{"id":14722,"date":"2025-09-15T08:06:21","date_gmt":"2025-09-15T11:06:21","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14722"},"modified":"2025-09-15T08:06:27","modified_gmt":"2025-09-15T11:06:27","slug":"vivi-para-ver-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/vivi-para-ver-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"VIVI PARA VER &#8211; Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>VIVI PARA VER &#8211; Por Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/frei-betto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14723\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/frei-betto.jpg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/frei-betto-300x200.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/frei-betto-768x512.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/frei-betto-420x280.jpg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Frei Betto &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Eu tinha 19 anos em junho de 1964. Morava no Rio, em uma \u201crep\u00fablica\u201d de estudantes dirigentes da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Na madrugada de 5 para 6 daquele m\u00eas, agentes do servi\u00e7o secreto da Marinha, o Cenimar, invadiram nosso apartamento armados de metralhadoras. Fomos todos levados para o Arsenal da Marinha. Aos socos e pontap\u00e9s me torturaram, convencidos de que eu era Betinho, l\u00edder da A\u00e7\u00e3o Popular, uma organiza\u00e7\u00e3o de esquerda, &nbsp;e anos depois da A\u00e7\u00e3o da Cidadania contra a Fome, a Mis\u00e9ria e pela Vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Entre o c\u00e1rcere militar e a pris\u00e3o domiciliar, fiquei retido um m\u00eas. N\u00e3o houve processo ou repara\u00e7\u00e3o. Nem sequer o direito a um advogado. Dei-me conta do que \u00e9 uma ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Cinco anos depois fui novamente preso em Porto Alegre por favorecer a fuga do Brasil de perseguidos pelo regime militar. Trazido para S\u00e3o Paulo, presenciei torturas, perdi companheiros e companheiras assassinados por militares e policiais civis. Ao longo de quatro anos, transitei entre oito c\u00e1rceres diferentes. Fiquei dois anos entre presos pol\u00edticos e mais dois na condi\u00e7\u00e3o de preso comum com narcotraficantes, assaltantes de bancos, assassinos contumazes, estelionat\u00e1rios e estupradores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ao completar quatro anos de c\u00e1rcere, o STF reduziu minha pena para dois anos&#8230; Manteve, por\u00e9m, a cassa\u00e7\u00e3o de meus direitos pol\u00edticos por 10 anos. Nenhum de meus torturadores, ju\u00edzes ou carcereiros jamais respondeu \u00e0 Justi\u00e7a pelos crimes e abusos praticados. Foram todos beneficiados pela aberra\u00e7\u00e3o da \u201canistia rec\u00edproca\u201d decretada pelo general Figueiredo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tudo que vivi e sofri sob a ditadura est\u00e1 contido em meus livros \u201cCartas da Pris\u00e3o\u201d (Companhia das Letras); \u201cBatismo de Sangue\u201d e \u201cDi\u00e1rio de Fernando\u201d (ambos da Rocco).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Agora, sinto certo al\u00edvio ao ver Bolsonaro e seus c\u00famplices de organiza\u00e7\u00e3o criminosa condenados pelo STF por atentarem contra o Estado Democr\u00e1tico de Direito. Al\u00edvio, n\u00e3o por vingan\u00e7a, e sim por&nbsp;repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que restitui \u00e0 vida um sentido. Ver o direito prevalecer sobre a barb\u00e1rie pode ser, para quem j\u00e1 peregrinou longos anos, a confirma\u00e7\u00e3o de que o mundo n\u00e3o \u00e9 inteiramente injusto.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esperar \u00e9 um exerc\u00edcio de resist\u00eancia. Carreguei a dor em sil\u00eancio e envelheci sem jamais perder a esperan\u00e7a de, um dia, ver militares golpistas punidos pela Justi\u00e7a. Suporto a cada dia o vazio deixado pela perda de tantos companheiros e companheiras, como frei Tito, meu confrade na Ordem Dominicana; Heleny Guariba, colega de teatro e c\u00e1rcere; Jeov\u00e1 de Assis Gomes, Carlos Eduardo Pires Fleury, Aderbal Coqueiro e tantos outros(as) a mim irmanados na pris\u00e3o e na resist\u00eancia \u00e0 ditadura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O escritor grego \u00c9squilo afirma, em \u201cAgam\u00eamnon\u201d, que&nbsp;\u201cA dor \u00e9 a mestra mais verdadeira\u201d&nbsp; A mim, a dor n\u00e3o apenas ensinou; moldou d\u00e9cadas de sobreviv\u00eancia, sustentadas pela esperan\u00e7a de que um dia arautos da ditadura responderiam por seus atos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O tempo muitas vezes \u00e9 cruel. Paradoxalmente, amadurece os frutos da Justi\u00e7a. Miguel de Cervantes escreveu em \u201cDom Quixote\u201d:&nbsp;\u201cA verdade pode andar sufocada, mas jamais morre\u201d. Assim, mesmo encoberta por manobras jur\u00eddicas, recursos e adiamentos, permanece viva e aguarda a hora de se impor.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Disse S\u00eaneca, fil\u00f3sofo romano:&nbsp;\u201cA justi\u00e7a n\u00e3o consiste em ser neutra entre o certo e o errado, mas em encontrar o certo e sustent\u00e1-lo contra o errado\u201d. Para mim, o tribunal que agora condena os cabe\u00e7as da intentona golpista de 2023 representa exatamente isto &#8211; a recusa em ser neutro diante da barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;N\u00e3o h\u00e1 senten\u00e7a capaz de devolver vidas perdidas em 21 anos de democracia sonegada, mas h\u00e1 decis\u00f5es que devolvem dignidade a quem ficou. Hannah Arendt, ao refletir sobre o mal e a responsabilidade, lembrava que \u201ca justi\u00e7a deve estar sempre presente, ainda que o mundo acabe\u201d. Sinto-me, agora, amparado pelo peso \u00e9tico de uma institui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, o STF, que cumpriu seu dever.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Meu estado de tranquilidade n\u00e3o nasce da alegria, mas da paz. Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, escreveu em seu \u201cEm busca de sentido\u201d: \u201cA felicidade deve brotar como efeito colateral da dedica\u00e7\u00e3o pessoal a uma causa maior\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Punir Bolsonaro e sua organiza\u00e7\u00e3o criminosa significa preservar a mem\u00f3ria de tantos que fomos e somos v\u00edtimas de 21 anos de ditadura. Ao ver a Justi\u00e7a reconhecer oficialmente os culpados de agress\u00e3o \u00e0 democracia, percebo que o exemplo de resist\u00eancia de Marighella, Lamarca e tantos que lutaram contra o arb\u00edtrio, n\u00e3o foi apagado pelo esquecimento. A senten\u00e7a eterniza suas aus\u00eancias como presen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um idoso como eu, ao ver golpistas punidos, resgato a confian\u00e7a &#8211; ainda que tardia &#8211; no poder humano de distinguir o justo do injusto, o bem do mal. O que sinto n\u00e3o \u00e9 euforia, mas reconcilia\u00e7\u00e3o com a vida e a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor do romance sobre massacre de ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia, \u201cTom vermelho do verde\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;freibetto.org<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Assine e receba todos os artigos do autor: mhgpal@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VIVI PARA VER &#8211; Por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Eu tinha 19 anos em junho de 1964. Morava no Rio, em uma \u201crep\u00fablica\u201d de estudantes dirigentes da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. 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