{"id":14518,"date":"2025-06-23T15:11:53","date_gmt":"2025-06-23T18:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14518"},"modified":"2025-06-23T15:11:59","modified_gmt":"2025-06-23T18:11:59","slug":"o-outro-o-diferente-e-o-estrangeiro-por-padre-alfredo-j-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-outro-o-diferente-e-o-estrangeiro-por-padre-alfredo-j-goncalves\/","title":{"rendered":"O outro, o diferente e o estrangeiro \u2013 por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O outro, o diferente e o estrangeiro \u2013 <\/strong>por padre<em> <\/em>Alfredo J. Gon\u00e7alves<em><a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/images-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14519\" width=\"779\" height=\"436\"\/><figcaption>Padre Alfredo Gon\u00e7alves com o papa Francisco. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Diz o ditado popular que \u201ccom o andar da carro\u00e7a, as melancias v\u00e3o se acomodando\u201d. Mas isso dura t\u00e3o somente at\u00e9 a pr\u00f3xima barreira. No passo a passo do cotidiano, a cada obst\u00e1culo corresponde um solavanco, e este representa um sobressalto, seguido de uma nova reacomoda\u00e7\u00e3o. Se assim n\u00e3o for, facilmente a travessia se converte em uma caminhada mon\u00f3tona e sonolenta. S\u00e3o as pedras a serem vencidas diariamente pelo caminho que nos colocam em permanente movimento. Por que preferimos a in\u00e9rcia? Por que o receio das crises e obst\u00e1culos? Por que nos sentimos mais seguros numa rotina que raramente traz surpresas, ou, quando as traz, n\u00e3o passam de pequenos arranh\u00f5es, sem o poder de modificar o sossego e a tranquilidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Semelhante comodismo leva a evitar o outro ou diferente, o estranho ou forasteiro. O desconhecido tem o poder de nos manter de sobreaviso. Toda novidade que nos tira da zona de conforto, por mais que possa trazer benef\u00edcios, \u00e9 vista como amea\u00e7a. Preferimos uma rotina insonsa, mas conhecida, a qualquer evento imprevis\u00edvel sobre o qual n\u00e3o temos controle. No dia a dia domesticado e repetitivo reside uma esp\u00e9cie de paz viciada, quando n\u00e3o um mutismo t\u00f3xico. Ocorre o mesmo com a \u00e1gua: quando em movimento, \u00e9 capaz de purificar-se e tornar-se l\u00edmpida, cristalina, deixando para tr\u00e1s os res\u00edduos impuros e nocivos. Ao contr\u00e1rio, quando im\u00f3vel, corre o risco de acumular detritos, gerando lixo e sujeira, o que a faz apodrecer. De resto, tudo o que se acumula por muito tempo, tende a apodrecer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 diferente com o tempo. Tempo acumulando, reservado unicamente para o gasto e o desfrute pessoal, individual, converte-se em t\u00e9dio. Quer dizer que tamb\u00e9m o tempo se depura e purifica no uso constante de la\u00e7os, rela\u00e7\u00f5es e interc\u00e2mbios. Com ele \u00e9 que se costura o tecido social. Quando cercado, impossibilitando o acesso de outros, transforma-se em <em>tempo latif\u00fandio<\/em>. Vazio, abandonado, improdutivo! Nada produz porque n\u00e3o se abre \u00e0 semente que vem de fora. Mas existe, ainda, o que se pode chamar <em>tempo investimento<\/em>, aquele que \u00e9 utilizado somente para gerar lucro sobre lucro. Tempo convertido em capital: se e quando aplicado, deve tornar-se uma fonte de rendimento dobrado. Seu uso permanece irremediavelmente subordinado \u00e0 lei da acumula\u00e7\u00e3o de capital. Sendo assim, o tempo \u00e9 meticulosamente dividido em fatias, e estas distribu\u00eddas de acordo com a possibilidade de maior retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta um olhar aos relatos evang\u00e9licos, por mais superficial que seja, para verificar que s\u00f3 o <em>tempo gratuito<\/em> \u00e9 capaz de criar rela\u00e7\u00f5es genu\u00ednas, profundas e duradouras. O tempo de Jesus, sendo o tempo do Pai, passa a ser gratuitamente distribu\u00eddo aos pobres e exclu\u00eddos, indefesos e marginalizados. Por isso \u00e9 que, sempre com os olhos fixos no Evangelho, a caravana do Mestre jamais atropela quem grita por socorro, venha o grito de onde vier. Jesus se det\u00e9m em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa que sofre e espera. A par\u00e1bola do Bom Samaritano ilustra bem esse aspecto. Enquanto os dois funcion\u00e1rios do templo (sacerdote e levita) n\u00e3o podem \u201cperder tempo\u201d com o ca\u00eddo \u00e0 beira da estrada e da vida, o samaritano coloca seu tempo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o daquela urg\u00eancia. Dor, fome e solid\u00e3o n\u00e3o podem esperar. \u201cVai e faz o mesmo\u201d \u2013 conclui o Mestre (Lc 10, 25-37). Da\u00ed que tempo latif\u00fandio e tempo investimento engendram, respectivamente, multid\u00f5es famintas ou explorados. A forma de utilizar o tempo condiciona o tipo de relacionamento que estabelecemos atrav\u00e9s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe a pergunta: de que forma a Igreja e seus representantes usam o pr\u00f3prio tempo diante do fen\u00f4meno das migra\u00e7\u00f5es? Estas, como demonstram rostos, rotas e n\u00fameros, se tornam cada vez mais intensas, complexas e diversificadas. O saudoso Papa Francisco jamais se cansou de alertar para o quadro frio e desolador dessas multid\u00f5es desenraizadas. Igualmente o atual pont\u00edfice, Le\u00e3o XIV, retomando a preocupa\u00e7\u00e3o pastoral de seu antecessor, faz emergir a necessidade de abater muros e criar pontes, de passar da hostilidade ao di\u00e1logo, da indiferen\u00e7a \u00e0 solidariedade. \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d!&#8230; O tempo no interior da pr\u00f3pria Igreja, das congrega\u00e7\u00f5es, das pastorais ou movimentos, entretanto, parece medido, demasiadamente calculado, regrado pela matem\u00e1tica. H\u00e1 tempo de sobra para o liturgismo formal, para o ritualismo est\u00e9ril, para os paramentos ostensivos, para certas devo\u00e7\u00f5es no m\u00ednimo estranhas e intermin\u00e1veis, para as redes digitais, para um moralismo n\u00e3o raro desencarnado&#8230; Mas falta tempo para os pobres, para os migrantes, para os grupos vulner\u00e1veis e descart\u00e1veis, para a visita em suas casas, para o fortalecimento das organiza\u00e7\u00f5es populares, para a defesa de seus direitos b\u00e1sicos, para o resgate da dignidade humana aviltada, para uma postura prof\u00e9tica diante dos opressores cada vez mais milion\u00e1rios e bilion\u00e1rios&#8230;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Assessor do SPM \u2013 S\u00e3o Paulo, 15\/06\/2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O outro, o diferente e o estrangeiro \u2013 por padre Alfredo J. Gon\u00e7alves[1] Diz o ditado popular que \u201ccom o andar da carro\u00e7a, as melancias v\u00e3o se acomodando\u201d. 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