{"id":12650,"date":"2023-10-21T12:00:22","date_gmt":"2023-10-21T15:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12650"},"modified":"2023-10-21T12:00:24","modified_gmt":"2023-10-21T15:00:24","slug":"a-mulher-segundo-aristoteles-e-tomas-de-aquino-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-mulher-segundo-aristoteles-e-tomas-de-aquino-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"A MULHER SEGUNDO ARIST\u00d3TELES E TOM\u00c1S DE AQUINO \u2013 por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A MULHER SEGUNDO ARIST\u00d3TELES E TOM\u00c1S DE AQUINO \u2013 <\/strong>por Frei Betto<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"643\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/frei-betto-1024x643.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12651\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/frei-betto-1024x643.jpg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/frei-betto-300x189.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/frei-betto-768x483.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/frei-betto.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Frei Betto. Foto reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u201cO erro de Arist\u00f3teles. Mulheres poderosas, mulheres poss\u00edveis, dos gregos at\u00e9 n\u00f3s\u201d, \u00e9 o t\u00edtulo do livro de Giulia Sissa, professora de Ci\u00eancias Pol\u00edticas e Literatura Cl\u00e1ssica e Comparada na Universidade da Calif\u00f3rnia, em Los Angeles. Ela analisa em profundidade os fundamentos que, ainda hoje, sustentam o machismo, a misoginia, o patriarcalismo e levam ao feminic\u00eddio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ao contr\u00e1rio de seu mestre Plat\u00e3o, que na \u201cRep\u00fablica\u201d defende a igualdade entre sexos e a mesma educa\u00e7\u00e3o para homens e mulheres, Arist\u00f3teles (384 a.C.-322 a.C.), que tinha por h\u00e1bito dissecar animais, se baseou em supostas bases biol\u00f3gicas para recha\u00e7ar qualquer possibilidade de igualdade. Defendeu inclusive a tese de que o c\u00e9rebro das mulheres \u00e9 menor que o dos homens.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para Arist\u00f3teles, os homens s\u00e3o \u201cquentes\u201d e as mulheres, \u201cfrias\u201d. Os primeiros s\u00e3o dotados de \u201cthumos\u201d, de ardor, e do \u201cthumos\u201d deriva a \u201candreia\u201d, isto \u00e9, a coragem, virtude indispens\u00e1vel para combater, governar, manter-se firme na decis\u00e3o tomada.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;J\u00e1 as mulheres s\u00e3o o oposto. Desprovidas de \u201cthumos\u201d e, portanto, de \u201candreia\u201d, s\u00e3o incapazes de tomar decis\u00f5es. E ao tomarem uma, n\u00e3o conseguem se manter firmes na decis\u00e3o tomada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O fil\u00f3sofo admite que as mulheres s\u00e3o at\u00e9 mais inteligentes e racionais do que os homens, devido \u00e0 sua frieza, mas na falta de coragem n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Essa l\u00f3gica aristot\u00e9lica conduz a um silogismo absurdo: como as mulheres s\u00e3o incapazes de governar, ent\u00e3o devem se recolher ao lar, ficar afastadas da vida urbana e, silentes, obedecer a seus pais e maridos. \u201cA rela\u00e7\u00e3o de macho para f\u00eamea \u00e9 por natureza uma rela\u00e7\u00e3o de superior a inferior e de governante a governado\u201d, escreveuArist\u00f3telesem \u201cPol\u00edtica\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Santo Tom\u00e1s de Aquino (1225-1274), que popularizou o aristotelismo no Ocidente, abra\u00e7a a tese de seu mentor intelectual e ainda adiciona um ingrediente no m\u00ednimo escabroso: al\u00e9m de inconstante e indigna de confian\u00e7a, a mulher \u00e9 um homem fracassado, um ser com defeito de fabrica\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cfemina est aliquid deficiens et ocasionatum\u201d. Este preconceito fundamenta, ainda hoje, a no\u00e7\u00e3o de que a mulher \u00e9 inepta ao sacerd\u00f3cio por n\u00e3o ser um ser humano completo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Segundo o Doutor Ang\u00e9lico, \u201cnaturalmente a mulher est\u00e1 sujeita ao homem, porque a discri\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o naturalmente abunda mais no homem\u201d (\u201cnaturaliter femina subiecta est viro, quia naturaliter in homine magis abundat discretio rationis\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Assim, os homens seriam mais inteligentes e capazes que as mulheres. E estas, para bem desempenharem suas tarefas, devem ser guiadas pelos homens. Tom\u00e1s cria um silogismo teol\u00f3gico: como Deus dotou os homens de&nbsp;superioridade cognitiva, s\u00f3 eles devem comandar e governar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como todos n\u00f3s, Arist\u00f3teles e Tom\u00e1s de Aquino eram pessoas amb\u00edguas, contradit\u00f3rias. Por isso, n\u00e3o podemos reduzi-los \u00e0 sua postura mis\u00f3gina, pois os dois s\u00e3o alicerces s\u00f3lidos da filosofia e da teologia. De Arist\u00f3teles recebemos a l\u00f3gica, a metaf\u00edsica, a ontol\u00f3gica natureza pol\u00edtica do ser humano e princ\u00edpios \u00e9ticos fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;De Tom\u00e1s, o maior fil\u00f3sofo e te\u00f3logo do per\u00edodo medieval, aprendemos a&nbsp;valorizar o mundo material; a autonomia da raz\u00e3o diante da f\u00e9; a liberdade de consci\u00eancia, inclusive com direito a n\u00e3o professar nenhuma f\u00e9 religiosa; a supera\u00e7\u00e3o do dualismo plat\u00f4nico entre corpo e esp\u00edrito; a pedagogia que valoriza a a\u00e7\u00e3o do educando no processo educativo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sobre este \u00faltimo t\u00f3pico, recomendo o livro de meu confrade frei Carlos Josaphat, \u201cTom\u00e1s de Aquino e Paulo Freire\u201d, Paulus, 2016. Santo Tom\u00e1s compara o educador ao m\u00e9dico e ao agricultor. Assim como o m\u00e9dico n\u00e3o produz a sa\u00fade, mas favorece o empenho do paciente em recuper\u00e1-la; e o agricultor n\u00e3o desenvolve a planta, mas cria as condi\u00e7\u00f5es para ela crescer e frutificar, o educador deve valorizar os talentos e os conhecimentos do educando e torn\u00e1-lo sujeito de seu processo educativo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Se \u00e9 anacronismo chamar Tom\u00e1s de Aquino de paulofreiriano, n\u00e3o \u00e9 exagero qualificar Paulo Freire de pedagogicamente tomista.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cPor uma educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e participativa\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A MULHER SEGUNDO ARIST\u00d3TELES E TOM\u00c1S DE AQUINO \u2013 por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u201cO erro de Arist\u00f3teles. 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