{"id":14758,"date":"2025-10-01T16:03:24","date_gmt":"2025-10-01T19:03:24","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14758"},"modified":"2025-10-01T16:03:30","modified_gmt":"2025-10-01T19:03:30","slug":"fe-amor-e-gratuidade-nas-relacoes-humanas-e-ecologicas-lc-175-10-por-frei-gilvander","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/fe-amor-e-gratuidade-nas-relacoes-humanas-e-ecologicas-lc-175-10-por-frei-gilvander\/","title":{"rendered":"F\u00c9, AMOR E GRATUIDADE NAS RELA\u00c7\u00d5ES HUMANAS E ECOL\u00d3GICAS (Lc 17,5-10). Por Frei Gilvander"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>F\u00c9, AMOR E GRATUIDADE NAS RELA\u00c7\u00d5ES HUMANAS E ECOL\u00d3GICAS (Lc 17,5-10).<\/strong><br>Por frei Gilvander Moreira<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FE-GRAO-DE-MOSATRDA.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14759\" width=\"702\" height=\"670\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FE-GRAO-DE-MOSATRDA.jpg 400w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FE-GRAO-DE-MOSATRDA-300x287.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 702px) 100vw, 702px\" \/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O Evangelho de Lc 17,5-10 pertence \u00e0 se\u00e7\u00e3o \u201cviagem de Jesus e seu movimento popular-religioso a Jerusal\u00e9m\u201d (Lc 9,51-19,27), na qual Jesus prioriza qualificar a forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas para enfrentar os podres poderes da religi\u00e3o, da economia e da pol\u00edtica, em Jerusal\u00e9m, centro pol\u00edtico e religioso do pa\u00eds. Trata-se de uma jornada teol\u00f3gico-catequ\u00e9tica na qual s\u00e3o condensados os desafios, exig\u00eancias e obst\u00e1culos no seguimento de Jesus. A viagem de Jesus reflete o caminho das comunidades crist\u00e3s, com suas crises e busca de solu\u00e7\u00e3o aos desafios propostos pela pr\u00e1tica crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma dessas crises diz respeito, sem d\u00favida, \u00e0 perspectiva de f\u00e9 dos primeiros crist\u00e3os. A quest\u00e3o da f\u00e9 \u00e9 re-proposta diante de certos fracassos das comunidades na consecu\u00e7\u00e3o do projeto de Jesus. Com muita probabilidade, Lc 17,5-6 &#8211; \u201cAumenta nossa f\u00e9, Senhor!\u201d \u201cSe voc\u00eas tivessem f\u00e9 do tamanho de um gr\u00e3o de mostarda, &#8230;\u201d &#8211; reflete a quest\u00e3o surgida nas comunidades primitivas que se punham esta crucial pergunta: \u201cPor que n\u00e3o conseguimos reproduzir na pr\u00e1tica o projeto de Deus? O que est\u00e1 faltando para que possamos enfrentar e superar os grandes desafios que se nos apresentam?\u201d Dir\u00edamos hoje, mesmo com muita gente se declarando pessoa crist\u00e3, por que as injusti\u00e7as e viol\u00eancias campeiam por todo lado? De fato, a dureza da vida real com um monte de injusti\u00e7as e viol\u00eancias chacoalha a f\u00e9 de muita gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A f\u00e9 aut\u00eantica \u00e9 capaz de superar os impasses (Lc 17,5-6). <\/strong>F\u00e9 como postura existencial de amor e esperan\u00e7a na miss\u00e3o atrav\u00e9s da qual Jesus proclamava o projeto divino no mundo e foi isso que mandou os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas anunciarem. Os disc\u00edpulos haviam recebido de Jesus <em>\u201cpoder de pisar em cima de cobras e escorpi\u00f5es e sobre toda a for\u00e7a do inimigo\u201d<\/em> (Lc 10,19). E, ao voltar da sua miss\u00e3o, reconhecem que <em>\u201cat\u00e9 os dem\u00f4nios obedecem a n\u00f3s por causa do teu nome\u201d<\/em> (Lc 10,17). O Evangelho de Jo\u00e3o afirma: <em>\u201cQuem crer em Jesus far\u00e1 coisas ainda maiores do que o mestre faz\u201d<\/em> (Jo 14,12). Tal era o ideal do\/a disc\u00edpulo\/a: fazer as mesmas coisas e ter o mesmo poder de Jesus sobre as for\u00e7as hostis; ter a capacidade de superar os maiores impasses.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, hoje, escutamos algu\u00e9m pedir: Aumenta-nos a f\u00e9. Temos a tend\u00eancia de pensar que se trata de crer em doutrinas e leis. Para Jesus e para os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas do evangelho crer em Jesus \u00e9 apostar na realiza\u00e7\u00e3o do projeto divino de justi\u00e7a, paz e cuidado com a terra que o reinado divino vem estabelecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar do tempo, todavia, esse poder parece ter fugido \u00e0s m\u00e3os das primeiras pessoas crist\u00e3s, comprometendo seriamente o projeto de Deus que Jesus realiza. Qual ser\u00e1 a causa disso? Por que as comunidades n\u00e3o se caracterizam mais por aquelas a\u00e7\u00f5es e palavras capazes de superar toda adversidade (= dem\u00f4nios, escorpi\u00f5es, serpentes)?<\/p>\n\n\n\n<p>Eis, ent\u00e3o, que os evangelistas procuram redescobrir, na mensagem de Jesus, as causas do fracasso das comunidades ante os desafios propostos. O evangelista Marcos, por exemplo, condensa a crise de f\u00e9 das comunidades no epis\u00f3dio do epil\u00e9tico endemoninhado (Mc 9,14-19) onde, na aus\u00eancia de Jesus, os disc\u00edpulos n\u00e3o conseguem p\u00f4r em pr\u00e1tica o mandato de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelista Lucas, por sua vez, busca a causa do insucesso na crise de f\u00e9. Em Lc 17,5 os ap\u00f3stolos pedem ao Senhor: \u201cAumenta a nossa f\u00e9!\u201d Jesus responde que n\u00e3o se trata de ter \u201cmais\u201d ou \u201cmenos\u201d f\u00e9. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de quantidade de f\u00e9, mas de qualidade. Ela deve ser genu\u00edna, como a semente que traz em si todas as potencialidades da \u00e1rvore. A semente de mostarda, nesse sentido, \u00e9 paradigm\u00e1tica: t\u00e3o min\u00fascula, mas capaz de se tornar \u00e1rvore (cf. Lc 13,18-19). Se a f\u00e9 for assim, poder\u00e1 superar os maiores obst\u00e1culos, simbolizados aqui pela mostarda, \u00e1rvore que, por causa de suas ra\u00edzes profundas, ningu\u00e9m \u00e9 capaz de arrancar com as pr\u00f3prias for\u00e7as. Est\u00e1, pois, dada a resposta e encontrado o rem\u00e9dio \u00e0s crises das comunidades que n\u00e3o conseguem reproduzir o projeto de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A gratuidade dos que anunciam e testemunham o Evangelho de Jesus Cristo, proposto em Lc 17,7-10, \u00e9<\/strong> texto exclusivo de Lucas, n\u00e3o consta em Mateus, Marcos e nem no Evangelho de Jo\u00e3o. Esse tipo de par\u00e1bola parece mais vinda da realidade das comunidades crist\u00e3s dos anos 80 do primeiro s\u00e9culo da era crist\u00e3 do que diretamente do Jesus hist\u00f3rico. O fato de Lc 17,7-10 n\u00e3o ter paralelos nos outros evangelhos nos diz que essa par\u00e1bola deve ser entendida \u00e0 luz dos problemas de evangeliza\u00e7\u00e3o enfrentados por Lucas, disc\u00edpulo do ap\u00f3stolo Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>A par\u00e1bola reflete, pois, a pr\u00e1tica pastoral paulina, amplamente descrita em 1Cor 9, e que pode ser sintetizada assim: <em>\u201cAnunciar o Evangelho n\u00e3o \u00e9 t\u00edtulo de gl\u00f3ria para mim; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim se eu n\u00e3o anunciar o Evangelho! Se eu o anunciasse de pr\u00f3pria iniciativa, teria direito a um sal\u00e1rio; no entanto, j\u00e1 que o fa\u00e7o por obriga\u00e7\u00e3o, desempenho um cargo que me foi confiado. Qual \u00e9 ent\u00e3o o meu sal\u00e1rio? \u00c9 que, pregando o Evangelho, eu o prego gratuitamente, sem usar dos direitos que a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho me confere. Embora eu seja livre em rela\u00e7\u00e3o a todos, tornei-me o servo de todos, a fim de ganhar o maior n\u00famero poss\u00edvel\u201d<\/em> (1Cor 9,16-19).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse texto \u00e9 fundamental para entendermos a par\u00e1bola de Lucas. Nele, o ap\u00f3stolo Paulo assume o papel de servo do Evangelho: a evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasceu de iniciativa pr\u00f3pria, mas \u00e9 miss\u00e3o. N\u00e3o tem direito a sal\u00e1rio. Melhor ainda: seu sal\u00e1rio \u00e9 anunciar e testemunhar gratuitamente, fazendo-se servo de todos\/as, \u00e0 semelhan\u00e7a de Jesus (cf. Lc 22,27: <em>\u201cEu estou no meio de voc\u00eas como aquele que serve\u201d<\/em>). Al\u00e9m disso, a imagem do servo que trabalha a terra e guarda os animais (Lc 17,7, dupla jornada de trabalho, como Paulo em 1Ts 2,9) \u00e9 a mesma que Paulo usa para caracterizar seu trabalho apost\u00f3lico (cf. 1Cor 9,7.10). Embora tendo direito de usufruir desse trabalho, n\u00e3o faz valer esse direito (1Cor 9,18; cf. 1Ts 2,4-8).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de Jesus ter afirmado que o oper\u00e1rio \u00e9 digno do seu sal\u00e1rio (Mt 10,10; Lc 10,7), Lucas projeta esse ideal vivido por Paulo como sendo v\u00e1lido para todas as pessoas que anunciam e testemunham o Evangelho de Jesus Cristo. A par\u00e1bola, portanto, pode com muita propriedade ser interpretada em chave de evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O disc\u00edpulo n\u00e3o evangeliza por iniciativa pr\u00f3pria, mas cumpre um mandato (o sujeito da express\u00e3o \u201co que lhe havia mandado\u201d, isto \u00e9, quem d\u00e1 a miss\u00e3o \u00e9 Deus). N\u00e3o tem, consequentemente, o que exigir em troca. Jesus, que confia ao disc\u00edpulo &nbsp;e disc\u00edpula seu projeto, n\u00e3o se sente obrigado a recompensar o\/a disc\u00edpulo\/a quando este\/esta cumpre sua miss\u00e3o. Eis a mensagem do evangelho de Lc 17,7-10: Fazer o que \u00e9 nosso dever como disc\u00edpulo\/a de Jesus e n\u00e3o se vangloriar por isso. N\u00e3o \u00e9 por l\u00f3gica de m\u00e9rito, que leva a recompensa, que devemos tecer rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais, mas na l\u00f3gica do amor gratuito.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, para compreendermos Lc 17,5-10 faz bem levarmos na nossa mem\u00f3ria e no nossa cora\u00e7\u00e3o os milh\u00f5es de pessoas an\u00f4nimas que vivem cotidianamente servindo amor e respeito a todas as pessoas e a todos os seres vivos, amando gratuitamente, sem nunca esperar recompensa ou pleitear reconhecimentos. Que nossa f\u00e9 seja aut\u00eantica e nos ilumine no seguimento de Jesus para que, com Jesus, sejamos crist\u00e3os coerentes com o Evangelho, agentes de transforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, pela vida que seja com dignidade para todas as pessoas e para toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>1\u00ba \/10\/2025<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP\/SP; mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico, em Roma, It\u00e1lia; assessor da CPT, CEBI e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail:&nbsp;<a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a>&nbsp;\u2013&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a>&nbsp;\u2013&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\/\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Canal no You Tube:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@freigilvander\">https:\/\/www.youtube.com\/@freigilvander<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp; &nbsp;No instagram: @gilvanderluismoreira \u2013&nbsp;Facebook: Gilvander Moreira III \u2013 No&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@frei.gilvander.moreira\">https:\/\/www.tiktok.com\/@frei.gilvander.moreira<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00c9, AMOR E GRATUIDADE NAS RELA\u00c7\u00d5ES HUMANAS E ECOL\u00d3GICAS (Lc 17,5-10).Por frei Gilvander Moreira[1] O Evangelho de Lc 17,5-10 pertence \u00e0 se\u00e7\u00e3o \u201cviagem de Jesus e seu movimento popular-religioso a Jerusal\u00e9m\u201d (Lc 9,51-19,27), na qual<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14759,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,46,44,49,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-cultura-popular","category-direito-a-memoria","category-direito-a-terra","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14758"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14760,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14758\/revisions\/14760"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14759"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}