{"id":14511,"date":"2025-06-23T12:02:05","date_gmt":"2025-06-23T15:02:05","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14511"},"modified":"2025-06-23T12:02:11","modified_gmt":"2025-06-23T15:02:11","slug":"felicidade-na-era-digital-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/felicidade-na-era-digital-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"FELICIDADE NA ERA DIGITAL. Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>FELICIDADE NA ERA DIGITAL<\/strong>. <strong>Por Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/frei-betto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14512\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/frei-betto.jpg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/frei-betto-300x200.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/frei-betto-768x512.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/frei-betto-420x280.jpg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Frei Betto. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vivemos hoje a crise de paradigmas pol\u00edticos, \u00e9ticos, econ\u00f4micos e religiosos. Se o paradigma medieval era a religi\u00e3o e o moderno, a raz\u00e3o \u2013 acompanhada de suas duas filhas diletas, ci\u00eancia e tecnologia \u2013, qual seria o da p\u00f3s-modernidade, na qual ingressamos neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Gostaria que fosse a solidariedade. Mas o mercado, regido pela era digital, se imp\u00f5e: a mercantiliza\u00e7\u00e3o de todos os aspectos da vida e da natureza. \u201cFora do mercado n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o\u201d, proclama o capitalismo neoliberal, indiferente ao drama de sobreviv\u00eancia de quase metade da humanidade&nbsp;(44%; 3,2 bilh\u00f5es de pessoas), segundo o Banco Mundial, com menos de US$ 7 por dia!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em muitos pa\u00edses, o capitalismo mercantiliza a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade e os demais direitos sociais, hoje apresentados como servi\u00e7os privados ao alcance de quem disp\u00f5e de renda para adquiri-los. Mercantiliza tamb\u00e9m a natureza, exaurindo seus recursos ou utilizando-os predatoriamente, como denunciou o papa Francisco em sua enc\u00edclica \u201cLouvado sejas \u2013 Sobre o cuidado de nossa casa comum\u201d. Os resultados s\u00e3o os desequil\u00edbrios ambientais e o aquecimento global. A Terra j\u00e1 perdeu sua capacidade de autorregenera\u00e7\u00e3o. Para se recuperar, depende, agora, de interven\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por\u00e9m, o capitalismo ainda n\u00e3o conseguiu mercantilizar o bem maior que todos buscamos: a felicidade. \u00c9 verdade que estamos cercados de simulacros. A Coca-Cola oferece esse bem maior ao alcance da m\u00e3o e da boca: \u201cAbra a felicidade!\u201d Ora, s\u00f3 os b\u00eabados e os magos acreditam que a felicidade jorra do gargalo de uma garrafa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para o capitalismo neoliberal, a felicidade reside no hiperconsumo desenfreado. O produto lan\u00e7ado hoje \u00e9 considerado&nbsp;<em>d\u00e9mod\u00e9<\/em>&nbsp;amanh\u00e3. E quem espera ser visto como&nbsp;<em>in<\/em>, e n\u00e3o&nbsp;<em>out<\/em>, tem a obriga\u00e7\u00e3o de portar o que h\u00e1 de mais novo e avan\u00e7ado no mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Paradoxalmente, essa ideia mercantilista de felicidade produz enorme infelicidade, na medida em que suscita em pessoas consumistas o medo da pobreza ou da perda de seus bens, o agudo senso competitivo, a ansiedade diante do futuro, gerando patologias f\u00edsicas e mentais, como \u00falcera, depress\u00e3o, s\u00edndrome do p\u00e2nico etc.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Enquanto esperamos a felicidade ainda n\u00e3o somos felizes. A felicidade est\u00e1 dentro ou fora de n\u00f3s? Depende. Para quem canaliza o desejo para fora de&nbsp;si mesmo, reside em algo a ser possu\u00eddo: riqueza, beleza, fama, poder&#8230; Quem se deixa agarrar por essa \u201cisca\u201d n\u00e3o se sente feliz enquanto n\u00e3o alcan\u00e7a o que almeja. E depois experimenta a infelicidade ao perder o que conquistou<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O dependente qu\u00edmico sabe que a felicidade est\u00e1 dentro de si, mas recorre ao caminho do absurdo e n\u00e3o ao caminho do absoluto. Se algu\u00e9m der a um drogado uma fortuna para abandonar o v\u00edcio, provavelmente ele ir\u00e1 gast\u00e1-la na compra de drogas. Contudo, embora possa n\u00e3o se dar conta, de alguma forma descobriu que a felicidade \u00e9 uma experi\u00eancia subjetiva, uma mudan\u00e7a do estado de consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para a cultura neoliberal, a pessoa n\u00e3o tem valor em si. Quem se importa com o pedinte estirado em um canto da cal\u00e7ada? \u00c9 o produto que ela possui que lhe imprime valor. Bill Gates \u00e9 t\u00e3o pessoa quanto o pedinte da esquina. Por\u00e9m, gra\u00e7as \u00e0 fabulosa riqueza que o reveste, aos olhos alheios ele possui um valor t\u00e3o alto que suscita inveja e venera\u00e7\u00e3o, enquanto o mendigo provoca rep\u00fadio e nojo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O capitalismo n\u00e3o quer formar cidad\u00e3os, e sim gerar consumistas. Por isso, renega os valores que norteiam nossas vidas, como \u00e9tica e solidariedade, e desloca-nos da subjetividade para centrar-nos na objetividade, naquilo que se consome. Se chego \u00e0 sua casa a p\u00e9, tenho um valor Z. Se chego a bordo do \u00faltimo modelo Mercedes-Benz, tenho valor A. Sou a mesma pessoa, mas a mercadoria me imprime valor. Sem ela, talvez eu nem seja reconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Assim, muita infelicidade resulta do fato de as pessoas colocarem fora de si o talism\u00e3 capaz de proporcionar-lhes felicidade. Incapaz de ser t\u00e3o rica, bela, famosa ou poderosa quanto gostaria, a pessoa se sente diminu\u00edda, entristece, cai em depress\u00e3o, deixa o cora\u00e7\u00e3o corroer de inveja, amargura, ira. Em suma, a luta ansiosa por felicidade costuma trazer infelicidade quando centrada em alvos ilus\u00f3rios e equivocados.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Meu confrade&nbsp;Tom\u00e1s de Aquino definiu a inveja como \u201ca tristeza de n\u00e3o possuir o bem alheio\u201d. E Shakespeare teria dito que o \u00f3dio \u00e9 \u201cum veneno que se toma esperando que o outro morra\u201d. Gente s\u00e1bia, rara hoje em dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cA arte de semear estrelas\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria digital:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FELICIDADE NA ERA DIGITAL. Por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vivemos hoje a crise de paradigmas pol\u00edticos, \u00e9ticos, econ\u00f4micos e religiosos. 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