{"id":14725,"date":"2025-09-15T08:13:09","date_gmt":"2025-09-15T11:13:09","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14725"},"modified":"2025-09-15T08:13:15","modified_gmt":"2025-09-15T11:13:15","slug":"anistia-nao-e-amnesia-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/anistia-nao-e-amnesia-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"ANISTIA N\u00c3O \u00c9 AMN\u00c9SIA \u2013 Por FREI BETTO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>ANISTIA N\u00c3O \u00c9 AMN\u00c9SIA \u2013 Por FREI BETTO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"449\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20200201-29235-x5nooa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14726\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20200201-29235-x5nooa.jpg 800w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20200201-29235-x5nooa-300x168.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20200201-29235-x5nooa-768x431.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Frei Betto &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em tempos de crises pol\u00edticas recorrentes, conv\u00e9m revisitar certos conceitos que, de t\u00e3o manuseados, perdem o brilho original. Um deles \u00e9 a anistia, precioso instrumento jur\u00eddico-pol\u00edtico que, no Brasil, conseguiu realizar o prod\u00edgio de ser interpretado como uma esp\u00e9cie de passe de m\u00e1gica para apagar responsabilidades penais.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Anistia n\u00e3o \u00e9 amn\u00e9sia. N\u00e3o \u00e9 varinha de cond\u00e3o que transforma torturadores em her\u00f3is nacionais nem converte atentados contra a democracia em epis\u00f3dios folcl\u00f3ricos para serem narrados entre risadas em churrascos de caserna.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A proposital confus\u00e3o entre anistia e amn\u00e9sia talvez seja fruto da semelhan\u00e7a fon\u00e9tica. No Brasil, sempre houve quem desejasse transformar a primeira na segunda. Para Norberto Bobbio, \u201canistia \u00e9 um instituto de pacifica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de justi\u00e7a. O que ela apaga, o direito n\u00e3o v\u00ea; mas a mem\u00f3ria social permanece.\u201d Nelson Mandela, ao depor na Comiss\u00e3o da Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul, em 1995, frisou que \u201ca anistia s\u00f3 tem sentido quando acompanhada da verdade. Sem verdade, n\u00e3o h\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o; h\u00e1 apenas esquecimento imposto.\u201d No caso do Brasil, espero que a verdade n\u00e3o deixe em liberdade os golpistas de 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A ditadura tratou a anistia como se fosse amn\u00e9sia coletiva: tortura, censura, sequestros, assassinatos e desaparecimentos, se tentou varrer tudo para debaixo do tapete, como demonstra a pe\u00e7a \u201cLady Tempestade\u201d, de Silvia Gomez, estrelada por Andr\u00e9a Beltr\u00e3o.&nbsp; Se ningu\u00e9m lembrar, ningu\u00e9m foi culpado, pretendiam os algozes do regime militar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nossa hist\u00f3ria republicana \u00e9 generosa em anistias, sempre concedidas com aquele ar magn\u00e2nimo de quem \u201clibera geral\u201d ap\u00f3s um per\u00edodo de autoritarismo ou convuls\u00e3o. A anistia de 1892 beneficiou os revoltosos da Rep\u00fablica da Espada; a de 1934 foi concedida a opositores da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930; a de 1945, ap\u00f3s o Estado Novo, abriu caminho para elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas; a de 1961 tentou estancar a crise desencadeada com a ren\u00fancia de J\u00e2nio \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica; e a de 1979 &#8211; aberra\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que tornou imunes e impunes os carrascos da ditadura -, foi o ovo da serpente que, chocado em 8 de janeiro de 2023, gorou.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em cada epis\u00f3dio, a anistia funcionou como v\u00e1lvula de escape para permitir recompor o jogo pol\u00edtico. Mas sempre marcada por um pacto t\u00e1cito de esquecimento, o que condena o Brasil a repetir os mesmos erros.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A anistia promulgada em 28 de agosto de 1979 foi apresentada como gesto de reconcilia\u00e7\u00e3o. Mas reconcilia\u00e7\u00e3o com quem? O texto da lei equipara opositores aos sucessivos governos militares &#8211; presos, exilados, perseguidos, desaparecidos, assassinados &#8211; aos agentes do pr\u00f3prio Estado que haviam torturado, executado e ocultado cad\u00e1veres. A isso se deu o nome pomposo de \u201canistia rec\u00edproca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ora, n\u00e3o se pode colocar na mesma balan\u00e7a quem resistiu \u00e0 ditadura e quem se beneficiou dela para cometer crimes de lesa-humanidade. Em termos acad\u00eamicos, trata-se de um caso cl\u00e1ssico de falsa simetria. Em termos mais coloquiais, \u00e9 como se o juiz de futebol expulsasse tanto o jogador agredido quanto o agressor por \u201cconflito m\u00fatuo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As consequ\u00eancias t\u00eam sido devastadoras, pois at\u00e9 hoje o Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina que n\u00e3o julgou criminalmente torturadores do per\u00edodo ditatorial. Argentina, Chile, Uruguai e Peru separaram o joio do trigo. Nosso pa\u00eds segue ref\u00e9m de uma anistia que se travestiu de esquecimento. \u00c9 o que deputados federais, senadores da oposi\u00e7\u00e3o e adeptos do bolsonarismo querem que se repita, para que tudo fique como dantes no quartel de Abrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 um sinal de amadurecimento de nossa democracia militares estarem sendo, pela primeira vez em 135 anos de Rep\u00fablica,&nbsp; julgados por um tribunal civil por&nbsp; tramar um golpe de Estado.&nbsp; Intriga juristas estrangeiros a persistente perman\u00eancia dos tribunais militares no Brasil. Criados com a justificativa de garantir disciplina interna,&nbsp; funcionam, na pr\u00e1tica, como uma esp\u00e9cie de sindicato armado revestido de toga.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se todos s\u00e3o iguais perante a lei &#8211; princ\u00edpio basilar do Estado de Direito -, por que um militar acusado de crime deve ser julgado por uma corte composta por colegas de farda? A resposta \u00e9 \u00f3bvia, para proteger o \u201cesp\u00edrito de corpo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na pr\u00e1tica, os tribunais militares operam como zonas de conforto jur\u00eddico, nas quais a imparcialidade cede lugar \u00e0 cumplicidade. N\u00e3o por acaso, a maioria esmagadora dos militares denunciados por crimes acaba absolvida. Como se o uniforme conferisse n\u00e3o apenas autoridade, mas tamb\u00e9m imunidade. O que para alguns parece coincid\u00eancia estat\u00edstica, para outros \u00e9 apenas a confirma\u00e7\u00e3o de que no Brasil farda funciona como esp\u00e9cie de capa de invisibilidade jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tentativa de golpe de Estado \u00e9 crime grav\u00edssimo. N\u00e3o se trata de \u201cato patri\u00f3tico\u201d, nem \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o c\u00edvica\u201d. \u00c9 um atentado frontal contra a ordem constitucional, pass\u00edvel de puni\u00e7\u00e3o&nbsp; em qualquer democracia s\u00e9ria. No entanto, em terras brasileiras, parece que ainda h\u00e1 quem encare tais epis\u00f3dios como mal-entendidos hist\u00f3ricos. Tentar derrubar um governo democraticamente eleito \u00e9 um crime contra o estado de direito, uma afronta \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e uma colossal ofensa \u00e0 liberdade de escolha dos eleitores.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Anistia como amn\u00e9sia \u00e9 a naturaliza\u00e7\u00e3o do esquecimento. Sob o manto de \u201cpacifica\u00e7\u00e3o nacional\u201d pretende apenas adiar conflitos e manter privil\u00e9gios intocados. Sem mem\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. A verdadeira anistia s\u00f3 pode ocorrer quando acompanhada de verdade, justi\u00e7a e responsabiliza\u00e7\u00e3o. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o passa de amn\u00e9sia seletiva, essa patologia nacional que nos condena a trope\u00e7ar, sempre de novo, nas mesmas pedras da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Frei Betto \u00e9 escritor, autor de \u201cDi\u00e1rio de Fernando \u2013 nos c\u00e1rceres da ditadura militar brasileira\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANISTIA N\u00c3O \u00c9 AMN\u00c9SIA \u2013 Por FREI BETTO &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em tempos de crises pol\u00edticas recorrentes, conv\u00e9m revisitar certos conceitos que, de t\u00e3o manuseados, perdem o brilho original. 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