{"id":14728,"date":"2025-09-15T13:55:01","date_gmt":"2025-09-15T16:55:01","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14728"},"modified":"2025-09-15T13:55:07","modified_gmt":"2025-09-15T16:55:07","slug":"evangelho-de-lc-161-13-e-a-economia-de-francisco-e-clara-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/evangelho-de-lc-161-13-e-a-economia-de-francisco-e-clara-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"EVANGELHO DE Lc 16,1-13 E A ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>EVANGELHO DE Lc 16,1-13 E A ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA<\/strong>. <strong>Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"530\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14729\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg 800w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-300x199.jpeg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, padre e monge beneditino<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste XXV domingo comum, o evangelho lido, Lucas 16, 1- 13 \u00e9 um dos textos mais controvertidos do evangelho. Todos n\u00f3s j\u00e1 escutamos padres e pastores tentando explicar que Jesus disse isso, mas n\u00e3o foi bem isso que ele quis dizer. De fato, ouvir o evangelho afirmar que o Senhor elogiou o administrador desonesto poderia justificar a corrup\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica que \u00e9 estrutural e cr\u00f4nica em nossos pa\u00edses. Mesmo se os coment\u00e1rios insistem que Jesus elogiou n\u00e3o a desonestidade do administrador e sim a sabedoria ou capacidade que ele demonstrou ao saber sair bem da situa\u00e7\u00e3o de risco em que se meteu, o fato \u00e9 que a par\u00e1bola contada por Jesus n\u00e3o parece par\u00e1bola do reino de Deus. Ali\u00e1s, nessa par\u00e1bola, Jesus n\u00e3o fala em reino de Deus. N\u00e3o compara o agir do gerente com o reinado divino.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro cuidado que devemos ter \u00e9 n\u00e3o comparar Deus com o tal rico, propriet\u00e1rio de terras e senhor de escravos que, conforme o cap\u00edtulo 16 de Lucas (basta ver a par\u00e1bola seguinte que fala do rico e de L\u00e1zaro), o tal rico \u00e9 o contr\u00e1rio de Deus: n\u00e3o ama e nem pensa em ningu\u00e9m a n\u00e3o ser em si mesmo. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que entre as hist\u00f3rias que Jesus contou, essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica chocante ou dif\u00edcil de explicar. Ali\u00e1s, Lucas a inseriu no contexto dos cap\u00edtulos nos quais Jesus se dedica a formar os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas no seu caminho para Jerusal\u00e9m, onde enfrentar\u00e1 os poderosos da pol\u00edtica, da religi\u00e3o e da economia, e far\u00e1 sua P\u00e1scoa. O evangelista Lucas dedica v\u00e1rios cap\u00edtulos a tratar como a comunidade dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas deve tratar a quest\u00e3o dos bens econ\u00f4micos. No verso seguinte ao texto que escutamos hoje, o evangelho diz que os fariseus eram amigos do dinheiro e entre si comentavam com ironia o modo como Jesus insistia na economia comunit\u00e1ria e solid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o evangelho coloca essa par\u00e1bola logo depois de ter contado a par\u00e1bola sobre o rapaz que n\u00e3o quis esperar que o pai morresse para ter a heran\u00e7a que lhe cabia. Como outras hist\u00f3rias que Jesus conta, essa tamb\u00e9m parece um fato da vida, ocorrido naqueles dias. \u00c9 como se Ele tirasse do jornal do dia uma hist\u00f3ria que, ao seu ver, pode ajudar na forma\u00e7\u00e3o do seu grupo de disc\u00edpulos e disc\u00edpulas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria, \u00e9 estranho que o patr\u00e3o que descobriu ser v\u00edtima de roubo ou corrup\u00e7\u00e3o por parte do gerente o chame e avise previamente que vai lhe despedir. Tamb\u00e9m soa estranho o fato do gerente desonesto, que certamente tinha consigo todas as notas, precise perguntar a cada devedor qual era a quantia que devia ao patr\u00e3o. Seja como for, Jesus insiste que o importante \u00e9 o fato do gerente ter sabido retomar as rela\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a e da \u00e9tica, acima dos neg\u00f3cios. Naquela \u00e9poca, na Palestina, o administrador emprestava dinheiro do seu patr\u00e3o como os bancos fazem atualmente ao emprestar dinheiro que s\u00e3o de correntistas investidores e lucrar diariamente com isso. O administrador provavelmente teria emprestado 50 barris de \u00f3leo, mas tinha teria cobrado uma tarifa de 100%, alegando que quem pediu emprestado deveria pagar sobre 100 barris. Ao reduzir de 100 para 50 ele apenas teria retomado o valor real e justo. E teria emprestado 80 sacas de trigo e n\u00e3o 100. Confrontado diante da corrup\u00e7\u00e3o que ele fazia como administrador, ele retomou o caminho \u00e9tico. Foi isso que o salvou, quando ele foi despedido. Usou as pr\u00f3prias regras do sistema econ\u00f4mico vigente para se sair bem da embrulhada em que se tinha envolvido. Jesus n\u00e3o elogiou a desonestidade do administrador, mas a sua postura de retomar o caminho da \u00e9tica e cobrar apenas o que tinha emprestado, sem juro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus parece ligar pouco para a \u00e9tica de classe da sociedade vigente. Ao contr\u00e1rio, elogia que o gerente se serve delas para criar uma rede subversiva de solidariedade entre os devedores do patr\u00e3o. \u00c9 isso que Jesus toma como conclus\u00e3o: Usem as riquezas injustas para ajudar quem precisa. Via de regra, s\u00f3 pede empr\u00e9stimo quem est\u00e1 precisando. Portanto, privilegiem as pessoas e as rela\u00e7\u00f5es humanas e n\u00e3o o lucro.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 trinta ou quarenta anos, um grupo sequestrou o neto do famoso milion\u00e1rio norte-americano Paul Getty, para que o velho lhe pagasse o resgate que custava milh\u00f5es de d\u00f3lar. Como o milion\u00e1rio se negou a pagar, os sequestradores lhe mandaram um sinal de que falavam s\u00e9rio. Cortaram uma orelha do rapaz e mandaram em um envelope ao magnata. Acharam que, assim, pudessem convenc\u00ea-lo a pagar. S\u00f3 que o velho respondeu: &#8211; Quando chegamos a certa altura de posse econ\u00f4mica, temos de escolher entre o dinheiro e a fam\u00edlia. Eu fiz minha escolha: escolhi o dinheiro!<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse evangelho, Jesus faz o contr\u00e1rio: desmistifica o dinheiro. Transforma a sua natureza, porque o coloca a servi\u00e7o dos pobres, dos que s\u00e3o sempre devedores dos senhores do mundo. E conclui: Quem \u00e9 fiel no pouco, tamb\u00e9m ser\u00e1 fiel no muito. Para Jesus, o pouco se refere \u00e0 honestidade econ\u00f4mica da sociedade dominante e o muito \u00e9 a riqueza do reinado divino no mundo. Ele chega a dizer que a verdadeira lealdade ou fidelidade ao dinheiro n\u00e3o \u00e9 a fidelidade \u00e0 bolsa e aos crit\u00e9rios de lucro e sim \u00e0 vida e \u00e0 partilha.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo, o sistema capitalista faz, diariamente, a mesma escolha do milion\u00e1rio Paul Getty que deixou o neto ser morto pelos sequestradores para n\u00e3o ter de pagar nenhum resgate.<\/p>\n\n\n\n<p>O saudoso Papa Francisco advertia continuamente: esse sistema capitalista mata! As corpora\u00e7\u00f5es e os que representam o mercado engendram a morte lenta de milh\u00f5es de pessoas, para salvaguardar os lucros da \u00ednfima minoria que eles representam e aos quais servem. Esse evangelho nos adverte sobre isso e prop\u00f5e que a comunidade das pessoas que adere a Jesus fa\u00e7a a escolha contr\u00e1ria e opte pelas rela\u00e7\u00f5es de amizade e a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste evangelho, Jesus adverte de que o dinheiro \u00e9 riqueza sempre injusta (o termo grego <em>adikia<\/em> significa iniquidade) e mostra que n\u00e3o basta as pessoas se converterem interiormente. \u00c9 preciso uma mudan\u00e7a estrutural: colocar-se a servi\u00e7o da classe, que no mundo \u00e9 sempre de devedores.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma semana, da 5\u00aa feira, dia 11, ao domingo 14 de setembro, no Recife, aconteceu o III Encontro nacional da Economia de Francisco e Clara.<\/p>\n\n\n\n<p>Gente jovem e pessoas mais adultas de todo o Brasil se reuniram para compartilhar experi\u00eancias e prosseguir a busca que o saudoso Papa Francisco provocou ao promover encontros com jovens economistas de todo o mundo para que, juntos, pudessem estudar modelos de economia que rompam com o falso dogma da inevitabilidade do atual sistema econ\u00f4mico. Ele queria mostrar ser poss\u00edvel organizar uma economia justa, baseada na partilha, no respeito aos direitos da natureza e aos bens comuns da humanidade. No Brasil, esse modelo alternativo de economia est\u00e1 sendo chamado \u201cde Francisco e Clara\u201d, em refer\u00eancia ao modo como S\u00e3o Francisco e Santa Clara, de Assis, intu\u00edram e viveram a economia de sobriedade na comunh\u00e3o com os mais pobres e de partilha comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo atual, esse tipo de economia se traduz por organiza\u00e7\u00f5es de solidariedade, cooperativas de lavradores e centenas de iniciativas de economia solid\u00e1ria, algumas que funcionam em bairros de nossas cidades e chegam at\u00e9 ter moedas pr\u00f3prias para facilitar a justi\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es de venda e de compra. Na Igreja, cada eucaristia deveria conter um exerc\u00edcio de partilha econ\u00f4mica e solid\u00e1ria que pudesse nos educar a enfrentar e denunciar a sociedade que privilegia o lucro e o bem individual sobre os bens comunit\u00e1rios e os direitos da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Tudo Est\u00e1 Interligado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Cirineu Kuhn<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>TUDO EST\u00c1 INTERLIGADO<br>COMO SE F\u00d4SSEMOS UM<br>TUDO EST\u00c1 INTERLIGADO<br>NESTA CASA COMUM<br><br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>O cuidado com as flores do jardim,<br>com as matas, os rios e mananciais<br>O cuidado com o ar e os biomas<br>com a terra e com os animais<br><br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>O cuidado com o ser em gesta\u00e7\u00e3o<br>co\u00b4as crian\u00e7as um amor especial<br>O cuidado com doentes e idosos<br>pelos pobres, op\u00e7\u00e3o preferencial<br><br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>A luta pelo p\u00e3o de cada dia,<br>por trabalho, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o<br>A luta pra livrar-se do ego\u00edsmo<br>e a luta contra toda corrup\u00e7\u00e3o<br><br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>O esfor\u00e7o contra o mal do consumismo<br>a busca da verdade e do bem<br>Valer-se do tempo de descanso,<br>da beleza deste mundo e do al\u00e9m<br><br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>O di\u00e1logo na escola e na fam\u00edlia<br>entre povos, culturas, religi\u00f5es<br>Os saberes da ci\u00eancia, da pol\u00edtica,<br>da f\u00e9, da economia em comunh\u00e3o<br><br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>O cuidado pelo eu e pelo tu<br>pela nossa ecologia integral<br>O cultivo do amor de S\u00e3o Francisco<br>feito solidariedade universal.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EVANGELHO DE Lc 16,1-13 E A ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA. 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