{"id":14243,"date":"2025-03-18T16:57:53","date_gmt":"2025-03-18T19:57:53","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14243"},"modified":"2025-03-18T17:01:51","modified_gmt":"2025-03-18T20:01:51","slug":"14243-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/14243-2\/","title":{"rendered":"O QUE APRENDER COM AS TRAG\u00c9DIAS DO MUNDO (Lc 13,1-9) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O QUE APRENDER COM AS TRAG\u00c9DIAS DO MUNDO (Lc 13,1-9)<\/strong> \u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/images-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14244\" width=\"701\" height=\"465\"\/><figcaption>Marcelo Barros, irm\u00e3o, padre, monge, biblista e Te\u00f3logo da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste 3\u00ba domingo da Quaresma (ano C), meditamos o trecho do evangelho de Lucas (13,1\u20139), no qual Jesus usa a linguagem dos profetas b\u00edblicos e convida todos e todas \u00e0 convers\u00e3o, profunda mudan\u00e7a de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, essas palavras foram compreendidas como se Jesus estivesse amea\u00e7ando as pessoas com o castigo de Deus. Muitas vezes, os ministros e pastores das Igrejas falam de Deus dessa forma. Possivelmente, nas pr\u00f3prias comunidades que escreveram o evangelho de Lucas, algumas pessoas compreenderam assim essa palavra de Jesus. No entanto, se fosse assim, Jesus seria incoerente com o modo como Ele fala de Deus, por exemplo, no discurso da montanha, quando diz: \u201c<em>Deus faz nascer o sol sobre os bons e sobre os maus e faz cair a chuva sobre as pessoas justas e tamb\u00e9m sobre as injustas<\/em>\u201d (Mt 5,45). O Deus de Jesus n\u00e3o castiga ningu\u00e9m. S\u00f3 ama e d\u00e1 amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria da humanidade e at\u00e9 hoje, muitos l\u00edderes que promovem guerras n\u00e3o s\u00e3o ateus e sim pessoas que se dizem religiosas. H\u00e1 at\u00e9 pastores e te\u00f3logos crist\u00e3os que aben\u00e7oam armas e guerras. Assim sendo, hoje, mais do que nunca, esse trecho do evangelho precisa ser relido em seu contexto e compreendido, de forma a n\u00e3o passar a imagem de um deus que castiga e se vinga dos que n\u00e3o o seguem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, como compreender essas palavras t\u00e3o duras de Jesus nesse evangelho? Sem d\u00favida, ele usa aqui o estilo dos antigos profetas, n\u00e3o para amea\u00e7ar e sim para pedir convers\u00e3o \u00e0s pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto hist\u00f3rico no qual se situa o texto \u00e9 que, em meio \u00e0 sua viagem a Jerusal\u00e9m onde vai enfrentar o sistema opressor e ser\u00e1 morto porque incomoda os opressores e exploradores, Jesus pede aos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas que prestem aten\u00e7\u00e3o aos sinais dos tempos e aprendam a ler o mundo e interpretar a realidade, isso \u00e9, a realidade social e pol\u00edtica do pa\u00eds e do mundo (Lc 12, 54- 59).<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus ia a Jerusal\u00e9m com vis\u00e3o clara da sua miss\u00e3o e do seu projeto: enfrentar o poder religioso, econ\u00f4mico e pol\u00edtico. Ia como profeta pobre e sem poder. Sabia que seria preso, torturado e morto. Os disc\u00edpulos, mesmo os mais pr\u00f3ximos a ele, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o o compreendiam, como tinham o prop\u00f3sito contr\u00e1rio: estabelecer o poder religioso e aproveitar Deus do lado deles como for\u00e7a ben\u00e9fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse evangelho, logo depois de ter feito essa advert\u00eancia, Jesus \u00e9 informado a respeito de um massacre de galileus, peregrinos na cidade santa de Jerusal\u00e9m, um dos muitos massacres de pessoas do povo que Pilatos cometeu como governador. Conforme alguns exegetas, provavelmente, esses galileus eram ligados ao grupo dos zelotas que lutavam contra a invas\u00e3o do imp\u00e9rio romano. Por isso, foram condenados \u00e0 morte e sentenciados. Possivelmente, as pessoas que informaram a Jesus sobre aquele acontecimento terr\u00edvel queriam saber a posi\u00e7\u00e3o de Jesus sobre o movimento zelota que, na \u00e9poca, j\u00e1 come\u00e7ava a se levantar contra o Imp\u00e9rio. Jesus n\u00e3o responde sobre isso. O que ele faz \u00e9 investir contra a concep\u00e7\u00e3o farisaica \u2013 teologia\/ideologia da retribui\u00e7\u00e3o &#8211; que acreditava que as trag\u00e9dias e sofrimentos da vida eram castigos de Deus por causa do pecado das pessoas. Jesus rebate de frente essa posi\u00e7\u00e3o e pergunta at\u00e9 com certa ironia: \u201c<em>Voc\u00eas acham que aqueles galileus que morreram, eram mais pecadores do que outros e mereciam a morte mais do que voc\u00eas?\u201d <\/em>(Lc 13,2).<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus denuncia que todos\/as somos pessoas pecadoras e todos\/as precisamos de convers\u00e3o. A dificuldade que essas palavras suscitam, hoje, \u00e9 que o modo como Jesus fala ainda d\u00e1 a impress\u00e3o de um Deus que castiga de modo terr\u00edvel os que n\u00e3o se convertem.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa hist\u00f3ria, Jesus muda a imagem de Deus da concep\u00e7\u00e3o farisaica, na qual Deus parece enquadrado nas nossas a\u00e7\u00f5es. Esse Deus \u00e9 o fiador das normas, regras e conven\u00e7\u00f5es criadas pela religi\u00e3o em nome dele. Na \u00e9poca de Jesus, para os fariseus e religiosos da religi\u00e3o do templo, segundo a lei da pureza e da impureza, Deus dividiria as pessoas em puras e impuras, boas e m\u00e1s, santas e pecadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo atual, esse mesmo Deus da religi\u00e3o do templo, seja qual for a religi\u00e3o, crist\u00e3, hindu\u00edsta, mu\u00e7ulmana ou outra, \u00e9 o Deus que legitima a desigualdade social. O nome desse deus est\u00e1 nas c\u00e9dulas de d\u00f3lar, em paredes de banco e nos pal\u00e1cios do poder. \u00c9 o Deus das pessoas que se dizem honestas e consideradas de bom comportamento que discriminam as \u201cminorias\u201d\/maiorias sociais, sexuais e as categorias mais exclu\u00eddas da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus mostra que n\u00e3o cr\u00ea nesse deus. O Deus de Jesus \u00e9 diferente. Mas, para dizer isso, ele usa a mesma linguagem que, em seu tempo, usou o profeta Jeremias, quando dizia que Israel cairia no cativeiro dos babil\u00f4nios e muitos iriam para o ex\u00edlio, pelo fato de que o povo de Jerusal\u00e9m n\u00e3o tinha sido fiel \u00e0 alian\u00e7a de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o devemos ler isso como se Deus provocasse o cativeiro e o ex\u00edlio. &nbsp;Temos de compreender que o mal e o sofrimento ocorrem n\u00e3o porque Deus castiga e sim porque, ao n\u00e3o se comportar de forma \u00e9tica e libertadora, a comunidade se coloca em uma situa\u00e7\u00e3o de fragilidade e divis\u00e3o que pode gerar o mal.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, \u00e9 a mesma imagem usada pelo Evangelho quando Jesus basta ver a par\u00e1bola da figueira est\u00e9ril. A figueira era comumente s\u00edmbolo de Israel (Cf. Jr 8, 13, Os 9,10; Mq 7,1). \u00c9 importante ver que o lavrador pede ao dono da lavoura a compreens\u00e3o de mais um tempo e uma nova oportunidade para a figueira que n\u00e3o produz frutos. Toda essa passagem \u00e9 marcada pela advert\u00eancia \u00e0 convers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo atual \u00e9 marcado por cat\u00e1strofes ambientais que ocorrem n\u00e3o por acaso e nem por castigo de Deus, mas como consequ\u00eancia da forma irrespons\u00e1vel como a sociedade dominante maltrata a Terra e destr\u00f3i a natureza. A Campanha da Fraternidade de 2025 sobre a Ecologia Integral insiste em concretizar a convers\u00e3o nesse desafio do cuidado com a natureza e da justi\u00e7a socioambiental como express\u00e3o da nossa solidariedade pascal. Nesse evangelho, Jesus mostra que aprender a interpretar bem a realidade e agir a partir dessa vis\u00e3o \u00e9 parte essencial da f\u00e9. \u00c9 um modo de escutar e acolher a palavra de Deus e coloc\u00e1-la em pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada de 1960, <strong>Geraldo Vandr\u00e9 <\/strong>escreveu can\u00e7\u00f5es de protesto e entre elas escreveu uma que contesta a vis\u00e3o de Deus que a religi\u00e3o oficial propunha, a m\u00fasica <strong><em>Fica mal com Deus<\/em>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_97195\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4zyfiL00_Rw?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Fica mal com Deus<br>Quem n\u00e3o sabe dar<br>Fica mal comigo<br>Quem n\u00e3o sabe amar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Pelo meu caminho vou<br>Vou como quem vai chegar<br>Quem quiser comigo ir<br>Tem que vir do amor<br>Tem que ter pra dar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Vida que n\u00e3o tem valor<br>Homem que n\u00e3o sabe dar<br>Deus que se descuide dele<br>O jeito a gente ajeita<br>Dele se acabar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Fica mal com Deus<br>Quem n\u00e3o sabe dar<br>Fica mal comigo<br>Quem n\u00e3o sabe amar<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O QUE APRENDER COM AS TRAG\u00c9DIAS DO MUNDO (Lc 13,1-9) \u2013 Por Marcelo Barros Neste 3\u00ba domingo da Quaresma (ano C), meditamos o trecho do evangelho de Lucas (13,1\u20139), no qual Jesus usa a linguagem<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14244,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14243","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14243"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14243\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14246,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14243\/revisions\/14246"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14244"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}