{"id":11865,"date":"2023-02-18T09:04:52","date_gmt":"2023-02-18T12:04:52","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=11865"},"modified":"2023-02-18T09:04:53","modified_gmt":"2023-02-18T12:04:53","slug":"amar-em-uma-sociedade-contraria-ao-amor-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/amar-em-uma-sociedade-contraria-ao-amor-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Amar em uma sociedade contr\u00e1ria ao amor. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Amar em uma sociedade contr\u00e1ria ao amor<\/strong>. Por Marcelo Barros, padre e monge.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"453\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/24_08_marcelo_barros.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-11866\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/24_08_marcelo_barros.png 800w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/24_08_marcelo_barros-300x170.png 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/24_08_marcelo_barros-768x435.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Padre Marcelo Barros, um dos melhores te\u00f3logos e biblistas da atualidade<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><u>VII Domingo Comum \u2013 Mt 5,38-48 \u2013 18\/02\/2023<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste VII Domingo Comum, o evangelho proposto \u00e9 Mateus 5, 38-48 que, no discurso da montanha, continua a explicitar mais e mais as propostas de Jesus para uma sociedade alternativa, baseada nas bem-aventuran\u00e7as. Nos dois domingos anteriores, o evangelho lembrava que o reinado divino sup\u00f5e uma invers\u00e3o de comportamentos por parte de quem quer seguir as bem-aventuran\u00e7as como propostas de vida. O evangelho de Mateus deu seis exemplos de como os comportamentos humanos deveriam ser transformados. No evangelho de hoje, Jesus continua esse ensinamento e prop\u00f5e que ao mal que nos \u00e9 feito devemos reagir atrav\u00e9s da n\u00e3o viol\u00eancia ativa e que chegue at\u00e9 mesmo a uma postura de amor aos inimigos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem quer ridicularizar o Evangelho, tem a\u00ed um prato cheio, porque, facilmente, essas palavras podem ser distorcidas e mal compreendidas. Em um mundo como o nosso, dominado por viol\u00eancias terr\u00edveis e estruturais, como compreender a proposta de Jesus de n\u00e3o resistir a quem faz o mal e at\u00e9 oferecer o outro lado a quem bate no nosso rosto? Em nosso pa\u00eds, os povos origin\u00e1rios mal sobrevivem a uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de mais de cinco s\u00e9culos. Pequenos lavradores t\u00eam suas terras tomadas por latifundi\u00e1rios. Veem suas vidas e a de suas fam\u00edlias amea\u00e7adas por fazendeiros e jagun\u00e7os. Como pedir que perdoem e que n\u00e3o reajam ao opressor? Mesmo em rela\u00e7\u00f5es sociais em sociedades marcadas pela honra e pela desonra, como violentar a cultura e exigir simplesmente a passividade diante do mal?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho desse domingo (Mateus 5,38-48) nos transmite a palavra de Jesus sobre o n\u00e3o resistir de forma violenta a quem pratica a maldade e at\u00e9 amar ao inimigo. Ent\u00e3o, as tradu\u00e7\u00f5es que simplesmente dizem: N\u00e3o resistam ao malvado est\u00e3o equivocadas. O que Jesus proibiu foi a resist\u00eancia violenta. Responder a viol\u00eancia com viol\u00eancia. Resistir, sim. Com viol\u00eancia, n\u00e3o! De todo modo, na maioria das culturas, essa palavra soa estranha e provoca rea\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00cdndia das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, o Mahatma Gandhi se apoiou nas tradi\u00e7\u00f5es hindu\u00edstas para fazer a sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da n\u00e3o viol\u00eancia ativa baseada na for\u00e7a da verdade e na resist\u00eancia. E com este m\u00e9todo, conseguiu levar a \u00cdndia a se tornar independente do imp\u00e9rio ingl\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00c1frica do Sul, o regime do apartheid caiu a partir da luta n\u00e3o violenta de homens e mulheres. O mundo inteiro admirou o exemplo de Nelson Mandela, depois de vinte anos de pris\u00e3o dialogar com os seus algozes e conduzir o povo negro a viver um tempo novo.&nbsp;Ele fez isso a partir de uma cultura laical n\u00e3o ligada a nenhuma religi\u00e3o espec\u00edfica. Em seu pa\u00eds, durante s\u00e9culos, grande parte das Igrejas evang\u00e9licas e tamb\u00e9m da Igreja Cat\u00f3lica conviveu tranquilamente e at\u00e9 legitimava biblicamente a discrimina\u00e7\u00e3o racial e o apartheid.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio disso, foi baseado nas palavras de Jesus, no evangelho que escutamos hoje que, nos Estados Unidos dos anos 1960, o pastor batista Martin-Luther King conduziu a luta do povo negro pelos seus direitos civis e contra a discrimina\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No tempo da 2\u00aa guerra mundial, em um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, Etty Hillesum, jovem judia de 28 anos que tinha perdido seus pais e esperava o dia de sua morte, escreveu: \u201c<em>Aqui, a condena\u00e7\u00e3o pior que pesa sobre n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. \u00c9 o envenenamento pelo \u00f3dio contra o inimigo e esse mal, os alem\u00e3es n\u00e3o podem nos fazer. Eles n\u00e3o podem nos obrigar a odiar. S\u00f3 n\u00f3s mesmos nos fazemos isso. Eles podem nos tirar tudo, menos a nossa humanidade<\/em>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, h\u00e1 muitos grupos espirituais que prop\u00f5em a compaix\u00e3o como rem\u00e9dio de cura para a humanidade doente. A compaix\u00e3o que o Budismo chama de Karuna \u00e9 o amor solid\u00e1rio e a Espiritualidade Ecum\u00eanica atual tem chamado de Cuidado. Leonardo Boff chega a propor &#8220;um modo de ser cuidado&#8221; em oposi\u00e7\u00e3o ao modo de ser funcional e competitivo que o mundo atual apregoa e ensina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste evangelho, Jesus chega a propor o amor aos inimigos. N\u00e3o basta evitar o \u00f3dio. \u00c9 preciso cultivar o amor como forma de ser e chegar a amar at\u00e9 o inimigo. Isso n\u00e3o quer dizer tornar-se seu amigo. Menos ainda isso requer&nbsp; aceitar injusti\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O modo correto de amar o inimigo \u00e9 trabalhar contra a injusti\u00e7a e fazer de tudo para frustrar o projeto do mal. \u00c9 lutar contra a opress\u00e3o,&nbsp; de modo a salvaguardar a dignidade de pessoa humana, tanto de quem est\u00e1 oprimido, como do pr\u00f3prio opressor. Ao lutar contra a opress\u00e3o, luto pela liberta\u00e7\u00e3o, minha, de todos os oprimidos e tamb\u00e9m do opressor. No entanto, se ao fazer isso, n\u00e3o sou movido por amor, me rebaixo ao mesmo n\u00edvel da desumanidade do inimigo e estou&nbsp; dando algo que ningu\u00e9m pode tirar de mim: minha humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na literatura brasileira, um cl\u00e1ssico \u00e9 o livro Amar, verbo intransitivo, de Mario de Andrade. Jesus nos ensinou que o amor \u00e9 divino. Pelo amor nos tornamos semelhantes a Deus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um serm\u00e3o sobre o G\u00eanesis, no s\u00e9culo IV, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo explicou: \u201cDeus disse: Fa\u00e7amos o ser humano \u00e0 nossa imagem e semelhan\u00e7a. E assim Deus criou o homem e a mulher e o criou \u00e0 imagem de Deus\u201d. Por que o texto sagrado diz que Deus tinha querido criar o homem \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a e depois quando diz que o criou insiste que foi \u00e0 sua imagem, mas n\u00e3o fala mais em semelhan\u00e7a? \u00c9 porque todo ser humano \u00e9 imagem de Deus. No entanto, existem imagens (hoje n\u00f3s dir\u00edamos fotografias) que se parecem com o original e outras que n\u00e3o parecem. Assim todo ser humano \u00e9 imagem de Deus, mas semelhan\u00e7a \u00e9 algo cada um\/uma de n\u00f3s tem de se tornar. \u00c9 tarefa nossa. E a gente s\u00f3 se torna semelhan\u00e7a de Deus pelo amor. O amor \u00e9 a nossa semelhan\u00e7a a Deus\u201d. \u00c9 isso que Jesus quis dizer quando mandou: Sejam perfeitos como o Pai do c\u00e9u \u00e9 perfeito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, a\u00ed est\u00e1 o segredo final deste evangelho: devemos agir assim: movidos sempre pelo amor, porque Deus \u00e9 Amor e esse modo de amar \u00e9 pr\u00f3prio de Deus. \u00c9 esse amor social, pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m afetivo e er\u00f3tico que nos torna divinos e divinas, como Jesus.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amar em uma sociedade contr\u00e1ria ao amor. Por Marcelo Barros, padre e monge. 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