{"id":12627,"date":"2023-10-07T15:58:03","date_gmt":"2023-10-07T18:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12627"},"modified":"2023-10-07T15:58:04","modified_gmt":"2023-10-07T18:58:04","slug":"tempos-de-diasporas-por-padre-alfredo-j-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/tempos-de-diasporas-por-padre-alfredo-j-goncalves\/","title":{"rendered":"Tempos de Di\u00e1sporas &#8211; Por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Tempos de Di\u00e1sporas &#8211; <\/strong><em>Por Padre Alfredo J. Gon\u00e7alves<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alfredogoncalves.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12628\" width=\"777\" height=\"1168\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alfredogoncalves.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alfredogoncalves-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 777px) 100vw, 777px\" \/><figcaption>Padre Alfredo Gon\u00e7alves. Foto Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As numerosas e intensas di\u00e1sporas do mundo contempor\u00e2neo constituem sintoma de um organismo doente. De fato, em qualquer organismo enfermo, as c\u00e9lulas se agitam febrilmente para tentar retomar a sa\u00fade que, no fundo, \u00e9 o retorno ao equil\u00edbrio. As di\u00e1sporas hoje tendem a ser variadas, dispersas por todo o planeta e extraordinariamente complexas. Quais os maiores povos em di\u00e1spora? Venezuela, com cerca de 7 milh\u00f5es de pessoas foram do pr\u00f3prio territ\u00f3rio; Ucr\u00e2nia, de onde se ausentaram aproximadamente 6 milh\u00f5es de pessoas; S\u00edria, com mais de 6 milh\u00f5es de habitantes no exterior; Afeganist\u00e3o, com grupos de cidad\u00e3os esparramados aos milh\u00f5es por todo mundo; Sud\u00e3o do Sul, em que j\u00e1 se fala mais de 3 milh\u00f5es de refugiados; Myanmar, com quase um milh\u00e3o de cidad\u00e3os no Bangladesh. Isso sem contar outros povos, em menor n\u00famero, tamb\u00e9m desterritorializados por conflitos \u00e9tnico-religiosos ou pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos, bem como os povos desprovidos de ch\u00e3o pr\u00f3prio, tais como os curdos e os palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que tal situa\u00e7\u00e3o tem a ver com tr\u00eas ordens de fatores entrela\u00e7ados: a din\u00e2mica subjacente do xadrez que reorganiza a geopol\u00edtica mundial, com suas tens\u00f5es e conflitos latentes ou abertos; as assimetrias socioecon\u00f4micas e cada vez mais profundas da economia globalizada, com suas desigualdades crescentes; e, por parte dos migrantes, refugiados, itinerantes e ap\u00e1tridas, o sonho, a resist\u00eancia e a teimosia para fazer de cada fuga uma nova busca de melhor futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que a hist\u00f3ria se move. E se ela se move \u00e9 porque milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o em marcha. Tal marcha, de resto, representa a parte aparente e vis\u00edvel de transforma\u00e7\u00f5es ocultas e invis\u00edveis. As seguidas caravanas de migrantes e refugiados s\u00e3o como que as ondas superficiais de correntes subterr\u00e2neas profundas. Elas, ao mesmo tempo, velam e revelam as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas e estruturais em curso, sejam elas de ordem social, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural. Mudan\u00e7as que, segundo estudiosos e especialistas do tema, t\u00eam contribu\u00eddo poderosamente para uma concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza, deum lado, e de exclus\u00e3o social e mobilidade humana, de outro. Da\u00ed a pobreza, a mis\u00e9ria, a fome de imensas regi\u00f5es do planeta. E da\u00ed tamb\u00e9m o n\u00famero crescente de trabalhadores \u201csup\u00e9rfluos e descart\u00e1veis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Semelhantes condi\u00e7\u00f5es de natureza socioecon\u00f4mica e pol\u00edtico-cultural, acrescidas dos abalos s\u00edsmicos para reordenar o tabuleiro da geopol\u00edtica mundial, p\u00f5em dezenas de milh\u00f5es de pessoas em cont\u00ednuo movimento. Deslocamentos humanos dif\u00edceis, penosos e incertos que se debatem a cada curva do caminho e a cada fronteira pol\u00edtica com barreiras e obst\u00e1culos n\u00e3o raro instranspon\u00edveis. Nessa travessia sem rotas previamente tra\u00e7adas e sem destino certo, n\u00e3o s\u00e3o poucos os que encontram a morte nos desertos, nas \u00e1guas do mar, nos rios e florestas, quando n\u00e3o no poder de traficantes inescrupulosos. Fugir torna-se a \u00fanica possibilidade de sobreviver. Mas permanece a d\u00favida sempre instigante: sobreviver onde, como, com que recursos? De que maneira reunir e reorganizar a fam\u00edlia, os parentes?<\/p>\n\n\n\n<p>Semelhantes e tamanhas di\u00e1sporas s\u00e3o filhas de tempos \u00e1speros, conturbados, turbulentos. Cortam fundas ra\u00edzes familiares e culturais. Multiplicam-se as l\u00e1grimas, o suor e o sangue de in\u00fameras feridas, tanto de quem parte quando de quem fica. Chagas \u00e0s vezes incicatriz\u00e1veis, que se reabrem a cada embate, deixando tais ra\u00edzes expostas ao sol, com o perigo de murchar, secar e perecer definitivamente. Nome e identidade se tornam ignorados. Como resgatar e recompor a tradi\u00e7\u00e3o positiva? Como faz\u00ea-lo num confronto igualmente positivo nos lugares de chegada? O que podem significar, neste caso, o encontro, o di\u00e1logo e a solidariedade, no combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, ao preconceito e \u00e0 xenofobia?<\/p>\n\n\n\n<p>Di\u00e1spora \u00e9 pisar terra estranha. Solo minado, no qual n\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel caminhar depressa e em linha reta. \u201cEu vim de l\u00e1, eu vim de l\u00e1, pequenininho; algu\u00e9m me avisou pra pisar neste ch\u00e3o devagarinho\u201d, interpreta Tereza Cristina a can\u00e7\u00e3o de Ivone Lara. Desde a \u00e9poca do \u00eaxodo do povo de Israel, quando da liberta\u00e7\u00e3o do Egito onde era escravo, os povos em di\u00e1spora formam multid\u00f5es pelo deserto, o caminho, o ex\u00edlio. Gente desenraizada do lugar em que nasceu, errante por vias tortuosas, an\u00f4nima, na tentativa de encontrar um novo solo p\u00e1trio. O que exige esfor\u00e7os inauditos de documenta\u00e7\u00e3o, aprendizado, inser\u00e7\u00e3o na sociedade, trabalho e moradia, sa\u00fade e paz. E grande empenho para refazer la\u00e7os e rela\u00e7\u00f5es, amizades e valores. Aqui entra em cena a tarefa conjunta \u2013 de quem chega e de quem recebe \u2013 no sentido de combater a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a\u201d, na busca pela cultura da empatia, do di\u00e1logo e de uma cidadania universal.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Vice-presidente do SPM \u2013 S\u00e3o Paulo, 06\/10\/2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tempos de Di\u00e1sporas &#8211; Por Padre Alfredo J. Gon\u00e7alves[1] As numerosas e intensas di\u00e1sporas do mundo contempor\u00e2neo constituem sintoma de um organismo doente. 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