{"id":12917,"date":"2023-12-24T18:07:38","date_gmt":"2023-12-24T21:07:38","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=12917"},"modified":"2023-12-24T18:07:40","modified_gmt":"2023-12-24T21:07:40","slug":"anuncio-do-natal-para-um-mundo-devastado-lc-126-38-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/anuncio-do-natal-para-um-mundo-devastado-lc-126-38-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"An\u00fancio do Natal para um mundo devastado (Lc 1,26-38) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>An\u00fancio do Natal para um mundo devastado (Lc 1,26-38) \u2013 Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"900\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12918\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1.jpg 900w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1-300x300.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1-150x150.jpg 150w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/unnamed-1-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption>Padre e monge Marcelo Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste quarto domingo do Advento, 24\/12\/23, retomamos um evangelho muitas vezes lido e repetido nas liturgias: Lucas 1,26-38. \u00c9 a narrativa de como Gabriel, o mensageiro (anjo) de Deus anunciou a Maria que ela estava gr\u00e1vida e seria a m\u00e3e de Jesus, o Salvador do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro cap\u00edtulo do seu evangelho, Lucas contrap\u00f5e dois an\u00fancios: o mesmo mensageiro (anjo) aparece em Jerusal\u00e9m, no templo e anuncia a Zacarias, sacerdote o nascimento do profeta Jo\u00e3o Batista.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriel \u00e9 o mensageiro que, conforme a B\u00edblia, apareceu duas vezes ao profeta Daniel para anunciar a chegada da \u00e9poca messi\u00e2nica, ou seja, o tempo da liberta\u00e7\u00e3o do povo injusti\u00e7ado. O fato de que, no evangelho, \u00e9 esse mesmo mensageiro que anuncia o nascimento do profeta Jo\u00e3o Batista e de Jesus \u00e9 muito significativo. Coloca esses dois an\u00fancios como in\u00edcio do tempo messi\u00e2nico anunciado no apocalipse de Daniel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O primeiro an\u00fancio \u00e9 dirigido a um sacerdote, no templo, de forma solene e junto ao lugar mais santo, o altar. Conforme esse evangelho, mesmo da religi\u00e3o ritual ainda pode nascer a profecia. Zacarias \u00e9 s\u00edmbolo do que ainda h\u00e1 de bom na religi\u00e3o: o evangelho diz isso ao salientar: Zacarias e sua esposa Isabel eram justos diante de Deus. <\/strong>Mas eram velhos e n\u00e3o tinham filhos. Ela era est\u00e9ril. Talvez, ao dizer isso deles, o evangelho queira aludir que a religi\u00e3o sacerdotal \u00e9 assim: \u00e9 boa se se coloca do lado da justi\u00e7a (eles eram justos) e mesmo assim \u00e9 velha e est\u00e9ril se n\u00e3o se abrir \u00e0 profecia. No entanto, qual sacerdote de religi\u00e3o ritual adere realmente ao an\u00fancio do nascimento de um profeta? Desde os tempos antigos do primeiro testamento, sacerdote nunca gostou de profeta. No tempo de Am\u00f3s, o sacerdote Amasias tramou com o rei a morte do profeta Am\u00f3s. Agora, vem um mensageiro de Deus e ao lado do altar do templo anuncia ao sacerdote que ele vai gerar um profeta&#8230; Ser\u00e1 que sacerdote pode mesmo gerar profeta? Zacarias n\u00e3o acredita e fica mudo. E o anjo diz a Zacarias, cujo nome significa \u201cDeus se recorda\u201d que o seu filho deve se chamar Jo\u00e3o: Deus d\u00e1 a gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A religi\u00e3o se apoia no culto, nas oferendas, nos votos e nas festas religiosas. N\u00e3o se apoia na gra\u00e7a. Por isso o sacerdote acaba ficando mudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis meses depois, em Nazar\u00e9, aldeia pobre da Galileia, o mesmo mensageiro vai at\u00e9 a casa simples de uma mocinha qualquer, da qual s\u00f3 se diz o nome, um nome comum: Maria e anuncia o nascimento de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u00c9 uma mo\u00e7a leiga e comum que vai descobrir que Deus precisa de que ela aceite e diga Sim para que o projeto divino no mundo possa se realizar. A boa nova do evangelho de hoje \u00e9 que Maria aceita acolher em seu corpo e em sua vida o que Deus lhe pede.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, nos anos 80 do primeiro s\u00e9culo, a comunidade do evangelho escreveu este relato, o fez como midrash, isso \u00e9, coment\u00e1rio em forma de narra\u00e7\u00e3o de um belo poema do profeta Sofonias (Sof 3,14-17).<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade prof\u00e9tica escreveu esse poema seis s\u00e9culos antes da nossa era. Naquela \u00e9poca, o povo de Jud\u00e1 viu o seu pa\u00eds ser destru\u00eddo pelos babil\u00f4nios e a pr\u00f3pria f\u00e9 entrava em crise profunda. O cativeiro era uma nega\u00e7\u00e3o das promessas de Deus. \u00c9 como se Deus n\u00e3o tivesse cumprido o que prometeu. Os salmos da \u00e9poca, como o 43, o 77 e o 80, gritavam: Onde est\u00e1 Deus que n\u00e3o v\u00ea o que est\u00e1 acontecendo? Ele se esqueceu da sua promessa? Abandonou o seu povo nas m\u00e3os dos seus inimigos?<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela situa\u00e7\u00e3o, a profecia de Sofonias fala de Jerusal\u00e9m como sendo uma mo\u00e7a pobre \u201cfilha de Si\u00e3o\u201d. E diz a ela: \u201c<em>Alegra-te. O Senhor est\u00e1 contigo, est\u00e1 no meio de ti e em ti\u201d<\/em>. A essa pobre comunidade impotente e invadida, Sofonias anuncia a restaura\u00e7\u00e3o da vida e da alian\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o em Deus (entre as tribos) e com Deus: <em>Alegra-te. O Senhor est\u00e1 contigo<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o as mesmas palavras que o mensageiro divino retoma quase literalmente a Maria. Assim, Lucas afirma que Maria \u00e9 a nova \u201cfilha de Si\u00e3o\u201d. Ela representa a nova comunidade pobre, que, no meio da sua impot\u00eancia e da sua pobreza, \u00e9 visitada pela gra\u00e7a (O Senhor est\u00e1 contigo). Maria representa a nova humanidade a quem Deus vem visitar e tornar fecunda, como tornou fecundos os velhos Abra\u00e3o e Sara e agora Zacarias e Isabel.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o anjo promete que a Ruah Divina cobrir\u00e1 Maria com sua sombra, est\u00e1 recordando o \u00caxodo e a caminhada do povo hebreu no deserto. O livro do \u00caxodo conta que, durante a caminhada no deserto, o povo se dirigia a uma tenda vazia e uma nuvem escura cobria a tenda com a presen\u00e7a divina. Ali na Shekin\u00e1, a tenda divina, Deus escutava os pedidos do povo e os atendia, como M\u00e3e a seus filhos e filhas. Agora a mesma sombra divina, que cobria a tenda no deserto, desce sobre Maria. Ela \u00e9 a nova tenda, o novo \u00fatero, a partir do qual a nuvem da Divina Ruah vai gerar o Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, relemos este evangelho para reafirmar que a Ruah Divina vem de novo com sua sombra cobrir as novas tendas da presen\u00e7a divina. Somos n\u00f3s estas novas tendas da presen\u00e7a divina que temos de lembrar ao mundo que o projeto divino \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 sociedade do desv\u00ednculo e da indiferen\u00e7a social. Hoje s\u00e3o as comunidades que d\u00e3o a Maria um corpo social. Por obra do Esp\u00edrito Santo, geram para esse mundo um novo Natal. Fazemos isso atrav\u00e9s da amorosidade da vida, traduzida em solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; Hoje, esse evangelho que anuncia o nascimento de Jesus vem nos dizer algumas coisas boas e outras desafiadoras. A boa nova \u00e9 que o Senhor vem e est\u00e1 em n\u00f3s e no meio de n\u00f3s. \u00c9 fonte de liberta\u00e7\u00e3o e de vida nova para n\u00f3s e para a humanidade.&nbsp; O aspecto desafiador \u00e9 que \u00e9 o nosso Deus vem, como veio no Natal. N\u00e3o vem como Deus poderoso para resolver tudo com milagre e atrav\u00e9s do poder. Vem como pequenino e impotente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os evangelhos contam que, v\u00e1rias vezes, Pedro, os outros ap\u00f3stolos e mesmo Jo\u00e3o Batista na pris\u00e3o cobravam de Jesus a postura de um messias poderoso e que trouxesse ao mundo o julgamento de Deus. At\u00e9 hoje, a Igreja fala da imagem simb\u00f3lica do Cristo Rei, glorioso, Senhor da hist\u00f3ria que vir\u00e1 revestido de poder. Os crist\u00e3os das primeiras gera\u00e7\u00f5es se frustraram porque essa manifesta\u00e7\u00e3o gloriosa de Jesus n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 melhor aceitarmos que o Natal acontece quando nos deixamos engravidar por esse novo modo de ser amor, na nossa vida pessoal, no nosso modo de ser Igreja e de sermos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s do mundo. A\u00ed sim, vamos inundando o mundo de Natal. Feliz Natal para voc\u00eas!<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cApesar de tudo,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Deixem que eu sonhe.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ainda uma vez, permitam<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Que eu creia no imposs\u00edvel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sou mulher e creio no amor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>aquele capaz de transformar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>e acalmar at\u00e9 que no fim se acabe<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>o horror do ego\u00edsmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Este amor faz florescer<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>ali onde ningu\u00e9m mais acredita<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>um mundo melhor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Deixem-me sonhar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu garanto a voc\u00eas:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>eu vi a esperan\u00e7a dan\u00e7ar\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(Poema de Elisa Kidan\u00e9<\/p>\n\n\n\n<p>no livro: \u201c\u00c1frica, nossa Terra-M\u00e3e <a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Ver em italiano: KIDAN\u00c9, Elisa. <strong>\u00c1frica mostra madre Terra. <\/strong>Effat\u00e0 Editrice.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>An\u00fancio do Natal para um mundo devastado (Lc 1,26-38) \u2013 Por Marcelo Barros Neste quarto domingo do Advento, 24\/12\/23, retomamos um evangelho muitas vezes lido e repetido nas liturgias: Lucas 1,26-38. \u00c9 a narrativa de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12918,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,48,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-12917","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-das-mulheres","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12917"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12917\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12919,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12917\/revisions\/12919"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12918"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}