{"id":144,"date":"2012-01-29T21:21:58","date_gmt":"2012-01-29T23:21:58","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=144"},"modified":"2016-09-01T18:16:29","modified_gmt":"2016-09-01T21:16:29","slug":"chegou-o-invferno-em-altamira-belo-monte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/chegou-o-invferno-em-altamira-belo-monte\/","title":{"rendered":"Chegou o Inv(f)erno! &#8211; Em Altamira, Belo Monte"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\">Ant\u00f4nio\u00a0 Claret<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andava pelas ruas de Altamira. Era s\u00e1bado pela manh\u00e3, dia 21 de janeiro. Chovia muito, e forte, mas com pequenos intervalos de neblina.\u00a0  <!--more-->  Enfim chegou aquele friozinho, do que aqui se chama inverno! Foi-se o calor escaldante, que traz aquela moleza, quase insustent\u00e1vel. O corpo agradece e se reanima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a chuva engrossava, procurava, ent\u00e3o, me esconder sob uma beira de telhado que aparecesse; quando fina, sa\u00eda e, assim, pulando de lugar em lugar, tive tempo para reparar a cidade nesse in\u00edcio de inverno. Aqui s\u00f3 h\u00e1 duas esta\u00e7\u00f5es do ano: inverno \u2013 tempo de chuva, com o leve friozinho \u2013 e o ver\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na regi\u00e3o do Cais, o cart\u00e3o postal de Altamira, uma placa me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Era um alerta sobre o risco de epidemia de dengue, epidemia esta que j\u00e1 ocorrera, aqui, em outras ocasi\u00f5es; com uma interven\u00e7\u00e3o, introduzindo-se pequena mudan\u00e7a na frase, provocou-se uma grande modifica\u00e7\u00e3o na sua inten\u00e7\u00e3o original, transparecendo uma verdade nua e crua e, principalmente, cruel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 escrita original \u2018Dengue mata, cuide bem do seu quintal!\u2019, algu\u00e9m, um felizardo an\u00f4nimo, riscou com tinta azul o substantivo \u2018Dengue\u2019 e, em seu lugar, escreveu, com letras grandes, a sigla CCBM. Para quem n\u00e3o sabe, CCBM significa Cons\u00f3rcio Construtor de Belo Monte, nome fantasia de governos neoliberais imiscu\u00eddos em empresas estatais e privadas, cujos rostos, assim, ficam escondidos por motivos \u00f3bvios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensei em trecho de m\u00fasica de Z\u00e9 Geraldo: \u2018uma parte do mundo \u00e9 nossa morada, a outra parte \u00e9 nosso quintal\u2019. Tempo bom, em que o canto da liberdade ia embalado no \u00e2nimo das massas. Uma profecia que, na Amaz\u00f4nia, se realiza ao contr\u00e1rio: hoje canteiro de obras, quintal do mundo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ri sozinho, no meio da rua; um riso de contentamento e indigna\u00e7\u00e3o. Lembrei-me de Ant\u00f4nio Maria, padre-cantor, que, nessa noite, estaria ali, no Cais. Viria, com sua equipe, em avi\u00e3o fretado pela Prefeitura. N\u00e3o sei de onde sai esse dinheiro! Em pouco tempo esteve, nesse mesmo local, padre Zezinho, tamb\u00e9m cantor. Pensei: cantar o qu\u00ea \u2013 e que tom se h\u00e1 de dar ao canto \u2013 numa cidade condenada pela prepot\u00eancia a ficar inundada? Dois ter\u00e7os de Altamira ficariam sob o lago de Belo Monte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levei a m\u00e3o ao bolso da bermuda, peguei a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica \u2013 que, nesse dia, estava comigo \u2013 e tirei uma foto. Imaginei que era importante registrar, naquele momento, a a\u00e7\u00e3o de uma pessoa que, na sua indigna\u00e7\u00e3o criativa, expressara o sentimento de grande parte dos altamirenses, de povos ind\u00edgenas e ribeirinhos da Amaz\u00f4nia, de centenas de entidades ao redor do mundo, de profissionais s\u00e9rios e lutadores, de profetas e profetizas, de movimentos populares, de algumas centenas de especialistas, de milhares de pessoas an\u00f4nimas, e de organismos internacionais como a ONU.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas vozes, embora muitas, consistentes, e cheias de energia, hoje n\u00e3o se ouvem porque ficam abafadas sob o farol candente do imp\u00e9rio econ\u00f4mico materializado em mega-empresas privadas de quem FHC e, seus comparsas, eram capachos, e a cujos p\u00e9s, nesse \u00faltimo per\u00edodo, \u2018nossos\u2019 governos se ajoelham, convertidos ao desenvolvimentismo neoliberal. Essa onda desastrosa vem tomando conta da \u2018esquerda\u2019 na Am\u00e9rica Latina, buscando um lugar ao sol do mercado mundial com a crise estrutural capitalista que sacode, especialmente, a Europa; vis\u00e3o caolha, que segue rumo ao abismo no qual o velho mundo vai se afundando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bom saber que, nesse governo, mais dez milh\u00f5es de pessoas deixam a linha da mis\u00e9ria. Ao mesmo tempo, pesquisa lhe d\u00e1 59% de aprova\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o lhe d\u00e1 o direito, por\u00e9m, de vender uma ilus\u00e3o da crise capitalista, mundial, como oportunidade, mas, na pr\u00e1tica, aumentando a concentra\u00e7\u00e3o de renda no pa\u00eds e acelerando a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e social, em especial na Amaz\u00f4nia. Por ter, ainda, \u00e1reas preservadas, o impacto do PAC sobre ela \u00e9 mais palp\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segui, caminhando! Algumas placas, com letras grandes e valores, \u00e0s vezes astron\u00f4micos, se v\u00eaem pela cidade de Altamira, com patroc\u00ednio da Norte Energia. As obras sociais, ou ainda n\u00e3o existem ou est\u00e3o consideravelmente atrasadas. Realmente s\u00e3o poucas para uma cidade em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias a qual, com o boato da barragem de Belo Monte e, agora, com o in\u00edcio de sua constru\u00e7\u00e3o, triplicou o n\u00famero de seus habitantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse inchamento causa forte press\u00e3o em todos os equipamentos de servi\u00e7os p\u00fablicos. A limpeza da rua, que j\u00e1 era parca, agravou-se com o aumento significativo do lixo. O tr\u00e2nsito, em hor\u00e1rios de pico, j\u00e1 \u00e9 ca\u00f3tico. Diz-se que a viol\u00eancia cresceu em 30%. O n\u00famero nem \u00e9 o mais importante, o grave \u00e9 que se ceifam vidas! N\u00e3o se acham vagas nas escolas. N\u00e3o se encontram leitos nos hospitais. O hospital regional da transamaz\u00f4nica, sediado em Altamira, fora \u2018prendado\u2019 pela Norte Energia com alguns equipamentos e, com isso, tem as suas regalias. O pre\u00e7o dos alimentos, dos alugu\u00e9is, tudo subiu de forma exorbitante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As conseq\u00fc\u00eancias desse drama, de uma cidade que nota, a olhos vistos, o seu crescimento repentino e totalmente desordenado, recai primeira e pesadamente sobre os empobrecidos. Um morador ribeirinho de Souzel sentiu dor no peito, e cansa\u00e7o, ent\u00e3o correu ao hospital regional em Altamira e, sem atendimento, seguiu, com a ajuda de amigos, para Bel\u00e9m, mas, tamb\u00e9m n\u00e3o tendo um diagn\u00f3stico preciso do seu inc\u00f4modo, angaria fundo para viajar a Teresina, na esperan\u00e7a de identificar e tratar a doen\u00e7a de que, possivelmente, esteja acometido. Infelizmente, o \u2018seu\u2019 n\u00e3o \u00e9 um caso isolado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No centro, perto da catedral, um bando de urubus disputa um osso no lixo amontoado. Na boca do Igarap\u00e9 Altamira, no seu encontro com o Xingu, a polui\u00e7\u00e3o toma conta, com garrafas pet e pl\u00e1stico boiando sobre as \u00e1guas ancoradas. Elas j\u00e1 tomam parte dos sobrados das palafitas. \u00c1guas previstas para mar\u00e7o chegam em \u00a0janeiro, anunciando que o inverno ser\u00e1 intenso. Na \u00e1rea alagadi\u00e7a, todos sabem que o momento da subida e descida das \u00e1guas \u00e9 o mais complicado: o mau cheiro fica insuport\u00e1vel! Piores s\u00f3 mesmo os abrigos improvisados da Prefeitura, dizem, pois as pessoas ficam amontoadas e, ausentes de suas casas, muitas de suas \u2018coisinhas\u2019 desaparecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No canto da rua, a \u00e1gua da chuva escorre e, ao menos no inverno, limpa o esgoto das canaletas, que corre a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perto da Casa do \u00cdndio, v\u00eam dois rapazes, um visivelmente embriagado. O bafo da cacha\u00e7a fica no ar. No Bar da Loira, logo adiante, uma mulher chora sentada a uma cadeira e, sobre a mesa, uma garrafa de cerveja com um copo, ainda pelo meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No asfalto, perto de uma ponte, um carro do DEMUTRAN buzina, buscando abrir caminho no tr\u00e2nsito, que vai se tornando infernal, e, acompanhando-o, outro do DETRAN. Pelas ruas, em especial nas sinaleiras, a maioria instalada h\u00e1 pouco tempo, ficam guardas do DEMUTRAN, devidamente uniformizados e, \u00e0s vezes, com o apito na boca.\u00a0 Tudo mantido em \u2018conv\u00eanio\u2019 com a \u00a0Norte Energia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, \u00e9 raro um evento ou uma obra p\u00fablica, de Altamira ou cidades do entorno, em que n\u00e3o haja patroc\u00ednio da Norte Energia, com uma imensa placa, maior, \u00e0s vezes, do que a constru\u00e7\u00e3o, ou com seu nome gritado, alto e bom som, ao microfone. Em Souzel, por exemplo, na noite do dia 20, no in\u00edcio do XX Festival do Caratinga, ela estava l\u00e1. Um esfor\u00e7o tremendo para colar sua imagem ao progresso da cidade e regi\u00e3o num momento em que ela inicia o barramento do Rio Xingu. Um crime, ainda que forjado na formalidade da lei!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ano haver\u00e1 elei\u00e7\u00f5es municipais, e n\u00e3o \u00e9 preciso ser cientista pol\u00edtico para saber que nas campanhas eleitorais em Altamira, e em todas as cidades da regi\u00e3o, ser\u00e1 injetado dinheiro do povo, atrav\u00e9s da Norte Energia, uma estatal, e, claro, \u2018quem contrata a banda escolhe a m\u00fasica\u2019. Essa empresa, cacifada pelo governo federal, n\u00e3o est\u00e1 preocupada com nenhum prefeitinho, mas s\u00e3o tantos os problemas que Belo Monte vem criando &#8211; e a tend\u00eancia \u00e9 que essa situa\u00e7\u00e3o se agrave ainda mais -, que ela dever\u00e1 fechar todo e qualquer espa\u00e7o, por insignificante que seja. A domina\u00e7\u00e3o precisa ser completa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas portas e paredes das casas das \u00e1reas alagadi\u00e7as, mais um cartaz da Norte Energia, buscando acalmar a popula\u00e7\u00e3o. A mensagem central \u00e9 a Cota 100. Mas a \u00e1gua pode ir al\u00e9m, como soe acontecer em barragens hidrel\u00e9tricas. Essas pessoas ali residentes, e resistentes, ainda s\u00e3o p\u00e1ssaros livres, e podem despertar-se para a organiza\u00e7\u00e3o. Somente depois que ca\u00edrem como aves presas na esparrela, a\u00ed, sim, a empresa e o governo dir\u00e3o toda a verdade. Nem precisar\u00e3o diz\u00ea-lo, pois os fatos falam por si. Por ora, afirmam apenas que todos ser\u00e3o indenizados. E que ali, onde moram, ser\u00e1 um lindo bosque com pra\u00e7as, algo luxuoso, e bonito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00ea-se, nas entrelinhas dessas promessas, um grande cinismo; uma vis\u00e3o preconceituosa, a qual, sem o revelar, encara a remo\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias n\u00e3o como uma obriga\u00e7\u00e3o legal, mas como limpeza social. Elas precisam ser retiradas, elas precisam ir para a periferia, elas precisam ir para os morros, pois ali, \u00e0 margem do futuro lago de Belo Monte, h\u00e1 de se construir algo muito bonito. No fundo, para eles, gente \u00e9 coisa feia e povo \u00e9 coisa suja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remexem-se as entranhas, causa n\u00e1usea e nojo s\u00f3 de pensar nessas autoridades, e no que passam em seus planos, como se a aprova\u00e7\u00e3o nas urnas os tornasse donos absolutos do pa\u00eds, e do seu rumo. E se coloca em xeque o conceito de di\u00e1logo do governo, que n\u00e3o passa de imposi\u00e7\u00e3o dos interesses econ\u00f4micos privados em detrimento dos direitos inviol\u00e1veis dos povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pap\u00e9is da empresa e de pol\u00edticos garantem a indeniza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias. Mas pap\u00e9is s\u00e3o pap\u00e9is! Para se ter uma vaga id\u00e9ia da inseguran\u00e7a dos pap\u00e9is, a Norte Energia assinou documento com o Governo do Par\u00e1 assumindo o compromisso de fazer suas compras no Estado. Trata-se de aquisi\u00e7\u00f5es para constru\u00e7\u00e3o de uma obra or\u00e7ada em 30 bilh\u00f5es de reais. Pois ela simplesmente descumpriu esse compromisso, sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o convincente, comprando, de uma s\u00f3 vez, 118 caminh\u00f5es em S\u00e3o Paulo. Especialistas calculam que isso gerou um preju\u00edzo de 8 milh\u00f5es ao Estado do Par\u00e1. Quem n\u00e3o cumpre seus compromissos com tubar\u00f5es do poder vai, por acaso, cumprir seu compromisso com as fam\u00edlias atingidas por Belo Monte? Crer nisso \u00e9 o mesmo que crer em mucura cuidando de ovos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00e1reas alagadi\u00e7as, em meio a um processo de pseudo participa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias no destino de suas vidas, brilhantemente arquitetado pelas empresas, grupos de base do MAB v\u00e3o, aos poucos, se multiplicando. J\u00e1 s\u00e3o nove! Para fora, o Xingu Vivo Para Sempre continua o seu trabalho de den\u00fancia. A Prelazia do Xingu, com sua luta hist\u00f3rica, segue abrindo os olhos do povo. Num desafio de pigmeus contra gigantes do imp\u00e9rio econ\u00f4mico privado, escorado em recursos p\u00fablicos, a consci\u00eancia e a indigna\u00e7\u00e3o v\u00e3o crescendo. Aqueles que n\u00e3o ca\u00edrem nas armadilhas, e ser\u00e3o muitos, poder\u00e3o, a seu tempo, rasgar a botina do vencedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das \u00faltimas not\u00edcias, v\u00ea-se que este ano ser\u00e1 pesado, mais que 2011. A gan\u00e2ncia tem muita pressa! As obras de Belo Monte, dentro ou fora da lei, seguem a pleno vapor! As m\u00e1quinas roncam dia e noite, de domingo a domingo, com muitas horas extras dos trabalhadores, super esgotados, e com poucos direitos. Continua a constru\u00e7\u00e3o de acessos e alojamentos. O n\u00famero de oper\u00e1rios poder\u00e1 chegar, em breve, a dez mil. No auge da obra, v\u00e3o passar de vinte mil. \u00c9 uma cidade for\u00e7ada, feito campo de concentra\u00e7\u00e3o, brotando no descampado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicia-se o desvio do Xingu, cujas \u00e1guas, antes azuis ou esverdeadas, se tornam turvas. Madeireiros t\u00eam licen\u00e7a para desmatar \u00e1rea no pol\u00edgono das obras. Fam\u00edlias ribeirinhas de Assurini choram suas incertezas. Atingidos em Altamira carecem de informa\u00e7\u00f5es seguras. \u00a0Os \u00edndios Araras denunciam sua \u00e1gua barrenta. Guardas privados, apoiados por homens da Guarda Nacional, cuidam da seguran\u00e7a no local das obras. Ali se pro\u00edbe tudo: o acesso das pessoas, fotos, filmagens e, especialmente, manifesta\u00e7\u00f5es. Tudo dentro do Estado de Direito, armado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esses dias, chegam mais tr\u00eas balsas enormes carregadas de materiais para a barragem pelo Porto de Vit\u00f3ria do Xingu. H\u00e1 pouco, chegaram cento e cinq\u00fcenta grandes m\u00e1quinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 contratos com funer\u00e1rias e caix\u00f5es cuidadosamente reservados para os oper\u00e1rios que tiverem a sorte de morrer em condi\u00e7\u00f5es de se resgatarem seus corpos. Pois os que ca\u00edrem, por ventura, em meio ao concreto da obra, d\u00e1-se logo por enterrado, no muro da barragem, pois aquela engrenagem maluca n\u00e3o p\u00e1ra. O cimento usado \u00e9 especial, seca rapidamente, e o sistema n\u00e3o tem tempo a perder com gente morta. O que lhe interessa \u00e9 pessoa viva, ou melhor, a sua for\u00e7a de trabalho. Existem informa\u00e7\u00f5es de que, em Tucuru\u00ed, teriam morrido aproximadamente trezentos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah! Quase me esquecia! O bordel est\u00e1 praticamente pronto, nas imedia\u00e7\u00f5es dos alojamentos. No Madeira, nas barragens de Santo Ant\u00f4nio e Jirau, tamb\u00e9m cacifadas pelo governo, os oper\u00e1rios bem comportados tinham uma cota mensal para esses gastos. Aqui provavelmente ser\u00e1 a mesma coisa j\u00e1 que, a despeito dos in\u00fameros discursos e argumentos vazios, de pessoas que aceitam ser menino de recado do n\u00facleo central do governo, os problemas se acumulam e se agravam a cada nova barragem anunciada e constru\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p>P.S.: Antonio Claret \u00e9 padre em miss\u00e3o na Prelazia do Xingu PA, e militante do MAB.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref1\">[1]<\/a> \u00c9 padre em miss\u00e3o na Prelazia do Xingu PA, e militante do MAB.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio\u00a0 Claret[1] Andava pelas ruas de Altamira. Era s\u00e1bado pela manh\u00e3, dia 21 de janeiro. 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