{"id":12900,"date":"2023-12-16T07:19:25","date_gmt":"2023-12-16T10:19:25","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12900"},"modified":"2023-12-16T07:19:27","modified_gmt":"2023-12-16T10:19:27","slug":"promessas-de-natal-i-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/promessas-de-natal-i-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"PROMESSAS DE NATAL I &#8211; Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>PROMESSAS DE NATAL I &#8211; Por Frei Betto<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"686\" height=\"386\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/hq720.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12901\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/hq720.jpg 686w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/hq720-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px\" \/><figcaption>Frei Betto<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste Natal, soterrarei de perd\u00f5es o meu mal querer e de afagos essa s\u00f3rdida tend\u00eancia de apostar na desgra\u00e7a alheia. Serei dom e n\u00e3o dor.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Porei em pr\u00e1tica s\u00e1bias li\u00e7\u00f5es de vida: p\u00e3o que se guarda endurece o cora\u00e7\u00e3o; a cabe\u00e7a pensa onde os p\u00e9s pisam; o contr\u00e1rio do medo n\u00e3o \u00e9 a coragem, \u00e9 a f\u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Segredarei aos peregrinos tr\u00eas aforismos de meu bem-viver: Deus tem sabor de justi\u00e7a; a vida trafega a bordo do paradoxo; a morte \u00e9 verbo e n\u00e3o se conjuga no presente, \u00e9 sempre pret\u00e9rito ou futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Cultivarei cada fio de meus cabelos brancos, modelarei de gorduras a flacidez de minhas carnes e preservarei cioso as rugas que maquiam de sabedoria o meu rosto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tratarei o semelhante com a rever\u00eancia dos anjos e lavarei as portas da cidade para acolher em festa os que trazem boas-novas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Violarei todas as regras da civilidade torpe que me engravata de cabrestos e rasgarei as etiquetas que me fazem perder horas em cuidados sup\u00e9rfluos. Arrancarei do pulso as algemas do tempo que me escraviza ao ritmo implac\u00e1vel de minutos e segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Serei irresponsavelmente feliz, liberto dessa onipot\u00eancia que recobre de f\u00faria a minha excessiva fragilidade. Confessarei a mim mesmo meus pecados e, crucificado numa roda-gigante, ressuscitarei com a inoc\u00eancia das crian\u00e7as que sorriem prenhes de vertigens.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nomearei para o governo da cidade um cavaleiro que chegue montado num burrico e tenha as m\u00e3os calosas como quem cavou as entranhas da terra. N\u00e3o darei lugar aos pr\u00edncipes revestidos de palavras v\u00e3s, nem porei a minha confian\u00e7a nos arautos surdos ao clamor dos desvalidos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste Natal, deixarei o meu corpo flutuar em alturas abissais e cobrirei de car\u00edcias uma por uma de minhas cicatrizes, desvelando hist\u00f3rias e apreendendo, na ponta dos dedos, meu perfil interior.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;N\u00e3o recorrerei ao bisturi das falsas impress\u00f5es, nem ao espectro da magreza anor\u00e9xica. O tempo prosseguir\u00e1 massageando meus m\u00fasculos at\u00e9 torn\u00e1-los fl\u00e1cidos como as delicadezas do esp\u00edrito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Suspenderei todas as flex\u00f5es, exceto a que aprendo na academia dos m\u00edsticos. Beberei do pr\u00f3prio po\u00e7o e abrirei o cora\u00e7\u00e3o para o anjo da faxina atirar pela janela da compaix\u00e3o iras, invejas e amarguras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pisarei sem sapatos o calor da terra viva. Bailarino ambiental, dan\u00e7arei abra\u00e7ado \u00e0 Gaia ao som ardente de can\u00e7\u00f5es primevas. Dela receberei o p\u00e3o e a ela darei a paz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Acesas as estrelas, contemplarei na penumbra do mist\u00e9rio esse corpo glorioso que me funde ao Universo num sacramento divino. Seu trigo brotar\u00e1 como alimento e suas uvas far\u00e3o correr rios inebriantes de saciedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na mesa c\u00f3smica, ofertarei as prim\u00edcias de meus sonhos. De m\u00e3os vazias, acolherei o corpo do Senhor no c\u00e1lice de minhas car\u00eancias. Dobrarei os joelhos ao mist\u00e9rio da vida e contemplarei o rosto divino na face daqueles que nunca souberam que Cosmo e cosm\u00e9tico s\u00e3o gregas palavras que deitam ra\u00edzes na mesma beleza.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Despirei os meus olhos de todos os preconceitos e rogarei pela f\u00e9 acima de todos os preceitos. Como Ezequiel, contemplarei o campo dos mortos at\u00e9 ver a poeira consolidar-se em ossos, os ossos se juntarem em esqueletos, os esqueletos se recobrirem de carne e a carne inflar-se de vida no Esp\u00edrito de Deus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Proclamarei o sil\u00eancio como ato de profunda subvers\u00e3o. Desconectado do mundo, banirei da alma todos os ru\u00eddos que me inquietam e, vazio de mim mesmo, serei plenificado por Aquele que me envolve por dentro e por fora, por cima e por baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Suspenderei da mente a profus\u00e3o de imagens e represarei no olvido o turbilh\u00e3o de ideias. Privarei de sentido as palavras. Absorvido pelo sil\u00eancio, apurarei os ouvidos para escutar a brisa de Elias e os olhos para admirar o que extasiou Sime\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;N\u00e3o mais farei de meu corpo mero adere\u00e7o estranho ao esp\u00edrito. Serei uma s\u00f3 unidade, onda e part\u00edcula, verso e reverso, anima e animus, yin e yang.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Recolherei pelas esquinas todos os corpos indesejados para lav\u00e1-los antes que se soltem de seus casulos e alcem o voo da eterna idade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Curarei da cegueira os que se miram no olhar alheio e besuntarei de cremes b\u00edblicos o rosto de todos que se julgam feios, at\u00e9 que neles transpare\u00e7a o esplendor da semelhan\u00e7a divina.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Arrancarei do ch\u00e3o de ferro os p\u00e9s congelados da dessolidariedade e farei vir vento forte aos que temem o peso das pr\u00f3prias asas. Ao alcan\u00e7arem o topo do mundo, ver\u00e3o que todos somos um s\u00f3 corpo e um s\u00f3 esp\u00edrito.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Farei do meu corpo h\u00f3stia viva; do meu sangue, vinho de alegria. \u00c9brio de efus\u00f5es e gra\u00e7as, enla\u00e7arei num amplexo c\u00f3smico todos os povos e no sal\u00e3o dourado da Via L\u00e1ctea valsaremos at\u00e9 que a m\u00fasica sideral tenha esgotado a sinfonia escatol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na concretude da f\u00e9, anunciarei aos quatro ventos a certeza de ressurrei\u00e7\u00e3o da carne e de todo o Universo redimido. Ent\u00e3o, o que \u00e9 terno nos limites da vida tornar-se-\u00e1 eterno quando a morte transmutar-nos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste Natal, cultivarei a crian\u00e7a que me habita, brincarei de escorregador no arco-\u00edris, cortarei a lua em fatias de queijo e passearei de roda-gigante no sol, pois a vida \u00e9 breve e os apegos fastidiosos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Serei desengaiolador de p\u00e1ssaros, pois creio no milagre da ressurrei\u00e7\u00e3o, e desdenharei os sinais de morte convencido de que o amor supera a dor e a vida extrapola o conceito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cA arte de semear estrelas\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a> &#8211; <strong>Frei Betto \u00e9 autor de 77 livros editados no Brasil, dos quais 42 tamb\u00e9m no exterior. Voc\u00ea poder\u00e1 adquiri-los com desconto na Livraria Virtual \u2013 <\/strong><a href=\"http:\/\/www.freibetto.org\/\"><strong>www.freibetto.org<\/strong><\/a><strong>&nbsp; <\/strong><strong>Ali os encontrar\u00e1 a pre\u00e7os mais baratos<\/strong><strong> <\/strong><strong>e os receber\u00e1 em casa pelo correio.&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PROMESSAS DE NATAL I &#8211; Por Frei Betto[1] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste Natal, soterrarei de perd\u00f5es o meu mal querer e de afagos essa s\u00f3rdida tend\u00eancia de apostar na desgra\u00e7a alheia. 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