{"id":13701,"date":"2024-10-26T13:30:38","date_gmt":"2024-10-26T16:30:38","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13701"},"modified":"2024-10-26T13:30:43","modified_gmt":"2024-10-26T16:30:43","slug":"gustavo-gutierrez-perfil-amigo-por-frei-betto-a-teologia-da-libertacao-e-mais-importante-que-o-marxismo-para-a-revolucao-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/gustavo-gutierrez-perfil-amigo-por-frei-betto-a-teologia-da-libertacao-e-mais-importante-que-o-marxismo-para-a-revolucao-na-america-latina\/","title":{"rendered":"GUSTAVO GUTI\u00c9RREZ, PERFIL AMIGO &#8211; Por Frei Betto. \u201cA teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante que o marxismo para a revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina\u201d."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>GUSTAVO GUTI\u00c9RREZ, PERFIL AMIGO &#8211; Por Frei Betto<\/strong>. \u201c<strong>A teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante que o marxismo para a revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/download.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13702\" width=\"703\" height=\"395\"\/><figcaption>Gustavo Guti\u00e9rrez, &#8220;pai da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o&#8221;, com o papa Francisco. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Gustavo Guti\u00e9rrez (1928-2024) pode, com raz\u00e3o, ser considerado o pai da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, pois foi o primeiro a publicar um livro com esse t\u00edtulo, em 1971, pela espanhola Ediciones S\u00edgueme. Ele mesmo n\u00e3o negava a import\u00e2ncia, para seu trabalho, da visita feita ao Brasil em 1969, quando esteve em contato com nossas Comunidades Eclesiais de Base e experimentou, de perto, o drama do assassinato \u2013 ainda hoje impune \u2013 do assessor da juventude de Dom Helder Camara, o padre Henrique Pereira Neto, estrangulado e baleado no Recife, em 26 de maio de 1969.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Gustavo dedicou sua Teologia da liberta\u00e7\u00e3o ao sacerdote assassinado pela ditadura e ao romancista peruano Jos\u00e9 Mar\u00eda Arguedas. Apesar disso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negar em sua obra as ra\u00edzes europeias provenientes do humanismo integral de Jacques Maritain, do personalismo engajado de Mounier, do evolucionismo progressivo de Teilhard de Chardin, da dogm\u00e1tica social de De Lubac, da teologia do laicado de Congar, da teologia do desenvolvimento de Lebret, da teologia da revolu\u00e7\u00e3o de Comblin, ou da teologia pol\u00edtica de Metz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; O Conc\u00edlio Vaticano II incentivou as condi\u00e7\u00f5es para que fosse cortado o cord\u00e3o umbilical que mantinha a teologia da Am\u00e9rica Latina dependente do \u00fatero da m\u00e3e Europa. Ao se iniciar a d\u00e9cada de 1960, a revolu\u00e7\u00e3o cubana, o fracasso da Alian\u00e7a para o Progresso, a crise do modelo desenvolvimentista e o crescimento de movimentos de esquerda n\u00e3o ligados aos partidos comunistas tradicionais, foram fatores que levaram os te\u00f3logos latino-americanos a enraizar seu pensamento no solo que pisavam. N\u00e3o que fosse uma quest\u00e3o de procurar por categorias que permitissem uma reinterpreta\u00e7\u00e3o de fatos sociais e pol\u00edticos. O motor da teoria era a pr\u00e1tica das comunidades populares crist\u00e3s, enraizada na luta por conquista de direitos &#8211; conforme transformavam o mundo, tamb\u00e9m alteravam o modelo da Igreja.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Mudan\u00e7a social e eclesiog\u00eanesis est\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ligadas. A constru\u00e7\u00e3o de um projeto pol\u00edtico alternativo n\u00e3o deixa a Igreja intocada, como se fosse uma comunidade de anjos pairando acima das contradi\u00e7\u00f5es que atravessam a trama da sociedade. O elemento novo era a consci\u00eancia, alcan\u00e7ada na vida em comum das Comunidades Eclesiais de Base, de que a Igreja n\u00e3o \u00e9 apenas o papa ou os bispos, mas o povo de Deus a caminho na hist\u00f3ria. E a presen\u00e7a deste povo crente e oprimido nos movimentos sociais da Am\u00e9rica Latina marcou a f\u00e9 com um car\u00e1ter cr\u00edtico que fez nascer a teologia da liberta\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um te\u00f3logo ind\u00edgena&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Na VII Confer\u00eancia Internacional da Associa\u00e7\u00e3o Ecum\u00eanica de Te\u00f3logos do Terceiro Mundo (ASETT) em Oaxtepec, M\u00e9xico, em dezembro de 1986, o te\u00f3logo negro norte-americano James Cone se queixou que a teologia da liberta\u00e7\u00e3o latino-americana era demasiado branca. O estranho \u00e9 que, a seu lado, estava Gustavo Guti\u00e9rrez, de apar\u00eancia tipicamente ind\u00edgena: pele marrom, rosto redondo, baixo e atarracado, com olhos ligeiramente amendoados que revelavam sua ascend\u00eancia qu\u00e9chua. Em casa, seu pai falava esse idioma do antigo imp\u00e9rio inca. Por\u00e9m, mais que l\u00edngua e apar\u00eancia, Gustavo herdou o estilo dos amer\u00edndios andinos. Isso surpreendia qualquer pessoa que o conheceu: combinava \u2013 n\u00e3o sem alguns conflitos \u2013 uma mente dotada de intelig\u00eancia r\u00e1pida e racional, magisterial, que se expressava em linguagem constru\u00edda como partes de um instrumento de precis\u00e3o, e uma sensibilidade que desarmava todos os modelos da moderna racionalidade. Nele coexistiam o intelectual formado em Louvain \u2013 onde foi colega de Camilo Torres e defendeu tese baseada em Freud \u2013 e o amer\u00edndio do altiplano peruano. Isto lhe permitia entrar numa sala de aula sem ser notado \u2013 como que deslisando sobre os pr\u00f3prios p\u00e9s \u2013 ou visitar seu amigo Miguel d\u2019Escoto sem que ningu\u00e9m mais percebesse sua presen\u00e7a em Man\u00e1gua. \u00c9 como se ele pudesse viajar, n\u00e3o apenas nas estradas acess\u00edveis a viajantes urbanizados, mas tamb\u00e9m em trilhas e picadas que s\u00f3 os habitantes da selva conhecem. Esse dom ancestral lhe permitia dominar uma nova l\u00edngua, um novo campo de conhecimento, ou passar atrav\u00e9s de Nova York, Paris ou Bonn, como um amer\u00edndio se esgueirando entre \u00e1rvores e folhas, observando sem ser observado, r\u00e1pido como um p\u00e1ssaro e discreto como uma lhama.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Esta caracter\u00edstica permitiu que ele trabalhasse no rascunho do famoso documento de Medell\u00edn, aprovado pela Confer\u00eancia Episcopal Latino-americana em 1968 \u2013 um texto que se tornaria fundamental \u00e0 pr\u00e1tica e teoria da Igreja dos pobres na Am\u00e9rica Latina. Certa ocasi\u00e3o, Gustavo chegou a Roma exatamente quando os bispos peruanos discutiam os trabalhos dele com os mais altos dignit\u00e1rios da C\u00faria. Quem pode jurar que o texto final, mais favor\u00e1vel a ele que o rascunho original, n\u00e3o tenha sido redigido pela pr\u00f3pria pena de Gustavo?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Discreto como um capuchinho, ele se movimentava no dom\u00ednio pol\u00edtico dos conflitos teol\u00f3gicos com toda a sutileza de um jesu\u00edta. Embora sua express\u00e3o \u00e0s vezes revelasse aquela ang\u00fastia metaf\u00edsica caracter\u00edstica das pessoas para quem a linha estreita que separa a morte da vida \u00e9 familiar, nunca entrava em p\u00e2nico, e sua aguda intui\u00e7\u00e3o era capaz de apresentar solu\u00e7\u00f5es imediatas a problemas complicados, como se tivesse meditado durante anos sobre uma quest\u00e3o que acabara de surgir. Conseguia ficar sentado durante horas em um banco de aeroporto, escrevendo um artigo ou escutando algu\u00e9m, mordendo nervosamente o tempo todo um palito com seus dentes fortes, ligeiramente separados. Dava respostas quase sempre ironicamente divertidas, como se estivesse armando uma adivinha\u00e7\u00e3o. Ao ministrar aulas e confer\u00eancias, seguia um padr\u00e3o r\u00edgido t\u00e3o cuidadosamente montado que dava a impress\u00e3o de ter ornamentado seu texto. Suas piadas conferiam \u00e0s palavras um sabor todo seu, porque era sempre capaz de manifestar aquela rara virtude que tanto o tornava encantador: o humor. Seu senso de humor lhe permitia manter certa dist\u00e2ncia cr\u00edtica de qualquer fato. N\u00e3o admitia ser tra\u00eddo pela emo\u00e7\u00e3o, porque sabia que nada de humano merece ser levado demasiado a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Convivi com Gustavo Guti\u00e9rrez em Puebla, em janeiro e fevereiro de 1979, durante a Terceira Confer\u00eancia Episcopal Latino-americana. Nessa ocasi\u00e3o, o nome dele, do mesmo modo que o de outros te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o, tinha sido exclu\u00eddo da lista de assessores oficiais. Sem acesso direto ao local de encontro dos bispos, muitos prelados vinham at\u00e9 ele em busca de ajuda, o que o obrigava a passar noites inteiras elaborando rascunhos e propostas. Est\u00e1vamos todos alojados precariamente em dois apartamentos sem mob\u00edlia, que raramente tinham \u00e1gua e cujos banheiros careciam de luz. Sobreviv\u00edamos com algum man\u00e1 ca\u00eddo do c\u00e9u, porque n\u00e3o havia cozinha, e nos restaurantes da cidade ser\u00edamos presas f\u00e1ceis da imprensa internacional, sempre em busca de um te\u00f3logo para decifrar a linguagem eclesi\u00e1stica dos textos, ou dar uma entrevista exclusiva que confirmasse a natureza rebelde ou her\u00e9tica da teologia da liberta\u00e7\u00e3o&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Depois de driblar todos os correspondentes estrangeiros durante dias, na tarde do domingo, 4 de fevereiro de 1979, Guti\u00e9rrez aceitou a sugest\u00e3o do Centro Mexicano de Comunicaci\u00f3n Social (CENCOS) de realizar uma coletiva de imprensa no hotel El Portal. Em seus coment\u00e1rios, enfatizou que a teologia da liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha planejado come\u00e7ar por uma reflex\u00e3o sobre os pobres. Os pr\u00f3prios pobres, agentes da transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, iniciaram essa reflex\u00e3o teol\u00f3gica. O objetivo da teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 dar aos pobres o direito de pensar e se expressar teologicamente. Quanto mais os jornalistas o pressionavam para deixar escapar algo que pudesse soar como heresia, tanto mais Guti\u00e9rrez se mostrava fiel aos pobres e \u00e0 Igreja. Era mestre em reconciliar polos aparentemente opostos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Encontrei-me com ele em diferentes ocasi\u00f5es, quase todas em seu escrit\u00f3rio \u2013 a \u201ctorre\u201d de Rimac, bairro pobre de Lima. Decididamente, um dos escrit\u00f3rios mais desordenados que jamais vi. Espalhados e misturados no ch\u00e3o estavam latas de Coca-Cola e livros do cardeal Ratzinger. Havia garrafas em cima de documentos papais, fios el\u00e9tricos desgarrados perambulavam entre pap\u00e9is empoeirados. N\u00e3o havia o menor ind\u00edcio de que um espanador havia estado l\u00e1 desde a chegada de Francisco Pizarro ao Peru. Apesar disso, aquela confus\u00e3o tinha l\u00f3gica para ele. Sabia exatamente onde encontrar cada coisa. Era em meio \u00e0quele monte de pap\u00e9is que ele devorava os livros que recebia. Quando sentia fome, comia ali perto alguma refei\u00e7\u00e3o comum indefinida, junto com desempregados e subempregados.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Guti\u00e9rrez sempre preferiu ler a escrever. Tinha seu pr\u00f3prio m\u00e9todo de leitura din\u00e2mica, como se dotado de uma antena que lhe dizia qual a qualidade do conte\u00fado de uma obra. Escrever, para ele, era um parto doloroso. Quando o fazia, admitia que chegar \u00e0 vers\u00e3o final exigia-lhe sacrif\u00edcio. Sempre considerava um texto como provis\u00f3rio, a ser revisto e melhorado. Por isso, quase todas suas obras come\u00e7aram como palestras mimeografadas. \u00c9 prov\u00e1vel que seja autor de muitas obras n\u00e3o publicadas, conhecidas s\u00f3 por pequeno c\u00edrculo de leitores. Em geral, nem sequer assinava os textos mimeografados, que inclu\u00edam excelente introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s ideias de Marx e Engels e o relacionamento que mantiveram com o Cristianismo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Em janeiro de 1985, na v\u00e9spera da visita do Papa Jo\u00e3o Paulo II a Lima, eu o encontrei na \u201ctorre\u201d de Rimac, quando escrevia uma s\u00e9rie de artigos ligados \u00e0quele importante evento eclesial. Enquanto convers\u00e1vamos, Guti\u00e9rrez tentava desembara\u00e7ar um longo fio de telefone &#8211; mais parecia uma bola de l\u00e3 na boca de um gato brincalh\u00e3o. Ele sempre tinha que manter as m\u00e3os ocupadas ao se sentir nervoso, seja torcendo um el\u00e1stico ou brincando com uma caneta esferogr\u00e1fica. E naquele momento tinha raz\u00f5es mais que suficientes para estar tenso, pois o cardeal Ratzinger anunciara, para breve, resposta \u00e0 defesa que Leonardo Boff havia feito de seu livro Igreja, Carisma e Poder contra as cr\u00edticas de Roma. O Natal tinha passado e a C\u00faria ainda permanecia em sil\u00eancio. A segunda &#8220;Instru\u00e7\u00e3o&#8221; sobre a teologia da liberta\u00e7\u00e3o, baseada numa consulta aos bispos da Am\u00e9rica Latina, prometida para novembro ou dezembro, tamb\u00e9m n\u00e3o tinha aparecido. Talvez tivesse sido decidido que o papa deveria fazer uma declara\u00e7\u00e3o mais oficial sobre a teologia da liberta\u00e7\u00e3o no local. Nada poderia ser mais oportuno que um pronunciamento durante uma visita \u00e0 terra natal do pai da teologia da liberta\u00e7\u00e3o. Gustavo tinha medo de que o papa dissesse algo que pudesse ser interpretado como uma condena\u00e7\u00e3o de sua teologia. Seria desastroso. Apesar disso, estava pronto a deixar a \u201ctorre\u201d que o protegia do ass\u00e9dio da imprensa e aparecer no encontro do papa com sacerdotes e leigos na pra\u00e7a. Mais uma vez parecia certo de que, devido \u00e0s suas ra\u00edzes ind\u00edgenas, como pessoa capaz de caminhar atrav\u00e9s da floresta sem despertar a natureza de seu sono, sua presen\u00e7a seria discreta como a garoa que cobre os telhados de Lima antes do amanhecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Admiradores e inspiradores&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; A caminho de Cuba, os irm\u00e3os Leonardo e Clodovis Boff e eu passamos por Lima, no fim da tarde de 4 de setembro de 1985. Encontramos Gustavo na par\u00f3quia oper\u00e1ria onde, junto com o padre Jorge, diretor da Pastoral Oper\u00e1ria de Lima, o te\u00f3logo exercia seu minist\u00e9rio sacerdotal. Insistimos que viesse conosco para Havana, porque Fidel Castro tinha demonstrado grande desejo de encontr\u00e1-lo. Gustavo foi evasivo, objetou que, naquele mesmo momento, um grupo de bispos peruanos, liderados pelo arcebispo Dur\u00e1n Enriquez, preparava um livro did\u00e1tico criticando seus escritos, o que significava que teria de se concentrar em produzir uma esp\u00e9cie de defesa antecipada. Algum tempo depois, Guti\u00e9rrez confirmou que n\u00e3o tinha ido a Cuba em aten\u00e7\u00e3o a um pedido do padre Carlos Manuel de C\u00e9spedes, ent\u00e3o secret\u00e1rio geral da Confer\u00eancia Episcopal Cubana, que fora seu colega em Roma. O sacerdote cubano tinha medo de que a presen\u00e7a do te\u00f3logo peruano em Cuba fosse explorada politicamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Na noite seguinte ao nosso encontro em Lima, Leonardo, Clodovis e eu nos encontramos com Fidel Castro em Havana. Entregamos a ele a carta que o te\u00f3logo lhe mandara. Ao terminar, comentou que acabara de ler Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e se disse impressionado com sua base cient\u00edfica e seu impacto \u00e9tico. Mencionou especialmente a honestidade com que Guti\u00e9rrez trata a quest\u00e3o da luta de classes e a dimens\u00e3o da pobreza. E acrescentou, com \u00eanfase: \u201cPrecisamos distribuir livros como este ao movimento comunista. Nosso povo n\u00e3o sabe nada sobre isso. Para voc\u00eas \u00e9 mais dif\u00edcil escrever um livro como este, do que para n\u00f3s produzir um texto sobre marxismo.&#8221; Alguns dias depois, Fidel declarou, na presen\u00e7a de dom Pedro Casald\u00e1liga, do Brasil, que \u201c<strong>a teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante que o marxismo para a revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Mas quem pensa que a pol\u00edtica falava mais alto no cora\u00e7\u00e3o de Guti\u00e9rrez est\u00e1 enganado. Ele era acima de tudo um m\u00edstico. Seus livros mais recentes, <em>O Deus da Vida<\/em>, Sobre J\u00f3: <em>Como Falar de Deus a partir do Sofrimento do Inocente<\/em> e <em>Beber de nosso pr\u00f3prio po\u00e7o<\/em>, s\u00e3o fundamentalmente espirituais, visam alimentar a vida de f\u00e9 e ora\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os comprometidos com a luta popular. Para Guti\u00e9rrez, a teologia era secund\u00e1ria. O essencial consiste em fazer a vontade de Deus na a\u00e7\u00e3o libertadora. E sua aguda vis\u00e3o teol\u00f3gica captava a presen\u00e7a do Senhor, solid\u00e1rio l\u00e1 onde Ele parece estar mais ausente, no sofrimento dos pobres. Esse sofrimento permeava a vida do pr\u00f3prio Gustavo, pois sua sa\u00fade delicada exigia cuidados constantes. Mas ele n\u00e3o se queixava. Preferia gritar pelos pobres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Certa ocasi\u00e3o, passei um dia inteiro com ele no Curso de Ver\u00e3o, em Lima, ao qual acorriam milhares de militantes de comunidades crist\u00e3s de base em busca de fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Percebi que ele estava triste, embora tivesse apresentado seu curso com a habitual vivacidade. Havia uma sombra naquele rosto que se iluminava, feliz, quando rodeado de pessoas simples, pobres, dedicadas \u00e0 utopia do Reino. Conversamos, e nem uma palavra de autopiedade saiu de seus l\u00e1bios. S\u00f3 mais tarde fiquei sabendo que sua m\u00e3e havia falecido naquele dia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; O livro sobre J\u00f3 \u00e9 uma autobiografia disfar\u00e7ada de Gustavo Guti\u00e9rrez. De suas p\u00e1ginas surge a profunda convic\u00e7\u00e3o de que toda a teologia da liberta\u00e7\u00e3o deriva do esfor\u00e7o de dar sentido ao sofrimento humano. Na busca desse sentido, o te\u00f3logo sabe que, como diz Clodovis Boff, <strong>tudo \u00e9 pol\u00edtica, mas a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 tudo.<\/strong> A solidariedade com o pobre n\u00e3o se esgota na causa da justi\u00e7a; ela nos conduz \u00e0 esfera da gratuidade, onde o despojamento espiritual abre o caminho para a comunh\u00e3o com Deus. Assim como na Am\u00e9rica Latina a vida de f\u00e9 n\u00e3o pode ser separada das exig\u00eancias da pol\u00edtica, tamb\u00e9m o projeto revolucion\u00e1rio deveria encontrar na m\u00edstica crist\u00e3 o modelo para a forma\u00e7\u00e3o de novos homens e mulheres. Consequentemente, a teologia da liberta\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser acusada de desprezar a dimens\u00e3o espiritual por algu\u00e9m que n\u00e3o conhe\u00e7a a longa lista de obras que nasceram da contempla\u00e7\u00e3o e das m\u00e3os de te\u00f3logos e te\u00f3logas como Guti\u00e9rrez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Os estigmas divinos queimavam as entranhas de Gustavo Guti\u00e9rrez. \u00c9 imposs\u00edvel apreender a profundidade total de sua inspira\u00e7\u00e3o intelectual, seu papel prof\u00e9tico e sua alma m\u00edstica sem conhecer aqueles tr\u00eas peruanos que est\u00e3o na raiz de sua genialidade: Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, C\u00e9sar Vallejo e, acima de tudo, Jos\u00e9 Mar\u00eda Arguedas. Do comunista Mari\u00e1tegui, autor do cl\u00e1ssico <em>Siete Ensayos Peruanos<\/em>, Guti\u00e9rrez aprendeu a t\u00e9cnica de canibalismo cultural necess\u00e1ria para latino-americanizar toda a bagagem te\u00f3rica de seus anos de estudos em Roma, B\u00e9lgica, Fran\u00e7a e Alemanha. Do poeta C\u00e9sar Vallejo, autor de <em>Trilce<\/em>, poesia t\u00e3o importante para a literatura moderna quanto Ulisses, herdou o lamento nost\u00e1lgico da criatura sofredora diante do sil\u00eancio do Criador: \u201c<em>Meu Deus, se Voc\u00ea tivesse sido humano hoje, Voc\u00ea seria capaz de ser Deus<\/em>\u201d (Los dados eternos). \u201cNasci num dia em que Deus estava doente\u201d (Espergesia).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; No entanto, a influ\u00eancia maior foi a do novelista Jos\u00e9 Mar\u00eda Arguedas, de quem Guti\u00e9rrez era amigo, e a quem rendeu tributo em muitas de suas palestras e escritos. \u00c9 significativo que ele tenha escolhido, como ep\u00edgrafe de sua obra Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, uma p\u00e1gina do livro <em>Todas las Sangres<\/em> deste autor qu\u00e9chua, especificamente aquela em que o sacrist\u00e3o ind\u00edgena de Lahuaymarca diz ao sacerdote: &#8220;Seu Deus n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Ele faz com que pessoas sofram sem consolo&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; \u201cSer\u00e1 que Deus poderia estar no cora\u00e7\u00e3o daqueles que dilaceraram o corpo do inocente Mestre Bellido? Ser\u00e1 que Deus poderia estar no corpo dos engenheiros que est\u00e3o matando La Esmeralda? No cora\u00e7\u00e3o das autoridades que tiraram de seus donos aquele campo de milho onde, em cada colheita, uma virgem costumava brincar com seu filhinho pequeno?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Em novembro de 1981, encontrei Gustavo em Man\u00e1gua. L\u00e1, entre discuss\u00f5es teol\u00f3gicas com os dirigentes sandinistas, numa tentativa de ajud\u00e1-los a entender as diferentes posi\u00e7\u00f5es dos crist\u00e3os quanto \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, nasceu aquilo que mais tarde se tornaria seu livro sobre J\u00f3. Nele levanta a quest\u00e3o fundamental e pergunta a si mesmo: Como podemos falar sobre Deus no meio de tanta opress\u00e3o? Se queremos fazer teo\/logia, falar sobre Deus, disse ele, precisamos primeiro ficar em sil\u00eancio diante de Deus. Desse sil\u00eancio, que envolve os cora\u00e7\u00f5es dos pobres, nasce a sabedoria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; No convento de Lima, Gustavo, meu confrade na Ordem Dominicana, transvivenciou em 22 de outubro de 2024.&nbsp; Com certeza repete com J\u00f3: \u201cAntes eu Te conhecia s\u00f3 por ouvir dizer; mas, agora, meus olhos Te veem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cReinventar a vida\u201d (Vozes), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">freibetto.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GUSTAVO GUTI\u00c9RREZ, PERFIL AMIGO &#8211; Por Frei Betto. \u201cA teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante que o marxismo para a revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina\u201d. &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Gustavo Guti\u00e9rrez (1928-2024) pode, com raz\u00e3o,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13702,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-13701","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13701"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13703,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13701\/revisions\/13703"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13702"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}