{"id":12197,"date":"2023-06-20T09:53:17","date_gmt":"2023-06-20T12:53:17","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12197"},"modified":"2023-06-20T09:53:18","modified_gmt":"2023-06-20T12:53:18","slug":"por-que-revogar-o-novo-ensino-medio-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/por-que-revogar-o-novo-ensino-medio-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"POR QUE REVOGAR O \u201cNOVO\u201d ENSINO M\u00c9DIO. Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>POR QUE REVOGAR O \u201cNOVO\u201d ENSINO M\u00c9DIO<\/strong>. Por Frei Betto<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/maxresdefault-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12198\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/maxresdefault-1024x576.jpg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/maxresdefault-300x169.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/maxresdefault-768x432.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/maxresdefault.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os primeiros meses do governo Lula mostram como ser\u00e1 dif\u00edcil reconstruir o Brasil. A frente ampla em defesa da democracia para vencer a elei\u00e7\u00e3o expressa limites para o avan\u00e7o em pol\u00edticas que apontem para um futuro estruturalmente melhor para a popula\u00e7\u00e3o, em especial os mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na educa\u00e7\u00e3o, o exemplo \u00e9 o Ensino M\u00e9dio, cuja reformula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o teve origem no governo Temer. O golpe parlamentar contra a presidenta Dilma legou ao pa\u00eds a profunda crise pol\u00edtica em que ainda estamos enrascados e, no bojo, as heran\u00e7as malditas do teto de gastos, da liberaliza\u00e7\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o, da precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e do chamado \u201cnovo Ensino M\u00e9dio\u201d. O golpe visou fazer avan\u00e7ar estas contrarreformas de n\u00edtido sentido neoliberal e antipopular.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Desinteresse em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s disciplinas e curr\u00edculos, elevada evas\u00e3o de alunos, necessidade de conex\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica e com o mundo do trabalho. S\u00e3o fatores importantes que exigem constante avalia\u00e7\u00e3o e eventual reformula\u00e7\u00e3o do Ensino M\u00e9dio. O governo Dilma j\u00e1 debatia altera\u00e7\u00f5es nesta etapa da educa\u00e7\u00e3o, que representa os anos finais da escolariza\u00e7\u00e3o da juventude.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O projeto de lei 6.840, de 2013, esbo\u00e7ava mudan\u00e7as pretendidas pelo governo em rela\u00e7\u00e3o ao Ensino M\u00e9dio. Era avaliado criticamente por entidades de professores e estudantes, inclusive ao propor elementos de organiza\u00e7\u00e3o curricular que depois seriam retomados pelo \u201cnovo Ensino M\u00e9dio\u201d, como a redu\u00e7\u00e3o das disciplinas comuns e a oferta de temas de livre escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O golpe de 2016, entretanto, interrompeu este processo de di\u00e1logo. Atrav\u00e9s da Medida Provis\u00f3ria 746\/2016 e, posteriormente, da Lei 13.415\/2017, o governo Temer imp\u00f4s o \u201cnovo Ensino M\u00e9dio\u201d, que alterou a Base Nacional Comum Curricular e seu suporte pedag\u00f3gico legal, depois aprovada no governo Bolsonaro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como se deu a aprova\u00e7\u00e3o? Alterou-se a composi\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, com a nomea\u00e7\u00e3o de conselheiros ligados \u00e0s funda\u00e7\u00f5es e institutos empresariais, defensores das orienta\u00e7\u00f5es do Banco Mundial para a educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A Base Nacional Comum Curricular, portadora dos conceitos neoliberais de empreendedorismo e meritocracia, engessa o curr\u00edculo escolar do Ensino M\u00e9dio. Conte\u00fados de Matem\u00e1tica e L\u00edngua Portuguesa passam a ser oferecidos quase no limite de um ensino para dom\u00ednio instrumental dessas disciplinas, essenciais para a forma\u00e7\u00e3o plena do estudante.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O que Temer e o Congresso Nacional impuseram significou a precariza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo escolar e comprometeu a forma\u00e7\u00e3o dos estudantes, ao reduzir a carga hor\u00e1ria da Forma\u00e7\u00e3o Geral B\u00e1sica (Portugu\u00eas, Matem\u00e1tica, Hist\u00f3ria, Geografia, Ci\u00eancias, Artes, Filosofia, Sociologia) no segundo e terceiro anos do Ensino M\u00e9dio. E ampliou para 40% da carga hor\u00e1ria, nesses anos, a parte diversificada do curr\u00edculo, ao inserir os chamados \u201citiner\u00e1rios formativos\u201d, em que supostamente os estudantes poderiam escolher o que estudar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;H\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre a propaganda de que os estudantes seriam protagonistas de sua carreira escolar e a realidade do \u201cnovo ensino m\u00e9dio\u201d, que prescreve habilidades e compet\u00eancias s\u00f3cio comportamentais necess\u00e1rias \u00e0 sobreviv\u00eancia desses jovens no mundo do trabalho: capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia em um cen\u00e1rio de competi\u00e7\u00e3o e instabilidade. S\u00e3o \u201chabilidades\u201d para uma sociedade baseada na \u201cvira\u00e7\u00e3o\u201d, na esperteza, o que os defensores da educa\u00e7\u00e3o neoliberal chamam de \u201cempreendedorismo\u201d. <strong>Trata-se de educar para adequar-se ao mercado de trabalho precarizado e ao conformismo como aus\u00eancia de alternativa<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A implementa\u00e7\u00e3o do \u201cnovo Ensino M\u00e9dio\u201d ao longo dos \u00faltimos dois anos e sob responsabilidade das secretarias estaduais de educa\u00e7\u00e3o, evidenciou mais problemas, como a precariedade da infraestrutura das escolas p\u00fablicas \u2013 em que estudam cerca de 88% dos quase 8 milh\u00f5es de estudantes matriculados no Ensino M\u00e9dio no Brasil \u2013, e a falta de professores. Somam-se a este grave problema&nbsp;maus contratos, muitas contrata\u00e7\u00f5es&nbsp;tempor\u00e1rias, al\u00e9m de aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o adequada e pouco tempo para prepara\u00e7\u00e3o de aulas. Todos esses fatos revelam a inadequa\u00e7\u00e3o desta proposta para a realidade dos estudantes, que passaram a se mobilizar pela revoga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O \u201ccurr\u00edculo em migalhas\u201d n\u00e3o atende \u00e0s necessidades e interesses dos alunos, notadamente dos filhos e filhas da classe trabalhadora que est\u00e3o nas escolas p\u00fablicas, e n\u00e3o os prepara para a continuidade dos estudos em n\u00edvel superior ou escolas t\u00e9cnicas, se assim desejarem. Nem para que possam ingressar dignamente no mundo do trabalho, for\u00e7ando-os \u00e0 exclus\u00e3o das esferas de decis\u00e3o nas empresas, institui\u00e7\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os do poder p\u00fablico, e \u00e0 perman\u00eancia em fun\u00e7\u00f5es subalternas e mal remuneradas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O ensino m\u00e9dio neoliberal ampliou o abismo que j\u00e1 existia entre as escolas p\u00fablicas e as melhores escolas privadas, refor\u00e7ando o fato de haver no Brasil uma escola \u201cpobre\u201d para os pobres, e escolas de qualidade para os ricos, o que aprofunda o&nbsp;<em>apartheid social.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A bandeira do \u201cRevoga j\u00e1!\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 contrarreforma neoliberal do Ensino M\u00e9dio tem potencial para expor a raiz do problema educacional no Brasil: a desigualdade nas condi\u00e7\u00f5es de ensino-aprendizagem entre as escolas p\u00fablica e privada. E mesmo entre escolas privadas de elite nos grandes centros urbanos e as localizadas no interior do Brasil e nos bairros de classe m\u00e9dia nas grandes cidades. \u00c9 a reprodu\u00e7\u00e3o ampliada dessa desigualdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ao mesmo tempo, condiciona o horizonte de possibilidades dos jovens (ricos e pobres) ao fatalismo do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, ou seja, que o futuro do Brasil n\u00e3o comporta desenvolvimento social e econ\u00f4mico que nos fa\u00e7a superar a depend\u00eancia e as heran\u00e7as neocoloniais do subdesenvolvimento: pobreza estrutural, concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra (rural e urbana), elevada inser\u00e7\u00e3o informal, prec\u00e1ria e sem prote\u00e7\u00e3o social no mercado de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Revogar o ensino m\u00e9dio neoliberal \u00e9 imprescind\u00edvel para reconstruir o Brasil. A educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e, em especial, a etapa final do seu percurso formativo, que \u00e9 o Ensino M\u00e9dio, precisa ser refundada a partir de amplo e democr\u00e1tico processo participativo que re\u00fana estudantes secundaristas e suas organiza\u00e7\u00f5es, professoras e professores e suas representa\u00e7\u00f5es sindicais, e especialistas em educa\u00e7\u00e3o comprometidos com um projeto popular para o pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Se queremos uma educa\u00e7\u00e3o que viabilize a democratiza\u00e7\u00e3o e a desmercantiliza\u00e7\u00e3o da vida, h\u00e1 que construir uma reforma educacional humanista e cr\u00edtica inspirada na educa\u00e7\u00e3o libertadora de Paulo Freire.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cPor uma educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e participativa\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Frei Betto \u00e9 autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Voc\u00ea poder\u00e1 adquiri-los com desconto na Livraria Virtual \u2013 <\/strong><a href=\"http:\/\/www.freibetto.org\/\"><strong>www.freibetto.org<\/strong><\/a><strong>&nbsp; <\/strong><strong>Ali os encontrar\u00e1&nbsp; a pre\u00e7os mais baratos<\/strong><strong> <\/strong><strong>e os receber\u00e1 em casa pelo correio.&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR QUE REVOGAR O \u201cNOVO\u201d ENSINO M\u00c9DIO. Por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os primeiros meses do governo Lula mostram como ser\u00e1 dif\u00edcil reconstruir o Brasil. 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