{"id":13629,"date":"2024-10-07T21:49:47","date_gmt":"2024-10-08T00:49:47","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13629"},"modified":"2024-10-07T21:49:52","modified_gmt":"2024-10-08T00:49:52","slug":"a-apropriacao-ou-a-vida-mc-1017-30-evangelho-para-alem-dos-templos-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-apropriacao-ou-a-vida-mc-1017-30-evangelho-para-alem-dos-templos-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"A APROPRIA\u00c7\u00c3O OU A VIDA (Mc 10,17-30) \u2013 EVANGELHO PARA AL\u00c9M DOS TEMP(L)OS. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A APROPRIA\u00c7\u00c3O OU A VIDA (Mc 10,17-30) \u2013 EVANGELHO PARA AL\u00c9M DOS TEMP(L)OS. Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/images-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13630\" width=\"779\" height=\"517\"\/><figcaption>Marcelo Barros, padre, monge beneditino, biblista e te\u00f3logo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste XXVIII Domingo comum do ano B, dia 13\/10\/24, o evangelho \u00e9 Marcos 10, 17- 30. Conta o encontro que Jesus, em meio \u00e0 sua caminhada, teve com um homem rico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas evangelistas sin\u00f3ticos, Mateus, Marcos e Lucas situam esse acontecimento no momento em que Jesus est\u00e1 dedicado a aprofundar a forma\u00e7\u00e3o dos seus disc\u00edpulos e disc\u00edpulas. E no texto anterior a esse, Jesus toma a defesa das pessoas marginalizadas pela sociedade, sejam as mulheres abandonadas pelos maridos, sejam as crian\u00e7as. Duas vezes, o texto recorda que Jesus est\u00e1 no caminho e se trata do caminho para Jerusal\u00e9m, para enfrentar os opressores dos poderes da pol\u00edtica, da religi\u00e3o e da economia, o que lhe levar\u00e1 \u00e0 condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte na&nbsp; cruz. E \u00e9 nesse caminho que um homem rico se apresenta a Jesus. Esse rico vem perguntar a Jesus sobre como obter a vida eterna.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contar a mesma hist\u00f3ria, o evangelho de Mateus diz logo que se tratava de um \u201cjovem rico\u201d (Cf. Mt 19, 16- 26). Lucas esclarece que era um \u201chomem de neg\u00f3cios ou comerciante\u201d (Cf. Lc 18,18-27). Para a comunidade de Marcos, \u00e9 simplesmente algu\u00e9m, mas que na sequ\u00eancia se diz que se trata de um homem rico. Escrevendo para ocidentais, Marcos diz que aquele homem (ou mulher) se ajoelha diante de Jesus (os orientais n\u00e3o tinham esse costume) e lhe pergunta como poderia entrar na vida eterna. Com essa pergunta, ele ou ela expressa certo individualismo. A \u00fanica coisa que lhe importava era a salva\u00e7\u00e3o pessoal. Pareceria hoje, a espiritualidade das pessoas que colam no seu carro um adesivo: \u201cEsse foi Jesus que me deu\u201d. Jesus lhe responde: Observe os mandamentos sobre a rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo. \u00c9 importante porque nessa etapa da forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas, Jesus os ensina a interpretar a Escritura. Nesse caso, ele cita os mandamentos que dizem respeito \u00e0 nossa rela\u00e7\u00e3o com as outras pessoas. De prop\u00f3sito deixa de lado os mandamentos que dizem respeito diretamente \u00e0 nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus. Para Jesus, o mais importante n\u00e3o s\u00e3o os mandamentos religiosos e sim os sociais. E, ao citar alguns desses mandamentos da lei judaica, acrescenta um que n\u00e3o est\u00e1 no Deuteron\u00f4mio: &#8220;N\u00e3o explore ningu\u00e9m. N\u00e3o roube o que \u00e9 de outro\u201d. Na B\u00edblia, isso significa na pr\u00e1tica: n\u00e3o seja injusto com quem trabalha para voc\u00ea. N\u00e3o pratique uma religi\u00e3o ego\u00edsta. Sua espiritualidade depende de como voc\u00ea trata os outros. Aquela pessoa responde que j\u00e1 observa isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, o evangelho de Marcos acrescenta: Jesus o olhou, o amou e lhe disse: &#8220;Falta-te uma coisa: v\u00e1, venda tudo o que tem, d\u00ea aos pobres e ter\u00e1 um tesouro no c\u00e9u. Depois, venha e me siga.\u201d Vender tudo e&nbsp; doar tudo aos pobres. N\u00e3o diz vender apenas parte e s\u00f3 doar parte.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o olhar amoroso de Jesus e essa aten\u00e7\u00e3o especial poderia dar \u00e0 aquela pessoa a possibilidade de mudan\u00e7a de vida. O objetivo do Evangelho n\u00e3o \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o individual. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a do reino: o projeto de Deus nesse mundo. \u00c9 preciso passar de uma vis\u00e3o de f\u00e9, baseada na salva\u00e7\u00e3o individual, tipo: Jesus te salva, como \u00e9 a teologia burguesa, para uma vis\u00e3o de f\u00e9, centrada na justi\u00e7a libertadora do reino de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho diz: \u201co tal homem, ou mulher, n\u00e3o aceita a palavra que tinha ouvido e se retira triste, porque possu\u00eda muitas propriedades\u201d (v. 22). E Jesus constata que o seu olhar amoroso fracassou. Ele diz simplesmente aos disc\u00edpulos: \u201cComo \u00e9 dif\u00edcil um rico entrar no projeto divino do reino\u201d. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se um rico pode ir para o c\u00e9u ou n\u00e3o. Essa n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o de Jesus. O que ele diz \u00e9 que todas as riquezas (n\u00e3o fala do rico) s\u00e3o, em si, injustas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos evangelhos h\u00e1 dois tipos de perguntas dirigidas a Jesus: a pergunta\/pedido dos empobrecidos que clamam pelo \u201caqui e agora\u201d: pedem vis\u00e3o, p\u00e3o e sa\u00fade; e a pergunta dos doutores da lei e dos ricos que perguntam sobre \u201co p\u00f3s morte\u201d: como se salvar, \u201cganhar a vida eterna\u201d. A estes Jesus os faz olhar para a realidade social e convida \u00e0 convers\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es humanas do aqui e do agora. Religi\u00e3o que induz salva\u00e7\u00e3o pessoal n\u00e3o \u00e9 religi\u00e3o libertadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade dominante sempre olha a vida a partir da preocupa\u00e7\u00e3o com o dinheiro, a produ\u00e7\u00e3o e a riqueza. Esse modo de organizar a sociedade s\u00f3 tem produzido guerras, desigualdade, mis\u00e9ria e destrui\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Jesus quer \u00e9 que os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas compreendam que uma economia baseada na acumula\u00e7\u00e3o individual n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com o projeto divino.&nbsp; E a\u00ed o evangelho se volta para a educa\u00e7\u00e3o do discipulado. S\u00f3 Deus pode fazer at\u00e9 mesmo o imposs\u00edvel que seria tornar a pessoa rica capaz de compartilhar o que tem.<\/p>\n\n\n\n<p>Os disc\u00edpulos t\u00eam dificuldade de compreender isso. Viver o evangelho n\u00e3o \u00e9 obedecer \u00e0s leis, \u00e0s regras e aos preceitos. \u00c9 seguir Jesus e se comprometer com a causa do reino da justi\u00e7a. Pedro compreende isso. Ele v\u00ea que, de fato, os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas ouviram um chamado e seguiram o Mestre. Por isso, Pedro pergunta: &#8220;e n\u00f3s, que deixamos tudo e te seguimos? Ele n\u00e3o pergunta qual ser\u00e1 a recompensa ou o pr\u00eamio. \u00c9 mais uma quest\u00e3o afetuosa: E n\u00f3s? E a eles, entre os quais n\u00e3o h\u00e1 nenhum rico, Jesus responde: a quem renuncia a tudo pelo reino, Deus d\u00e1 cem vezes mais, porque d\u00e1 a comunidade, a vida partilhada, o afeto vivenciado e a riqueza coletiva. \u00c9 aquilo que agora os povos origin\u00e1rios chamam de \u201cbem-viver\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 mais de 50 anos, no final da d\u00e9cada de 1960, ao reler e traduzir o Conc\u00edlio Vaticano II para a Am\u00e9rica Latina, a 2\u00aa Confer\u00eancia dos Bispos Cat\u00f3licos do continente em Medell\u00edn, na Col\u00f4mbia, introduziu na miss\u00e3o da Igreja a quest\u00e3o da Pobreza na Igreja, tema de um dos documentos (n. 14).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A confer\u00eancia de Medell\u00edn foi um acontecimento excepcional, cujo clima nunca mais se conseguiu repetir ou retomar. A partir da\u00ed, um dos debates mais dif\u00edceis nos ambientes eclesiais tem sido a \u201cop\u00e7\u00e3o pelos pobres\u201d. J\u00e1 em Puebla, onze anos depois, o grupo de bispos mais conservadores insistia que a Igreja \u00e9 de todos e n\u00e3o se deveria particularizar. Da\u00ed nasceu o adjetivo \u201cpreferencial\u201d: op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Muitos insistem: \u00e9 preferencial e n\u00e3o exclusiva. Desde os tempos do Conc\u00edlio Vaticano II at\u00e9 hoje e agora o Papa Francisco, assim como as pessoas e grupos mais conscientes preferem falar em inser\u00e7\u00e3o no mundo dos empobrecidos. Por isso, na Am\u00e9rica Latina, se fala em \u201cIgreja dos pobres\u201d e que, a partir do povo empobrecido e da imensa massa dos povos exclu\u00eddos, se torna espa\u00e7o de comunh\u00e3o para toda a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Poema- ora\u00e7\u00e3o de Dom Helder Camara:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mesmo Tu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>com o Teu olhar irresist\u00edvel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>de infinita bondade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>n\u00e3o conseguiste comover<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>o cora\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>do jovem Rico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E ele, desde a inf\u00e2ncia,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>praticava<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>todos os mandamentos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Senhor, meu Senhor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>n\u00e3o nos deixes atenuar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 por uma err\u00f4nea caridade \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>as verdades dur\u00edssimas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>que disseste aos Ricos&#8230; <\/em>(Recife, 13-14\/10\/1973)<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; DOM HELDER CAMARA. <strong>181\u00aa Circular<\/strong>. (13\/ 14. 10. 1973). in <strong>Circulares P\u00f3s-Conciliares. <\/strong>Volume VI. Tomo III. Recife: CEPE, 2025, pp. 379- 380.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A APROPRIA\u00c7\u00c3O OU A VIDA (Mc 10,17-30) \u2013 EVANGELHO PARA AL\u00c9M DOS TEMP(L)OS. Por Marcelo Barros Neste XXVIII Domingo comum do ano B, dia 13\/10\/24, o evangelho \u00e9 Marcos 10, 17- 30. 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