{"id":13750,"date":"2024-11-08T18:23:21","date_gmt":"2024-11-08T21:23:21","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=13750"},"modified":"2024-11-08T18:23:27","modified_gmt":"2024-11-08T21:23:27","slug":"a-cultura-da-prosperidade-ou-a-doacao-partilha-da-vida-mc-1238-44-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-cultura-da-prosperidade-ou-a-doacao-partilha-da-vida-mc-1238-44-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"A cultura da prosperidade ou a doa\u00e7\u00e3o\/partilha da vida? (Mc 12,38-44) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A cultura da prosperidade ou a doa\u00e7\u00e3o\/partilha da vida? (Mc 12,38-44)<\/strong> \u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<p>Neste XXXII Domingo Comum do Ano B, o Evangelho lido nas comunidades \u00e9 Marcos 12, 38 a 44. Conta que, em Jerusal\u00e9m, na semana anterior \u00e0 sua P\u00e1scoa, pela \u00faltima vez em sua vida terrestre, Jesus vai ao templo. Ali, ensina ao povo, diante do cofre do tesouro do templo. Alguns versos antes, o Evangelho tinha contado um di\u00e1logo entre Jesus e um escriba, professor de B\u00edblia, que Jesus considerou como boa pessoa. Agora, no texto que escutamos, hoje, ele acusa os escribas, intelectuais da \u00e9poca, religiosos que se apresentavam como pessoas piedosas. Por isso, frequentemente, eram encarregados de administrar os bens das vi\u00favas, \u2013 as pessoas mais marginalizadas e injusti\u00e7adas da sociedade -, consideradas incapazes de gerir por si mesmas a sua vida. Esse tipo de religi\u00e3o que se serve dos pobres \u00e9 justamente o contr\u00e1rio da f\u00e9 que une o amor a Deus e ao pr\u00f3ximo, como Jesus e o seu amigo escriba tinham conversado anteriormente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse clima de den\u00fancia prof\u00e9tica, Jesus se senta diante do cofre do templo, fica observando a atitude e o comportamento das pessoas fazendo doa\u00e7\u00f5es e como mestre e juiz pronuncia sua senten\u00e7a contra aquele tipo de religi\u00e3o. Sua profecia tem duas partes. Na primeira, denuncia os escribas que transformam saber em poder domina\u00e7\u00e3o. E na segunda parte, v\u00ea as pessoas ricas que passam e depositam suas ofertas no cofre.&nbsp; Em meio \u00e0s pessoas ricas, Jesus v\u00ea uma pobre vi\u00fava que vem e deposita na caixa duas pequenas moedas.&nbsp; O evangelista Marcos a apresenta como vi\u00fava, isto \u00e9, mulher sozinha e, para dizer que era pobre, usa o termo <em>ptoch\u00e9<\/em>, em grego, que designa algu\u00e9m que pede esmolas, pessoa mais empobrecida entre todos\/as, aquela pessoa que n\u00e3o consegue se sustentar pelas pr\u00f3prias for\u00e7as. Conforme o Evangelho, ela coloca no cofre dois <em>leptons, <\/em>ou seja, duas das menores de todas as moedas de cobre da \u00e9poca, quase sem valor comercial. <em>Lepton<\/em> era a menor moeda grega. No entanto, Jesus diz que, ao dar duas dessas pequenas moedas de cobre quase in\u00fateis, aquela vi\u00fava entregou ao templo mais do que todos os ricos que doavam muito ali. Jesus acrescenta: ela deu daquilo que lhe fazia falta, n\u00e3o deu o que sobrava como os outros. Tem gente especialista em doar o resto, o que n\u00e3o lhe serve mais para nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse domingo, nas missas ou cultos, provavelmente muitos coment\u00e1rios de padres e pastores dir\u00e3o que Jesus elogiou a vi\u00fava pobre, valorizou a sua oferta que qualitativamente foi muito, j\u00e1 que proporcionalmente ao que ela possu\u00eda, significava para ela muito. No entanto, esse tipo de coment\u00e1rio esquece o contexto de julgamento que Jesus estava fazendo do templo. Ignora que, dois versos antes desse texto, ele tinha denunciado a explora\u00e7\u00e3o dos escribas do templo sobre as vi\u00favas pobres. Portanto, Jesus n\u00e3o apenas elogiou a doa\u00e7\u00e3o da vi\u00fava, mas principalmente denunciou que o templo extorquia e devorava os bens dos pobres e das vi\u00favas. Ou seja, o templo como institui\u00e7\u00e3o religiosa com tent\u00e1culos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e administrativos estava sendo parte de uma engrenagem social de explora\u00e7\u00e3o do povo. Tinha apar\u00eancia religiosa, mas era essencialmente m\u00e1quina de explora\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a palavra de Jesus julga e condena os tipos de religi\u00e3o que torna as pessoas pobres ainda mais empobrecidas. Essas palavras do Evangelho condenam os d\u00edzimos extorsivos e a opress\u00e3o do sistema religioso, quando se torna empresa mercantil. Segundo a B\u00edblia, o d\u00edzimo era oferta volunt\u00e1ria e para socorrer as vi\u00favas e os \u00f3rf\u00e3os, os mais injusti\u00e7ados da sociedade, \u201c<em>para que n\u00e3o falte alimento no templo<\/em>\u201d (Malaquias 3,10) para doar a quem precisa. \u201c<em>O d\u00edzimo ser\u00e1 partilhado com o levita que n\u00e3o recebeu uma parte na heran\u00e7a de voc\u00eas (que ficou sem terra), o imigrante, o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava que vivem nas suas cidades e ficar\u00e3o saciados<\/em>\u201d (Dt 14,28-29). Fazer proselitismo sobre o d\u00edzimo, como se Deus aben\u00e7oasse mais quem doa mais, para angariar fortunas em nome da f\u00e9 das pessoas n\u00e3o \u00e9 justo e n\u00e3o tem fundamenta\u00e7\u00e3o b\u00edblica. A teologia e a espiritualidade que, hoje, chamam \u201cda prosperidade\u201d (\u201cabre a tua carteira e doa que Deus te aben\u00e7oa!\u201d, afirmam os que t\u00eam interesse que acumular dinheiro) s\u00e3o insultos ao Deus de Jesus Cristo e a esse Evangelho. Esta ideologia da prosperidade na pr\u00e1tica \u00e9 uma teologia do dom\u00ednio que usa e abusa da f\u00e9 do povo para acumular riquezas. Isso \u00e9 um dos muitos tipos de idolatria, \u00e9 querer controlar Deus e us\u00e1-lo para fins escusos.<\/p>\n\n\n\n<p>Contrariamente a esse sistema, a pr\u00e1tica da partilha que Jesus propunha e que, desde o tempo do man\u00e1 no deserto, a B\u00edblia revela como projeto divino \u00e9 totalmente contr\u00e1rio a isso. Tem como diferencial o fato de ser comunit\u00e1rio e n\u00e3o pode ser apenas doa\u00e7\u00e3o particular a uma institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. A partilha deve ter como raz\u00e3o de ser a vida em comum, a necessidade dos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Como propunha o livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos (Cf. At 2,42-47), cada pessoa coloca em comum o pouco que tem e recebe de acordo com suas necessidades. Isso sup\u00f5e outro tipo de sociedade, e as Igrejas crist\u00e3s devem profeticamente apontar para esse caminho de comunh\u00e3o e de partilha, a partir das necessidades das pessoas e dos grupos mais injusti\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas das grandes tradi\u00e7\u00f5es espirituais da humanidade come\u00e7aram pela atitude de renunciar a riquezas e ao poder. No s\u00e9culo VI antes da era crist\u00e3, na \u00cdndia, o pr\u00edncipe Siddharta Guatama deixa o pal\u00e1cio, renuncia a ser nobre, e passa a viver como mendigo para alcan\u00e7ar o despertar e se tornar Buda. Conforme a tradi\u00e7\u00e3o judaica, Mois\u00e9s renuncia a ser pr\u00edncipe do Egito e se refugia no deserto para se tornar profeta de Deus e libertador dos povos escravizados. Outras tradi\u00e7\u00f5es t\u00eam hist\u00f3rias semelhantes. No entanto, quando se institucionalizam as religi\u00f5es tendem a ter muito dinheiro e riqueza, priorizando a reprodu\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o que se torna cada vez mais distante dos seus princ\u00edpios origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos primeiros s\u00e9culos da era crist\u00e3, pastores da Igreja como Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo e Bas\u00edlio de Cesareia afirmavam que a riqueza e a concentra\u00e7\u00e3o de bens \u00e9 sinal de roubo e que aquilo que sobra a cada um \u00e9 propriedade dos pobres. Em nossos dias, ao contr\u00e1rio, alguns pastores e l\u00edderes eclesi\u00e1sticos criaram a teologia da prosperidade tamb\u00e9m chamada de teologia do dom\u00ednio. Esta sustenta que a riqueza \u00e9 sinal da b\u00ean\u00e7\u00e3o divina e uma forma de garantir a ben\u00e7\u00e3o divina \u00e9 dar dinheiro ao pastor ou ao padre. Dizem que quanto mais as pessoas tornam a Igreja rica, mais Deus as aben\u00e7oa. Isto \u00e9 mentira, algo que oprime. Al\u00e9m disso, ainda desenvolvem teologia, ou ideologia do dom\u00ednio, na qual prop\u00f5em que, em nome de Deus, a hierarquia religiosa (pentecostal) passe a dominar a sociedade pol\u00edtica e a impor doutrinas e dogmas da Igreja a toda a sociedade. Ignora-se que o Brasil \u00e9 um Estado laico, segundo a Constitui\u00e7\u00e3o atual, a de 1988, o que \u00e9 muito bom, pois garante o direito de liberdade religiosa para todas as pessoas, independente da sua afilia\u00e7\u00e3o religiosa. Em um Estado confessional, teocr\u00e1tico, a liberdade religiosa para quem n\u00e3o pertence \u00e0 religi\u00e3o oficial \u00e9 proibida e a persegui\u00e7\u00e3o religiosa se instaura sobre quem confessa uma f\u00e9 diferente da religi\u00e3o do Estado. Isto resulta em viola\u00e7\u00e3o do direito humano de liberdade religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, nas dioceses cat\u00f3licas, as par\u00f3quias procuram revalorizar a Pastoral do D\u00edzimo e as pessoas se inscrevem. Cada pessoa deve, voluntariamente, declarar quanto pode dar mensalmente. N\u00e3o se deve associar a pastoral do d\u00edzimo \u00e0 oferta ao templo. Deveria ser bem mais uma pedagogia de economia de comunh\u00e3o ou da economia de Francisco e Clara, sempre baseada na partilha e na comunh\u00e3o. Hannah Arendt, grande fil\u00f3sofa judia (1906-1975), propunha que a dignidade humana se expressa mais profundamente quando se passa da atitude individualista a uma postura relacional do agir social e pol\u00edtico. Portanto, o que d\u00e1 valor a nossas a\u00e7\u00f5es \u00e9 o grau de amor que as acompanha e a comunh\u00e3o que nossos atos podem gerar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em algumas Igrejas pentecostais, ao menos \u00e0s pessoas pobres, \u00e9 cobrada literalmente a d\u00e9cima parte de tudo o que ganham. Como alguns pastores t\u00eam renda calculada em milh\u00f5es, fica dif\u00edcil imaginar que, cada m\u00eas, depositem para a Igreja a d\u00e9cima parte dos milh\u00f5es que possuem. Entre os dez brasileiros considerados mais ricos do mundo, dois s\u00e3o pastores de Igrejas pentecostais formadas principalmente da popula\u00e7\u00e3o mais empobrecida do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 justo nem ecum\u00eanico cultivar preconceitos contra essa imensa quantidade de pobres que fazem como a vi\u00fava pobre desse Evangelho, d\u00e3o de si mesmos tudo o que possuem e s\u00e3o, sem se dar conta de que a religi\u00e3o ritual e do templo, seja nas Igrejas pentecostais, seja em alguns grupos cat\u00f3licos, merece hoje a cr\u00edtica prof\u00e9tica que Jesus fez ao templo e n\u00e3o \u00e0s pessoas pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Preste aten\u00e7\u00e3o \u00e0 letra da m\u00fasica <em>Deus me proteja<\/em>, de Chico C\u00e9sar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong><em>Deus me proteja<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>(Chico C\u00e9sar)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Deus me proteja de mim<br>E da maldade de gente boa<br>Da bondade da pessoa ruim<br>Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Deus me proteja de mim<br>E da maldade de gente boa<br>Da bondade da pessoa ruim<br>Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Caminho se conhece andando<br>Ent\u00e3o vez em quando \u00e9 bom se perder<br>Perdido fica perguntando<br>Vai s\u00f3 procurando<br>E acha sem saber<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Perigo \u00e9 se encontrar perdido<br>Deixar sem ter sido<br>N\u00e3o olhar, n\u00e3o ver<br>Bom mesmo \u00e9 ter sexto sentido<br>Sair distra\u00eddo, espalhar bem-querer<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cultura da prosperidade ou a doa\u00e7\u00e3o\/partilha da vida? 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