{"id":12156,"date":"2023-06-11T17:27:02","date_gmt":"2023-06-11T20:27:02","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12156"},"modified":"2023-06-11T17:27:04","modified_gmt":"2023-06-11T20:27:04","slug":"engenharia-genetica-e-herbicidas-a-servico-da-monocultura-capitalista-por-artigo-de-ian-angus","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/engenharia-genetica-e-herbicidas-a-servico-da-monocultura-capitalista-por-artigo-de-ian-angus\/","title":{"rendered":"Engenharia gen\u00e9tica e herbicidas a servi\u00e7o da monocultura capitalista. Por Artigo de Ian Angus"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Engenharia gen\u00e9tica e herbicidas a servi\u00e7o da monocultura capitalista.<\/strong> Por Artigo de Ian Angus<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Cepat<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12157\" width=\"783\" height=\"394\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup.jpg 800w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup-300x151.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup-768x387.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 783px) 100vw, 783px\" \/><figcaption><strong>Uso agr\u00edcola de glifosato (acres) nos EUA, 1990-2014.<\/strong>\u00a0(Fonte: MALKEN, Stacy.\u00a0<em>Merchants of Poison.<\/em>\u00a0Friends of the Earth, 2022, p. 14)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Os principais resultados da engenharia gen\u00e9tica na agricultura foram: a expans\u00e3o das monoculturas na <strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong>&nbsp;e do&nbsp;<strong>Sul<\/strong>, o aumento do uso de venenos qu\u00edmicos e o aumento dos lucros para o punhado de grandes empresas que dominam a produ\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas e sementes transg\u00eanicas. O impacto dos cultivos transg\u00eanicos e dos agrot\u00f3xicos juntos na sa\u00fade humana \u00e9 objeto de muitos debates, mas este artigo enfoca sua contribui\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o em massa de monoculturas que destroem a vida&#8221;. A reflex\u00e3o \u00e9 de <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/628267-o-apocalipse-dos-insetos-no-antropoceno-artigo-de-ian-angus\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ian Angus<\/a>, em artigo publicado por&nbsp;Viento Sur, 01-06-2023. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/rede-sjcias\/cepat\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cepat<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAs plantas s\u00e3o, evidentemente, a base de quase todas as cadeias tr\u00f3ficas, e quando desenvolvemos m\u00e9todos agr\u00edcolas que praticamente erradicam todas as ervas daninhas das terras de cultivo, de modo que muitas vezes lidamos com monoculturas puras, convertemos grande parte dos nossos campos em lugares in\u00f3spitos para maioria das formas de vida\u201d<\/em>&nbsp;\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/627792-dave-goulson-biologo-ja-faltam-insetos-em-muitas-areas-e-necessario-polinizar-a-mao\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Dave Goulson<\/a>&nbsp;[1].<\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, os defensores dos alimentos geneticamente modificados (GM) prometeram culturas milagrosas que salvariam vidas e alimentariam o mundo. Cereais que florescem durante uma seca. Melhoria na nutri\u00e7\u00e3o, incluindo um arroz que cont\u00e9m vitaminas que beneficiam a vis\u00e3o. Ma\u00e7\u00e3s que n\u00e3o apodrecem. Redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de CO2. Mais alimentos em menos terra.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o&nbsp;<strong>Servi\u00e7o Internacional para a Aquisi\u00e7\u00e3o de Aplica\u00e7\u00f5es de Agrobiotecnologia Agr\u00edcola<\/strong>&nbsp;(<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/170-noticias-2014\/534049-porque-os-transgenicos-sao-uma-ameaca-aos-camponeses-a-soberania-alimentar-a-saude-e-a-biodiversidade-no-planeta\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ISAAA<\/a>), favor\u00e1vel \u00e0 biotecnologia, os benef\u00edcios da modifica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica s\u00e3o t\u00e3o grandes que a \u00e1rea dedicada \u00e0s culturas GM cresceu de zero em 1996 para 190,4 milh\u00f5es de hectares (470,5 milh\u00f5es de acres) em 2019, \u201ca tecnologia agr\u00edcola de ado\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida\u201d de todos os tempos [2].<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, se olharmos as pr\u00f3prias estat\u00edsticas do&nbsp;<strong>ISAAA<\/strong>, veremos que 85% da \u00e1rea dedicada aos cultivos transg\u00eanicos est\u00e1 em apenas quatro pa\u00edses \u2013&nbsp;<strong>Estados Unidos<\/strong>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542370-transgenicos-enquanto-o-mundo-recusa-o-brasil-aprova-entrevista-especial-com-joao-dagoberto-dos-santos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Brasil<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/627074-trigo-transgenico-aprovado-para-cultivo-no-brasil-preocupa-produtores-agroecologicos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Argentina<\/a>&nbsp;e&nbsp;<strong>Canad\u00e1<\/strong>&nbsp;\u2013 e que cerca de 99% de todas as modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas de cultivos comerciais entram em apenas duas categorias \u2013&nbsp;<em>toler\u00e2ncia a herbicidas e resist\u00eancia a insetos<\/em>. Eles n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a melhoria da qualidade dos alimentos. Al\u00e9m disso, a soja e o milho, que respondem por mais de 90% dos cultivos transg\u00eanicos, s\u00e3o usados principalmente para ra\u00e7\u00e3o e biocombust\u00edveis, n\u00e3o para alimentar pessoas com fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Os principais resultados da engenharia gen\u00e9tica na agricultura foram: a expans\u00e3o das monoculturas na&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong>&nbsp;e do&nbsp;<strong>Sul<\/strong>, o aumento do uso de venenos qu\u00edmicos e o aumento dos lucros para o punhado de grandes empresas que dominam a produ\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas e sementes transg\u00eanicas. O impacto dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/579724-enganos-sobre-os-alimentos-transgenicos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">cultivos transg\u00eanicos<\/a>&nbsp;e dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/622110-mais-agrotoxicos-no-pais-que-voltou-a-passar-fome\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">agrot\u00f3xicos<\/a>&nbsp;juntos na sa\u00fade humana \u00e9 objeto de muitos debates, mas este artigo enfoca sua contribui\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o em massa de monoculturas que destroem a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>* * * *<\/p>\n\n\n\n<p>Como vimos, duas caracter\u00edsticas da agricultura industrial alimentaram o apocalipse dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/568978-uso-indiscriminado-de-agrotoxicos-pode-levar-a-extincao-de-abelhas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">insetos<\/a>: o uso massivo de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/593285-pesticidas-estao-destruindo-muito-mais-do-que-as-pestes\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">venenos<\/a>&nbsp;e a destrui\u00e7\u00e3o de habitats. Bilh\u00f5es de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/172-noticias-2012\/506692-por-que-o-ser-humano-precisa-de-insetos-entrevista-com-edward-wilson\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">hex\u00e1podes<\/a>&nbsp;morrem todos os anos devido a venenos qu\u00edmicos que deveriam, supostamente, proteger as planta\u00e7\u00f5es. E as monoculturas em grande escala \u2013 fazendas que cultivam apenas uma esp\u00e9cie \u2013 privam-nos de alimentos e lugares de reprodu\u00e7\u00e3o. Ambos s\u00e3o aspectos da chamada&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/613968-revolucao-verde-vs-financas-entrevista-com-gael-giraud\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>revolu\u00e7\u00e3o verde<\/em><\/a>, um aumento da produ\u00e7\u00e3o baseado em m\u00e9todos agr\u00edcolas que danificaram o meio ambiente e diminu\u00edram a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/625370-principais-causas-da-perda-de-biodiversidade\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">biodiversidade<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma segunda fase ainda mais destrutiva da agricultura industrial come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1990, uma fase que poder\u00edamos chamar de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/573559-as-invencoes-que-nos-aguardam-em-2050\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>revolu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica<\/em><\/a>. As sementes transg\u00eanicas mudaram o tabuleiro do jogo, expandindo rapidamente a \u00e1rea dedicada a cultivos hostis aos insetos. A transi\u00e7\u00e3o foi iniciada em 1996 pela empresa qu\u00edmica&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/170-noticias-2014\/531843-monsanto-a-semente-do-diabo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Monsanto<\/a>, sediada em&nbsp;<strong>Saint Louis<\/strong>&nbsp;(<strong>EUA<\/strong>), cujo produto mais importante foi o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/596761-pesquisa-revela-que-o-herbicida-roundup-contamina-ecossistemas-de-agua-doce-e-prejudica-a-biodiversidade\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Roundup<\/a>, usado para matar ervas daninhas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ervas daninhas<\/em>&nbsp;n\u00e3o \u00e9 uma categoria cient\u00edfica. S\u00e3o plantas indesejadas que crescem onde n\u00e3o deveriam, competindo com esp\u00e9cies mais desej\u00e1veis por espa\u00e7o, nutrientes, \u00e1gua e luz solar. Tradicionalmente, os agricultores limitavam o crescimento destas ervas daninhas usando culturas de cobertura, cobertura morta e rota\u00e7\u00e3o frequente de culturas, mas tamb\u00e9m tinham que remov\u00ea-las fisicamente para evitar que contaminassem a cultura. Durante mil\u00eanios, a capina das plantas daninhas foi uma parte necess\u00e1ria e demorada da agricultura, e ainda \u00e9 em grande parte do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, alguns agricultores da&nbsp;<strong>Europa<\/strong>&nbsp;e da&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong>&nbsp;usaram \u00e1cido sulf\u00farico e compostos de ars\u00eanico para matar plantas daninhas, mas as aplica\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas s\u00f3 se difundiram a partir do final da d\u00e9cada de 1940, quando o produto herbicida&nbsp;<strong>2,4-D<\/strong>, desenvolvido pelos militares dos&nbsp;<strong>EUA<\/strong>&nbsp;como arma biol\u00f3gica, tornou-se dispon\u00edvel para todos [3]. Logo se juntaram a outros herbicidas sint\u00e9ticos, incluindo o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/527273-qual-agricultura-nos-queremos-a-polemica-do-24-d-e-a-toxidade-dos-agrotoxicos-entrevista-especial-com-karen-friedrich\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">2,4,5-T<\/a>, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/170-noticias-2014\/534049-porque-os-transgenicos-sao-uma-ameaca-aos-camponeses-a-soberania-alimentar-a-saude-e-a-biodiversidade-no-planeta\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dicamba<\/a>&nbsp;e o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/espiritualidade\/78-noticias\/587345-tuitadas-3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">triclopir<\/a>, armas-chave naquilo que&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/602816-o-papa-e-petrini-discutem-sobre-o-novo-humanismo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rachel Carson<\/a>&nbsp;chamou de \u201cbombardeio qu\u00edmico contra o tecido da vida\u201d [4]. Eles foram amplamente adotados, como escreve&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/619152-crise-alimentar-nao-percam-de-vista-os-bancos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Jennifer Clapp<\/a>, porque facilitavam os trabalhos do cultivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsses produtos qu\u00edmicos permitiram a elimina\u00e7\u00e3o de plantas indesejadas em grandes \u00e1reas e se popularizaram porque economizavam horas de trabalho. Com o aumento do tamanho das fazendas, paralelamente \u00e0 crescente mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura, em meados do s\u00e9culo XX, o uso de herbicidas expandiu-se enormemente e tornou-se a norma no controle de ervas daninhas\u201d [5].<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;lan\u00e7ou o&nbsp;<strong>Roundup<\/strong>&nbsp;em 1976. Seu principal ingrediente era o glifosato, uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica que mata as plantas bloqueando sua capacidade de produzir prote\u00ednas essenciais. Foi usado principalmente para limpar as lavouras antes do plantio e para matar ervas daninhas indesejadas em lavouras de grama e nas margens, mas tamb\u00e9m mataria as planta\u00e7\u00f5es se pulverizado sobre ou perto delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, a&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;mudou isso por meio da engenharia gen\u00e9tica: em vez de modificar o veneno, modificou as plantas. Suas duas fam\u00edlias de sementes geneticamente modificadas tiveram um sucesso espetacular.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 As sementes&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/517887-a-guerra-pela-semente-da-monsanto\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Roundup Ready<\/a>&nbsp;(RR) foram modificadas para serem tolerantes ao glifosato: o&nbsp;<strong>Roundup<\/strong>&nbsp;pulverizado em um campo de cultivos RR mataria todas as outras plantas e deixaria o cultivo intacto. Foi comercializado primeiro para soja e canola e, posteriormente, para milho, alfafa, algod\u00e3o e sorgo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 As sementes de milho e algod\u00e3o da&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;foram modificadas para conter genes da&nbsp;<em>Bacteria thuringiensis<\/em>&nbsp;(Bt), um organismo t\u00f3xico para algumas lagartas e besouros que se alimentam destas plantas. De fato, as plantas cultivadas com sementes modificadas que cont\u00eam Bt produzem seus pr\u00f3prios inseticidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;passou ent\u00e3o a comercializar sementes de milho e algod\u00e3o que continham ambos os atributos gen\u00e9ticos. De acordo com o&nbsp;<strong>ISAAA<\/strong>, 45% das culturas transg\u00eanicas consistem atualmente em plantas repletas de genes tolerantes a herbicidas e resistentes a insetos.<\/p>\n\n\n\n<p>As sementes patenteadas eram mais caras, mas simplificavam a produ\u00e7\u00e3o. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/579071-o-glifosato-provoca-anomalias-em-recem-nascidos-mostra-novo-estudo-piloto-em-animais\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">glifosato<\/a>&nbsp;agora podia ser pulverizado durante a esta\u00e7\u00e3o de crescimento sem prejudicar as planta\u00e7\u00f5es, criando monoculturas puras e planta\u00e7\u00f5es em que nenhuma planta concorrente seria capaz de crescer. As fazendas que produziam cultivos&nbsp;<strong>Roundup Ready<\/strong>&nbsp;poderiam ser quase totalmente mecanizadas, reduzindo a m\u00e3o de obra ao m\u00ednimo. E como a&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;enfatizou em sua propaganda, uma vez que o&nbsp;<strong>Roundup<\/strong>&nbsp;era letal para todas as plantas n\u00e3o transg\u00eanicas, era \u201co \u00fanico controle de ervas daninhas de que voc\u00ea precisava\u201d. Um s\u00edtio de internet da empresa chamou a combina\u00e7\u00e3o de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/589612-entenda-o-que-e-o-glifosato-o-agrotoxico-mais-vendido-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">glifosato<\/a>&nbsp;e sementes resistentes ao glifosato de \u201csistema que lhe d\u00e1 liberdade\u201d [6].<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;abocanhou o mercado de insumos agr\u00edcolas mediante a aquisi\u00e7\u00e3o de mais de 30 empresas independentes de sementes, tornando-se em 2005 a maior vendedora mundial de sementes. O controle de produtos qu\u00edmicos e sementes junto com os canais de distribui\u00e7\u00e3o deram \u00e0 empresa uma enorme vantagem na ind\u00fastria de insumos agr\u00edcolas. \u201cA empresa gabou-se aos acionistas de que esperava um aumento de 18% no volume de produtos \u00e0 base de glifosato que vendia em apenas dois anos, de 1999 a 2000\u201d. Metade de seu volume de vendas de US$ 5,5 bilh\u00f5es em 2000 veio do glifosato [7].<\/p>\n\n\n\n<p>Durante duas d\u00e9cadas, o glifosato foi o herbicida mais usado no mundo. Foi respons\u00e1vel por 1% dos herbicidas aplicados nos quatro principais cultivos dos&nbsp;<strong>EUA<\/strong>&nbsp;em 1982, 4% em 1995, 33% em 2005 e 40% em 2012 [8]. \u201cEm 2020, 90% de todo o milho, algod\u00e3o, soja e beterraba plantados nos&nbsp;<strong>EUA<\/strong>&nbsp;[eram] geneticamente modificados para tolerar um ou mais herbicidas\u201d [9].<\/p>\n\n\n\n<p>Este gr\u00e1fico ilustra o dr\u00e1stico aumento nas vendas e no uso de sementes GM da&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;e o uso de seu herbicida nos&nbsp;<strong>EUA<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12158\" width=\"782\" height=\"393\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup-1.jpg 800w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup-1-300x151.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/roundup-1-768x387.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 782px) 100vw, 782px\" \/><figcaption><strong>Uso agr\u00edcola de glifosato (acres) nos EUA, 1990-2014.<\/strong>\u00a0(Fonte: MALKEN, Stacy.\u00a0<em>Merchants of Poison.<\/em>\u00a0Friends of the Earth, 2022, p. 14)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A soja e o milho s\u00e3o de longe os cultivos mais plantados nos&nbsp;<strong>Estados Unidos<\/strong>: juntos ocupam cerca de 190 milh\u00f5es de acres (77 milh\u00f5es de hectares) [10], e mais de 90% dessa \u00e1rea \u00e9 cultivada com sementes geneticamente modificadas. Se incluirmos \u00e1reas menores dedicadas ao algod\u00e3o, beterraba, alfafa e canola geneticamente modificados, al\u00e9m de mais de 12 milh\u00f5es de acres de cultivos geneticamente modificados no&nbsp;<strong>Canad\u00e1<\/strong>, teremos uma vasta extens\u00e3o que \u00e9 profundamente in\u00f3spita para os insetos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Am\u00e9rica do Sul<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O auge nas vendas da soja&nbsp;<strong>Roundup Ready<\/strong>&nbsp;da&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;n\u00e3o se limitou \u00e0&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong>. No&nbsp;<strong>Cone Sul<\/strong>&nbsp;da&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Sul<\/strong>, onde a propriedade da terra \u00e9 muito mais concentrada do que no&nbsp;<strong>Norte global<\/strong>, grandes propriet\u00e1rios rapidamente adotaram a combina\u00e7\u00e3o sementes\/herbicidas, come\u00e7ando em 1996 na&nbsp;<strong>Argentina<\/strong>&nbsp;e se espalhando na d\u00e9cada seguinte para o&nbsp;<strong>Paraguai<\/strong>,&nbsp;<strong>Uruguai<\/strong>,&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>&nbsp;e sul da&nbsp;<strong>Bol\u00edvia<\/strong>. A substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra por produtos qu\u00edmicos permitiu que os propriet\u00e1rios de terras se livrassem de milh\u00f5es de pequenos meeiros e criassem vastas planta\u00e7\u00f5es de soja administradas por grupos de investidores. Para cada diarista empregado na produ\u00e7\u00e3o de soja transg\u00eanica no&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>, onze foram demitidos [11].<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"657\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12159\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/2.jpg 800w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/2-300x246.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/2-768x631.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Declarando que \u201ca soja n\u00e3o conhece fronteiras\u201d, a gigante agroqu\u00edmica Syngenta chamou essa regi\u00e3o de \u201cRep\u00fablica Unida da Soja\u201d em um an\u00fancio de 2003<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O auge nas vendas da soja&nbsp;<strong>Roundup Ready<\/strong>&nbsp;da&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;n\u00e3o se limitou \u00e0&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong>. No&nbsp;<strong>Cone Sul<\/strong>&nbsp;da&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Sul<\/strong>, onde a propriedade da terra \u00e9 muito mais concentrada do que no&nbsp;<strong>Norte global<\/strong>, grandes propriet\u00e1rios rapidamente adotaram a combina\u00e7\u00e3o sementes\/herbicidas, come\u00e7ando em 1996 na&nbsp;<strong>Argentina<\/strong>&nbsp;e se espalhando na d\u00e9cada seguinte para o&nbsp;<strong>Paraguai<\/strong>,&nbsp;<strong>Uruguai<\/strong>,&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>&nbsp;e sul da&nbsp;<strong>Bol\u00edvia<\/strong>. A substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra por produtos qu\u00edmicos permitiu que os propriet\u00e1rios de terras se livrassem de milh\u00f5es de pequenos meeiros e criassem vastas planta\u00e7\u00f5es de soja administradas por grupos de investidores. Para cada diarista empregado na produ\u00e7\u00e3o de soja transg\u00eanica no&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>, onze foram demitidos [11].<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em 2005, dois importantes ambientalistas relataram o enorme impacto social e ambiental causado pela ado\u00e7\u00e3o da soja transg\u00eanica por parte dos propriet\u00e1rios de terras:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm 1998 havia um total de 422.000 propriedades na&nbsp;<strong>Argentina<\/strong>, enquanto em 2002 havia 318.000, o que representou uma redu\u00e7\u00e3o de 24,5%. Em uma d\u00e9cada, a extens\u00e3o das lavouras de soja aumentou 126% em detrimento de terras destinadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de leite, milho, trigo e frutas&#8230; No&nbsp;<strong>Paraguai<\/strong>, a soja \u00e9 plantada em mais de 25% de todas as terras agr\u00edcolas e na&nbsp;<strong>Argentina<\/strong>&nbsp;as planta\u00e7\u00f5es de soja em 2000 se estendiam por quase 15 milh\u00f5es de hectares, produzindo 38,3 milh\u00f5es de toneladas m\u00e9tricas. Infelizmente, toda essa expans\u00e3o ocorre \u00e0s custas das florestas e de outros habitats. No&nbsp;<strong>Paraguai<\/strong>, grande parte da&nbsp;<strong>Mata Atl\u00e2ntica<\/strong>&nbsp;foi desmatada. Na&nbsp;<strong>Argentina<\/strong>, 118.000 hectares de floresta foram desmatados para plantar soja \u2013 em&nbsp;<strong>Salta<\/strong>&nbsp;cerca de 160.000 hectares e em&nbsp;<strong>Santiago<\/strong>&nbsp;<strong>del Estero<\/strong>&nbsp;um recorde de 223.000 hectares. No&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>, o cerrado e a savana est\u00e3o sendo devastados em ritmo acelerado\u201d [12].<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, os produtores de soja de toda a regi\u00e3o expandiram suas fazendas limpando terras e cortando florestas. O&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>Estados Unido<\/strong>s s\u00e3o agora, de longe, os maiores produtores de soja do mundo, cultivando juntos o dobro de soja do resto dos dez principais pa\u00edses juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, a jornalista ambiental&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/publicacoes\/186-noticias\/noticias-2017\/569530-as-grandes-cadeias-de-distribuicao-um-poder-global\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nazaret Castro<\/a>&nbsp;calculou que \u201ccerca de 60% das terras agricult\u00e1veis da&nbsp;<strong>Argentina<\/strong>, percentual semelhante no sul do&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>&nbsp;e quase 80% das do&nbsp;<strong>Paraguai<\/strong>&nbsp;j\u00e1 s\u00e3o dedicadas \u00e0 planta\u00e7\u00e3o da soja, praticamente toda ela geneticamente modificada\u201d [13].<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com um estudo recente, baseado em imagens de sat\u00e9lite, <strong>\u201cde 2000 a 2019, a \u00e1rea dedicada ao cultivo da soja mais que dobrou, passando de 26,4 milh\u00f5es para 55,1 milh\u00f5es de hectares. A maior parte da expans\u00e3o da soja ocorreu em pastagens originalmente desmatadas para a pecu\u00e1ria. A expans\u00e3o mais r\u00e1pida ocorreu na&nbsp;Amaz\u00f4nia brasileira\u2026<\/strong> Em todo o continente, 9% das florestas desmatadas j\u00e1 haviam sido convertidas para o cultivo da soja em 2016. O desmatamento para o cultivo da soja concentrou-se nas fronteiras ativas, quase a metade no cerrado brasileiro\u201d [14].<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como na&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong>, a produ\u00e7\u00e3o de soja na&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Sul<\/strong>&nbsp;tem sido acompanhada pelo uso massivo de herbicidas, principalmente o glifosato. <strong>No&nbsp;Brasil, as lavouras de soja transg\u00eanica s\u00e3o pulverizadas com glifosato em m\u00e9dia tr\u00eas vezes em cada ciclo produtivo; somente em 2019, os agricultores brasileiros aplicaram 218 mil toneladas de herbicidas<\/strong> [15].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resist\u00eancia e rotina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<strong>Primavera silenciosa<\/strong>,&nbsp;<strong>Rachel Carson<\/strong>&nbsp;descreveu como o uso extensivo de pesticidas levou \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o de insetos e plantas daninhas que os produtos qu\u00edmicos n\u00e3o eram capazes de matar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNem o pr\u00f3prio&nbsp;<strong>Darwin<\/strong>&nbsp;poderia ter encontrado um exemplo melhor de como funciona a sele\u00e7\u00e3o natural do que aquele fornecido pelo mecanismo de resist\u00eancia&#8230; A aplica\u00e7\u00e3o de veneno acaba com os insetos mais fracos. Os \u00fanicos sobreviventes s\u00e3o aqueles que possuem alguma qualidade intr\u00ednseca que lhes permite evitar o dano&#8230; O resultado \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o composta inteiramente por cepas resistentes\u201d [16].<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, escreveu, atingiu-se uma \u201cescalada do controle qu\u00edmico\u201d, o que implica um uso crescente de venenos cada vez mais letais [17]. Outros descreveram a consequ\u00eancia da evolu\u00e7\u00e3o da agricultura baseada na qu\u00edmica como uma <strong>corrida invenc\u00edvel entre os agrot\u00f3xicos e as pragas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;solicitou ao&nbsp;<strong>Departamento de Agricultura dos EUA<\/strong>&nbsp;a autoriza\u00e7\u00e3o para as sementes&nbsp;<strong>Roundup Ready<\/strong>, parecia alegar que o glifosato \u00e9 de alguma forma imune \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a \u201cpropriedades biol\u00f3gicas e qu\u00edmicas\u201d indeterminadas. Seu pedido afirmava que \u201co glifosato \u00e9 considerado um herbicida com baixo risco de resist\u00eancia de ervas daninhas\u201d, de modo que \u201c\u00e9 altamente improv\u00e1vel que a resist\u00eancia de ervas daninhas ao glifosato se torne um problema em decorr\u00eancia da comercializa\u00e7\u00e3o da soja tolerante ao glifosato\u201d. Ao inv\u00e9s de provocar resist\u00eancia, \u201c\u00e9 poss\u00edvel reduzir o uso total de herbicidas\u201d [18].<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos cientistas concordaram. O ambientalista&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/185-noticias-2016\/560544-uma-horta-entre-o-ceu-e-a-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Miguel Altieri<\/a>, por exemplo, previu em 1998, na revista socialista&nbsp;<strong>Monthly Review<\/strong>, que \u201cessas culturas provavelmente aumentar\u00e3o o uso de pesticidas e acelerar\u00e3o a evolu\u00e7\u00e3o de \u2018superervas daninhas\u2019 e cepas resistentes de pragas de insetos\u201d [19].<\/p>\n\n\n\n<p>Foi exatamente isso que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em poucos anos, as ervas daninhas que o glifosato n\u00e3o conseguiu matar come\u00e7aram a se espalhar na&nbsp;<strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong>&nbsp;e do&nbsp;<strong>Sul<\/strong>, e a resist\u00eancia ao glifosato j\u00e1 foi confirmada em cerca de 50 esp\u00e9cies. Algumas s\u00e3o especialmente destrutivas: o crescimento descontrolado do amaranto (<em>amaranthus palmeri<\/em>), por exemplo, pode reduzir a safra de soja em at\u00e9 80% e a de milho em at\u00e9 90%. Como mostra o estudo de&nbsp;<strong>Jennifer Clapp<\/strong>&nbsp;sobre a ado\u00e7\u00e3o do glifosato, este se tornou outro impulsionador da escalada do controle qu\u00edmico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDiante da crescente resist\u00eancia das ervas daninhas, os agricultores inicialmente decidiram aplicar quantidades maiores de glifosato nas mesmas lavouras para controlar as ervas daninhas. \u00c0 medida que as ervas daninhas resistentes ao glifosato continuam a brotar, os agricultores, incentivados pelos fabricantes de herbicidas, aplicam cada vez mais produtos qu\u00edmicos mais antigos e mais t\u00f3xicos, como o&nbsp;<strong>dicamba<\/strong>&nbsp;e o&nbsp;<strong>2,4-D<\/strong>, para controlar as ervas daninhas em suas lavouras\u201d [20].<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, a adi\u00e7\u00e3o de genes Bt ao milho e ao algod\u00e3o aumentou a resist\u00eancia a insetos e o uso de pesticidas. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/628765-agrotoxicos-um-atlas-global-expoe-o-desastre\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Atlas dos Pesticidas<\/a>&nbsp;de 2022 relata:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNos&nbsp;<strong>EUA<\/strong>, esp\u00e9cies de verme da raiz do milho ocidental (<em>Diabrotica virgifera virgifera<\/em>) j\u00e1 s\u00e3o resistentes a mais de uma toxina Bt. No in\u00edcio do uso de cultivos Bt, houve uma significativa redu\u00e7\u00e3o na quantidade de pesticidas utilizados. Mas apenas temporariamente: as vendas de inseticidas na produ\u00e7\u00e3o de milho dos&nbsp;<strong>EUA<\/strong>&nbsp;aumentaram significativamente. <strong>Em 2018, os agricultores indianos gastaram 37% mais dinheiro por hectare para comprar inseticidas do que antes da introdu\u00e7\u00e3o do algod\u00e3o geneticamente modificado em 2002\u201d<\/strong> [21].<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 recentemente, as sementes transg\u00eanicas continham no m\u00e1ximo tr\u00eas modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, mas a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/596652-o-desastre-global-chamado-bayer-monsanto\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bayer<\/a>, que adquiriu a&nbsp;<strong>Monsanto<\/strong>&nbsp;em 2018, aumentou recentemente o conte\u00fado incorporando oito altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em seu&nbsp;<strong>Smartstax Pro Corn<\/strong>. Essas sementes altamente modificadas toleram os herbicidas glifosato e&nbsp;<strong>dicamba<\/strong>&nbsp;<em>e ao mesmo tempo<\/em>&nbsp;produzem cinco diferentes toxinas inseticidas Bt e usam,&nbsp;<em>al\u00e9m disso<\/em>, uma nova tecnologia de interfer\u00eancia de RNA para bloquear a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas essenciais em vermes do milho, a praga mais prejudicial do milho.<\/p>\n\n\n\n<p>A corrida armamentista continua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Monoculturas e capitalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1859, no \u00faltimo par\u00e1grafo de&nbsp;<strong>A Origem das Esp\u00e9cies<\/strong>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/18895-a-ciencia-antes-e-depois-de-darwin-entrevista-especial-com-lilian-al-chueyr-pereira-martins-e-roberto-de-andrade-martins\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Charles Darwin<\/a>&nbsp;descreveu o mundo natural como \u201cum terreno coberto com muitas plantas de muitos tipos, com p\u00e1ssaros cantando nos arbustos, com v\u00e1rios insetos esvoa\u00e7ando de l\u00e1 para c\u00e1 e com vermes rastejando pela terra \u00famida\u2026 [cheia de] formas cuidadosamente constru\u00eddas, t\u00e3o diferentes e t\u00e3o dependentes umas das outras de maneira t\u00e3o complexa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se&nbsp;<strong>Darwin<\/strong>&nbsp;pudesse ver o que a agricultura capitalista fez com os terrenos cobertos de hoje, sem d\u00favida concordaria com o ecologista conservacionista&nbsp;<strong>Ian Rappel<\/strong>: \u201ca substitui\u00e7\u00e3o da maravilhosa biodiversidade pela monotonia das monoculturas passou a situar-se no centro do metabolismo socioecol\u00f3gico do capitalismo\u201d [22].<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ecologia, que sob o capitalismo \u00e9 objeto de uma engenharia ativa, \u00e9 determinada pelo af\u00e3 do lucro da classe dominante&#8230; O capitalismo s\u00f3 foi capaz de manter sua rejei\u00e7\u00e3o da natureza e sua tend\u00eancia ecol\u00f3gica destrutiva mediante a introdu\u00e7\u00e3o de mercadorias ecol\u00f3gicas artificiais de v\u00e1rios setores da ind\u00fastria capitalista, por exemplo, na agricultura. Isso gera uma tend\u00eancia ecol\u00f3gica disfuncional em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 uniformidade e simplicidade ecol\u00f3gicas que inevitavelmente levar\u00e1 \u00e0 perda da biodiversidade e \u00e0 extin\u00e7\u00e3o\u201d [23].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Miguel Altieri<\/strong>&nbsp;associa o r\u00e1pido decl\u00ednio da biodiversidade \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o da agricultura capitalista no final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pr\u00f3pria natureza da estrutura agr\u00edcola e as pol\u00edticas que prevalecem em um cen\u00e1rio capitalista provocaram crises ambientais ao favorecer a cria\u00e7\u00e3o de grandes fazendas, a produ\u00e7\u00e3o especializada, a monocultura e a mecaniza\u00e7\u00e3o. Hoje, \u00e0 medida que mais agricultores se integram \u00e0 economia internacional, o imperativo biol\u00f3gico da biodiversidade est\u00e1 desaparecendo devido ao uso de muitos tipos de pesticidas e fertilizantes sint\u00e9ticos, e as grandes fazendas se beneficiam das economias de escala\u201d [24].<\/p>\n\n\n\n<p>A maximiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de poucas plantas que podem ser vendidas com lucro nos mercados mundiais levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de vastas monoculturas em fazendas que parecem f\u00e1bricas e que envenenam e matam os&nbsp;<em>terrenos cobertos<\/em>&nbsp;de&nbsp;<strong>Darwin<\/strong>. A manuten\u00e7\u00e3o dessas monoculturas requer quantidades cada vez maiores de produtos qu\u00edmicos, prendendo os agricultores em uma rotina que \u00e9 altamente lucrativa para a ind\u00fastria agroqu\u00edmica. <strong>As vendas mundiais totais de herbicidas s\u00e3o estimadas em US$ 39 bilh\u00f5es em 2021 e provavelmente chegar\u00e3o a US$ 49 bilh\u00f5es em 2027. Os valores equivalentes para inseticidas s\u00e3o, respectivamente, de US$ 19,5 bilh\u00f5es e US$ 28,5 bilh\u00f5es.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Enquanto um punhado de empresas agroqu\u00edmicas e comerciantes de produtos b\u00e1sicos controlarem os insumos e a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mundial, a din\u00e2mica capitalista de impor a monotonia das monoculturas continuar\u00e1 e o apocalipse dos insetos se acelerar\u00e1.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>[1] Dave Goulson,&nbsp;<strong>Silent Earth: Averting the Insect Apocalypse<\/strong>&nbsp;(HarperCollins, 2021), 123.<\/p>\n\n\n\n<p>[2] ISAAA, \u201c<strong>ISAAA Brief 55-2019: Executive Summary<\/strong>\u201d, ISAAA Inc., 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>[3] 2,4-D \u00e9 a abreviatura de 2,4-\u00e1cido diclorofenoxiac\u00e9tico (C8H6Cl2O3).<\/p>\n\n\n\n<p>[4] Rachel Carson,&nbsp;<strong>Primavera silenciosa<\/strong>&nbsp;(Editora Gaia, 2010), p. 297 no original.<\/p>\n\n\n\n<p>[5] Jennifer Clapp, \u201cExplaining Growing Glyphosate Use: The Political Economy of Herbicide-Dependent Agriculture\u201d,&nbsp;<strong>Global Environmental Change<\/strong>&nbsp;67 (24 de fevereiro de 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>[6] Bartow J. Elmore,&nbsp;<strong>Seed Money: Monsanto\u2019s Past and Our Food Future<\/strong>&nbsp;(W. W. Norton, 2021), 186, 187.<\/p>\n\n\n\n<p>[7] Carey Gullam,&nbsp;<strong>Whitewash: The Story of a Weed Killer, Cancer, and the Corruption of Science<\/strong>&nbsp;(Island Press, 2017), 46.<\/p>\n\n\n\n<p>8] Jennifer Clapp, \u201cExplaining Growing Glyphosate Use\u201d,&nbsp;<strong>Global Environmental Change<\/strong>&nbsp;67 (24 de fevereiro de 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>[9] Erica Borg e Amedeo Policante,&nbsp;<strong>Mutant Ecologies: Manufacturing Life in the Age of Genomic Capital<\/strong>&nbsp;(Pluto Press, 2022), 124.<\/p>\n\n\n\n<p>[10] Crop Production Historical Track Records (United States Department of Agriculture, 2019), 31, 164.<\/p>\n\n\n\n<p>[11] Miguel A. Altieri e Walter A. Pengue, Roundup Ready Soybean in Latin America: A Machine of Hunger, Deforestation and Socio-Ecological Devastation,&nbsp;<strong>Biosafety Information Centre<\/strong>, 8 de agosto de 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>[12] Miguel A. Altieri e Walter A. Pengue, Roundup Ready Soybean in Latin America: A Machine of Hunger, Deforestation and Socio-Ecological Devastation,&nbsp;<strong>Biosafety Information Centre<\/strong>, 8 de agosto de 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>[13] Nazaret Castro, \u201c\u2018United Republic of Soyabeans\u2019 and the Challenge to Agriculture\u201d,&nbsp;<strong>Equal Times<\/strong>, 12 de dezembro de 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>[14] Xiao-Peng Song e cols., \u201cMassive Soybean Expansion in South America since 2000 and Implications for Conservation\u201d,&nbsp;<strong>Nature Sustainability<\/strong>&nbsp;4, n.\u00ba 9 (7 de agosto de 2021), 784. Em 2006 imp\u00f4s-se uma morat\u00f3ria sobre as novas planta\u00e7\u00f5es de soja na Amaz\u00f4nia brasileira: o desenvolvimento se deslocou ent\u00e3o para uma produ\u00e7\u00e3o ainda maior na regi\u00e3o tropical do cerrado, no Sudeste.<\/p>\n\n\n\n<p>[15] Aldo Merotto e cols., \u201cHerbicide Use History and Perspective in South America\u201d,&nbsp;<strong>Advances in Weed Science<\/strong>, 15 de setembro de 2022, 5.<\/p>\n\n\n\n<p>[16] Rachel Carson,&nbsp;<strong>Primavera silenciosa<\/strong>&nbsp;(Editora Gaia, 2010), p. 273, no original.<\/p>\n\n\n\n<p>[17] Rachel Carson,&nbsp;<strong>Primavera silenciosa<\/strong>&nbsp;(Editora Gaia, 2010), p. 279, no original.<\/p>\n\n\n\n<p>[18] \u201cPetition for Determination of Nonregulated Status: Soybeans with a Roundup Ready\u2122 Gene\u201d, (1993) 56, 55.<\/p>\n\n\n\n<p>[19] Miguel A. Altieri, \u201cEcological Impacts of Industrial Agriculture and the Possibilities for Truly Sustainable Farming\u201d, em&nbsp;<strong>Hungry for Business: The Agribusiness Threat to Farmers, Food, and the Environment<\/strong>, ed. Fred Magdoff (Monthly Review Press, 2000), 86. (Artigo publicado originalmente em&nbsp;<strong>Monthly Review<\/strong>, julho-agosto de 1998).<\/p>\n\n\n\n<p>[20] Jennifer Clapp, \u201cExplaining Growing Glyphosate Use: The Political Economy of Herbicide-Dependent Agriculture\u201d,&nbsp;<strong>Global Environmental Change<\/strong>&nbsp;67 (mar\u00e7o de 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>[21] Caspar Shaller, ed.,&nbsp;<strong>Pesticide Atlas 2022<\/strong>&nbsp;(Friends of the Earth Europe, 2022), 37.<\/p>\n\n\n\n<p>[22] Ian Rappel, \u201cThe Habitable Earth: Biodiversity, Society and Rewilding\u201d,&nbsp;<strong>International Socialism<\/strong>, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>[23] Ian Rappel, \u201cCapitalism and Species Extinction\u201d,&nbsp;<strong>International Socialism<\/strong>, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>[24] Miguel A. Altieri, \u201cEcological Impacts of Industrial Agriculture and the Possibilities for Truly Sustainable Farming\u201d, em&nbsp;<strong>Hungry for Business<\/strong>, ed. Fred Magdoff (Monthly Review Press, 2000), 78.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Engenharia gen\u00e9tica e herbicidas a servi\u00e7o da monocultura capitalista. Por Artigo de Ian Angus Tradu\u00e7\u00e3o Cepat &#8220;Os principais resultados da engenharia gen\u00e9tica na agricultura foram: a expans\u00e3o das monoculturas na Am\u00e9rica do Norte&nbsp;e do&nbsp;Sul, o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12158,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,38,49,27,42,25,56,29,43],"tags":[],"class_list":["post-12156","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-direito-a-saude","category-direito-a-terra","category-direitos-humanos","category-efa-escola-familia-agricola","category-luta-pela-terra-e-reforma-agraria","category-meio-ambiente","category-movimentos-sociais-populares","category-pedagogia-emancipatoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12156"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12160,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12156\/revisions\/12160"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12158"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}