{"id":13498,"date":"2024-08-10T08:31:41","date_gmt":"2024-08-10T11:31:41","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13498"},"modified":"2024-08-10T08:31:46","modified_gmt":"2024-08-10T11:31:46","slug":"passar-do-pao-da-vida-ao-pao-vivo-jo-641-51-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/passar-do-pao-da-vida-ao-pao-vivo-jo-641-51-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Passar do p\u00e3o da vida ao P\u00e3o Vivo (Jo 6,41-51) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Passar do p\u00e3o da vida ao P\u00e3o Vivo (Jo 6,41-51)<\/strong> \u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/images.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13499\" width=\"781\" height=\"437\"\/><figcaption>Marcelo Barros, monge e padre da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>\u201cEu sou o p\u00e3o da vida. No deserto, os vossos pais e m\u00e3es comeram o man\u00e1 e morreram. Mas este p\u00e3o \u00e9 o que desce do C\u00e9u, para que a pessoa que dele comer n\u00e3o morra. Eu sou o P\u00e3o Vivo que desceu do c\u00e9u. Quem comer deste p\u00e3o viver\u00e1 eternamente. E o p\u00e3o que Eu hei de dar \u00e9 a minha carne, dada pela vida do mundo\u201d (Jo 6,48 \u201351).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Neste XIX domingo do ano, Ano B para a liturgia cat\u00f3lica, dia 11\/08\/24, o evangelho proposto \u00e9 Jo\u00e3o 6,41-51, cena de discuss\u00e3o entre Jesus e pessoas da comunidade crist\u00e3 ligadas \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o judaica do templo.<\/p>\n\n\n\n<p>O quarto evangelho n\u00e3o conta a b\u00ean\u00e7\u00e3o que, na \u00faltima ceia, Jesus fez ao p\u00e3o e ao vinho. Conforme o quarto evangelho, toda vez que Jesus faz um sinal de amor e de salva\u00e7\u00e3o, os religiosos do templo e as pessoas ligadas \u00e0 religi\u00e3o ritual reagem negativamente opondo o sinal de Jesus e a tradi\u00e7\u00e3o antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o domingo passado, a discuss\u00e3o era entre Jesus e a multid\u00e3o que ele encontrou \u201cdo outro lado do lago\u201d, isso \u00e9, fora das estruturas da religi\u00e3o e da cultura judaica da \u00e9poca. A aquelas pessoas, Jesus pede que distingam o sinal (sacramento) da realidade. Valorizem o sinal como sinal, mas compreendam que a meta \u00e9 a realidade e \u00e9 preciso n\u00e3o se deter no sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>No trecho do evangelho de hoje os interlocutores mudam. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a massa de gente sem religi\u00e3o e sim aqueles que o quarto evangelho chama de \u201cjudeus\u201d ou \u201cjuda\u00edtas\u201d. Historicamente, seriam os judeus que viviam na Galileia e naquele territ\u00f3rio de fronteira. Provavelmente, quando esse evangelho foi escrito, se referia aos crist\u00e3os judaizantes, ou seja, as pessoas que eram membros da comunidade crist\u00e3, mas continuavam apegadas \u00e0 lei e \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es judaicas, como se essas fossem a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus tinha dito a essas pessoas presas \u00e0 religi\u00e3o ritual: o p\u00e3o partilhado \u00e9 sinal de algo maior. Aprendam a ir al\u00e9m dos sinais. Ainda hoje, quantas vezes, n\u00f3s mesmos, cat\u00f3licos ou evang\u00e9licos, ficamos presos aos sinais e n\u00e3o conseguimos ir al\u00e9m. N\u00e3o seria essa a doen\u00e7a dos religiosos tradicionalistas, presos ao sacramentalismo e aos legalismos da religi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>A B\u00edblia conta que, antigamente, no deserto, os hebreus que Mois\u00e9s tinha conduzido para fora do Egito murmuraram contra Deus e contra Mois\u00e9s. Agora, esse evangelho conta que, tamb\u00e9m no deserto, os crist\u00e3os presos \u00e0 lei e aos ritos murmuravam contra Jesus. Hoje, as murmura\u00e7\u00f5es se tornam fake news. S\u00e3o, por exemplo, v\u00eddeos de acusa\u00e7\u00e3o contra o papa Francisco e contra bispos, padres e comunidades que ousam ir al\u00e9m da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o evangelho, Jesus aceita as perguntas, acolhe as d\u00favidas. No entanto, se ofende quando as pessoas murmuram.<\/p>\n\n\n\n<p>Murmura\u00e7\u00f5es s\u00e3o ru\u00eddos de comunica\u00e7\u00e3o (murm\u00farios) que impedem ou dificultam a comunica\u00e7\u00e3o transparente e direta. A murmura\u00e7\u00e3o pode tomar o jeito de fofoca, ou simplesmente de cr\u00edticas que s\u00e3o ditas, mas n\u00e3o assumidas. Isso dificulta a caminhada comum.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo VI, na Regra para os mosteiros, S\u00e3o Bento enumera dois&nbsp; pecados, que ele considera como as atitudes mais prejudiciais \u00e0 vida comunit\u00e1ria. O primeiro \u00e9 se apossar privadamente do que deveria ser comum. O segundo pecado \u00e9 semelhante, s\u00f3 que no lugar de ser com coisas materiais a apropria\u00e7\u00e3o privada se d\u00e1 pela comunica\u00e7\u00e3o. Trata-se da murmura\u00e7\u00e3o. Murmurar \u00e9 diferente de fazer cr\u00edtica, ou questionar. Cr\u00edticas e questionamentos s\u00e3o \u00fateis e necess\u00e1rios. A murmura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o. \u00c9 feita por tr\u00e1s, ou de forma escondida. Trai a confian\u00e7a e quebra a comunh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso deste evangelho, o motivo da murmura\u00e7\u00e3o \u00e9 Jesus ter dito: <em>eu sou o alimento que Deus d\u00e1 para a vida de voc\u00eas<\/em>. As pessoas, apegadas \u00e0 lei e \u00e0 letra da B\u00edblia, perguntavam: Como ele pode se comparar com o profeta Mois\u00e9s? Como pode dizer que vem de Deus se \u00e9 um homem igual a n\u00f3s? N\u00f3s conhecemos a sua origem pobre, o vimos crescer em Nazar\u00e9. Conhecemos sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, a humanidade de Jesus e dos profetas pode ser vista como obst\u00e1culo para as pessoas crerem. Quem conheceu mais de perto Pedro Casald\u00e1liga, lembra que, na pessoa dele, o que mais chamava a aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o eram, em primeiro lugar, discursos e a\u00e7\u00f5es. Era o seu olhar, os p\u00e9s descal\u00e7os, o corpo fr\u00e1gil e a sua humanidade. Ainda nos anos 1970, ele escrevia em um breve poema:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Por esse simples fato<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>de ser tamb\u00e9m bispo,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>ningu\u00e9m ir\u00e1 me pedir<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 assim espero, irm\u00e3os \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>que eu deixe de ser<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>um homem humano.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Todos n\u00f3s vivemos porque nos alimentamos. O alimento em n\u00f3s se transforma em sangue e energia de vida. Quando nos alimentamos mal, ou de forma desequilibrada, adoecemos. Tamb\u00e9m no plano interior e espiritual, tamb\u00e9m precisamos nos alimentar ou receber de Deus nossa energia. Ao se colocar como \u201calimento vindo de Deus para a vida do mundo\u201d e nos mandar comer, ou seja, assimilar a sua carne, ou seja, a sua pessoa humana, hoje, Jesus nos interroga sobre qual energia nos alimenta e anima. Podemos nos alimentar de n\u00f3s mesmos e do nosso pr\u00f3prio eu. Hoje, somos de novo chamados e chamadas a nos alimentar de Jesus e do seu projeto de vida e o seu testemunho do reinado divino no mundo. Ele n\u00e3o somente nos d\u00e1 o p\u00e3o da vida que \u00e9 a sua palavra e a eucaristia, mas Ele se d\u00e1 a si mesmo como P\u00e3o Vivo que alimenta e d\u00e1 energia de vida e amor a toda pessoa que o segue e a toda a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ontem, no Brasil, as comunidades da caminhada celebraram os 50 anos do mart\u00edrio do Frei Tito Alencar que aos 29 anos parte para Deus, como consequ\u00eancia da tortura infligida pelo Delegado Fleury, representante da Ditadura Militar. Hoje, no Brasil, n\u00e3o h\u00e1 mais ditadura militar e ningu\u00e9m \u00e9 torturado como preso pol\u00edtico. No entanto, no Mato Grosso do Sul, o CIMI denuncia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDourados, MS. As retomadas de terras Guaran\u00ed e Kaiowa, Kurupa Yty&nbsp; e Pikyxyin est\u00e3o sendo violentamente atacadas por ruralistas e capangas neste exato momento. H\u00e1 v\u00e1rios feridos a bala de borracha e armas letais no local, tamb\u00e9m h\u00e1 grande concentra\u00e7\u00e3o de camionetes em torno da comunidade Yvy Ajere.<\/p>\n\n\n\n<p>A For\u00e7a Nacional simplesmente se retirou do local e deixou as comunidades desprotegidas ao ataque das mil\u00edcias rurais.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e3o atirando no pesco\u00e7o e no cora\u00e7\u00e3o das pessoas. Tem muitas crian\u00e7as e idosos no local e at\u00e9 o momento recebemos informa\u00e7\u00f5es de que h\u00e1 pelo menos dez graves feridos. A comunidade pede socorro, eles est\u00e3o totalmente abandonados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Que Deus nos ilumine para nos organizar na solidariedade aos povos ind\u00edgenas amea\u00e7ados em sua integridade f\u00edsica e cultural e nos fa\u00e7a ver nas pessoas e nas comunidades a presen\u00e7a do Cristo como P\u00e3o Vivo dado para a vida do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passar do p\u00e3o da vida ao P\u00e3o Vivo (Jo 6,41-51) \u2013 Por Marcelo Barros \u201cEu sou o p\u00e3o da vida. No deserto, os vossos pais e m\u00e3es comeram o man\u00e1 e morreram. 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