{"id":12552,"date":"2023-09-12T11:54:24","date_gmt":"2023-09-12T14:54:24","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12552"},"modified":"2023-09-12T11:54:26","modified_gmt":"2023-09-12T14:54:26","slug":"cracolandia-e-subjetividade-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/cracolandia-e-subjetividade-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"CRACOL\u00c2NDIA E SUBJETIVIDADE \u2013 Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>CRACOL\u00c2NDIA E SUBJETIVIDADE \u2013 Por Frei Betto<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/frei-betto.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12553\" width=\"780\" height=\"520\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/frei-betto.jpeg 750w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/frei-betto-300x200.jpeg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/frei-betto-420x280.jpeg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><figcaption>Frei Betto. Foto Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;V\u00e1rias cidades brasileiras j\u00e1 contam com redutos onde os usu\u00e1rios de crack se re\u00fanem \u2013 as Cracol\u00e2ndias. Na capital paulista, se situa na regi\u00e3o central. Em Bras\u00edlia, no \u201cBuraco do Rato\u201d, no Setor Comercial Sul. Em Fortaleza, no bairro Moura Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em S\u00e3o Paulo, onde moro, chega a reunir cerca de duas mil pessoas por dia. A Unifesp constatou, em pesquisa recente, que 43% dos usu\u00e1rios ali se encontram devido a conflitos familiares; 9,5%, viol\u00eancia dom\u00e9stica; e 7%, extrema pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tanto a prefeitura paulistana quanto o governo estadual j\u00e1 tentaram v\u00e1rias medidas para erradicar a Cracol\u00e2ndia. Todas ineficazes. \u00c9 fato que os usu\u00e1rios prejudicam o com\u00e9rcio local, dificultam a circula\u00e7\u00e3o de moradores e ve\u00edculos, sujam as ruas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como o capitalismo adota a l\u00f3gica anal\u00edtica e, portanto, s\u00f3 atua sobre os efeitos dos fen\u00f4menos, as medidas tomadas pelo poder p\u00fablico s\u00e3o sequer paliativas. Uma delas \u00e9 o combate ao tr\u00e1fico de drogas, que s\u00f3 serve para enxugar gelo. Se a repress\u00e3o ao narcotr\u00e1fico funcionasse, os EUA n\u00e3o seriam o maior mercado mundial de consumo de drogas il\u00edcitas. Segundo o CDC (Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as) dos EUA, durante a pandemia, em um ano, mais de 100 mil usamericanos morreram de overdose.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>Sou a favor da descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas e da libera\u00e7\u00e3o de seu uso controlado, desde que todo o processo, da fabrica\u00e7\u00e3o ao consumo, esteja sob administra\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica e tenha, por objetivo, livrar o usu\u00e1rio da depend\u00eancia e erradicar o narcotr\u00e1fico.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quero aqui, entretanto, retomar o que falei para cerca de 1.500 profissionais do SUAS (Servi\u00e7o \u00danico de Assist\u00eancia Social), em Salvador, dia 14\/8, no 23\u00ba&nbsp;Encontro Regional Nordeste de Colegiados de Secret\u00e1rios(as) Municipais da Assist\u00eancia Social&nbsp;(Congemas).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma das medidas equivocadas adotadas pelo poder p\u00fablico de S\u00e3o Paulo foi alocar usu\u00e1rios em hot\u00e9is. Ora, essa gente vive na mis\u00e9ria. E precisa de dinheiro para alimentar o v\u00edcio. Resultado: os hot\u00e9is foram depredados, pois arrancaram as pias dos banheiros, as l\u00e2mpadas do teto, as cadeiras do quarto, para vender e obter recursos. Tivessem as autoridades um pouco mais de conhecimento da hist\u00f3ria da assist\u00eancia social, saberiam que na d\u00e9cada de 1950, na Cruzada S\u00e3o Sebasti\u00e3o, no Rio, moradores de favelas, trasladados para pr\u00e9dios no Leblon, \u201cdepenaram\u201d os apartamentos para fazer dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Qual a solu\u00e7\u00e3o? Uma delas reside no fator pedag\u00f3gico, no resgate da autoestima dos frequentadores da Cracol\u00e2ndia. Como eles s\u00e3o tratados pela pol\u00edcia? Como indesejados, viciados, vagabundos e nojentos.&nbsp;E pelos comerciantes e vizinhos? Do mesmo modo que a pol\u00edcia os trata, como estorvo.&nbsp;Como s\u00e3o tratados pela assist\u00eancia social? Como an\u00f4nimos, invis\u00edveis, meros objetos desprez\u00edveis de um trabalho burocr\u00e1tico?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aquele \u00e9 um aglomerado de pessoas. Ali, cada ser humano tem um nome, parentes, hist\u00f3ria de vida. N\u00e3o merece ser encarado como mero \u201cviciado\u201d ou, como canta Chico Buarque, \u201cE trope\u00e7ou no c\u00e9u como se fosse um b\u00eabado \/ E flutuou no ar como se fosse um p\u00e1ssaro \/ E se acabou no ch\u00e3o feito um pacote fl\u00e1cido \/ Agonizou no meio do passeio p\u00fablico<br>\/ Morreu na contram\u00e3o, atrapalhando o tr\u00e1fego.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Se eles se drogam \u00e9 porque n\u00e3o suportam a pr\u00f3pria realidade \u2013 como acontece a todo dependente qu\u00edmico. Todo viciado em drogas \u00e9 um m\u00edstico em potencial. Algu\u00e9m que descobriu a verdade: a felicidade \u00e9 uma experi\u00eancia subjetiva. N\u00e3o resulta da soma de prazeres, como tenta nos convencer a sociedade de consumo. Nem da conta banc\u00e1ria gorda ou dos t\u00edtulos que a pessoa ostenta (e a eles se agarra como carrapato na pele), pois, ao perder os t\u00edtulos ou a fun\u00e7\u00e3o, a pessoa entra em depress\u00e3o por n\u00e3o ter suficiente autoestima. Ela necessita de adornos para fazer reluzir sua presen\u00e7a no mundo, como in\u00fameros pol\u00edticos.&nbsp;&nbsp;Raros os que, como Fidel Castro, t\u00eam a ousada humildade de determinar, em seu testamento, a expressa proibi\u00e7\u00e3o do uso de seu nome em ruas e avenidas, universidades e hospitais, est\u00e1tuas, placas e monumentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A diferen\u00e7a entre o m\u00edstico e o viciado \u00e9 que o primeiro entra pela porta do Absoluto e o segundo, pela do absurdo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quem lida com pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua precisa ter capacita\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica. Saber encar\u00e1-las em sua dignidade, em seus direitos humanos, em sua condi\u00e7\u00e3o de filhos e filhas de Deus. \u00c9 preciso ter paci\u00eancia, saber escutar, deixar que cada um conte a sua hist\u00f3ria de vida familiar e profissional, e expresse seus sonhos e desejos.&nbsp;&nbsp;Somente atrav\u00e9s desse processo \u201cterap\u00eautico\u201d, essencialmente paulofreiriano, \u00e9 poss\u00edvel ajud\u00e1-los a tomar a iniciativa de se submeter a tratamento, abandonar o v\u00edcio e mudar de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u00c9 gra\u00e7as \u00e0 autoestima que uma pessoa se sente feliz e realizada, seja faxineiro, astrof\u00edsico, operador de m\u00e1quina ou porteiro de pr\u00e9dio. Ela necessita emergir da invisibilidade, se sentir socialmente reconhecida, \u00fatil, enfim, cidad\u00e3. A pol\u00edtica do descarte e da repress\u00e3o s\u00f3 agrava o sentimento de revolta e humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As Cracol\u00e2ndias n\u00e3o podem ser tratadas como caso de pol\u00edcia, e sim como caso de pol\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Escritor, autor do romance policial \u201cHotel Brasil\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual \u2013 freibetto.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRACOL\u00c2NDIA E SUBJETIVIDADE \u2013 Por Frei Betto[1] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;V\u00e1rias cidades brasileiras j\u00e1 contam com redutos onde os usu\u00e1rios de crack se re\u00fanem \u2013 as Cracol\u00e2ndias. Na capital paulista, se situa na regi\u00e3o central. 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