{"id":14495,"date":"2025-06-15T15:34:29","date_gmt":"2025-06-15T18:34:29","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14495"},"modified":"2025-06-15T15:34:35","modified_gmt":"2025-06-15T18:34:35","slug":"a-uniao-da-ecologia-interior-com-a-exterior-o-cantico-ao-irmao-sol-de-francisco-de-assis-por-leonardo-boff","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-uniao-da-ecologia-interior-com-a-exterior-o-cantico-ao-irmao-sol-de-francisco-de-assis-por-leonardo-boff\/","title":{"rendered":"A uni\u00e3o da ecologia interior com a exterior: O\u00a0c\u00e2ntico ao Irm\u00e3o Sol de Francisco de\u00a0Assis. Por Leonardo Boff"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A uni\u00e3o da ecologia interior com a exterior: O\u00a0c\u00e2ntico ao Irm\u00e3o Sol de Francisco de\u00a0Assis. Por Leonardo Boff<\/strong>]<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/boff_livros-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14497\" width=\"778\" height=\"482\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/boff_livros-1.jpg 570w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/boff_livros-1-300x186.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Leonardo Boff. Foto Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 1967, em seu amplamente divulgado artigo \u201c<em>As Ra\u00edzes Hist\u00f3ricas de Nossa Crise Ecol\u00f3gica<\/em>\u201d, o historiador Lynn White Jr. acusou o judeu-cristianismo, devido ao seu antropocentrismo visceral, de ser o principal fator na crise que agora se tornou um clamor. Al\u00e9m disso, ele reconheceu que esse mesmo cristianismo tinha um ant\u00eddoto no misticismo c\u00f3smico de S\u00e3o Francisco de Assis.<\/p>\n\n\n\n<p>Para refor\u00e7ar essa ideia, sugeriu proclam\u00e1-lo \u201cpadroeiro dos ambientalistas\u201d, o que o Papa Jo\u00e3o Paulo II fez em 29 de novembro de 1979. De fato, todos os seus bi\u00f3grafos, como Tom\u00e1s de Celano, S\u00e3o Boaventura, a Lenda de Perugina (uma das fontes mais antigas) e outras fontes contempor\u00e2neas, atestam \u201ca uni\u00e3o amig\u00e1vel que Francisco estabeleceu com todas as criaturas\u2026\u201d Deu os doces nomes de irm\u00e3os e irm\u00e3s a todas as criaturas, \u00e0s aves do c\u00e9u, \u00e0s flores do campo e at\u00e9 mesmo ao lobo feroz de Gubbio.<\/p>\n\n\n\n<p>Estabeleceu fraternidade com os mais discriminados, como os leprosos, e com todas as pessoas, como o sult\u00e3o mu\u00e7ulmano Melek el-Kamel, no Egito, com quem manteve longos di\u00e1logos. Rezavam junto. S\u00e3o Francisco assumiu o t\u00edtulo mais alto que os mu\u00e7ulmanos d\u00e3o a Al\u00e1 \u201cAlt\u00edssimo\u201d. O C\u00e2ntico das criaturas come\u00e7a com o \u201cAlt\u00edssimo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No homem de Assis, tudo \u00e9 cercado de cuidado, simpatia e ternura. O fil\u00f3sofo Max Scheller, professor de Martin Heidegger, em seu conhecido estudo \u201c<em>A Ess\u00eancia e as Formas da Simpatia<\/em>\u201d (1926) dedica p\u00e1ginas brilhantes e profundas a Francisco de Assis. Ele afirma:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNunca na hist\u00f3ria do Ocidente surgiu uma figura com tamanha for\u00e7a de simpatia e emo\u00e7\u00e3o universal como a que encontramos em S\u00e3o Francisco\u201d. Nunca mais foi poss\u00edvel preservar a unidade e a integridade de todos os elementos como em S\u00e3o Francisco, nas esferas da religi\u00e3o, do erotismo, da a\u00e7\u00e3o social, da arte e do conhecimento\u201d (1926, p. 110). Talvez seja por isso que Dante Alignieri o chamou de \u201csol de Assis\u201d (Para\u00edso XI, 50).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia c\u00f3smica tomou forma brilhante em seu \u201cCantico di Frate Sole\u201d ou \u201cO C\u00e2ntico das Criaturas\u201d. Ali encontramos uma s\u00edntese completa entre ecologia interior (os impulsos da psiqu\u00e9) e ecologia exterior, a rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel e fraterna com todas as criaturas. Estamos celebrando o 800\u00ba anivers\u00e1rio do C\u00e2ntico do Irm\u00e3o Sol em um contexto t\u00e3o lament\u00e1vel como o atual. Embora possa parecer estranho, faz sentido porque, em meio a uma dor f\u00edsica e espiritual insuper\u00e1vel, Francisco de Assis teve um momento de ilumina\u00e7\u00e3o e criou e cantou com seus irm\u00e3os este hino, que est\u00e1 repleto do que mais precisamos: a uni\u00e3o do c\u00e9u com a Terra, o significado sacramental do Irm\u00e3o Sol, da Lua, da \u00e1gua, do fogo, do ar, do vento e da M\u00e3e Terra, vistos como sinais do Criador e, finalmente, a paz e a alegria de viver e coexistir em meio \u00e0s tribula\u00e7\u00f5es que estava vivenciando e pelas quais tamb\u00e9m &nbsp;n\u00f3s estamos assolados.<\/p>\n\n\n\n<p>Consideremos primeiro o contexto em que o hino surgiu. A Legenda Perusina cont\u00e9m um relato detalhado. Dois anos ap\u00f3s a estigmatiza\u00e7\u00e3o no Monte Alverna, Francisco foi tomado por um grande amor, que, na linguagem de Boaventura, significava uma morte sem morte. Francisco estava quase cego. Ele n\u00e3o conseguia ver este sol. Sofrimentos internos e externos o afligiam repetidamente. A ordem fundada estava virando uma institui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o mais um movimento de seguimento estrito do Evangelho. Isso o fazia sofrer muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a primavera de 1225. O local era a pequena capela de S\u00e3o Dami\u00e3o, onde Clara e suas irm\u00e3s viviam. Cheio de dor, ele n\u00e3o conseguia encontrar paz. Passou cinquenta dias em uma cela escura, sem conseguir ver a luz do dia ou o fogo da noite. A dor nos olhos o impedia de dormir ou descansar. Quase desesperadamente, ele orou: \u201cAjuda-me, Senhor, na minha doen\u00e7a, para que eu possa suport\u00e1-la pacientemente.\u201d N\u00e3o pedia para livrar-se dela, apenas para suport\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto orava, seu bi\u00f3grafo Tom\u00e1s de Celano observa que Francisco entrou em agonia. Em meio a essa situa\u00e7\u00e3o, ouviu uma voz dentro de si:&nbsp;<em>\u201cFeliz, irm\u00e3o, e feliz em meio \u00e0s suas afli\u00e7\u00f5es e doen\u00e7as. No futuro, voc\u00ea poder\u00e1 estar t\u00e3o seguro como quem est\u00e1 no meu reino.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Francisco ficou repleto de uma alegria incr\u00edvel. O dia amanheceu na noite escura. Sentiu-se transportado para o reino de Deus, s\u00edmbolo da reconcilia\u00e7\u00e3o ilimitada da cria\u00e7\u00e3o deca\u00edda com o des\u00edgnio do Criador.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o Francisco levantou-se, murmurou algumas palavras e cantou o hino a todas as coisas: \u201c<em>Altissimu, onnipotente, bon Signore\u201d.<\/em>&nbsp;Chama os teus irm\u00e3os e canta com eles o c\u00e2ntico que acabara de compor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Alt\u00edssimo, Onipotente, Bom Senhor, Tu \u00e9s o louvor, a gl\u00f3ria, a honra e toda a b\u00ean\u00e7\u00e3o. A Ti somente, Alt\u00edssimo, pertence, e nenhum homem \u00e9 digno de Te mencionar. Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente nosso Senhor Irm\u00e3o Sol, que \u00e9 dia e, portanto, nos d\u00e1 luz. E \u00e9 belo e radiante com grande esplendor, De Ti, Alt\u00edssimo, ele \u00e9 um significado. Louvado sejas, meu Senhor, por tua irm\u00e3, a lua e as estrelas. Coisas brilhantes, preciosas e belas se formaram no c\u00e9u. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irm\u00e3o Vento, e pelo ar, pelas nuvens, pela serenidade e por todo o tempo, atrav\u00e9s do qual sustentas as tuas criaturas. Louvado sejas, meu Senhor, pela irm\u00e3 \u00c1gua. Ela \u00e9 muito \u00fatil, humilde, preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irm\u00e3o fogo, iluminas a noite, e que \u00e9 belo, alegre, robusto e forte. Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irm\u00e3 M\u00e3e Terra, que nos sustenta e governa, e produz v\u00e1rios frutos com flores e \u00e1rvores coloridas. Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que te perdoam por teu amor e suportam doen\u00e7as e tribula\u00e7\u00f5es. Bem-aventurados os que as suportam em paz, pois por ti, Alt\u00edssimo, eles ser\u00e3o coroados. Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irm\u00e3, a morte corporal, da qual nenhum ser vivo pode escapar\u2026. Louvai e bendizei meu Senhor, dai-Lhe gra\u00e7as e servi-O com grande humildade\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Como demonstrou o franciscano \u00c9loi Leclerc (1977), sobrevivente dos campos de exterm\u00ednio nazistas, para Francisco elementos externos como o sol, a terra, o fogo, a \u00e1gua, o vento e outros n\u00e3o eram apenas realidades objetivas, mas realidades simb\u00f3licas, emocionais, verdadeiros arqu\u00e9tipos que energizam a psique no sentido de uma s\u00edntese entre o exterior e o interior e uma experi\u00eancia de unidade com o Todo. Francisco canta o sol, a lua, as estrelas e outros seres, incapaz de v\u00ea-los porque, no fim da vida, era praticamente cego. Ele inclui em seu elogio o que h\u00e1 de mais dif\u00edcil de integrar: a morte. Na biografia de Celano, a morte \u00e9 feita h\u00f3spede de Francisco. Ele jovialmente diz: \u201cBem-vinda, minha irm\u00e3 Morte\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Francisco por sua ternura e irmandade ilimitada se tornou um homem universal. Realiza plenamente o projeto humano de harmonia com toda a cria\u00e7\u00e3o, sentindo-se parte dela como um irm\u00e3o. Ele suscita em n\u00f3s a esperan\u00e7a de que podemos conviver em paz com a M\u00e3e Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo Boff escreveu<em>&nbsp;Francisco de Assis: ternura e vigor, <\/em>Vozes, 1982.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A uni\u00e3o da ecologia interior com a exterior: O\u00a0c\u00e2ntico ao Irm\u00e3o Sol de Francisco de\u00a0Assis. 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