{"id":13624,"date":"2024-10-04T18:44:10","date_gmt":"2024-10-04T21:44:10","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13624"},"modified":"2024-10-04T18:46:23","modified_gmt":"2024-10-04T21:46:23","slug":"as-pessoas-sao-mais-importantes-do-que-a-lei-mc-102-16-evangelho-para-alem-dos-templos-por-marcelo-barros-e-equipe","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/as-pessoas-sao-mais-importantes-do-que-a-lei-mc-102-16-evangelho-para-alem-dos-templos-por-marcelo-barros-e-equipe\/","title":{"rendered":"AS PESSOAS S\u00c3O MAIS IMPORTANTES DO QUE A LEI (Mc 10,2-16): EVANGELHO PARA AL\u00c9M DOS TEMP(L)OS. Por Marcelo Barros e Equipe"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>AS PESSOAS S\u00c3O MAIS IMPORTANTES DO QUE A LEI (Mc 10,2-16): Reflex\u00e3o a partir do Evangelho do XXVII Domingo do Tempo Comum (Ano B) \u2013 EVANGELHO PARA AL\u00c9M DOS TEMP(L)OS. Por Marcelo Barros e Equipe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/WhatsApp-Image-2020-04-24-at-11.50.04-1-1024x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13625\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/WhatsApp-Image-2020-04-24-at-11.50.04-1-1024x1024.jpeg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/WhatsApp-Image-2020-04-24-at-11.50.04-1-300x300.jpeg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/WhatsApp-Image-2020-04-24-at-11.50.04-1-150x150.jpeg 150w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/WhatsApp-Image-2020-04-24-at-11.50.04-1-768x768.jpeg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/WhatsApp-Image-2020-04-24-at-11.50.04-1.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, padre e monge beneditino, biblista e te\u00f3logo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste XXVII Domingo Comum do Ano B, dia 05\/10\/2024, o Evangelho proposto \u00e9 Marcos 10, 2-16. Trata-se de um texto no qual os religiosos do templo, advers\u00e1rios de Jesus, tentam lhe armar ciladas para acus\u00e1-lo de ser contr\u00e1rio \u00e0 lei de Deus. Infelizmente, at\u00e9 hoje, alguns religiosos encontram na B\u00edblia argumentos para condenar pessoas que pensam de maneira diferente ou defendem pol\u00edticas libertadoras para as mulheres e outras minorias marginalizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que, na maioria das sociedades antigas, o casamento foi organizado para garantir a perpetua\u00e7\u00e3o da sociedade patriarcal, na qual a mulher devia ser submissa ao marido. Precisamos compreender que at\u00e9 a pr\u00f3pria B\u00edblia, que cont\u00e9m a revela\u00e7\u00e3o divina, foi traduzida para culturas humanas e, por isso, n\u00e3o poderia escapar dessa influ\u00eancia. Desde suas primeiras p\u00e1ginas, a B\u00edblia cont\u00e9m mitos e hist\u00f3rias pensadas a partir de uma cultura patriarcal. A revela\u00e7\u00e3o divina se deu passo a passo, em uma evolu\u00e7\u00e3o com altos e baixos, com momentos mais humanizadores e outros carregados de preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, h\u00e1 setores eclesi\u00e1sticos que se posicionaram contra certos direitos, alegando obedi\u00eancia \u00e0 palavra de Jesus. Recentemente, um grupo que trabalha com direitos humanos revelou que, em algumas comunidades evang\u00e9licas, mulheres s\u00e3o agredidas por seus maridos, alguns dos quais ocupam cargos de lideran\u00e7a e ministros na Igreja. Quando essas mulheres se queixam \u00e0s autoridades eclesi\u00e1sticas, muitas vezes s\u00e3o aconselhadas por pastores a orar, a terem paci\u00eancia, mas principalmente a aceitarem que o homem seja o chefe da mulher, como o ap\u00f3stolo Paulo escreveu em uma de suas cartas.<\/p>\n\n\n\n<p>Usar a pr\u00f3pria B\u00edblia e a f\u00e9 crist\u00e3 para legitimar o absurdo de rela\u00e7\u00f5es abusivas e desrespeitosas no casamento, ou simplesmente para perpetuar a cultura patriarcal, \u00e9 o oposto da proposta de Jesus. Muitos pastores e grupos tradicionalistas, contudo, ainda perpetuam essa interpreta\u00e7\u00e3o equivocada, conforme expressa o evangelho proclamado neste domingo.<\/p>\n\n\n\n<p>No evangelho de Marcos, \u00e9 a primeira vez que Jesus atravessa o rio Jord\u00e3o, deixando a Judeia rumo a Jerusal\u00e9m. Em territ\u00f3rio judeu, Ele enfrentou uma pol\u00eamica provocada pelos fariseus, que lhe armaram ciladas. Serviram-se da lei de Mois\u00e9s, que permitia ao homem mandar embora sua esposa por qualquer motivo que o marido considerasse grave. Os religiosos da lei pedem que Jesus se pronuncie sobre isso. Jesus, no entanto, recusa-se a discutir a lei, colocando-se em outro patamar. Enquanto os fariseus falam em div\u00f3rcio, Jesus usa o termo separa\u00e7\u00e3o e \u00e9 a partir desse termo que Ele diz que o projeto divino do amor e da uni\u00e3o \u00e9 anterior \u00e0 lei de Mois\u00e9s e, por isso, \u00e9 importante retom\u00e1-lo. O horizonte que Jesus apresenta \u00e9 resgatar a utopia original do amor e da vida partilhada.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, toda a exegese sabe que o relato do livro do G\u00eanesis n\u00e3o \u00e9 hist\u00f3rico, nem trata do in\u00edcio do mundo, mas sim da meta divina para a humanidade. Assim, a rela\u00e7\u00e3o de amor e uni\u00e3o entre duas pessoas que se tornam &#8220;uma s\u00f3 carne&#8221; \u00e9 um projeto divino a ser alcan\u00e7ado e n\u00e3o um ponto de partida. Jesus ressalta que o amor \u00e9 indissol\u00favel. Enquanto os fariseus querem discutir a lei, Jesus se nega a se colocar neste plano da lei.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 justo que as igrejas, em nome de Jesus, tratem o tema do casamento sob o prisma da lei, de forma moralista e fundamentalista. Isso as coloca do lado dos fariseus, e n\u00e3o do lado de Jesus, que nos chama a ultrapassar o plano legal. O que esse evangelho prop\u00f5e \u00e9 que, a partir de Jesus, sejam criadas novas rela\u00e7\u00f5es de amor e de cuidado na fam\u00edlia e no direito de todas as pessoas, especialmente naquela sociedade antiga, onde os direitos das mulheres e das crian\u00e7as eram negligenciados.<\/p>\n\n\n\n<p>Este evangelho n\u00e3o pode ser lido como se Jesus estivesse se referindo ao tipo de casamento que ocorre em nossa sociedade atual. Nos tempos antigos e at\u00e9 hoje em sociedades mais tradicionais, os casamentos s\u00e3o acordados entre as fam\u00edlias que unem at\u00e9 crian\u00e7as. Homens e mulheres se casavam aos oito ou at\u00e9 dez anos. O amor vinha depois, se viesse. As meninas eram dadas como dote \u00e0 fam\u00edlia do homem e, em alguns casos, era praticamente compradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus, ao longo do evangelho, se posiciona contra o patriarcalismo, ampliando a compreens\u00e3o da fam\u00edlia para al\u00e9m da sua estrutura tradicional e praticando a comensalidade aberta, compartilhando a mesa com as pessoas empobrecidas e se colocando contra as estruturas fechadas da sociedade patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p>No cap\u00edtulo 10 de Marcos, se retoma a centralidade da crian\u00e7a no cuidado da comunidade dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Jesus, tema j\u00e1 abordado no cap\u00edtulo 9. Os versos finais deste evangelho destacam novamente a acolhida e o cuidado com as crian\u00e7as. Seja porque elas s\u00e3o as primeiras v\u00edtimas do desentendimento e separa\u00e7\u00e3o dos pais, ou porque, naquela sociedade, eram consideradas sem import\u00e2ncia (e como j\u00e1 falamos, faziam crian\u00e7as se casarem, sem que essas compreendessem o que estava acontecendo). Jesus valoriza as crian\u00e7as e centra sobre elas a sua aten\u00e7\u00e3o. Quando os disc\u00edpulos tentam afast\u00e1-las para proteger o mestre, Ele diz que n\u00e3o se pode colocar nenhum empecilho para que as crian\u00e7as venham at\u00e9 Ele e as coloca como imagem da acolhida gratuita do reinado divino. \u00c9 a partir das crian\u00e7as, ou seja, dos menores, do elo mais fraco, dos mais vulner\u00e1veis, que qualquer quest\u00e3o deve ser abordada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma rela\u00e7\u00e3o em que a mulher \u00e9 desrespeitada, agredida ou violentada, ela \u00e9 a \u201ccrian\u00e7a\u201d, \u201ca menor\u201d, que deve ser ouvida, cuidada e amada acima de tudo. Em Mateus 19,3-9, Jesus n\u00e3o se prende a quest\u00f5es doutrin\u00e1rias ou dogm\u00e1ticas, mas teve a grandeza de ajudar as comunidades a refletirem que devemos nos inspirar na hist\u00f3ria, nas boas utopias, mas n\u00e3o podemos ser duros e insens\u00edveis \u00e0s complexidades que muitas vezes tornam necess\u00e1rios os div\u00f3rcios. Assim, o autor do Evangelho de Mateus mostra Jesus admitindo que, em certos casos, o div\u00f3rcio \u00e9 compreens\u00edvel. Diz o texto \u201cem casos de fornica\u00e7\u00e3o\/porneia\u201d (Mt 19,9).<\/p>\n\n\n\n<p>Se Deus \u00e9 amor, ou o amor \u00e9 Deus, n\u00e3o podemos, por obedi\u00eancia cega a doutrinas, discriminar aqueles(as) que se sentem crucificados(as) e oprimidos(as) no matrim\u00f4nio, e lutam para se libertar. Em nome de Mt 19,3-9, devemos ser compreensivos e generosos com quem, cansado(a) de sofrer em uma rela\u00e7\u00e3o falida, busca liberta\u00e7\u00e3o, chegando \u00e0 separa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a procurar e encontrar um novo amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cA alegria do Amor\u201d, o Papa Francisco afirma: \u201c&#8230; <em>evoca-se a uni\u00e3o matrimonial n\u00e3o apenas na sua dimens\u00e3o sexual e corp\u00f3rea, mas tamb\u00e9m na sua doa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de amor. O fruto desta uni\u00e3o \u00e9 \u201ctornar-se uma s\u00f3 carne\u201d, quer no abra\u00e7o f\u00edsico, quer na uni\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es e das vidas e mesmo em algum filho ou filha que nascer\u00e1 dos dois e, em si mesmo, carregar\u00e1 em si as duas \u201ccarnes\u201d, unindo-as gen\u00e9tica e espiritualmente\u201d<\/em> (Amoris Letitia, 16). <em>\u201cComo caracter\u00edstica que distingue seus disc\u00edpulos e disc\u00edpulas, Cristo p\u00f4s a lei do amor e do dom de si mesmo aos outros (cf. Mt 22, 39; Jo 13, 34), e fez isso atrav\u00e9s de um princ\u00edpio que um pai ou m\u00e3e costumam testemunhar na sua pr\u00f3pria vida: \u00abNingu\u00e9m tem maior amor do que quem d\u00e1 a vida pelas pessoas que ama\u00bb<\/em> (AL 27).<\/p>\n\n\n\n<p>Acolhamos, ent\u00e3o, este Evangelho de hoje n\u00e3o como uma lei que define e ordena o que \u00e9 permitido e o que \u00e9 proibido, mas como um chamado ao amor, que \u00e9 indissol\u00favel e se baseia na liberdade interior e na realiza\u00e7\u00e3o plena de cada um(a) de n\u00f3s. \u00c9 preciso n\u00e3o fazer uma leitura fundamentalista do Evangelho. O importante \u00e9 viver o projeto divino do amor. Embora Jesus tenha falado de uni\u00e3o entre homem e mulher em sua cultura, no mundo atual, a diversidade de g\u00eaneros e orienta\u00e7\u00f5es sexuais nos leva a compreender que o amor \u00e9 o que realmente importa e s\u00f3 este \u00e9 indissol\u00favel.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSe \u00e9 pra ir pra luta, eu vou<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Se \u00e9 pra t\u00e1 presente, eu t\u00f4<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Pois na vida da gente o que vale \u00e9 o amor\u201d <\/em>(Z\u00e9 Vicente)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS PESSOAS S\u00c3O MAIS IMPORTANTES DO QUE A LEI (Mc 10,2-16): Reflex\u00e3o a partir do Evangelho do XXVII Domingo do Tempo Comum (Ano B) \u2013 EVANGELHO PARA AL\u00c9M DOS TEMP(L)OS. 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