Ao recorrer a um projeto coletivo, com sustenta\u00e7\u00e3o na economia solid\u00e1ria e na rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com outras formas de exerc\u00edcio da cidadania (inclusive na cultura), a ocupa\u00e7\u00e3o Dandara pode dar li\u00e7\u00f5es aos bem-intecionados jovens de Wall Street.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As fam\u00edlias na ocupa\u00e7\u00e3o Dandara sabem o que querem, mas vivem em situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria. O que parece que anda faltando \u00e9 ocupa\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias dos respons\u00e1veis pela quest\u00e3o, como a C\u00e2mara e a prefeitura da cidade, solertes em debater a verticaliza\u00e7\u00e3o mas cegas com o que anda ao r\u00e9s do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocupar e invadir de&nbsp;Jo\u00e3o Paulo Cunha, editor de Cultura do Jornal Estado de Minas. A.S.: Ao lado de uma fotografia panor\u00e2mica, linda, da comunidade Dandara, com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cOcupa\u00e7\u00e3o Dandara, no C\u00e9u Azul, Regi\u00e3o da<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-115","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=115"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}