{"id":14542,"date":"2025-07-12T08:26:13","date_gmt":"2025-07-12T11:26:13","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14542"},"modified":"2025-07-12T08:26:19","modified_gmt":"2025-07-12T11:26:19","slug":"um-estranho-no-caminho-lc-1025-37-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/um-estranho-no-caminho-lc-1025-37-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"\u201cUM ESTRANHO NO CAMINHO\u201d (Lc 10,25-37) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201cUM ESTRANHO NO CAMINHO\u201d (Lc 10,25-37) \u2013 Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14543\" width=\"784\" height=\"784\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg 320w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-300x300.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 784px) 100vw, 784px\" \/><figcaption>Marcelo Barros. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste XV Domingo comum do ano C, o evangelho proposto (Lucas 10, 25- 37) \u00e9 a par\u00e1bola de Jesus sobre o homem ferido na estrada que foi socorrido n\u00e3o pelos religiosos do templo, mas sim pelo samaritano. A tradi\u00e7\u00e3o chamava de \u201cpar\u00e1bola do bom samaritano\u201d, embora o pr\u00f3prio evangelho n\u00e3o o chame assim. Essa p\u00e1gina do evangelho \u00e9 das mais queridas pelas Igrejas da caminhada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Um estranho no caminho<\/em>\u201d foi o t\u00edtulo que o papa Francisco deu ao segundo cap\u00edtulo da enc\u00edclica <em>Fratelli Tutti<\/em>, no qual ele comenta essa p\u00e1gina do evangelho. As comunidades que est\u00e3o por tr\u00e1s do Evangelho de Lucas colocam a cena do encontro de Jesus com um professor da B\u00edblia, um te\u00f3logo, e a par\u00e1bola do samaritano no cap\u00edtulo 10, no qual, como j\u00e1 vimos no domingo passado, Jesus manda os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas em miss\u00e3o libertadora. Portanto, agir como samaritano que socorre a pessoa ferida, assaltada e semimorta \u00e9 visto pelo evangelho como elemento essencial da miss\u00e3o dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos vers\u00edculos anteriores, Jesus tinha dito que Deus revela os seus segredos \u00e0s pessoas simples e pequeninas que o acolhem e compreendem, enquanto os grandes e entendidos do mundo os rejeitam (Lc 10, 21- 24). E a\u00ed o evangelho descreve imediatamente essa cena, na qual um professor da B\u00edblia, portanto, algu\u00e9m considerado sabido e importante, pergunta uma coisa b\u00e1sica. Hoje, a pergunta do professor de B\u00edblia equivale a algu\u00e9m que questiona: \u201c<em>Qual o sentido da vida? Como posso dar \u00e0 minha vida um sentido que a torne feliz?\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Jesus responde de modo diferente. N\u00e3o entra na discuss\u00e3o exeg\u00e9tica do texto. Pergunta ao professor como compreende o assunto. Ent\u00e3o, o homem cita o in\u00edcio da ora\u00e7\u00e3o do <em>Shem\u00e1 Israel (Escuta, Israel) <\/em>que, na tradi\u00e7\u00e3o judaica, se costuma orar pela manh\u00e3, ao acordar e \u00e0 noite, ao deitar. Essa ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dirigida a Deus como \u00e9 costume na maioria das preces. Come\u00e7a pela recita\u00e7\u00e3o do texto do Deuteron\u00f4mio 6, 4- 9 que diz: \u201c<em>Amar\u00e1s o Senhor, teu Deus, de todo o teu cora\u00e7\u00e3o.<\/em>..\u201d. O professor da B\u00edblia liga esse verso (Dt 6, 5) ao do livro do Lev\u00edtico 19, 18 que diz: <em>\u201cAma ao pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d<\/em>. Essa \u00e9 a resposta do doutor da lei. Jesus concorda com essa resposta e conclui: <em>ent\u00e3o, pratique isso e voc\u00ea ser\u00e1 feliz. &nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de que Jesus tenha aprovado a resposta do escriba, esse se sente meio repreendido e tenta uma escapat\u00f3ria no estilo da casu\u00edstica judaica: <em>quem \u00e9 meu pr\u00f3ximo? <\/em>Em outras palavras:<em> At\u00e9 que ponto, ou com quem exatamente sou obrigado a esse amor? At\u00e9 que grau de proximidade? <\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus responde colocando-o diante de um fato hist\u00f3rico concreto. Como Jerusal\u00e9m fica a 750 metros de altitude e Jeric\u00f3 a 350 metros abaixo do n\u00edvel do mar Mediterr\u00e2neo, a descida \u00e9 muito abrupta, cheia de despenhadeiros e o caminho meio deserto. Ali, na \u00e9poca de Jesus, era comum acontecerem assaltos. Jesus conta que algu\u00e9m foi assaltado e os assaltantes o deixam ferido, semimorto e ca\u00eddo na beira da estrada. Passam por ali dois religiosos do templo (um sacerdote e um levita). Jesus diz que ambos veem o homem ferido, n\u00e3o se comovem, rodeiam e seguem adiante. Agem como religiosos que lamentam as injusti\u00e7as e sofrimentos das pessoas feridas e ca\u00eddas \u00e0 margem da estrada, mas pensam que aquilo nada tem a ver com a religi\u00e3o e, portanto, eles n\u00e3o t\u00eam o que fazer. Hoje, nas igrejas e em muitas religi\u00f5es, muita gente lamenta as viol\u00eancias do mundo, mas acha que n\u00e3o tem nada a ver com isso. Afinal, religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pronto-socorro, nem hospital&#8230; Ao contr\u00e1rio dessa postura, o papa Francisco comparava a Igreja com o que chamou de \u201c<em>hospital de campo<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor da B\u00edblia, te\u00f3logo da \u00e9poca, questionou Jesus, assim como, em nossos dias, muita gente de Igreja questiona at\u00e9 que ponto \u00e9 o caso de se envolverem em quest\u00f5es sociais. H\u00e1 padres cat\u00f3licos e pastores evang\u00e9licos que perguntam: At\u00e9 que ponto a Igreja deve entrar em quest\u00f5es pol\u00edticas? N\u00e3o \u00e9 o caso de se manter apenas no que diz respeito ao religioso e espiritual?<\/p>\n\n\n\n<p>Seria como se o mestre da lei tivesse dito para Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas, tudo bem. \u00c9 nossa f\u00e9. Mas, essa hist\u00f3ria de amar o pr\u00f3ximo, at\u00e9 que ponto? Quem \u00e9 meu pr\u00f3ximo?<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa hist\u00f3ria, Jesus deixa claro que para Deus, socorrer o ser humano ferido e violentado \u00e9 mais importante do que o pr\u00f3prio culto no templo. Na lei do primeiro testamento aparecem como dois mandamentos: amar a Deus e amar ao pr\u00f3ximo. Jesus muda essa perspectiva ao dizer que o amor a Deus s\u00f3 \u00e9 verdadeiro, se se expressar no amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Carta de Jo\u00e3o explicita: \u201c<em>N\u00e3o pode amar a Deus a quem n\u00e3o v\u00ea, quem n\u00e3o ama nem o seu irm\u00e3o ou irm\u00e3 a quem v\u00ea<\/em>\u201d&nbsp; (1 Jo 4, 20). O amor ao pr\u00f3ximo se torna modo de amar a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, Jesus inverte a pergunta que o professor da B\u00edblia lhe faz. Ele pergunta: \u201c<em>Quem foi o pr\u00f3ximo da v\u00edtima que estava ca\u00edda na estrada?<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s de responder \u00e0 pergunta: <em>quem \u00e9 meu pr\u00f3ximo, <\/em>ele interpela: <em>voc\u00ea \u00e9 pr\u00f3ximo de quem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa: O que interessa n\u00e3o \u00e9 saber quem \u00e9 seu pr\u00f3ximo e sim de quem voc\u00ea se torna pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>O te\u00f3logo Gustavo Gutierrez dizia: <em>\u201cA quest\u00e3o \u00e9 que o pr\u00f3ximo n\u00e3o \u00e9 a pessoa que entra na minha estrada, mas a pessoa em cuja estrada, eu me encontro\u201d.<\/em> \u00c9 uma reviravolta na perspectiva. Quem define qual \u00e9 a miss\u00e3o ou se devo me envolver n\u00e3o \u00e9 a minha vontade, nem alguma teoria. Ou doutrina social da Igreja. Quem define a miss\u00e3o de solidariedade e inser\u00e7\u00e3o amorosa \u00e9 a necessidade concreta de quem precisa. O crit\u00e9rio \u00e9 a realidade. N\u00e3o se trata apenas de dar esmola. O texto diz que o samaritano teve suas entranhas revolvidas de compaix\u00e3o para com o ferido. O verbo grego usado pode ser traduzido: <em>as entranhas se moveram.<\/em> \u00c9 algo sentido e sofrido.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo atual, sob a ditadura do mercado idolatrado, o problema \u00e9 que n\u00e3o se trata apenas de algu\u00e9m ferido, que corre risco de vida e sim de mais de um bilh\u00e3o de seres humanos que vivem na pobreza extrema. Milh\u00f5es de migrantes abandonados \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte. Milh\u00f5es de v\u00edtimas de guerras, das desigualdades sociais e das cat\u00e1strofes ecol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada vez mais, grande parte da humanidade est\u00e1 ferida e jogada \u00e0 margem da estrada da vida, v\u00edtima do modo de organiza\u00e7\u00e3o social, que os poderosos d\u00e3o a esse mundo. No Brasil, milh\u00f5es de pessoas ainda vivem a inseguran\u00e7a alimentar e jazem na pobreza extrema. N\u00e3o somente como pessoas isoladas e sim como classes: trabalhadores rurais sem-terra, pessoas sem teto nas cidades, comunidades inteiras de povos origin\u00e1rios\/ind\u00edgenas, remanescentes de Quilombos e povos tradicionais, aos quais se negam os direitos, n\u00e3o s\u00f3 individuais, mas coletivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje, sacerdotes e levitas das diversas religi\u00f5es do templo continuam passando na estrada e, insens\u00edveis, deixam as pessoas feridas, \u00e0 margem do caminho. N\u00e3o param e n\u00e3o socorrem.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, muitos ainda defendem que religi\u00e3o nada tem a ver com a\u00e7\u00e3o social. H\u00e1 muitos que n\u00e3o apenas n\u00e3o param para socorrer o ferido, como at\u00e9 d\u00e3o apoio e o seu voto aos que exploram e massacram o povo. Atualmente, no Brasil e em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, a extrema direita recebe vota\u00e7\u00e3o expressiva de pessoas que se dizem crist\u00e3s, mas votam nos opressores e contra os oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa declara\u00e7\u00e3o de voto no \u00f3dio, na viol\u00eancia e no sistema baseado na desigualdade social \u00e9 pior do que os assaltantes que atacam diretamente o homem ferido. Nas entrelinhas a par\u00e1bola do samaritano diz que foram religiosos do templo os que assaltaram a pessoa ferida e semimorta, pois \u201cela descia de Jerusal\u00e9m, do templo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, com os pobres, tamb\u00e9m est\u00e1 agredida e ferida a m\u00e3e-Terra, a \u00e1gua e a Vida no planeta. O jeito eficaz de socorrer o povo e a Terra assaltados na estrada da vida tem de ser inser\u00e7\u00e3o efetiva nos movimentos populares e nas lutas sociais por direitos. A solidariedade incondicional tem de tomar a express\u00e3o de uma luta coletiva para mudar as estruturas injustas do mundo. Viver essa inser\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria \u00e9 a forma como podemos escutar hoje a palavra de Jesus: <em>O que fizestes a cada um dos pequeninos em meu nome foi a mim que fizestes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, a par\u00e1bola do samaritano prop\u00f5e que sejamos protagonistas de solidariedade libertadora, prof\u00e9tica, aquela que socorre as pessoas violentadas e denuncia os causadores da viol\u00eancia de religiosos de templo que usam em v\u00e3o o nome de Deus e abusam de vers\u00edculos b\u00edblicos para tosquiar o rebanho ao inv\u00e9s de cuidar amorosamente do rebanho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUM ESTRANHO NO CAMINHO\u201d (Lc 10,25-37) \u2013 Por Marcelo Barros Neste XV Domingo comum do ano C, o evangelho proposto (Lucas 10, 25- 37) \u00e9 a par\u00e1bola de Jesus sobre o homem ferido na estrada<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14543,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14542","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14542"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14542\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14544,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14542\/revisions\/14544"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14543"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}