{"id":11644,"date":"2022-12-20T15:26:36","date_gmt":"2022-12-20T18:26:36","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=11644"},"modified":"2022-12-20T15:26:38","modified_gmt":"2022-12-20T18:26:38","slug":"comunidade-dandara-exemplo-de-luta-por-dignidade-entrevista-com-frei-gilvander","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/comunidade-dandara-exemplo-de-luta-por-dignidade-entrevista-com-frei-gilvander\/","title":{"rendered":"Comunidade Dandara, exemplo de luta por dignidade. Entrevista com frei Gilvander"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Comunidade Dandara, exemplo de luta por dignidade. Entrevista com frei Gilvander Lu\u00eds Moreira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Dandara.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11645\" width=\"778\" height=\"519\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Dandara.jpg 526w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Dandara-300x200.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Dandara-420x280.jpg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Foto: Frei Gilvander Moreira<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>\u201cFelizes os que lutam por justi\u00e7a, dizia Jesus de Nazar\u00e9. No in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o, na cruz da&nbsp;Igreja de Dandara, um Jo\u00e3o de Barro construiu sua casa. O povo viu nisso um sinal do Deus da vida que dizia: \u2018sigam o exemplo do Jo\u00e3o de Barro. Construam suas casas\u2019\u201d, diz o Frei Gilvander Lu\u00eds Moreira.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista por e-mail \u00e0&nbsp;<strong>IHU On-Line<\/strong>, o frei Gilvander, como \u00e9 conhecido na <a href=\"http:\/\/www.ecodebate.com.br\/?s=Dandara\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Comunidade Dandara<\/strong><\/a>, fala sobre a&nbsp;<strong>ocupa\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong>de uma \u00e1rea de 315 mil metros quadrados a 28 quil\u00f4metros do centro de Belo Horizonte. O local que pertencia \u00e0&nbsp;<strong>Construtora Modelo<\/strong>&nbsp;e que devia R$ 2,2 milh\u00f5es em impostos, foi ocupado na madrugada de uma quinta-feira Santa, em abril de 2009, hoje abriga mais de 1.100 fam\u00edlias que lutam e defendem o direito \u00e0 moradia. O nome da comunidade,&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, \u00e9 em homenagem \u00e0 companheira de&nbsp;<strong>Zumbi dos Palmares<\/strong>, a estrategista que cuidava da seguran\u00e7a interna do<strong>&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/38583-deus-morto-no-pampa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quilombo de Palmares<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.ecodebate.com.br\/?s=Gilvander+Lu%C3%ADs+Moreira\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong><\/a>(foto abaixo) \u00e9 frei e padre carmelita. Bacharel e licenciado em Filosofia pela UFPR, fez teeologia no ITESP\/SP e mestrado em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma. \u00c9 doutorando em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG, assessor da CPT, Cebi, SAB e Via Campesina, em Minas Gerais. Autor dos livros<em>&nbsp;<\/em>Compaix\u00e3o-Miseric\u00f3rdia, uma espiritualidade que humaniza<em>&nbsp;<\/em>(S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1996) e Lucas-Atos: Teologia da Hist\u00f3ria (S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2004).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Como podemos compreender a ocupa\u00e7\u00e3o Dandara frente \u00e0 problem\u00e1tica pol\u00edtico-social de Belo Horizonte e de Minas Gerais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/27781-conflitos-agrarios-em-minas-gerais-as-ameacas-a-religiosa-e-ao-mst-entrevista-especial-com-frei-gilvander-moreira\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Minas Gerais continua sendo um estado conservador em termos de transforma\u00e7\u00f5es sociais<\/strong><\/a>. Por exemplo, no Rio Grande do Norte j\u00e1 existem 297 assentamentos de reforma agr\u00e1ria. Em Minas, apenas 300. Deveria ter, pelo tamanho do estado, no m\u00ednimo, 1.500 assentamentos. Cerca de um ter\u00e7o do territ\u00f3rio de Minas, estima-se, s\u00e3o de terras devolutas que est\u00e3o griladas nas m\u00e3os de grandes empresas eucaliptadoras. Assim, o \u00eaxodo rural tem sido intensificado ultimamente. O d\u00e9ficit habitacional em Belo Horizonte est\u00e1 em torno de 200 mil moradias. Em Minas Gerais, quase um milh\u00e3o de moradias. O prefeito de Belo Horizonte, M\u00e1rcio Lacerda (PSB\/PSDB\/DEM), no seu primeiro mandato, n\u00e3o fez nenhuma casa para fam\u00edlias de zero a tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos pelo programa Minha Casa Minha Vida. Al\u00e9m disso, Belo Horizonte \u00e9 a \u00fanica capital que n\u00e3o entregou ainda nenhuma casa por esse programa. Apenas no primeiro dia de cadastro para o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/516946-minha-casa-minha-vida-urbanizacao-sem-cidade-entrevista-especial-com-francini-hirata\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>programa Minha Casa Minha Vida<\/strong><\/a>, h\u00e1 quatro anos, 198 mil fam\u00edlias se inscreveram. No ritmo que a prefeitura est\u00e1 construindo casas populares, ser\u00e3o necess\u00e1rios 200 anos para zerar o d\u00e9ficil habitacional, caso ele n\u00e3o aumente. Uma injusti\u00e7a que clama aos c\u00e9us! Os pobres n\u00e3o podem viver no ar. Ainda existe lei da gravidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa injusti\u00e7a estrutural, de um Estado&nbsp;<strong>violentador dos direitos humanos<\/strong>, dois fatores, dentre outros, t\u00eam levado os empobrecidos \u00e0 luta:<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3419&amp;secao=339\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;<strong>a necessidade e o compromisso de centenas de jovens e adultos com a causa dos pobres<\/strong><\/a>. Por isso, na madrugada de 09-04-2009, uma quinta-feira da Semana Santa, cerca de 140 fam\u00edlias sem-terra e sem-casa, organizadas pelas Brigadas Populares e pelo MST, ocuparam, no bairro C\u00e9u Azul, regi\u00e3o da Nova Pampulha, em BH,<strong>&nbsp;um terreno abandonado h\u00e1 d\u00e9cadas, 315 mil metros quadrados&nbsp;<\/strong>(31,5 hectares), um latif\u00fandio urbano que n\u00e3o cumpria sua fun\u00e7\u00e3o social. O primeiro dia foi uma batalha \u00e1rdua e inesquec\u00edvel, mas o povo resistiu diante de centenas de policiais com armas nas m\u00e3os, com helic\u00f3ptero, c\u00e3es, balas de borracha etc. Ao anoitecer, quando a pol\u00edcia j\u00e1 tinha encurralado o povo em um dos cantos do terreno, na imin\u00eancia de fazer o despejo pela for\u00e7a militar, muitos jovens da Vila Bispo de Maura, comunidade de periferia existente ao lado, vieram em socorro \u00e0s fam\u00edlias da ocupa\u00e7\u00e3o Dandara e come\u00e7aram a jogar pedras nos policiais. Assim eles viraram as armas para os jovens da vila. A TV Record apareceu, filmou o conflito social e exibiu no jornal da TV Record. Na madrugada seguinte, come\u00e7aram a chegar novas&nbsp;<strong>fam\u00edlias que estavam crucificadas pelo aluguel<\/strong>&nbsp;\u2013 veneno que come no prato dos pobres \u2013 ou humilhadas pela sobreviv\u00eancia de favor em casa de parentes, implorando para serem aceitas na ocupa\u00e7\u00e3o. Foi organizada uma fila para o cadastramento. No quinto dia de&nbsp;<strong>ocupa\u00e7\u00e3o Dandara<\/strong>&nbsp;j\u00e1 havia 1.200 fam\u00edlias, o que levou a coordena\u00e7\u00e3o a iniciar o cadastro de uma fila de espera.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Como \u00e9 o cotidiano da Comunidade Dandara? Quais s\u00e3o as maiores dificuldades enfrentadas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 Dandara nasceu como ocupa\u00e7\u00e3o, mas hoje j\u00e1 \u00e9 uma comunidade, um assentamento rururbano, motivo da uni\u00e3o do<strong>&nbsp;MST com as Brigadas Populares<\/strong>. Essa proposta foi contemplada no Plano Urban\u00edstico elaborado, em di\u00e1logo com o povo de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, por&nbsp;<strong>arquitetos da UFMG e da PUC Minas<\/strong>. Na Dandara h\u00e1 a Avenida Dandara com 35 metros de largura, art\u00e9ria aorta da comunidade. Lotes de 128 metros quadrados e ruas com 10 metros de largura, tais como a rua Zilda Arns, rua Milton Santos, rua dos Palestinos, rua Pedro Pedreiro e Maria Diarista, rua Chico Mendes, avenida 9 de Abril, rua Das Flores etc., al\u00e9m da Av. Zumbi dos Palmares.<\/p>\n\n\n\n<p>O cotidiano de&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>\u00e9 de muita luta. Mais de 2 mil pessoas de Dandara trabalham como diaristas, faxineira, ajudante de pedreiro, pedreiro, mec\u00e2nico, motorista, vigia, na limpeza urbana, copeiras, cozinheiras, motoboy, camel\u00f4s, na economia informal. Nos dias das cinco marchas j\u00e1 feitas a p\u00e9, de&nbsp;<strong>Dandara at\u00e9 ao centro de BH<\/strong>, cerca de 28 quil\u00f4metros, muitas fam\u00edlias e empresas tomaram consci\u00eancia como e onde mora a sua for\u00e7a de trabalho. Al\u00e9m da luta fora de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, h\u00e1 a luta interna pela constante organiza\u00e7\u00e3o da comunidade. J\u00e1 est\u00e1 sendo discutida e planejada&nbsp;<strong>a cria\u00e7\u00e3o de um banco comunit\u00e1rio de Dandara<\/strong>, com moeda pr\u00f3pria, feira de Dandara, enfim, economia popular solid\u00e1ria. Mensalmente s\u00e3o realizadas assembleias gerais, e semanalmente acontecem reuni\u00f5es de grupos. Al\u00e9m disso, semanalmente \u00e9 feito e distribu\u00eddo, com a colabora\u00e7\u00e3o da Rede de Apoio, o&nbsp;<strong>Jornal de Dandara<\/strong>, que traz os principais informes e not\u00edcias importantes da (e para a) comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Quantas fam\u00edlias vivem em Dandara? Quantas casas foram constru\u00eddas e quantos barracos existem? Que outros estabelecimentos h\u00e1 no local?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 J\u00e1 s\u00e3o quase mil casas de alvenaria constru\u00eddas (ou em constru\u00e7\u00e3o), duas hortas comunit\u00e1rias e mais de 250 hortas em quintais, dois centros comunit\u00e1rios, uma Igreja Ecum\u00eanica. H\u00e1 tamb\u00e9m o Zumbis\u2019 Bar, a Padaria Dandara, a Mercearia Dandara e outros pequenos com\u00e9rcios. H\u00e1 espa\u00e7o para pra\u00e7as e campo de futebol j\u00e1 em projeto. Al\u00e9m de casas, Dandara est\u00e1 construindo muitas lideran\u00e7as de luta. Na comunidade vivem cerca de 1.100 fam\u00edlias, sendo que em algumas casas h\u00e1 duas fam\u00edlias. H\u00e1 ainda alguns barracos de madeira. S\u00e3o grupos que n\u00e3o conseguiram ainda construir suas moradias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Que pol\u00edticas p\u00fablicas est\u00e3o em vigor nessa comunidade? De que forma o poder p\u00fablico interage com a ocupa\u00e7\u00e3o Dandara?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 Muitas fam\u00edlias de Dandara est\u00e3o no<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/514825-bolsa-familia-bem-estar-e-boca-do-jacare\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>&nbsp;programa Bolsa Fam\u00edlia<\/strong><\/a>. As crian\u00e7as e adolescentes est\u00e3o estudando nas escolas p\u00fablicas da regi\u00e3o. No in\u00edcio, os postos de sa\u00fade e as escolas p\u00fablicas da regi\u00e3o se recusavam a receber os moradores de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, alegando que eles n\u00e3o tinham endere\u00e7o. Foi preciso&nbsp;<strong>muita luta e press\u00e3o para conquistar acesso ao SUS e \u00e0s escolas p\u00fablicas<\/strong>. O prefeito de BH, em uma postura intransigente, n\u00e3o aceita dialogar com a Comunidade Dandara. Refere-se ao povo de Dandara como invasores, aproveitadores e forasteiros, que, segundo ele, n\u00e3o merecem apoio da prefeitura, pois \u201cs\u00e3o fura fila\u201d \u2013 fila que \u00e9 uma cortina de fuma\u00e7a. Assim, Dandara n\u00e3o foi ainda reconhecida pela prefeitura de BH. Falta asfaltar as ruas, fazer saneamento. A Companhia de \u00e1gua e esgoto de MG \u2013 Copasa e a Companhia Energ\u00e9tica de MG \u2013 Cemig se escondem atr\u00e1s de um Termo de Ajuste de conduta \u2013 TAC , firmado entre Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas, prefeitura, Copasa e Cemig. O tal TAC, inconstitucional e contr\u00e1rio \u00e0 Lei Org\u00e2nica de BH, diz que Cemig e Copasa est\u00e3o proibidas de colocar \u00e1gua e energia em assentamentos irregulares. As migalhas de \u00e1gua e energia que chegam a Dandara s\u00e3o atrav\u00e9s de gato, liga\u00e7\u00f5es informais. Assim, falta \u00e1gua v\u00e1rias vezes durante o dia, cai a energia com muita frequ\u00eancia, o que provoca estragos em muitos aparelhos eletrodom\u00e9sticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Do governo estadual, o bra\u00e7o repressor \u2013 a pol\u00edcia \u2013 est\u00e1 sempre presente na<strong>&nbsp;Dandara<\/strong>. Reprimiu muito no in\u00edcio. Durante um ano e meio agiu de forma ilegal tentando impedir a entrada de materiais de constru\u00e7\u00e3o, mas o povo sabiamente foi driblando a pol\u00edcia e, como formiguinha, foi construindo suas casas. Hoje, a pol\u00edcia age em casos pontuais, como na manuten\u00e7\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea ambiental de Dandara, cerca de 30% do territ\u00f3rio. Importante dizer que na&nbsp;<strong>Comunidade Dandara<\/strong>, nos \u00faltimos 12 meses, n\u00e3o houve nenhum assassinato. O Samu, quando chamado, demora muito para chegar, o que j\u00e1 levou \u00e0 morte de uma mulher que esperou pelo servi\u00e7o por v\u00e1rias horas. Um trabalhador de Dandara, enquanto fazia liga\u00e7\u00e3o de energia por conta pr\u00f3pria para a comunidade, foi eletrocutado e caiu do poste morto. O corpo ficou oito horas na rua esperando o rabec\u00e3o do IML. A&nbsp;<strong>Defensoria P\u00fablica de Minas<\/strong>&nbsp;\u00e9 uma grande parceira de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>. Defende com muita compet\u00eancia a causa, atuando solidariamente com os advogados que, ali\u00e1s, defendem a comunidade gratuitamente. O mercado, interessado no poder econ\u00f4mico de Dandara, j\u00e1 reconhece a exist\u00eancia da comunidade. Um grande n\u00famero de empresas comerciais entrega mercadorias a domic\u00edlio, mas&nbsp;<strong>os Correios, empresa p\u00fablica que cuida de um servi\u00e7o essencial, n\u00e3o entregam as correspond\u00eancias na comunidade<\/strong>. Alega que o \u201cbairro Dandara\u201d deve ser primeiro reconhecido pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Que avan\u00e7os em termos de infraestrutura e servi\u00e7os j\u00e1 podem ser apontados em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 As fam\u00edlias de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, ap\u00f3s sobreviver quatro meses debaixo da lona preta, hoje, na quase totalidade, vivem em casas de alvenaria. A<strong>&nbsp;constru\u00e7\u00e3o da Igreja Ecum\u00eanica de Dandara<\/strong>&nbsp;est\u00e1 em fase de acabamento. O projeto urban\u00edstico de Dandara foi um dos quatro selecionados de Minas Gerais para participar da 9\u00aa Bienal Internacional de Arquitetura de S\u00e3o Paulo em 2011. Est\u00e1 sendo respeitado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;A participa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 decisiva em Dandara? Como se d\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o com pessoas de outros credos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 A<strong>&nbsp;Igreja Cat\u00f3lica tem participado da luta de Dandara<\/strong>. O arcebispo dom Walmor visitou a comunidade uma vez. Os bispos dom Alo\u00edsio e dom Joaquim Mol visitaram&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>e celebraram com a comunidade v\u00e1rias vezes. Dom Joaquim Mol e eu conversamos pessoalmente com a&nbsp;<strong>presidenta Dilma<\/strong>&nbsp;sobre Dandara pedindo o apoio do governo federal. Algumas freiras e v\u00e1rios seminaristas t\u00eam acompanhando pastoralmente a comunidade. V\u00e1rios col\u00e9gios cat\u00f3licos, tais como o Col\u00e9gio Santo Ant\u00f4nio e o Col\u00e9gio Santa Doroteia, t\u00eam ajudado muito e tamb\u00e9m aprendido muito. Al\u00e9m de pessoas religiosas,&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>&nbsp;conta com um significativo apoio de jovens universit\u00e1rios, do&nbsp;<strong>movimento estudantil<\/strong>, das&nbsp;<strong>Brigadas Populares<\/strong>, de&nbsp;<strong>militantes de movimentos sociais populares<\/strong>&nbsp;e com pessoas de boa vontade de BH, do Brasil e em mais de 50 pa\u00edses.&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>\u00e9 hoje conhecida e reconhecida internacionalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<strong>(neo) pentecostalismo<\/strong>&nbsp;est\u00e1 muito presente tamb\u00e9m. A luta ocorre de forma ecum\u00eanica, respeitando a f\u00e9 de cada pessoa. Na<strong>&nbsp;Igreja de Dandara<\/strong>, que tem o objetivo de ser ecum\u00eanica, poucas pessoas n\u00e3o cat\u00f3licas participam. Muitos frequentam outras igrejas que, \u00e0s vezes, animam a luta e, outras vezes, fomentam a religi\u00e3o da prosperidade e da satisfa\u00e7\u00e3o individual. H\u00e1 ainda igrejas, como a do \u201cap\u00f3stolo\u201d Valdomiro, que coloca \u00f4nibus aos domingos para levar o povo para \u201cadorar a Deus\u201d, dizem. As pessoas t\u00eam de estar atentas para o que dizem falsos pastores que usam os pobres, mas n\u00e3o os amam.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma conquista em 2012 foi a inclus\u00e3o da<strong>&nbsp;Comunidade Dandara<\/strong>&nbsp;nos quadros da Arquidiocese de Belo Horizonte. Hoje, a Comunidade Dandara pertence oficialmente \u00e0&nbsp;<strong>Arquidiocese de Belo Horizonte<\/strong>&nbsp;como uma das Comunidades da Par\u00f3quia Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, coordenada pelos padres da Congrega\u00e7\u00e3o Cavanis, que apoiam e animam a luta de Dandara.<br><strong><br>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Qual \u00e9 a fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e b\u00edblica para o apoio \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de terras como em Dandara?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 Dandara caminha na perspectiva da&nbsp;<strong>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong>, das&nbsp;<strong>Comunidades Eclesiais de Base&nbsp;<\/strong>\u2013&nbsp;<strong>CEBs<\/strong>&nbsp;e das<strong>&nbsp;Pastorais sociais<\/strong>. A&nbsp;<strong>Comiss\u00e3o Pastoral da Terra<\/strong>&nbsp;e a<strong>&nbsp;Pastoral da Crian\u00e7a<\/strong>&nbsp;t\u00eam atua\u00e7\u00e3o na comunidade. H\u00e1 in\u00fameras passagens b\u00edblicas que legitimam e animam a caminhada do povo empobrecido na luta pelos seus direitos. Nosso Deus \u00e9 Deus da vida e da liberdade, para todos e n\u00e3o apenas para uma minoria. Deus quer terra e moradia digna para todos e n\u00e3o s\u00f3 para a classe dominante. Ap\u00f3s 500 anos de escravid\u00e3o sob o imp\u00e9rio dos fara\u00f3s no Egito, ao partir para a liberdade, os hebreus empobrecidos chegaram diante do mar Vermelho e se viram encurralados. Na frente, o mar; detr\u00e1s, o ex\u00e9rcito do Fara\u00f3, querendo trazer o povo de volta para o cativeiro. Mois\u00e9s, ent\u00e3o, mandou o povo dar um passo adiante. O povo deu um passo adiante e o mar se abriu. Assim, na luta, os pobres sempre gritam \u201cmais um passo \u00e0 frente, nenhum passo atr\u00e1s. A hist\u00f3ria \u00e9 a gente que faz.\u201d Deus disse a Mois\u00e9s: pegue esta cobra pela cauda. Mois\u00e9s vacilou. Deus insistiu. Mois\u00e9s adquiriu coragem e pegou a cobra pela cauda. A cobra se transformou em um bast\u00e3o, com o qual Mois\u00e9s bateu no mar e o mar se abriu, bateu na rocha e dela saiu \u00e1gua. \u00c9 \u00f3bvio que isso n\u00e3o aconteceu tal como est\u00e1 na superf\u00edcie do texto, o que uma leitura fundamentalista sugere. Mas, o povo, de alguma forma, nas brechas da hist\u00f3ria, experimentou a companhia do Deus solid\u00e1rio e libertador. Assim aconteceu com Mois\u00e9s, com Mirian, as parteiras, Ar\u00e3o, os profetas e as profetisas e em muitas lutas libert\u00e1rias do passado. O que era obst\u00e1culo se transformou em instrumento de liberta\u00e7\u00e3o. Ao driblar a pol\u00edcia, astutamente, e construir mil casas de alvenaria, o mar foi aos poucos se abrindo para o povo de Dandara, como se abriu no tempo de Mois\u00e9s. Construir as casas em mutir\u00e3o em um terreno conquistado na for\u00e7a da uni\u00e3o \u00e9 construir sobre a rocha. A casa n\u00e3o cair\u00e1 se vier uma tempestade. Jesus ensinou e testemunhou que leis s\u00f3 devem ser obedecidas quando forem justas. N\u00e3o \u00e9 justo respeitar uma propriedade que n\u00e3o est\u00e1 cumprindo sua fun\u00e7\u00e3o social, enquanto milhares de pessoas est\u00e3o crucificadas pelo aluguel, melhor dizendo, pelo sistema do capital. O Deus da vida quer de n\u00f3s desobedi\u00eancia civil e religiosa. Felizes os que lutam por justi\u00e7a, dizia Jesus de Nazar\u00e9. No in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o, na cruz da<strong>&nbsp;Igreja de Dandara<\/strong>, um Jo\u00e3o de Barro construiu sua casa. O povo viu nisso um sinal do Deus da vida que dizia: \u201csigam o exemplo do Jo\u00e3o de Barro. Construam suas casas\u201d. O livro do profeta Isa\u00edas, ao narrar a utopia de um mundo novo e uma nova terra, diz: \u201cOs trabalhadores construir\u00e3o casas e nelas habitar\u00e3o\u201d (Cf. Isa\u00edas 65,17-25). Tr\u00eas dias ap\u00f3s duas crian\u00e7as morrerem carbonizadas na&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, o que gerou uma dor imensa para toda a fam\u00edlia dandarense, eis que apareceu um arco-\u00edris bel\u00edssimo sobre Dandara. Emocionadas, muitas pessoas de Dandara, disseram: \u201cDeus est\u00e1 nos visitando. Seremos vitoriosos.\u201d Com essas e muitas outras inspira\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, teol\u00f3gicas e marxistas, a luta de Dandara vem sendo escrita no ch\u00e3o duro da hist\u00f3ria.<br><strong><br>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Em que sentido \u00e9 considerado a fun\u00e7\u00e3o social da terra (propriedade) no apoio dessas lutas pela Igreja?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 A fun\u00e7\u00e3o social da propriedade rural e a fun\u00e7\u00e3o social da cidade, asseguradas na Constitui\u00e7\u00e3o e no Estatuto das Cidades, est\u00e3o em conson\u00e2ncia com as enc\u00edclicas sociais da Igreja que, ao defenderem a dignidade humana, exigem as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas necess\u00e1rias para que tal dignidade seja respeitada: terra e moradia para todos. A fun\u00e7\u00e3o social da terra tamb\u00e9m denuncia a terra como mercadoria, algo para especula\u00e7\u00e3o. Acima de tudo, terra e \u00e1gua s\u00e3o bens comuns, n\u00e3o podem ser privatizados.<br><strong><br>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Qual \u00e9 o papel das Brigadas Populares e do MST na ocupa\u00e7\u00e3o-comunidade Dandara no in\u00edcio do processo e atualmente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 Papel imprescind\u00edvel. As<strong>&nbsp;Brigadas Populares<\/strong>&nbsp;e o&nbsp;<strong>MST<\/strong>&nbsp;se irmanaram um ano antes e, conjuntamente, gestaram a ocupa\u00e7\u00e3o&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>. O&nbsp;<strong>MST<\/strong>, ap\u00f3s um ano e meio, n\u00e3o teve pernas para continuar cotidianamente na&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, mas continua hipotecando irrestrito apoio. Dia 16-10-2011, o MST trouxe 400 crian\u00e7as sem-terrinhas para participar do hist\u00f3rico&nbsp;<strong>Abra\u00e7o da Dandara<\/strong>. No processo judicial \u00e9 o MST que est\u00e1 como r\u00e9u. As<strong>&nbsp;Brigadas Populares<\/strong>, de m\u00e3os dadas com a Rede de Apoio, acompanha Dandara diariamente, suscitando sempre novas lideran\u00e7as e buscando empoderar as pessoas de Dandara. Muitas lideran\u00e7as constru\u00eddas na luta de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, hoje, s\u00e3o militantes das&nbsp;<strong>Brigadas&nbsp;<\/strong>e participam de muitas outras lutas em comunidades de periferia, em v\u00e1rias cidades. As<strong>&nbsp;Brigadas Populares<\/strong>&nbsp;s\u00e3o, hoje, uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional com grupos organizados em v\u00e1rias capitais e cidades.<br><strong><br>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Como a Comunidade Dandara reagiu \u00e0 decis\u00e3o do TJMG, de 19-02-2013, de manter os moradores na ocupa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 Com muita alegria, obviamente, e com a certeza de que sem luta n\u00e3o h\u00e1 conquista. No momento em que centenas de pessoas da<strong>&nbsp;5\u00aa Marcha de Dandara<\/strong>&nbsp;cantavam diante do TJMG: \u201c<em>Nossos direitos v\u00eam, nossos direitos v\u00eam, se n\u00e3o vier nossos direitos, o Brasil perde tamb\u00e9m\u2026<\/em>\u201d, chegou a not\u00edcia de dentro do Tribunal que a 1\u00aa C\u00e2mara C\u00edvel do TJMG estava negando o recurso \u2013 agravo \u2013 da construtora Modelo. O mandado de despejo n\u00e3o seria revitalizado. Foi muita emo\u00e7\u00e3o. Todos se abra\u00e7aram, uns rindo e outros chorando. Mas o povo de&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>est\u00e1 ciente de que mais uma grande batalha foi vencida. Por\u00e9m, at\u00e9 a decis\u00e3o final ainda haver\u00e1 outras batalhas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Quais s\u00e3o os planos para as pr\u00f3ximas etapas at\u00e9 a decis\u00e3o final do TJMG?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 Fortalecer a organiza\u00e7\u00e3o interna de Dandara, lutar para que&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.copasa.com.br\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?tpl=home\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Copasa&nbsp;<\/strong><\/a>e&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cemig.com.br\/Paginas\/Default.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Cemig&nbsp;<\/strong><\/a>coloquem energia, \u00e1gua e saneamento na comunidade. Insistir para que a<strong>&nbsp;C\u00e2mara dos Vereadores de BH<\/strong>&nbsp;aprove o projeto de lei (PL 04\/2013), reapresentado pelo vereador Adriano Ventura (PT), que declara de interesse social a \u00e1rea ocupada pelas fam\u00edlias da&nbsp;<strong>comunidade Dandara<\/strong>. O governador de Minas, Ant\u00f4nio Anastasia, tamb\u00e9m pode desapropriar a \u00e1rea onde est\u00e1&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, pois est\u00e1 na encruzilhada de tr\u00eas munic\u00edpios:<strong>&nbsp;Belo Horizonte, Ribeir\u00e3o das Neves<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>Contagem<\/strong>. Por isso tem lutado a comunidade. Outra batalha \u00e9 conquistar a desapropria\u00e7\u00e3o judicial do terreno, o que ser\u00e1 in\u00e9dito no&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>, me parece, mas juridicamente poss\u00edvel. Ao lado dessas lutas, os moradores e todos os apoiadores continuam sempre abertos a um processo de negocia\u00e7\u00e3o com a<strong>&nbsp;Construtora Modelo<\/strong>&nbsp;e com o poder p\u00fablico, mas que seja negocia\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e id\u00f4nea, n\u00e3o a farsa de negocia\u00e7\u00e3o que o juiz da 20\u00aa Vara C\u00edvel e a Construtora tentaram empurrar goela abaixo, em outra ocasi\u00e3o.<br><strong><br>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Como percebe a uni\u00e3o e motiva\u00e7\u00e3o dos moradores em torno da problem\u00e1tica da ocupa\u00e7\u00e3o? Como essa luta \u00e9 animada no dia a dia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 A&nbsp;<strong>comunidade Dandara<\/strong>&nbsp;tem contradi\u00e7\u00f5es e problemas internos tamb\u00e9m, pois \u00e9 composta de pessoas que est\u00e3o dentro de uma sociedade capitalista. Todos os v\u00edrus do sistema capitalista \u2013 individualismo, acomoda\u00e7\u00e3o, consumismo, ego\u00edsmo \u2013 tentam seduzir as pessoas. As fam\u00edlias que participam de&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>desde o primeiro minuto da luta s\u00e3o mais aguerridas e perseverantes nas v\u00e1rias iniciativas comunit\u00e1rias e nas lutas. Muitas fam\u00edlias que chegaram depois, que n\u00e3o experimentaram a dureza da luta no in\u00edcio, tendem a ser mais individualistas. A luta educa. Quem n\u00e3o participa de lutas concretas s\u00e3o mais resistentes \u00e0s iniciativas que visam construir uma comunidade participativa. Na&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, h\u00e1 povo, que \u00e9 luz, sal e fermento, mas h\u00e1 tamb\u00e9m massa, pessoas que se deixam levar pela ideologia dominante, a da classe dominante. Mas isso, aos poucos, com a luta do dia a dia, vai se transformando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Como compreender que o Estado tenha agido de forma t\u00e3o diferente em Pinheirinho e em Dandara? O que h\u00e1 de semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as nessas duas ocupa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 De fato, h\u00e1 v\u00e1rias semelhan\u00e7as e v\u00e1rias diferen\u00e7as. As semelhan\u00e7as s\u00e3o: a) fam\u00edlias pobres que se uniram e ocuparam um grande terreno abandonado, que n\u00e3o cumpria a fun\u00e7\u00e3o social; b) Plano Urban\u00edstico com tra\u00e7ado de ruas e delimita\u00e7\u00e3o dos lotes de forma a viabilizar um bairro organizado no futuro; c) a m\u00eddia, como sempre, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, criminalizando a luta dos pobres, tanto no&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/517067-pinheirinho-apos-1-ano-ninguem-ainda-tem-casa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Pinheirinho&nbsp;<\/strong><\/a>quanto em&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>; d) PSDB no (des) governo em S\u00e3o Paulo e em Minas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 v\u00e1rias diferen\u00e7as tamb\u00e9m: a) Dandara completar\u00e1 quatro anos em 09-04-2013, com cerca de 1.050 fam\u00edlias, enquanto o Pinheirinho tinha oito anos de hist\u00f3ria, com 2.600 fam\u00edlias; b) o terreno do&nbsp;<strong>Pinheirinho<\/strong>&nbsp;\u00e9 tr\u00eas vezes maior que o de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>&nbsp;e o pretenso dono, o megaespeculador Naji Nahas \u00e9 muito mais poderoso que a Construtora Modelo. Deve ter feito um lobby imenso junto ao TJSP, ao governo Geraldo Alckmin e etc.; c) Pinheirinho foi coordenado pelo&nbsp;<strong>MTST<\/strong>, ligado ao&nbsp;<strong>PSTU<\/strong>&nbsp;e a&nbsp;<strong>Conlutas<\/strong>, entidades que t\u00eam uma forma radical e, \u00e0s vezes extremista, de levar a luta para frente. Por exemplo, a foto de capa na FSP com o povo todo encapuzado com bombinhas na m\u00e3o e capacete na cabe\u00e7a dizendo-se \u201carmados\u201d para enfrentar o aparato repressor da PM era o que o governador Alckmin precisava para \u201ctentar justificar\u201d o despejo, pois muitos capitalistas alegavam \u201cse deixar isso a\u00ed, acabar\u00e1 o estado democr\u00e1tico de direito\u201d. Mentira, pois n\u00e3o temos, de fato, estado democr\u00e1tico de direito, mas Estado autorit\u00e1rio de injusti\u00e7a; d) desconfio que no&nbsp;<strong>Pinheirinho<\/strong>&nbsp;n\u00e3o houve um trabalho mais acentuado no sentido de tornar a&nbsp;<strong>Comunidade do Pinheirinho<\/strong>&nbsp;mais conhecida e reconhecida nacional e internacionalmente. Na&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, desde o in\u00edcio, priorizamos divulgar a luta de&nbsp;<strong>Dandara em BH<\/strong>, no&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>&nbsp;e no mundo. Uma campanha de apoio internacional, via internet, com fotografias de pessoas, em dezenas de pa\u00edses, dizendo \u201cMexeu com Dandara Mexeu comigo\u201d, contribuiu muito para&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>&nbsp;angariar apoio e respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim,&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>&nbsp;n\u00e3o est\u00e1 salva ainda. N\u00e3o sabemos ainda o que acontecer\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos. Sabemos que fazer pela primeira vez um crime hediondo como o que o TJSP, o governador Geraldo Alckmin (PSDB), a pol\u00edcia e a m\u00eddia fizeram com o&nbsp;<strong>Pinheirinho<\/strong>&nbsp;\u00e9 menos dif\u00edcil. Repeti-lo \u00e9 mais dif\u00edcil e ser\u00e1 um crime duplamente hediondo. O governo federal foi c\u00famplice do massacre do&nbsp;<strong>Pinheirinho<\/strong>. Fizeram com essa comunidade uma tremenda sexta-feira da paix\u00e3o, mas um domingo de ressurrei\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo gestado em muitos outros pinheirinhos pelo&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>&nbsp;afora e em&nbsp;<strong>S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos<\/strong>, que n\u00e3o pode continuar sendo campos de sangue. Importante recordar que a construtora Modelo n\u00e3o pagou nem um centavo pelo terreno de&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>. Estava devendo mais de 2,2 milh\u00f5es de reais em IPTU. Parte dessa d\u00edvida j\u00e1 prescreveu, sem a prefeitura executar a d\u00edvida, o que demonstra o conluio do poder p\u00fablico com construtoras. A propriedade estava abandonada, sem cumprir sua fun\u00e7\u00e3o social. A Modelo n\u00e3o construiu nada no terreno. Estava vazio. Logo, \u00e9 leg\u00edtima e constitucional a ocupa\u00e7\u00e3o feita pelo povo de Dandara.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Por que essa ocupa\u00e7\u00e3o foi batizada como Dandara?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013 Na&nbsp;<strong>Comunidade Dandara<\/strong>&nbsp;70% das fam\u00edlias s\u00e3o lideradas por mulheres, majoritariamente negras. S\u00e3o guerreiras na luta, seja na luta do dia a dia ou na luta pela conquista da casa pr\u00f3pria. A luta de&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>\u00e9 luta para sair da escravid\u00e3o do aluguel, do sobreviver de favor, enfim, uma luga para&nbsp;<strong>se libertar do capitalismo<\/strong>, da ditadura econ\u00f4mica. Por esses motivos, na hora de escolher seu nome, entre v\u00e1rios,<strong>&nbsp;o povo optou por Dandara, que foi a companheira de Zumbi dos Palmares, a estrategista que cuidava da seguran\u00e7a interna do Quilombo de Palmares<\/strong>. Dandara, ao ser encurralada pelas for\u00e7as escravagistas, preferiu cometer suic\u00eddio a voltar a ser escrava. Assim, em&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>h\u00e1 centenas de&nbsp;<strong>Dandaras<\/strong>. Por isso gritamos:&nbsp;<em>P\u00e1tria livre! Venceremos!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>IHU On-Line&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;Gostaria de acrescentar algum aspecto n\u00e3o questionado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gilvander Lu\u00eds Moreira&nbsp;<\/strong>\u2013<strong>&nbsp;<\/strong>A<strong>&nbsp;Comunidade Dandara<\/strong>&nbsp;se tornou fonte de pesquisa para muitos estudantes e professores universit\u00e1rios. H\u00e1 dois livros escritos sobre Dandara, ainda n\u00e3o publicados por falta de dinheiro. Muitas monografias prontas, disserta\u00e7\u00f5es e teses de doutorado em andamento.&nbsp;<strong>Dezenas de v\u00eddeos amadores j\u00e1 est\u00e3o no YouTube<\/strong>. Mostras fotogr\u00e1ficas etc.&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>se tornou uma estrela-guia para as for\u00e7as vivas da sociedade, exemplo positivo para os movimentos sociais populares.&nbsp;<strong>Dandara&nbsp;<\/strong>est\u00e1 animando muitas outras lutas em BH, em MG e pelo Brasil afora.&nbsp;<strong>Dandara<\/strong>, como a Estrela de Bel\u00e9m (Mateus 2,1-12), aponta o rumo para onde caminharmos a fim de construirmos uma sociedade e uma cidade que caiba todos e tudo. O sonho da&nbsp;<strong>Comunidade Dandara<\/strong>&nbsp;n\u00e3o pode ser abortado. Obrigado, de cora\u00e7\u00e3o, a todas as pessoas de boa vontade que, de perto ou de longe,&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3419&amp;secao=339\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>tem se comprometido com a defesa da causa de Dandara<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por M\u00e1rcia Junges e Ricardo Machado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: (<a href=\"http:\/\/www.ecodebate.com.br\/c9c\">Ecodebate<\/a>, 06\/03\/2013) publicado pela&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/517900-sendo-editada-comunidade-dandara-exemplo-de-luta-por-dignidade-entrevista-com-frei-gilvander-moreira-sobre-a-luta-da-comunidade-dandara-para-o-ihu-unisinos-gilvander-luis-moreira\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>IHU On-line<\/strong><\/a>, parceira estrat\u00e9gica do EcoDebate na socializa\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>[<em>IHU On-line \u00e9 publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos \u2013 Unisinos, em S\u00e3o Leopoldo, RS.<\/em>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunidade Dandara, exemplo de luta por dignidade. Entrevista com frei Gilvander Lu\u00eds Moreira \u201cFelizes os que lutam por justi\u00e7a, dizia Jesus de Nazar\u00e9. No in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o, na cruz da&nbsp;Igreja de Dandara, um Jo\u00e3o de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11645,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,40,44,38,49,48,27,30,25,29,23,26],"tags":[],"class_list":["post-11644","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-direito-a-cidade","category-direito-a-memoria","category-direito-a-saude","category-direito-a-terra","category-direitos-das-mulheres","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-luta-pela-terra-e-reforma-agraria","category-movimentos-sociais-populares","category-ocupacao-urbana","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11644"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11646,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644\/revisions\/11646"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11645"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}