{"id":13669,"date":"2024-10-19T08:36:15","date_gmt":"2024-10-19T11:36:15","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13669"},"modified":"2024-10-19T08:36:20","modified_gmt":"2024-10-19T11:36:20","slug":"do-bom-uso-da-razao-cordial-e-sensivel-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/do-bom-uso-da-razao-cordial-e-sensivel-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"DO BOM USO DA RAZ\u00c3O CORDIAL E SENS\u00cdVEL \u2013 Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>DO BOM USO DA RAZ\u00c3O CORDIAL E SENS\u00cdVEL \u2013 <\/strong>Por Leonardo Boff<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/image_processing20200706-26197-jxc56o.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13670\" width=\"779\" height=\"520\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/image_processing20200706-26197-jxc56o.jpeg 512w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/image_processing20200706-26197-jxc56o-300x200.jpeg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/image_processing20200706-26197-jxc56o-420x280.jpeg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 779px) 100vw, 779px\" \/><figcaption>Leonardo Boff<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Face \u00e0 crise atual que afeta&nbsp; o inteiro planeta de forma perigosa pois pode desembocar na terceira guerra mundial que poria em risco a biosfera e a vida humana,&nbsp;devemos resgatar o que poderia mudar o rumo da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Comungo da interpreta\u00e7\u00e3o que sustenta ser o atual estado do mundo deriva de, pelo menos duas grandes injusti\u00e7as: uma social com a gera\u00e7\u00e3o, por um lado, de uma desigualdade sociais perversas e, por outro, de uma acumula\u00e7\u00e3o de riqueza como jamais houve h\u00e1 hist\u00f3ria a ponto de 8 pessoas (n\u00e3o empresas) deterem mais riqueza que mais da metade da popula\u00e7\u00e3o mundial. A outra \u00e9 a injusti\u00e7a ecol\u00f3gica: o planeta Terra com seus biomas est\u00e1 sendo, h\u00e1 s\u00e9culos, depredado a ponto de que precisamos de mais de uma Terra e meia para atender o consumo humano, preferencialmente dos pa\u00edses consumistas do Norte Global.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de Gaia, a Terra&nbsp; como Super-Organismo vivo, se mostra por uma gama significativa de v\u00edrus e pelo a aquecimento crescente, provavelmente irrevers\u00edvel, &nbsp;que causa tuf\u00f5es, ciclones e tornados altamente destrutivos, amea\u00e7ando a biodiversidade, crian\u00e7as e idosos, incapazes de se adaptar e condenados a morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Retomo o tema: esta trag\u00e9dia eco-social \u00e9 fruto da raz\u00e3o que degenerou &nbsp;em racionalismo (despotismo da raz\u00e3o) e se traduziu em t\u00e9cnicas, por um lado ben\u00e9ficas \u00e0 nossa vida moderna e por outro t\u00e3o mortal que pode destruir tudo o que temos constru\u00eddo em mil\u00eanios de hist\u00f3ria, amea\u00e7ando as bases ecol\u00f3gicas que sustentam o sistema-vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela teve origem l\u00e1 no passado, pelo s\u00e9culo V\u00ba a.C, da virada do pensamento m\u00edtico para o pensamento racional dos mestres gregos. Inicialmente mantinha-se grande equil\u00edbrio entre todos os principais eixos existenciais: do&nbsp;<em>Pathos<\/em>&nbsp;(capacidade de sentir), do&nbsp;<em>&nbsp;Logos&nbsp;<\/em>(forma de compreender o real), o&nbsp;<em>Ethos<\/em>&nbsp;(nossa forma de bem viver e conviver), do&nbsp;<em>Eros<\/em>&nbsp;(nossa pot\u00eancia de vida) e do&nbsp;<em>Daimon<\/em>&nbsp;(a voz da consci\u00eancia).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse ideal foi excelentemente expresso por P\u00e9ricles (495-429 a.C), grande estadista democr\u00e1tico, general, ex\u00edmio orador, em Atenas: \u201cAmamos o belo mas n\u00e3o o vulgar; dedicamo-nos \u00e0 sabedoria, mas sem vangl\u00f3ria; usamos a riqueza para empreendimentos necess\u00e1rios, sem ostenta\u00e7\u00f5es in\u00fateis; a pobreza n\u00e3o \u00e9 vergonhosa para ningu\u00e9m; vergonhoso \u00e9 n\u00e3o se fazer o poss\u00edvel para evit\u00e1-la\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis um exemplo da justa medida. N\u00e3o sem raz\u00e3o em todos os p\u00f3rticos dos templos gregos, podia-se ler:&nbsp;<em>\u201cm\u00e9den \u00e1gan\u201d <\/em>(nada de excessivo).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas logo, a fome de poder, caracter\u00edstica de Alexandre, o Grande (356-323 a.C), aquele que com 33 anos de idade estendeu seu imp\u00e9rio at\u00e9 \u00e0 \u00cdndia, rompeu o equil\u00edbrio. A raz\u00e3o, transformada em vontade de poder e de instrumento de domina\u00e7\u00e3o dos outros e da natureza ganhou a primazia. \u00c9 o que ainda subjaz ao atual modo de organizarmos nossas sociedades, especialmente, a sua forma mais excessiva e desumana, o capitalismo que tomou conta de todo o orbe. Poderia ser diferente? Era inevit\u00e1vel? O que podemos dizer \u00e9 que foi uma op\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social, o nosso \u201cdestino manifesto\u201d, hoje numa radical crise de seus fundamentos<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quero dar o exemplo de uma cultura que colocou o&nbsp;<em>cora\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e n\u00e3o a&nbsp;<em>raz\u00e3o<\/em>, como eixo estruturador de sua organiza\u00e7\u00e3o social: cultura&nbsp;<em>n\u00e1uatle<\/em>&nbsp;do M\u00e9xico e da Am\u00e9rica Central, (hoje s\u00e3o cerca de 3,3 milh\u00f5es de habitantes), sendo desta etnia os aztecas e toltecas. Para os&nbsp;<em>nauatles o cora\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;ocupava a centralidade. A defini\u00e7\u00e3o de ser humano n\u00e3o \u00e9, como entre n\u00f3s, a de um animal racional, mas a de&nbsp;um \u201c<em>dono de um rosto e de um cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O tipo de rosto&nbsp; identifica e&nbsp; distingue o ser humano de outros seres humanos. No rosto a rosto, no cara a cara, nasce o sentimento \u00e9tico, nos ensinou Levinas.&nbsp; No rosto fica estampado se o acolhemos,&nbsp; se dele desconfiamos, se o exclu\u00edmos. O cora\u00e7\u00e3o, por sua vez,&nbsp; define o modo-de-ser e o car\u00e1ter da pessoa, a sensibilidade face ao outro&nbsp; a acolhida cordial e a compaix\u00e3o com quem sofre.<\/p>\n\n\n\n<p>A educa\u00e7\u00e3o refinada dos n\u00e1uatles, conservada&nbsp; em bel\u00edssimos textos, visava formar nos jovens um \u201crosto claro, bondoso e sem sombras\u201d, aliado a um \u201ccora\u00e7\u00e3o&nbsp; firme e caloroso, determinado e hospitaleiro, solid\u00e1rio e respeitoso das coisas sagradas\u201d. Segundo eles, era do cora\u00e7\u00e3o que nascia a religi\u00e3o que utilizava \u201ca flor e o canto\u201d para venerar suas divindades. Colocavam cora\u00e7\u00e3o em todas as coisas que faziam. Essa cordialidade passava \u00e0s bel\u00edssimas obras de arte a ponto de encantar o pintor renascentista alem\u00e3o Albert D\u00fcrer ao contempl\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Tiremos algumas li\u00e7\u00f5es desta cultura do&nbsp;<em>cora\u00e7\u00e3<\/em>o e da&nbsp;<em>cor-dialidade<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>1. Em tudo o que pensar e fizer coloque cora\u00e7\u00e3o. A fala sem cora\u00e7\u00e3o soa fria e formal. Palavras ditas com cora\u00e7\u00e3o tocam o cora\u00e7\u00e3o das pessoas. \u00c9 isso que facilita a compreens\u00e3o e conquista a ades\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Procure junto com o racioc\u00ednio articulado colocar a emo\u00e7\u00e3o cordial. N\u00e3o a force porque ela deve espontaneamente revelar a profunda convic\u00e7\u00e3o naquilo que cr\u00ea e diz. S\u00f3 assim comove o&nbsp; cora\u00e7\u00e3o do outro&nbsp; e se faz convincente.<\/p>\n\n\n\n<p>3. A intelig\u00eancia intelectual, indispens\u00e1vel para organizar nossas sociedades complexas, quando recalca a intelig\u00eancia cordial gera uma percep\u00e7\u00e3o &nbsp;&nbsp;reducionista e distanciada da realidade. Mas tamb\u00e9m o excesso da intelig\u00eancia cordial e sens\u00edvel pode decair para o sentimentalismo adocicado e para proclamas populistas. Importa sempre buscar a justa medida entre mente e cora\u00e7\u00e3o, mas articulando os dois polos a partir do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Quando tiver que falar a um audit\u00f3rio ou a um grupo, n\u00e3o fale s\u00f3 a partir da cabe\u00e7a mas d\u00ea primazia ao cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 ele que sente, vibra e faz vibrar. S\u00f3 s\u00e3o eficazes as raz\u00f5es da intelig\u00eancia intelectual quando elas v\u00eam amalgamadas pela sensibilidade do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>5. Crer n\u00e3o \u00e9 pensar Deus. Crer \u00e9 sentir Deus a partir da totalidade de nosso ser, come\u00e7ando pelo interior, pelo&nbsp; cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o nos damos conta de que n\u00e3o estamos submetido a um Deus julgador, mas um Realidade amorosa e poderosa que sempre nos acompanha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DO BOM USO DA RAZ\u00c3O CORDIAL E SENS\u00cdVEL \u2013 Por Leonardo Boff Face \u00e0 crise atual que afeta&nbsp; o inteiro planeta de forma perigosa pois pode desembocar na terceira guerra mundial que poria em risco<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13670,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,47,44,38,49,27,30,43,57,26],"tags":[],"class_list":["post-13669","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-agua","category-direito-a-memoria","category-direito-a-saude","category-direito-a-terra","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-podcast","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13669","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13669"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13669\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13671,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13669\/revisions\/13671"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13670"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13669"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13669"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13669"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}