{"id":14471,"date":"2025-05-24T08:55:44","date_gmt":"2025-05-24T11:55:44","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14471"},"modified":"2025-05-24T08:55:50","modified_gmt":"2025-05-24T11:55:50","slug":"deus-muda-de-casa-e-de-jeito-de-ser-jo-1423-29-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/deus-muda-de-casa-e-de-jeito-de-ser-jo-1423-29-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"DEUS MUDA DE CASA E DE JEITO DE SER (Jo 14,23-29) \u2013 por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>DEUS MUDA DE CASA E DE JEITO DE SER (Jo<\/strong> 14,23-29) \u2013 por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"900\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14472\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-1.jpg 900w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-1-300x300.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-1-150x150.jpg 150w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-1-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, irm\u00e3o, padre, monge, biblista e Te\u00f3logo da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste 6\u00ba Domingo da P\u00e1scoa, o evangelho proposto pelo lecion\u00e1rio ecum\u00eanico \u00e9 Jo\u00e3o 14, 23- 29. At\u00e9 1968, na liturgia latina, esse texto era o evangelho lido na festa de Pentecostes. Agora, nesse domingo, essas palavras de Jesus na \u00faltima ceia j\u00e1 nos convidam a entrarmos no clima de Pentecostes que, para n\u00f3s conclui as festas pascais.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com os evangelhos, em outros momentos, Jesus j\u00e1 tinha avisado aos disc\u00edpulos e \u00e0s disc\u00edpulas que iria partir desse \u201cmundo\u201d e tinha at\u00e9 antecipado que iria morrer de forma violenta e terr\u00edvel. No entanto, parece que, somente naquele contexto da \u00faltima ceia, eles e elas come\u00e7am a se dar conta do risco que correm e colocam d\u00favidas e perguntas a Jesus. Este tinha prometido que, naquele momento, iria partir, mas voltaria a se manifestar vivo a quem o amasse e se mantivesse fiel \u00e0 sua proposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, Judas (n\u00e3o o Iscariotes) lhe pergunta:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhor, por que voc\u00ea se manifestar\u00e1 somente a n\u00f3s e n\u00e3o ao mundo?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, esse tipo de questionamento \u00e9 comum. Por que Jesus n\u00e3o se manifesta logo diretamente ao mundo? Por que n\u00e3o faz um milagre para convencer as pessoas? A essa quest\u00e3o, Jesus nem responde diretamente. Simplesmente, mostra que esse n\u00e3o \u00e9 o seu projeto. N\u00e3o \u00e9 o modo como ele compreende a miss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 assim que se deve testemunhar um Deus que \u00e9 amor e o seu projeto para o mundo. Jesus n\u00e3o quer se impor a ningu\u00e9m. Tem, n\u00e3o uma propaganda a fazer, mas sim um segredo de amor que \u00e9 \u00edntimo e a partir do qual, os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas podem atuar no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para explicar isso, Jesus usa uma imagem que percorre toda a revela\u00e7\u00e3o divina na B\u00edblia. Desde o come\u00e7o da hist\u00f3ria, as pessoas identificam Deus com alguns lugares espec\u00edficos. No tempo dos patriarcas, consideravam o carvalho como \u00e1rvore sagrada na qual Deus se revela. Adoravam a Deus debaixo dos carvalhos (Gn 18, 1). Na espiritualidade afro, a Gameleira (o Ir\u00f4co) \u00e9 um Orix\u00e1. Para alguns povos ind\u00edgenas, toda montanha \u00e9 lugar sagrado. No \u00caxodo, \u00e9 o monte sagrado do Horeb ou Sinai o lugar a partir do qual Deus se revela. Depois, Deus pede a Mois\u00e9s que, durante a caminhada do povo no deserto, construa uma tenda e esta tenda seria o santu\u00e1rio no qual o povo poderia consultar o Senhor (Ex 35). Mais tarde, Salom\u00e3o e o povo pedem a Deus que aceite fazer do templo de Jerusal\u00e9m a morada do seu Nome, na qual as pessoas possam invoc\u00e1-lo.&nbsp; Os profetas deixaram claro que como Deus \u00e9 Deus de todo universo, nem o mundo inteiro poderia cont\u00ea-lo. A casa de Deus \u00e9 o universo. Ele aceita ser adorado no templo, contanto que o povo caminhe na trilha da justi\u00e7a. N\u00e3o quer religi\u00e3o ritual e, sim, uma f\u00e9 \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O quarto Evangelho come\u00e7a afirmando que, na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9, \u201c<em>a Palavra de Deus se fez carne e armou sua tenda no meio de n\u00f3s\u201d<\/em> (Jo 1, 14). Agora, ali naquela \u00faltima ceia com o seu grupo, em contexto de brutal amea\u00e7a de morte \u2013 e de ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus deixa claro que, ao partir deste mundo, quer inaugurar outro tipo de presen\u00e7a. Declara que essa presen\u00e7a n\u00e3o ser\u00e1 mais nem na tenda de acampamento, nem em um templo, ou em algum objeto sagrado, mas sim no mais \u00edntimo das pessoas que o amam, se elas se mantiverem fieis \u00e0 sua proposta (o seu mandamento do amor solid\u00e1rio):<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Se algu\u00e9m me ama, adere \u00e0 minha Palavra, meu Pai e eu viremos a ele ou a ela e, nessa pessoa, faremos nossa morada<\/em>\u201d.&nbsp; \u201cFaremos minha morada em quem vive o amor\u201d ao pr\u00f3ximo como Jesus amou.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de ent\u00e3o, os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas ser\u00e3o morada divina, mas n\u00e3o uma presen\u00e7a mec\u00e2nica ou externa. Trata-se de uma presen\u00e7a atrav\u00e9s do amor divino que tomar\u00e1 forma na vida das pessoas que permanecem nessa intimidade do Pai, atrav\u00e9s do amor de Jesus. Ou seja, a luz e a for\u00e7a divina deve irradiar em quem \u00e9 disc\u00edpulo\/a de Jesus Cristo pelo modo de ser, de agir e de lutar pelo bem comum. Quando o quarto Evangelho foi escrito, o Ap\u00f3stolo Paulo j\u00e1 tinha afirmado: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o templos do Esp\u00edrito Santo\u201d (1 Cor 6,19).<\/p>\n\n\n\n<p>Para garantir essa nova forma de presen\u00e7a, Jesus promete o Esp\u00edrito, energia divina, que, na B\u00edblia \u00e9 chamada de sopro, ventania ou ar atmosf\u00e9rico novo. Esta energia (<em>ruah<\/em>, em hebraico) \u00e9 for\u00e7a confortadora no momento do luto e defensora na hora em que a defesa for necess\u00e1ria. Atrav\u00e9s dessa nova forma de presen\u00e7a, Deus deixa de ser externo a n\u00f3s e se identifica com o que dentro de cada um e cada uma de n\u00f3s \u00e9 o melhor do nosso ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Na espiritualidade afro, os Orix\u00e1s s\u00e3o for\u00e7as da natureza que se incorporam nas pessoas e a Oxum de Maria n\u00e3o \u00e9 igual a Oxum de Joana. \u00c9 Oxum sem deixar de ser Maria ou Joana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas palavras de Jesus, as mais \u00edntimas e ternas de todo o evangelho, deixam claro que temos de alimentar essa rela\u00e7\u00e3o de intimidade amorosa, a partir da escuta da Palavra e essa ser\u00e1 a raiz para cumprirmos nossa miss\u00e3o de fazer desse mundo uma terra de amor, justi\u00e7a, respeito, paz e vida plena para todos os seres vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 25 de maio de 2015, o papa Francisco publicou a Enc\u00edclica Laudato Si (Louvado sejas!) e nela oficializou a express\u00e3o Ecologia Integral que une o cuidado com a M\u00e3e-Terra ao caminho da Justi\u00e7a eco-social e ao esfor\u00e7o permanente de convers\u00e3o para que cada um e cada uma de n\u00f3s possa ser sempre mais e mais morada do Esp\u00edrito divino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta de Jesus \u00e9 essa e n\u00f3s podemos perceber se, de fato, conseguimos, mesmo em meio a todas as nossas fragilidades pessoais, viver essa presen\u00e7a do Esp\u00edrito em n\u00f3s, ou se participamos das coisas e at\u00e9 podemos dar alguma colabora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o mergulhamos no Esp\u00edrito. Mergulhar no Esp\u00edrito \u00e9 nos deixarmos devorar por um fogo que incendeia, mas n\u00e3o queima, um amor que nos abrasa e nos impulsiona e tem a capacidade de transformar em amor tudo o que toca: a Pol\u00edtica, a arte e a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Que o Esp\u00edrito, que o Pai de Amor nos d\u00e1 nos mergulhe na plenitude da verdade (\u201cEle vos ensinar\u00e1 tudo e vos recordar\u00e1 tudo o que vos tenho dito\u201d). Em n\u00f3s, ele ser\u00e1 for\u00e7a de Paz, a Paz inquieta da Justi\u00e7a Libertadora, como chamava Pedro Casald\u00e1liga. \u00c9 o Esp\u00edrito que n\u00e3o nos deixa iludir com a publicidade que favorece as guerras e as opress\u00f5es no mundo sob as agruras da idolatria do mercado. Que nossas vidas, impulsionadas pelo Amor, sejam permanente encarna\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito divino, na abertura universal a todos os esp\u00edritos favor\u00e1veis \u00e0 Vida (em todas as religi\u00f5es e culturas) e realizemos no mundo um novo Pentecostes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOlorum,<\/p>\n\n\n\n<p>supremo Deus de amor,<\/p>\n\n\n\n<p>d\u00e1-nos teu ax\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Faze-nos descobrir<\/p>\n\n\n\n<p>ao redor de n\u00f3s<\/p>\n\n\n\n<p>teus Orix\u00e1s<\/p>\n\n\n\n<p>que nos ligam contigo,<\/p>\n\n\n\n<p>com a natureza<\/p>\n\n\n\n<p>e com tudo o que \u00e9 criado.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e1-nos o teu Ax\u00e9\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>(Ora\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e de santo do Candombl\u00e9 Ketu)<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Cf. OF\u00cdCIO DIVINO DAS COMUNIDADES, S\u00e3o Paulo, Paulus, 14\u00aa ed. , 2007, p. 654.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DEUS MUDA DE CASA E DE JEITO DE SER (Jo 14,23-29) \u2013 por Marcelo Barros Neste 6\u00ba Domingo da P\u00e1scoa, o evangelho proposto pelo lecion\u00e1rio ecum\u00eanico \u00e9 Jo\u00e3o 14, 23- 29. 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