{"id":12624,"date":"2023-10-07T15:51:53","date_gmt":"2023-10-07T18:51:53","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12624"},"modified":"2023-10-07T15:51:55","modified_gmt":"2023-10-07T18:51:55","slug":"a-parabola-da-justica-na-luta-da-terra-mt-2133-43-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-parabola-da-justica-na-luta-da-terra-mt-2133-43-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"A par\u00e1bola da Justi\u00e7a na luta da Terra (Mt 21,33-43) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A par\u00e1bola da Justi\u00e7a na luta da Terra (Mt 21,33-43) <\/strong>\u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/marcelo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12625\" width=\"778\" height=\"437\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/marcelo.jpg 610w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/marcelo-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Padre e monge Marcelo Barros. Foto Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No domingo, dia 08\/10\/2023, o evangelho de Mateus 21,33-43 nos traz a hist\u00f3ria, comumente chamada de &#8220;par\u00e1bola dos vinhateiros assassinos&#8221;. Possivelmente, a hist\u00f3ria teve v\u00e1rias vers\u00f5es e para compreend\u00ea-la, \u00e9 importante tentar captar o n\u00facleo primitivo da hist\u00f3ria que vem de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em 1981, \u00e9poca da ditadura militar, em S\u00e3o Geraldo do Araguaia, pequena cidade nas margens do rio, a pol\u00edcia tinha prendido os dois padres franceses, Francisco Guriou e Aristides Camio e alguns lavradores camponeses. No final daquela tarde, as pessoas viram baixar do c\u00e9u um helic\u00f3ptero e dele sair o famoso Coronel Curi\u00f3, figura conhecida pelo autoritarismo e viol\u00eancia a favor do latif\u00fandio. Este mandou abrir a Igreja, tocar o sino e reunir a popula\u00e7\u00e3o. O coronel coordenou o culto. Leu essa par\u00e1bola dos vinhateiros assassinos e interpretou: \u201c<em>Ao prender padres e lavradores, estamos cumprindo o que, nessa par\u00e1bola, Jesus disse que \u00e9 o modo de Deus agir. Ele est\u00e1 do lado dos propriet\u00e1rios e castiga lavradores que querem se apoderar da terra que Deus deu aos fazendeiros ricos\u201d<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, qualquer pessoa de bom senso rejeita essa interpreta\u00e7\u00e3o grosseira e fundamentalista da par\u00e1bola. Conforme a exegese, o senhor dessa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um capitalista que mora na cidade e tem uma terra no campo. Conforme a par\u00e1bola, ele trabalha pessoalmente na sua vinha. Ele mesmo a rodeia com uma cerca e constr\u00f3i uma torre para proteg\u00ea-la dos ladr\u00f5es. \u00c9 a mesma imagem usada em Isa\u00edas 5: \u201c<em>Meu amigo tinha uma vinha, ele mesmo a plantou, cercou com uma cerca<\/em>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No primeiro testamento, a vinha era o povo de Israel. Jesus amplia a alegoria de Isa\u00edas e do salmo 80. Agora, a imagem da vinha n\u00e3o se refere mais apenas ao povo b\u00edblico, mas ao reinado divino no mundo. A vinha de Deus \u00e9 o projeto de um mundo organizado conforme o projeto divino da alian\u00e7a de toda a humanidade, na base da paz e da justi\u00e7a. Para Jesus, os dirigentes do templo que se centram no religioso seriam como os lavradores que mataram os enviados. O propriet\u00e1rio ama a vinha. Jeremias j\u00e1 havia dito: \u201c<em>Desde que os pais de voc\u00eas sa\u00edram do Egito at\u00e9 hoje, vos enviei os meus servos, os profetas. Mas, voc\u00eas n\u00e3o quiseram escut\u00e1-los\u201d <\/em>(Jr 7,25-26).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u00c9 certo que Jesus tirava suas par\u00e1bolas de fatos ocorridos na \u00e9poca. A hist\u00f3ria contada na par\u00e1bola retrata a situa\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica da \u00e9poca de Jesus. O pa\u00eds estava dividido em grandes latif\u00fandios e os propriet\u00e1rios eram, em geral, estrangeiros ricos. Assim, era compreens\u00edvel que os lavradores locais sentissem \u00f3dio e revolta contra os propriet\u00e1rios usurpadores da terra que Deus tinha dado para o seu povo. Pela legisla\u00e7\u00e3o judaica antiga, se o propriet\u00e1rio da terra morresse ou desaparecesse e n\u00e3o tivesse herdeiros, a terra se tornava autom\u00e1tica e legalmente propriedade dos que nela trabalham. Isso explica porque, na par\u00e1bola contada por Jesus, os lavradores, pensando que o filho tinha herdado a terra (portanto, o pai tinha morrido), decidem matar o filho. Se o filho morresse, eles poderiam ficar legalmente como propriet\u00e1rios. Provavelmente, Jesus colheu essa hist\u00f3ria de um fato ocorrido na \u00e9poca. Ele parece ter contado essa hist\u00f3ria para mostrar que a viol\u00eancia n\u00e3o resolve os problemas da justi\u00e7a. No entanto, a comunidade do evangelho de Mateus a retomou e fez dela uma alegoria sobre a responsabilidade que os chefes religiosos do Juda\u00edsmo tiveram na condena\u00e7\u00e3o que Jesus sofreu e na sua morte.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o evangelho, os sacerdotes e religiosos do templo reagiram mal \u00e0 par\u00e1bola, porque se sentiram insultados e acusados at\u00e9 de assassinato. Essa hist\u00f3ria tamb\u00e9m nos incomoda, porque talvez ainda reagimos&nbsp; \u00e0 sua profecia, por demais cr\u00edtica \u00e0 religi\u00e3o e ao poder religioso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, Jesus parece generalizar. N\u00e3o faz distin\u00e7\u00f5es entre religiosos bons e religiosos maus. Chama todos os sacerdotes e religiosos do templo de aproveitadores que tomam para si a vinha que \u00e9 do Senhor. Acusa todos de serem respons\u00e1veis pela morte dos profetas, enviados\/as de Deus. De um lado, isso \u00e9 comum na linguagem dos profetas. Do outro, \u00e9 claro que, quando queremos atualizar a par\u00e1bola, precisamos compreender que Jesus visa denunciar um tipo de religi\u00e3o baseada no culto e na lei. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Imagine algu\u00e9m afirmar&nbsp; que todos os pastores que praticam Teologia da Prosperidade s\u00e3o ladr\u00f5es e, ao menos, correspons\u00e1veis pela mis\u00e9ria do povo oprimido. De fato, ao menos no Brasil, h\u00e1 muitos grupos religiosos, dioceses e par\u00f3quias cat\u00f3licas que mant\u00eam um estilo de f\u00e9 mais devocional, espiritualista e religioso. Em sua maioria, esses religiosos est\u00e3o mais ligados \u00e0 classe alta e m\u00e9dia. T\u00eam poucos contatos com os pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na par\u00e1bola anterior, lida no domingo passado (Mt 21, 28 \u2013 32), o evangelho nos dizia que a vinha \u00e9 uma s\u00f3: o projeto divino no mundo. Dizia que os dois filhos recebem do Pai o mesmo mandato: v\u00e3o trabalhar na minha vinha. E a vinha do Pai \u00e9 o mundo. \u00c9 a vida e n\u00e3o a religi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esta par\u00e1bola de hoje acusa os religiosos de terem se apossado da vinha de Deus, como se fosse propriedade deles e n\u00e3o do Pai. O evangelho denuncia: eles provocam a morte do Cristo, n\u00e3o mais no seu corpo f\u00edsico, mas no corpo social dos pobres e pequeninos. \u201cO que fizestes a um desses pequeninos, foi a mim que fizestes\u201d (Mt 25, 33&#8230;).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No Brasil, muitos\/as religiosos\/as sustentam uma Pol\u00edtica respons\u00e1vel pela explora\u00e7\u00e3o de lavradores, exterm\u00ednio dos povos ind\u00edgenas, massacre da juventude negra nas periferias das cidades. Al\u00e9m disso, esse tipo de Pol\u00edtica provoca a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e dos biomas em todo o Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u00c9 fundamental libertar a f\u00e9 crist\u00e3 de uma sacralidade que legitima a indiferen\u00e7a social mascarada de religiosidade. Se os cultos n\u00e3o ajudam as pessoas a serem mais humanas e mais \u201cfamintas e sedentas de justi\u00e7a\u201d, n\u00e3o s\u00e3o evang\u00e9licos e sim farisaicos e hip\u00f3critas. Se, nas par\u00f3quias e dioceses, a eucaristia&nbsp; \u00e9 celebrada como se fosse manifesta\u00e7\u00e3o de poder sacral e mant\u00e9m estilo de cerim\u00f4nia medieval nada t\u00eam a ver com a ceia que Jesus nos mandou fazer em sua mem\u00f3ria. Novenas, ter\u00e7os e b\u00ean\u00e7\u00e3os do Sant\u00edssimo Sacramento com ostens\u00f3rios dourados podem parecer espirituais, mas nada t\u00eam a ver com o evangelho do profeta Jesus de Nazar\u00e9 que mandou seus disc\u00edpulos cumprirem sua miss\u00e3o sem levar t\u00fanicas, nem bolsas e aonde chegarem, a \u00fanica mensagem deveria ser a Paz que o reinado divino deve trazer. Ainda hoje, muitos ministros de Igreja fazem o que aqueles vinhateiros da par\u00e1bola fizeram ao se apossar da vinha do Senhor. E Jesus conclui a par\u00e1bola dizendo, n\u00e3o que a vinha ser\u00e1 destru\u00edda, mas que ser\u00e1 tirada desses maus administradores e ser\u00e1 dada a outros que possam torn\u00e1-la fecunda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A vinha de Deus \u00e9 o mundo e, portanto, os administradores novos aos quais Deus confia a sua vinha n\u00e3o \u00e9 somente uma Igreja. \u00c9 a humanidade renovada e cr\u00edtica que trabalha por um mundo novo poss\u00edvel. Como crist\u00e3os e crist\u00e3s, somos chamados\/a a colaborar com essa profecia que vai al\u00e9m das Igrejas, mas da qual n\u00f3s devemos participar e incentivar.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A par\u00e1bola da Justi\u00e7a na luta da Terra (Mt 21,33-43) \u2013 Por Marcelo Barros &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No domingo, dia 08\/10\/2023, o evangelho de Mateus 21,33-43 nos traz a hist\u00f3ria, comumente chamada de &#8220;par\u00e1bola dos vinhateiros assassinos&#8221;. 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