{"id":12582,"date":"2023-09-19T20:05:41","date_gmt":"2023-09-19T23:05:41","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12582"},"modified":"2023-09-19T20:05:43","modified_gmt":"2023-09-19T23:05:43","slug":"a-dimensao-erotica-do-furor-de-deus-e-a-rainha-do-ceu-o-meu-furor-e-o-meu-ciume-por-sandro-galazzi-e-ana-galazzi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-dimensao-erotica-do-furor-de-deus-e-a-rainha-do-ceu-o-meu-furor-e-o-meu-ciume-por-sandro-galazzi-e-ana-galazzi\/","title":{"rendered":"A dimens\u00e3o er\u00f3tica do furor de Deus e \u201ca rainha do c\u00e9u\u201d: \u201co meu furor e o meu ci\u00fame\u201d \u2013 Por Sandro Galazzi e Ana Galazzi"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A dimens\u00e3o er\u00f3tica do furor de Deus e \u201ca rainha do c\u00e9u\u201d: \u201co meu furor e o meu ci\u00fame\u201d <\/strong>\u2013 Por Sandro Galazzi e Ana Galazzi<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/seminarioSANDRO-405x640-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12583\" width=\"782\" height=\"1236\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/seminarioSANDRO-405x640-1.jpg 405w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/seminarioSANDRO-405x640-1-190x300.jpg 190w\" sizes=\"auto, (max-width: 782px) 100vw, 782px\" \/><figcaption>O biblista Sandro Galazzi. Foto reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Resumo<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>Justificar e explicar a hist\u00f3ria usando a alegoria do ci\u00fame furioso e devastador de Deus \u00e9 uma maneira de fazer teologia, de \u201cfalar de Deus\u201d. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem que sobressai, filtrada por estas p\u00e1ginas \u00e9 uma imagem n\u00edtida de um macho possessivo e vingador que considera a coisa mais tranq\u00fcila e leg\u00edtima do mundo, destruir a mulher que era \u201csua\u201d, mas que, por n\u00e3o se sentir saciada, o traiu e o humilhou correndo atr\u00e1s de corpos mais jovens, mais fortes e melhor equipados.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o homem\/mulher, quando vivida desta forma, acaba n\u00e3o sendo muito diferente da rela\u00e7\u00e3o pai\/filho(a), patr\u00e3o\/empregado, dominador\/s\u00fadito: trata-se somente de uma rela\u00e7\u00e3o de posse-poder!<\/p>\n\n\n\n<p>A profecia, v\u00e1rias vezes, usa as imagens da rela\u00e7\u00e3o sexual para descrever a rela\u00e7\u00e3o entre Deus e seu povo, para identificar e explicar os sentimentos \u2013 sobretudo de Deus &#8211; e os fatos da hist\u00f3ria do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste trabalho gostar\u00edamos de nos deter em algumas destas p\u00e1ginas e refletir sobre o erotismo como uma forma de linguagem teol\u00f3gica, capaz de revelar quem \u00e9 o nosso Deus e o que \u00e9 que ele quer.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos olhar os textos na perspectiva das rela\u00e7\u00f5es mulher \u2013 homem, com suas componentes sexuais e er\u00f3ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que, por se tratar de alegorias, a mensagem teol\u00f3gica deve ser buscada por tr\u00e1s das palavras, no fundo escondido e n\u00e3o na superf\u00edcie aparente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o podemos esquecer que atr\u00e1s destas \u201cmulheres\u201d est\u00e3o cidades, projetos pol\u00edticos, momentos da hist\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 claro que atr\u00e1s dos \u201camantes\u201d est\u00e3o outras cidades, outras na\u00e7\u00f5es, outros projetos pol\u00edticos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 idolatria, \u00e9 opress\u00e3o do povo, \u00e9 alian\u00e7a pol\u00edtica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso n\u00e3o podemos simplificar, reduzir e fazer da chave sexo-er\u00f3tica a \u00fanica chave de leitura. \u00c9 indiscut\u00edvel, por\u00e9m, que a linguagem sexuada ajuda a identificar qual a imagem de Deus que est\u00e1 presente na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o do profeta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o que ensaiamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa deve ser dita de antem\u00e3o: em todos os textos que trabalharemos, Deus sempre assume o papel do homem\/macho e Jerusal\u00e9m e\/ou Samaria o da mulher\/f\u00eamea. Isto quer dizer que a rela\u00e7\u00e3o dos dois ser\u00e1 sempre vista, analisada e julgada sob o ponto de vista do homem\/macho.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher quase nunca vai se expressar, vai ter pouco ou nenhum espa\u00e7o para ela. Ela vai ter que escutar, calada, as reprimendas, os apelos e as senten\u00e7as do homem. Ele e s\u00f3 ele vai decidir qual ser\u00e1 o futuro da mulher.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Ezequiel 16<\/h1>\n\n\n\n<p>Vamos come\u00e7ar por Ezequiel 16 que nos apresenta a alegoria da esposa infiel. De um lado est\u00e1 o homem\/deus, do outro a mulher\/Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa do discurso que mais parece um libelo de acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre do homem. A mulher nunca diz nada: nem no fim. O \u00faltimo vers\u00edculo sublinha com vigor:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA fim de que te lembres e te cubras de vergonha e na tua humilha\u00e7\u00e3o <strong>j\u00e1 n\u00e3o tenha disposi\u00e7\u00e3o de falar<\/strong>, quando eu tiver perdoado tudo quanto fizeste\u201d (Ez 16,63)<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua origem a mulher nos \u00e9 apresentada como \u201cbastarda\u201d, fruto de Cana\u00e3, amorreus e heteus (Ez 16, 3), fruto de prostitui\u00e7\u00e3o (?). Abandonada por todos desde o nascimento, \u00e9 jogada fora sem compaix\u00e3o a estrebuchar no sangue (Ez 16,4-6).<\/p>\n\n\n\n<p>O homem, evidentemente j\u00e1 adulto, \u201cpassa\u201d e sua palavra garante a vida da menina rec\u00e9m-nascida (6). Esta descri\u00e7\u00e3o, de certa maneira, p\u00f5e em destaque o papel paterno do homem e, no resto do texto, far\u00e1 com que permane\u00e7a, como pano de fundo, a ambig\u00fcidade do papel do homem, \u00e0s vezes esposo, \u00e0s vezes pai.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina cresce e vira mo\u00e7a bonita. O texto nos apresenta seu corpo sexuado: nua, seios firmes, cabelos longos, pronta para os amores (Ez 16, 7-8).<\/p>\n\n\n\n<p>O homem \u201cpassa\u201d e com seu manto cobre a nudez (8). Este \u00e9 o \u00fanico momento em que se deixa subentender um gesto sexual por parte do homem. E na men\u00e7\u00e3o posterior aos filhos gerados.<\/p>\n\n\n\n<p>Juramento e alian\u00e7a (casamento?) s\u00e3o iniciativa do homem, aqui explicitamente identificado com o \u201cSenhor\u201d Iahweh (esta, ali\u00e1s, \u00e9 a maneira com que Ezequiel costuma falar de Deus).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoste minha\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A mo\u00e7a passa a ser do \u201csenhor\u201d\/<em>adonai<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa continua sendo toda do homem: ele banha, purifica, unge, veste a mulher, lhe d\u00e1 ornamentos preciosos e comida especial: te tratei como uma rainha, nunca te faltou nada! (Ez 16,9-13).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEras perfeita por causa da minha gl\u00f3ria\u201d (Ez 16,14)<\/p>\n\n\n\n<p>Novamente parecem confundir-se os papeis de pai e de marido?<\/p>\n\n\n\n<p>Em nenhum momento mais se alude a qualquer momento sexual e er\u00f3tico entre os dois. \u00c9 espont\u00e2neo perguntar: qual o peso da idade neste relacionamento?<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher, por\u00e9m, n\u00e3o reconhece esta posse e decide pertencer a outro, seja quem for.<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa agora \u00e9 dela. Sua iniciativa \u00e9 a busca por outros amantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, as imagens er\u00f3ticas multiplicam-se, a linguagem sexual se faz expl\u00edcita com o claro objetivo de envergonhar a mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Te prostitu\u00edste&#8230; derramaste tuas prostitui\u00e7\u00f5es&#8230; profanaste tua beleza.. abriste tuas pernas a todos que passavam&#8230; insaci\u00e1vel&#8230; despudorada&#8230; correste atr\u00e1s dos vizinhos de membros grandes&#8230; ad\u00faltera que acolhe estranhos&#8230; lasc\u00edvia exagerada&#8230; descobriste tua nudez com teus amantes com os quais te deleitastes (passim).<\/p>\n\n\n\n<p>No lugar de receber presentes, esta mulher presenteia seus amantes, reduzidos, assim, a simples gigol\u00f4s sustentados por esta mulher insaci\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>As palavras prostitui\u00e7\u00e3o, prostituta e prostituir-se repetem-se in\u00fameras vezes, feitos refr\u00e3os ensurdecedores e acusadores, pedras jogadas para executar as ad\u00falteras.<\/p>\n\n\n\n<p>O castigo ter\u00e1 a mesma densidade, uma esp\u00e9cie de \u201ccontrapasso\u201d dantesco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDescobrirei as tuas nudezas diante de teus amantes para que todos as vejam\u201d (Ez 16,37)<\/p>\n\n\n\n<p>Como as ad\u00falteras, ela ser\u00e1 exposta \u00e0 vergonha p\u00fablica e ser\u00e1 apedrejada. O gozo do desejo ser\u00e1 substitu\u00eddo pela tr\u00e1gica experi\u00eancia da viola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O sexo foi instrumento de pecado; o sexo ser\u00e1 instrumento de castigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nua ficar\u00e1 como no tempo de sua mocidade, como quando tudo come\u00e7ou antes da passagem do Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>A trai\u00e7\u00e3o, a busca pela satisfa\u00e7\u00e3o do desejo er\u00f3tico, \u00e9 uma esp\u00e9cie de tara heredit\u00e1ria, de fator gen\u00e9tico de todas as mulheres. A m\u00e3e het\u00e9ia foi assim: teve nojo do marido e dos filhos. As irm\u00e3s todas &#8211; Samaria e Sodoma &#8211; tamb\u00e9m foram assim: tiveram nojo dos maridos e dos filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jerusal\u00e9m, por\u00e9m, foi pior, pois ela conheceu de perto o favor do Senhor e o renegou em suas prostitui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201dPorque voc\u00ea se esqueceu do tempo de sua mocidade\u201d (Ez 16,22.43)<\/p>\n\n\n\n<p>De certa maneira \u00e9 para l\u00e1 que o homem quer levar a mulher, para quando era crian\u00e7a. Parece continuar irresolvida a amb\u00edgua rela\u00e7\u00e3o do homem \u201cpai\/marido\u201d com a mulher; continua mais pai do que marido.<\/p>\n\n\n\n<p>Erotismo s\u00f3 com os \u201camantes\u201d, s\u00f3 fora de casa, nos lugares altos, debaixo dos terebintos, nas esquinas das ruas e das pra\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro de casa a rela\u00e7\u00e3o deixa de ser er\u00f3tico-corporal para ser uma rela\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o, de depend\u00eancia, mais adequada a uma crian\u00e7a dependente e agradecida assim como a uma mulher\/esposa submissa e feliz com tudo que o homem lhe traz.<\/p>\n\n\n\n<p>O castigo, nesta perspectiva, n\u00e3o pode ser outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Destrui\u00e7\u00e3o&#8230; vergonha&#8230; opr\u00f3brio&#8230; abandono dos amantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso misturado com o \u201cperd\u00e3o\u201d, um perd\u00e3o motivado pelo fato de que o Senhor n\u00e3o esquece os dias da mocidade da mulher:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu me lembrarei da minha alian\u00e7a, feita contigo nos dias de tua mocidade\u201d (Ez 16,60).<\/p>\n\n\n\n<p>Atitude at\u00e9 compreens\u00edvel por parte de um pai, insuport\u00e1vel, por\u00e9m, num amante.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso a \u201cconvers\u00e3o\u201d da mulher ter\u00e1 que ser marcada pela vergonha, pelo reconhecimento de seu opr\u00f3brio e pelo sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Perd\u00e3o em troca de submiss\u00e3o e de sil\u00eancio. O sexo sequer reaparece. N\u00e3o interessa. Nada iria mudar se no lugar da mulher estiv\u00e9ssemos falando de um homem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O homem, ao produzir esta p\u00e1gina, deixa transparecer seus dois at\u00e1vicos complexos de macho: o medo de n\u00e3o dar conta de satisfazer sexualmente a mulher, o complexo da impot\u00eancia e o complexo de castra\u00e7\u00e3o, o medo de ter um p\u00eanis pequeno, insignificante, rid\u00edculo, quando comparado com o \u201cmembro grande de teus amantes\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando \u00e9 o homem que trai a mulher, quando \u00e9 ele que vai &#8211; e como vai &#8211; com\u00a0 \u201coutras\u201d, ele est\u00e1 afirmando, com o t\u00e1cito consenso da sociedade, sua masculinidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se for a mulher, por\u00e9m, que procura \u201coutros\u201d ela est\u00e1 se prostituindo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ao cham\u00e1-la de ad\u00faltera e prostituta o homem satisfaz seus complexos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A trai\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser aceita na sociedade machista como sendo culpa da mulher. A mulher busca outros amantes porque<em> ela \u00e9 <\/em>\u201cinsaci\u00e1vel\u201d e ingrata<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A trai\u00e7\u00e3o da mulher nunca pode ser sinal de defici\u00eancia masculina<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Ezequiel 23<\/h1>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Ezequiel volta \u00e0 met\u00e1fora da trai\u00e7\u00e3o alguns cap\u00edtulos depois. No cap. 23, a alegoria de Ool\u00e1\/Samaria e Oolib\u00e1\/Jerusal\u00e9m, as duas meretrizes, recebe um destaque t\u00e3o grande quanto o da esposa infiel do cap.16.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta vez, por\u00e9m, n\u00e3o se narra o que o esposo fez para elas. S\u00f3 se diz que \u201ceram minhas\u201d. Em nenhum momento aparece a a\u00e7\u00e3o do homem, antes da trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ool\u00e1 (ela tem uma tenda) e Oolib\u00e1 (minha tenda nela) s\u00e3o prostitutas desde a mocidade, desde o Egito.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o come\u00e7o s\u00f3 fizeram se prostituir.<\/p>\n\n\n\n<p>Novamente as imagens s\u00e3o cruas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cforam apertados seus peitos e apalpados os seios de sua virgindade\u201d (Ez 23,3.8.,21)<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas vezes repete-se este refr\u00e3o que faz iniciar a fornica\u00e7\u00e3o nos dias da mocidade delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00edamos entender que, quando ainda virgens, as duas j\u00e1 estavam se entregando \u00e0 lux\u00faria? Desaparece, aqui, o tempo da fidelidade que, mesmo breve, foi colocado em destaque no cap. 16.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla multiplicou as suas fornica\u00e7\u00f5es fazendo reviver os dias de sua mocidade, quando se prostitu\u00eda na terra do Egito\u201d (Ez 23,19)<\/p>\n\n\n\n<p>As duas t\u00eam praticamente a mesma conduta. Sua a\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, \u00e9 marcada pelo \u201cdesejo insaci\u00e1vel\u201d. O termo <em>\u2018agav\u2019<\/em> s\u00f3 \u00e9 usado neste cap\u00edtulo de Ezequiel e em Jr 4,30 num contesto parecido. A vulgata vai traduzir com <em>\u201cinsanavit\u201d<\/em> &#8211; ficou louca.<\/p>\n\n\n\n<p>As duas perderam a cabe\u00e7a atr\u00e1s de seus amantes e com eles fornicaram&#8230; cometeram suas devassid\u00f5es&#8230; descobriram as nudezas delas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso porque os amantes eram cavaleiros bonitos, jovens, guerreiros valentes e bem vestidos (Ez 23,6.12.15.23) e por eles as duas mulheres se inflamaram. Volta mais uma vez o complexo de castra\u00e7\u00e3o do macho tra\u00eddo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cInflamou-se pelos seus amantes cujos membros s\u00e3o como de jumento e cujo fluxo \u00e9 como fluxo de cavalos\u201d (Ez 23,20).<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez \u00e9 evidenciada a culpa da mulher. Culpa por desejar libidinosamente o corpo forte e jovem de seus amantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez o homem deixa transparecer sua raiva por n\u00e3o conseguir competir contra tamanha concorr\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor amor deles te banhaste, coloriste os olhos, e te ornaste de enfeites; e te assentastes num leito suntuoso, diante de uma mesa preparada com o meu incenso e o meu \u00f3leo. Com ela se ouvia a voz de muita gente que folgava, de beberr\u00f5es trazidos do deserto&#8230;\u201d (Ez 23,40-42).<\/p>\n\n\n\n<p>A ambig\u00fcidade pai\/marido do cap. 16, desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta vez sobrou a raiva do amante tra\u00eddo e, sobretudo, humilhado na sua masculinidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPorque te esqueceste de mim e me atiraste para tr\u00e1s das costas, arcar\u00e1s com tuas fornica\u00e7\u00f5es e prostitui\u00e7\u00f5es\u201d (Ez 23,35)<\/p>\n\n\n\n<p>O castigo \u00e9 inevit\u00e1vel, t\u00e3o inevit\u00e1vel que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para futuros arrependimentos. N\u00e3o mais se fale em perd\u00e3o. O contexto \u00e9 o do julgamento condenat\u00f3rio (Ez 23,36).<\/p>\n\n\n\n<p>As duas mulheres ser\u00e3o violentadas, seu rosto ser\u00e1 devastado, suas orelhas cortadas, seus peitos rasgados.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia contra o corpo da mulher \u00e9 assim justificada: usou o corpo para fornicar, o corpo ser\u00e1 castigado com viol\u00eancia. Nada de mais truculento e, ao mesmo tempo, nada de mais simples, de mais \u201cleg\u00edtimo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo violado e desfigurado n\u00e3o servir\u00e1 mais para a fornica\u00e7\u00e3o. Os amantes de ontem ser\u00e3o os violentos de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Justificar a viol\u00eancia \u00e9 o fruto mais in\u00edquo da l\u00f3gica machista. O macho assim alcan\u00e7ar\u00e1 sua satisfa\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m mais desejar\u00e1 sua desfigurada mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que ela continue cheia de desejo, n\u00e3o haver\u00e1 quem a satisfa\u00e7a mais!<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as mulheres poder\u00e3o ver o que se faz com a prostituta e aprender\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAssim todas as mulheres receber\u00e3o uma advert\u00eancia para que n\u00e3o ajam de acordo com a vossa devassid\u00e3o\u201d (Ez 23,48).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o homem falando para todas as mulheres. Afinal todas elas s\u00e3o iguais.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">O erotismo \u2013 ou a nega\u00e7\u00e3o dele &#8211; como lugar teol\u00f3gico<\/h1>\n\n\n\n<p>Olhamos estes textos na perspectiva das rela\u00e7\u00f5es mulher \u2013 homem, com suas componentes sexuais e er\u00f3ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dissemos no come\u00e7o, por se tratar de uma alegoria, a mensagem teol\u00f3gica deve ser buscada por tr\u00e1s das palavras. A chave sexual-er\u00f3tica n\u00e3o \u00e9 suficiente para compreender o alcance teol\u00f3gico do texto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 indiscut\u00edvel, por\u00e9m, que a linguagem sexuada ajuda a identificar qual a imagem de Deus que est\u00e1 presente na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o do profeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Justificar e explicar a hist\u00f3ria usando a alegoria do ci\u00fame furioso e devastador de Deus \u00e9 uma maneira de fazer teologia, de \u201cfalar de Deus\u201d. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem que sobressai, filtrada por estas p\u00e1ginas \u00e9 a imagem n\u00edtida de um macho possessivo e vingador que considera a coisa mais normal e leg\u00edtima do mundo, destruir a mulher que era \u201csua\u201d, mas que, por n\u00e3o se sentir saciada, o traiu e o humilhou correndo atr\u00e1s de corpos mais jovens, mais fortes e melhor equipados.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o homem\/mulher, quando conduzida desta forma, acaba n\u00e3o sendo muito diferente da rela\u00e7\u00e3o pai\/filho(a), patr\u00e3o\/empregado(a), dominador\/s\u00fadito: \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de posse-poder!.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando, no fim da hist\u00f3ria, aparecer\u00e1 o perd\u00e3o por parte do homem\/deus, isso servir\u00e1 para despertar na mulher sentimentos contradit\u00f3rios: de gratid\u00e3o pelo agir magn\u00e2nimo do homem\/deus e de vergonha pelo seu pr\u00f3prio agir \u201cer\u00f3tico\u201d ou, como dir\u00e1 Ezequiel, pelas suas \u201cabomina\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s simples seres humanos, sabemos que estes dois sentimentos dificilmente v\u00e3o poder garantir uma rela\u00e7\u00e3o de amor verdadeira e duradoura. Mais cedo ou mais tarde, vai arrebentar de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aparece, assim, a experi\u00eancia teol\u00f3gica de um monote\u00edsmo sisudo e assustador que n\u00e3o admite alternativas, sincretismos, conviv\u00eancias, ecumenismos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na mesma hora, por\u00e9m, em que este monote\u00edsmo exige sacrif\u00edcio e dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, exige tamb\u00e9m depend\u00eancia e submiss\u00e3o. Neste tipo de rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o er\u00f3tico. Pode haver lugar para o ato sexual, mas n\u00e3o para a sexualidade. O homem \u00e9 o referencial final, a mulher lhe deve reconhecimento e fidelidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este mesmo deus\/macho que exige fidelidade total \u00e9 um deus\/macho cheio de complexos, de frustra\u00e7\u00f5es, de invejas.<\/p>\n\n\n\n<p>O inimigo deste tipo de monote\u00edsmo que se constr\u00f3i sobre o sacrif\u00edcio, \u00e9 o \u201cdesejo\u201d. A busca do desejo, a satisfa\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o, o descontrole sensual insaci\u00e1vel devem ser reservados ao prost\u00edbulo, n\u00e3o cabem dentro da casa. O que o homem busca numa prostituta n\u00e3o pode conced\u00ea-lo a uma esposa. Seria estimular o desejo, a vontade e, por isso, o confronto. \u00c9 o desejo que impele a olhar, a procurar, a n\u00e3o se contentar e, com isso, a fazer hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Este homem\/deus nunca parece estar precisando da mulher, do corpo da mulher, da mulher como mulher, da mulher capaz de uma linguagem er\u00f3tica, sensual, capaz de gozar e de fazer gozar. Uma mulher assim s\u00f3 tem lugar fora da casa, no prost\u00edbulo ou na alcova dos amantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Um monote\u00edsmo assim n\u00e3o convive com a mulher. N\u00e3o tem lugar para ela, a n\u00e3o ser que ela passe por um longo caminho de auto-censura e de sacrif\u00edcio onde aprenda a n\u00e3o desejar, a refrear suas paix\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>No lugar do desejo, tem que ter gratid\u00e3o e reconhecimento. Assim este deus\/macho n\u00e3o ter\u00e1 concorrentes, n\u00e3o sofrer\u00e1 compara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O melhor relacionamento ser\u00e1 um relacionamento assexuado, sem erotismo, sem vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja em decorr\u00eancia disso que o templo de Jerusal\u00e9m reservou os atos de culto exclusivamente aos homens. As mulheres sequer eram espectadoras dos mesmos.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Outras experi\u00eancias de relacionamento sexual<\/h1>\n\n\n\n<p>A multifacet\u00e1ria realidade dos escritos prof\u00e9ticos nos aponta outras experi\u00eancias de relacionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto de Jeremias, por exemplo, mant\u00e9m globalmente o padr\u00e3o de Ezequiel.<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso condenat\u00f3rio contra as infidelidades e as prostitui\u00e7\u00f5es da mulher continua o mesmo: o \u201cdesejo insaci\u00e1vel\u201d dela \u00e9 a causa de todas as transgress\u00f5es. A antiga \u201cnoiva\u201d (2,2) que, cheia do carinho e do amor da juventude, seguia seu noivo pelo deserto, transformou-se, agora, em:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUma camela saltitante que cruza seus caminhos,<\/p>\n\n\n\n<p>uma jumenta selvagem, acostumada ao deserto,<\/p>\n\n\n\n<p>que, no ardor de seu cio sorve o vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem a impedir\u00e1 de satisfazer seu desejo?<\/p>\n\n\n\n<p>Os que a procuram n\u00e3o t\u00eam de fatigar-se:<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00eas dela a achar\u00e3o!\u201d (Jr 2,23-24)<\/p>\n\n\n\n<p>Ela decidiu que \u00e9 in\u00fatil atender \u00e0s advert\u00eancias e afirma, consciente de sua escolha: \u201cAmo os estranhos e atr\u00e1s deles irei\u201d (Jr 2,25). Por isso ela se sentava nos caminhos<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cesperando por eles como o \u00e1rabo no deserto e assim contaminaste a terra com tuas fornica\u00e7\u00f5es e com as tuas maldades\u201d (Jr 3,2).<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso ela se veste de escarlate, adorna-se com enfeites de ouro e alarga os olhos com pinturas e se faz extremamente linda, pronta para seus amantes (Jr 4,30).<\/p>\n\n\n\n<p>A atitude de Deus, diante de tudo isto, por\u00e9m, n\u00e3o tem os tons de rep\u00fadio e de castigo que encontramos em Ezequiel. Talvez por n\u00e3o ter ainda acontecido a invas\u00e3o de Jerusal\u00e9m, o profeta consegue enxergar uma luzinha de esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>As amea\u00e7as de castigo entremeiam-se com as s\u00faplicas para que ela volte para sua casa. O homem\/deus est\u00e1 pronto para as duas coisas: repudiar a mulher ou receb\u00ea-la de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>As palavras dele est\u00e3o, tamb\u00e9m, carregadas de paix\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um juiz que fala sentenciando, \u00e9 um homem que argumenta, se desespera com o abandono, busca o reencontro, sofre imensamente com a possibilidade do castigo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMinhas entranhas! Minhas entranhas!<\/p>\n\n\n\n<p>Devo me contorcer!<\/p>\n\n\n\n<p>Paredes do meu cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o se perturba em mim!\u201d (Jr 4,19)<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O passado n\u00e3o \u00e9 jogado na cara da mulher para provocar gratid\u00e3o e reconhecimento. Ele \u00e9 usado como sinal da atitude permanente do homem que, contradizendo o costume comum, continua mantendo a porta aberta para a mulher que foi repudiada (Jr 3,1).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<strong>Volta<\/strong> renegada Israel<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o farei cair sobre v\u00f3s a minha ira,<\/p>\n\n\n\n<p>Porque sou misericordioso,<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o guardo rancor para sempre\u201d (Jr 3,12)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<strong>Voltem<\/strong> filhos rebeldes,<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou o vosso marido\/ba\u2019al\u201d (Jr 3,14).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c <strong>Voltem<\/strong> filhos transviados<\/p>\n\n\n\n<p>eu curarei suas apostasias\u201d (Jr 3,22)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe <strong>voltares<\/strong> Israel,<\/p>\n\n\n\n<p><strong>volta<\/strong> para mim\u201d (Jr 4,1)<\/p>\n\n\n\n<p>O verbo <em>xuv<\/em>\/voltar, converter-se, repete-se com insist\u00eancia. A mesma m\u00e3o que irada castiga, estende-se suplicante em busca de reconcilia\u00e7\u00e3o. A mesma boca que profere amea\u00e7a, promete o perd\u00e3o e o reencontro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta din\u00e2mica permanente e aparentemente contradit\u00f3ria \u00e9 o que permite a rela\u00e7\u00e3o. Os dois se necessitam. O homem\/deus, tamb\u00e9m, \u00e9 um amante:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo uma mulher trai o seu amante,<\/p>\n\n\n\n<p>assim v\u00f3s me tra\u00edste, casa de Israel\u201d (Jr 3,20)<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed nasce a possibilidade do di\u00e1logo. <strong>A mulher, sempre e para sempre calada em Ezequiel, aqui fala.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, para insistir em proclamar sua liberdade de ir atr\u00e1s de seus amantes:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<strong>\u00c9 in\u00fatil! Eu amos os estrangeiros,<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>atr\u00e1s deles eu quero ir\u201d (Jr 2,25.31)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00e0s vezes, para considerar a proposta da volta:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEis que voltamos a ti,<\/p>\n\n\n\n<p>Pois tu \u00e9 Iahweh nosso Deus\u201d (Jr 3,22; 3,4)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00e0s vezes, para se justificar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu n\u00e3o me contaminei<\/p>\n\n\n\n<p>nunca fui atr\u00e1s dos ba\u2019ales\u201d (Jr 2,23.35)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00e0s vezes, at\u00e9 para gritar por socorro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo tempo da ang\u00fastia dizem:<\/p>\n\n\n\n<p>levanta-te e salva-nos\u201d (Jr 2,27;4,31)<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem teol\u00f3gica de Deus, filtrada por estas p\u00e1ginas \u00e9 diferente da de Ezequiel.&nbsp; Os fatos podem at\u00e9 ser os mesmos, mas o cora\u00e7\u00e3o muda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em destaque j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais a honra negada que o homem precisa vingar. Aqui \u00e9 o desespero do amante que v\u00ea a mulher se afastar e ir para a destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jeremias est\u00e1, assim, mais perto de Os\u00e9ias, cujo Deus, tamb\u00e9m, n\u00e3o tem receio de gritar<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeu cora\u00e7\u00e3o se contorce dentro de mim,<\/p>\n\n\n\n<p>minhas entranhas comovem-se\u201d (Os 11,8)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que neste texto fala-se do cora\u00e7\u00e3o do pai e n\u00e3o do homem\/esposo, mas sabemos quanto a experi\u00eancia de Os\u00e9ias est\u00e1 marcada por estes sentimentos fortes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O homem\/deus de Os\u00e9ias \u00e9 sempre capaz de olhar para a mulher\/povo com carinho e desejo<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, no cap\u00edtulo 2, o desejo do encontro, da resposta, da posse rec\u00edproca se sobrep\u00f5e com for\u00e7a ao momento da ira, do julgamento e da condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem\/deus de Os\u00e9ias superou todos os seus complexos maritais e machistas. Ele se disp\u00f5e, decididamente a tomar a iniciativa de um re-encontro carregado de sexualidade e de erotismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele vai \u201ccompetir\u201d com os amantes na busca da reconquista da mulher. Os amantes n\u00e3o saber\u00e3o satisfazer a mulher:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cperseguir\u00e1 seus amantes, sem os alcan\u00e7ar,<\/p>\n\n\n\n<p>vai procura-los, mas n\u00e3o os achar\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p>e dir\u00e1: quero voltar ao meu primeiro homem<\/p>\n\n\n\n<p>pois eu era mais feliz antes do que agora\u201d (Os 2,9)<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa do encontro sexual \u00e9 explicitamente de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEis que vou seduzi-la,<\/p>\n\n\n\n<p>lev\u00e1-la ao deserto<\/p>\n\n\n\n<p>e falar-lhe ao cora\u00e7\u00e3o\u201d (Os 2,16)<\/p>\n\n\n\n<p>Seduzir: trata-se do gesto claro de quem toma para si uma mo\u00e7a virgem e, por isso, ser\u00e1 obrigado a pagar o dote (Ex 22,15). No deserto \u2013 <em>midbar<\/em>\/longe da palavra \u2013 a sedu\u00e7\u00e3o pode ser consumada na intimidade, sem testemunhas e a palavra do homem poder\u00e1 ressoar ao cora\u00e7\u00e3o da mulher. \u00c9 o mais puro erotismo o encontro do corpo e do cora\u00e7\u00e3o dos dois amantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem\/deus tomar\u00e1 a iniciativa e casar\u00e1 com ela (Os 2,21). Como o verbo seduzir, assim o verbo desposar s\u00f3 \u00e9 usado no caso de mo\u00e7a virgem.<\/p>\n\n\n\n<p>O passado da mulher \u00e9 cancelado. A hist\u00f3ria pode recome\u00e7ar: nem esposa, nem prostituta. Uma mo\u00e7a com que recome\u00e7ar a viver: no direito e na justi\u00e7a e, sobretudo no amor e com as entranhas.<\/p>\n\n\n\n<p>As juras de fidelidade s\u00e3o do homem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu te desposarei a mim na fidelidade<\/p>\n\n\n\n<p>e conhecer\u00e1s a Iahweh\u201d (Os 2,22)<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao oposto de Ezequiel. \u00c9 toda outra teologia, toda outra maneira de \u201cfalar de Deus\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Ezequiel o \u201cconhecimento de Iahweh\u201d vinha atrav\u00e9s do castigo (Ez 23,49) ou, na melhor das hip\u00f3teses, do perd\u00e3o concedido para nossa vergonha (Ez 16,62).<\/p>\n\n\n\n<p>Agora o conhecimento vem pelo encontro carinhoso e entranhado dos dois. Com sutileza Os\u00e9ias usa o termo \u201cconhecer\u201d com o acusativo que, nos textos b\u00edblicos, costuma ter muitas vezes um sentido sexual. N\u00e3o se trata de conhecer quem \u00e9 Iahweh, mas de conhecer Iahweh: de am\u00e1-lo, de possu\u00ed-lo e ser possu\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que isto aconte\u00e7a \u00e9 preciso que a mulher descubra no homem\/deus seu amante e o queira como amante. Este \u00e9 o fruto da sedu\u00e7\u00e3o e da conversa no deserto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAli ela responder\u00e1 como nos dias de sua juventude,<\/p>\n\n\n\n<p>Como no dia em que subiu da terra do Egito.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontecer\u00e1 naquele dia, (&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>Que <strong>me chamar\u00e1s \u201cmeu homem\u201d,<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E n\u00e3o mais me chamar\u00e1s \u201cmeu marido\/ba\u2019al\u201d<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Afastarei de seus l\u00e1bios os nomes dos ba\u2019ales (&#8230;)\u201d (Os 2,17-18)<\/p>\n\n\n\n<p>O casamento s\u00f3 tem sentido como fidelidade a este projeto de casa sem senhores, sem dominadores, sem submiss\u00e3o, mas fruto da busca constante destes amantes que se desejam e se conhecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u201cresposta\u201d da mulher \u00e0 palavra falada no deserto ao seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o come\u00e7o da vida. Os <em>ba\u2019ales<\/em> deixam, at\u00e9, de ser inimigos, de ser concorrentes. Com eles, tamb\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer um pacto de vida, pois n\u00e3o h\u00e1 perigo que os amantes, agora, se abandonem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNaquele dia, farei com eles um pacto,<\/p>\n\n\n\n<p>com os animais do campo,<\/p>\n\n\n\n<p>com as aves do c\u00e9u<\/p>\n\n\n\n<p>e com os r\u00e9pteis da terra\u201d (Os 2,20)<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova cria\u00e7\u00e3o revive. Um novo mundo sem <em>ba\u2019ales<\/em> e, por isso, sem arco, sem espada e sem guerra. Uma nova vida em seguran\u00e7a, semeada na terra, rica de trigo, de azeite, de mosto ao alcance de todos, ao alcance do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, as palavras do Deutero-Isa\u00edas e do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, celebrar\u00e3o esta intui\u00e7\u00e3o nascida na ro\u00e7a, na eira do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o deus ciumento e sisudo do templo, avesso a toda forma de erotismo, tamb\u00e9m, continuar\u00e1 exigindo sacrif\u00edcios, considerando impuro tudo que tenha a ver com sexo, com desejo e com liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E se fosse uma deusa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em todos os textos que estudamos, mesmo com todas as variantes, \u00e9 sempre o homem que faz o papel de Iahweh. O povo, por\u00e9m, cultuava tamb\u00e9m outros deuses e deusas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi o deuteronomismo que fortaleceu a monolatria, a exclusividade cultual a Iahweh que ser\u00e1 a base do monote\u00edsmo refinado e excludente do segundo templo<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Possivelmente, Os\u00e9ias, Jeremias e Ezequiel foram expoentes deste deuteronomismo mon\u00f3latra e, por isso, em nome de Iahweh\/homem combatem com vigor o povo\/mulher que cultua outros deuses\/amantes, em outros lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento encabe\u00e7ado pelo rei Josias, nem sempre por raz\u00f5es louv\u00e1veis, buscou implantar institucionalmente a monolatria javista nas terras de Jud\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas como ter\u00e1 reagido a multid\u00e3o que, ao tempo de Jeremias, prestava culto \u00e0 \u201crainha do c\u00e9u\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o v\u00eas o que eles fazem nas cidades de Jud\u00e1 e nas ruas de Jerusal\u00e9m? Os filhos juntam a lenha, os pais acendem o fogo e <strong>as mulheres preparam a massa para fazer bolos para a rainha do c\u00e9u<\/strong>; depois fazem liba\u00e7\u00f5es a deuses estrangeiros para irritar-me (Jr 7,7-8).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das poucas informa\u00e7\u00f5es que temos, e ainda por cima, filtradas pelos olhos deuteronomistas, podemos intuir que se tratava de um culto muito popular, da cidade e do campo; culto que exige a participa\u00e7\u00e3o efetiva da casa como um todo: filhos, pais e mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Era um culto a base de oferendas vegetais sem o sangue dos sacrif\u00edcios: s\u00e3o bolos, tortas, bebidas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sobretudo, nos parece, tratava-se de um culto \u201cjuda\u00edta\u201d. Muitos coment\u00e1rios procuram, talvez rapidamente demais, identificar a rainha do c\u00e9u com a Istar, a deusa babil\u00f4nica do amor e da fertilidade. Pode at\u00e9 ser, mas nos parece que aqui ela n\u00e3o seja inclu\u00edda no rol dos outros \u201cdeuses estrangeiros\u201d. Mesmo que ambos sejam censurados, nos parece que o culto \u00e0 deusa \u00e9 uma coisa, as liba\u00e7\u00f5es aos deuses estrangeiros \u00e9 outra.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fosse isso, n\u00e3o teriam sentido as palavras do povo juda\u00edta que explicam a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m por causa do abandono do culto \u00e0 rainha do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, Jeremias explicava que:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cToda a desgra\u00e7a que fiz cair sobre Jud\u00e1 e Jerusal\u00e9m (&#8230;) aconteceu por causa da maldade que cometeram (&#8230;) incensando a deuses estrangeiros que nem eles, nem v\u00f3s, nem vossos pais conheceram\u201d (Jr 44,2-3).<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro, por\u00e9m, os homens e as mulheres do povo disseram:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA palavra que falaste em nome de Iahweh n\u00e3o a queremos escutar. Antes continuaremos a fazer <strong>tudo o que prometemos<\/strong>: queimar incenso \u00e0 rainha do c\u00e9u e fazer-lhe liba\u00e7\u00f5es, <strong>como faz\u00edamos n\u00f3s e os nossos pais<\/strong>, nossos reis e nossos chefes, nas cidades de Jud\u00e1 e nas ruas de Jerusal\u00e9m. T\u00ednhamos ent\u00e3o fartura de p\u00e3o, \u00e9ramos felizes e n\u00e3o v\u00edamos a desgra\u00e7a. Mas desde que cessamos de queimar incenso \u00e0 rainha do c\u00e9u, e fazer-lhe liba\u00e7\u00f5es (&#8230;) tudo nos faltou e n\u00f3s perecemos pela espada e pela peste. Por outro lado, quando queimamos incenso \u00e0 rainha do c\u00e9u e quando lhe faz\u00edamos liba\u00e7\u00f5es <strong>\u00e9, por acaso, sem o conhecimento de nossos homens<\/strong> que lhe faz\u00edamos bolos que a representam e oferecemos liba\u00e7\u00f5es?\u201d (Jr 44,16-19).<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto desafia nosso dogmatismo. <strong>O povo n\u00e3o considera o culto \u00e0 rainha do c\u00e9u um culto estrangeiro. <\/strong>Nenhum deus estrangeiro tinha o dever de tomar conta de Jud\u00e1 e de Jerusal\u00e9m. Quem devia tomar conta era a divindade local (Iahweh ou\/e a rainha do c\u00e9u? Ou os dois?). N\u00e3o tomou conta porque se aborreceu com o povo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trata-se de um culto em que o \u201cgesto ritual\u201d pertence \u00e0s mulheres<\/strong>. Elas s\u00e3o as oficiantes do culto. Mas n\u00e3o se trata de nada clandestino. \u00c9 coisa p\u00fablica, sabida por todos, participada por todos, feita com o \u201cconhecimento dos homens\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que este conhecimento legitima o culto? Tinha uma componente sexual que, de outra forma, seria reprovada?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil responder. Ir mais al\u00e9m, por enquanto, \u00e9 especular. Mas as suspeitas ficam. A monolatria javista \u00e9 fruto da revela\u00e7\u00e3o mosaica ou \u00e9 produto posterior? <strong>O javismo era excludente, como quiseram os deuteronomistas ou convivia com outras manifesta\u00e7\u00f5es religiosas e culturais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outros\/as poder\u00e3o responder, se quiserem. A arqueologia tem feito e est\u00e1 fazendo seus estudos<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00f3s cabe dizer que <strong>neste culto \u201cdiferente\u201d as mulheres t\u00eam espa\u00e7o, tem lugar, tem desejo, tem iniciativa. Os corpos das mulheres t\u00eam lugar, tem espa\u00e7o, tem desejo, tem iniciativa: os corpos das mulheres e o corpo da deusa, representado nos bolos a ela oferecidos pelas mulheres de Jud\u00e1.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena continuar pesquisando.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena, e bem mais, continuar ensaiando novas rela\u00e7\u00f5es, em que o amor e a fidelidade, a ternura e a justi\u00e7a, o desejo e o gozo ditos e partilhados sejam sempre mais fortes que o ci\u00fame, a censura, o castigo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que o homem seja sempre amigo, irm\u00e3o, companheiro, amante&#8230; mas nunca, nunca marido!<\/strong> \u00c9 o que buscamos teimosamente e incessantemente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Biblistas do Centro Ecum\u00eanico de Estudos B\u00edblicos \u2013 <a href=\"http:\/\/www.cebi.org.br\">www.cebi.org.br<\/a> &#8211; CEBI e da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 <a href=\"http:\/\/www.cptnacional.org.br\">www.cptnacional.org.br<\/a> . E-mail: <a href=\"mailto:gallazzi46@gmail.com\">gallazzi46@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Os coment\u00e1rios costumam identificar estas palavras como reveladoras dos sentimentos de Jeremias, mas nada nos impede de considerar Iahweh como sujeito das mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> A presen\u00e7a de uma divindade feminina junto a Iahweh, no culto popular \u00e9 atestada, tamb\u00e9m, pelas escava\u00e7\u00f5es de Kuntillat Ajrud, um pequeno quartel militar juda\u00edta no Negheb, dos sec. IX-VII a.C. e pelos documentos do templo de Elefantina. Sinal da antiga religiosidade popular israelita\/cananea, este templo venera a presen\u00e7a de uma divindade feminina junto a <em>Yh\u00fa<\/em> e de um filho, mas a consci\u00eancia \u00e9 de um culto israelita em todos os sentidos, baseado sobretudo nas festas popula\u00adres. Esta express\u00e3o religiosa ser\u00e1 exclu\u00edda pela <em>tor\u00e1<\/em>, mas continuar\u00e1 existindo tendo muito em comum com o judaitismo. Maiores informa\u00e7\u00f5es em MAIER, Johann. <em>Il Giudaismo del secondo tempio.<\/em> Brescia, Paideia, 1991, p.56-58; RICCIOTTI, Giuseppe. <em>Storia d&#8217;Israele<\/em>. Torino, S.E.I., 1964,&nbsp; 2 vol. \u00a7 168-179.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dimens\u00e3o er\u00f3tica do furor de Deus e \u201ca rainha do c\u00e9u\u201d: \u201co meu furor e o meu ci\u00fame\u201d \u2013 Por Sandro Galazzi e Ana Galazzi[1] Resumo: Justificar e explicar a hist\u00f3ria usando a alegoria<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12583,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,48,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-12582","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-das-mulheres","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12582"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12582\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12584,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12582\/revisions\/12584"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12583"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}