{"id":14764,"date":"2025-10-06T11:22:24","date_gmt":"2025-10-06T14:22:24","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14764"},"modified":"2025-10-06T11:22:31","modified_gmt":"2025-10-06T14:22:31","slug":"ainda-ha-esperanca-para-o-mundo-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/ainda-ha-esperanca-para-o-mundo-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"AINDA H\u00c1 ESPERAN\u00c7A PARA O MUNDO &#8211; Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>AINDA H\u00c1 ESPERAN\u00c7A PARA O MUNDO<\/strong> &#8211; Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"530\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14765\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg 800w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-300x199.jpeg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Marcelo Barros. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste m\u00eas de setembro, esse foi o assunto que, em diferentes lugares do norte da It\u00e1lia, companheiros e companheiras de grupos crist\u00e3os de base escolheram para aprofundar em um di\u00e1logo fraterno e em uma perspectiva de caminhada. Formularam como pergunta: Ainda h\u00e1 esperan\u00e7a para o mundo? &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Perto de Verona, em um lugarejo chamado Sezano,&nbsp; desde 2009, os religiosos estigmatinos transformaram um antigo convento em Mosteiro dos Bens Comuns, coordenado por uma associa\u00e7\u00e3o leiga que coordena movimentos sociais na regi\u00e3o. Na quarta-feira, 17 de setembro, umas cem pessoas, entre homens e mulheres de organiza\u00e7\u00f5es de solidariedade e alguns grupos de base refletiram sobre essa quest\u00e3o. Um grupo b\u00edblico prop\u00f4s como ponto de partida um vers\u00edculo da carta que, no Novo Testamento \u00e9 atribu\u00edda ao ap\u00f3stolo Pedro: \u201c<em>Estejam sempre prontos(as) a prestar conta da esperan\u00e7a que existe em voc\u00eas\u201d<\/em> (1 Pd 3, 15).<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m ponderou: \u201c<em>A nossa esperan\u00e7a n\u00e3o pode vir de uma an\u00e1lise da sociedade. Se olhamos seriamente a realidade, ser\u00e1 dif\u00edcil colher esperan\u00e7a. A esperan\u00e7a s\u00f3 pode vir da nossa op\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e da nossa decis\u00e3o de construir um mundo novo necess\u00e1rio e que sabemos ser poss\u00edvel\u201d<\/em>. Uma organiza\u00e7\u00e3o de solidariedade recordou que, no 1\u00ba de janeiro de 1994, quando os governos dos Estados Unidos, Canad\u00e1 e M\u00e9xico iriam assinar o tratado de livre com\u00e9rcio (NAFTA), da selva de Laconda, no sul do M\u00e9xico, as comunidades ind\u00edgenas tomaram as ruas de v\u00e1rias cidades e come\u00e7aram a rebeli\u00e3o zapatista. Era uma luta como a do fr\u00e1gil Davi contra o gigante Golias. Atualmente, apesar de todos os problemas que persistem, o tratado n\u00e3o foi assinado e o governo do M\u00e9xico \u00e9 obrigado a tratar com Chiapas como regi\u00e3o semiaut\u00f4noma, com organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ind\u00edgena que deve ser respeitada em sua cultura pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>Filletto \u00e9 uma pequena localidade no campo a uns 30 Km de Turim, de onde, nos dias claros, se veem alguns picos dos Alpes, como o Monte Viso (Monviso) com seus quase 4.000 metros. Ali em uma das cinco ou seis ruas de casas apraz\u00edveis, mora Monica e Marco, um casal de crist\u00e3os engajados que durante alguns anos, viveram em uma comunidade leiga no antigo Castelo de Albano. Hoje, com suas duas filhas jovens, trabalham junto a um grupo de solidariedade, principalmente com jovens africanos que tentam se inserir na regi\u00e3o. H\u00e1 quase tr\u00eas anos, encontraram Turck, jovem do Sud\u00e3o do Sul que, quando crian\u00e7a, viu o seu pai ser assassinado na guerra civil do seu pa\u00eds, com sua m\u00e3e, escapou para a L\u00edbia. Ali enquanto sua m\u00e3e era escravizada, ele foi colocado em um campo de concentra\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as. Aos nove anos fugiu e conseguiu chegar \u00e0 Arg\u00e9lia, onde viveu a adolesc\u00eancia e conseguiu estudar at\u00e9 o ensino m\u00e9dio. H\u00e1 tr\u00eas anos, chegou \u00e0 It\u00e1lia e n\u00e3o tinha onde morar. Quem v\u00ea aquele rapaz negro, 21 anos, sempre com sorriso acolhedor e muito bem educado, n\u00e3o pode imaginar o que ele j\u00e1 passou na vida. Monica e Marco o acolheram em casa e hoje \u00e9 para eles um novo filho. Dorme no quarto que era de uma das duas filhas que j\u00e1 n\u00e3o mora com os pais. H\u00e1 um ano, Marco e Monica acolheram tamb\u00e9m Alfred, jovem da Rep\u00fablica dos Camar\u00f5es, tamb\u00e9m sobrevivente de fugas e aventuras indescrit\u00edveis, t\u00e9cnico em conserto de carros velhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses dias de setembro, no Castelo de Albano, onde nos seus \u00faltimos anos, viveu Monsenhor Luigi Bettazzi, bispo prof\u00e9tico da Paz e da Justi\u00e7a, fui convidado para falar sobre \u201cAinda h\u00e1 esperan\u00e7a para o mundo\u201d. Mas, para que discorrer sobre esperan\u00e7a, quando temos v\u00e1rios exemplos de casais como Marco e Monica?<\/p>\n\n\n\n<p>Perto da pequena cidade de Busca, ao lado de C\u00faneo, alguns quil\u00f4metros antes da fronteira entre a It\u00e1lia e a Fran\u00e7a, em uma colina coberta de castanheiras e de frutas do bosque v\u00ea-se em um port\u00e3o, como de uma propriedade rural, o velho letreiro: Comunidade de Mambr\u00e9. Quando, em Filetto contei aos amigos que viria passar dois dias com essa comunidade, algu\u00e9m me perguntou o que significa Mambr\u00e9. Recordei que, conforme a B\u00edblia, Mambr\u00e9 era um antigo lugar de adora\u00e7\u00e3o, por causa de um carvalho considerado sagrado. Naquela \u00e9poca, as pessoas adoravam a Deus debaixo de \u00e1rvores e n\u00e3o em templos. Assim como hoje, o Candombl\u00e9 considera a gameleira (Iroko) um Orix\u00e1, para o antigo povo b\u00edblico, o Carvalho era uma \u00e1rvore debaixo da qual Deus gostava de descansar do calor do dia. Um dia, o velho patriarca Abra\u00e3o descansava debaixo do carvalho de Mambr\u00e9 quando recebeu a visita divina, representada por tr\u00eas desconhecidos que vieram ao seu encontro e lhe avisaram que, mesmo acima dos 80 anos e casado com uma mulher est\u00e9ril, ele e Sara teriam um filho ao qual ela deu o nome de Isaac (risada), porque a m\u00e3e riu, quando soube da not\u00edcia (Gn 18). &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele norte da It\u00e1lia, a comunidade de Mambr\u00e9 se organizou em um espa\u00e7o muito belo, com uma vista linda e uma casa grande e acolhedora. Muitas pessoas passaram por ali. Atualmente, s\u00f3 restam Renzo e Piera, um casal de seus 80 anos e ela cuida de um irm\u00e3o tamb\u00e9m idoso e doente. Ao encontr\u00e1-los assim os tr\u00eas sobreviventes, dentro daquela estrutura pensada para um grupo maior, algu\u00e9m comentou: \u201cN\u00e3o estamos mais em tempo de comunidade\u201d. De fato, h\u00e1 trinta ou quarenta anos, por aqui e por ali, surgiram v\u00e1rias dessas pequenas comunidades laicas e livres. Poucas sobreviveram ao inverno da Igreja Cat\u00f3lica nos tempos de Jo\u00e3o Paulo II e do neoliberalismo que se consolidou como cultura individualista na rela\u00e7\u00e3o cotidiana da vida de muita gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ser recebido por aquele casal e os poucos amigos que tinham vindo ali para me encontrar, lembrei-me do profeta Elias. Ele tinha fugido da persegui\u00e7\u00e3o da rainha Jesabel e chegou ao monte da alian\u00e7a (Horeb). Ali orou a Deus: \u201cMataram todos os teus profetas. S\u00f3 eu restei e eles querem acabar comigo tamb\u00e9m\u201d. Foi ent\u00e3o que escutou a resposta divina: \u201cVolta. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Eu reservei um pequeno resto de profetas\u201d (1 Rs 19). &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Renzo e Piera se sentem sozinhos. No domingo, 28, \u00e0 tardinha, reuniram umas 30 pessoas, a maioria, gente de idade que veio de cidades vizinhas para refletirmos juntos: Ainda h\u00e1 esperan\u00e7a para o mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>Qual mundo? No ponto de vista social da geopol\u00edtica mundial, o mundo se debate em mais de 50 guerras, h\u00e1 uma deteriora\u00e7\u00e3o da democracia no mundo inteiro e um aumento descomunal da desigualdade social e da pobreza. Qual a esperan\u00e7a para o mundo? Talvez fosse bom lembrar o evangelho das palavras de Jesus que falam do fim de um mundo e anunciam um novo mundo no qual se manifestar\u00e1 o projeto divino da Justi\u00e7a e da Paz. Desde j\u00e1 podemos falar dos sinais de esperan\u00e7a nas brechas do mundo e nas comunidades. Voc\u00eas s\u00e3o testemunhas da esperan\u00e7a que resiste. Mesmo se a impress\u00e3o primeira \u00e9 de que muitas das nossas comunidades est\u00e3o fr\u00e1geis e envelhecidas, elas s\u00e3o sempre, como Dom Helder Camara as denominava: \u201cminorias abra\u00e2micas\u201d, fr\u00e1geis e envelhecidas, mas com a for\u00e7a do Esp\u00edrito, capazes de motivar e provocar muita coisa importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Na It\u00e1lia, na 2\u00aa feira, 22 de setembro, milhares de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas em muitas cidades, de norte a sul do pa\u00eds, em solidariedade com o povo palestino. No s\u00e1bado, 27, portu\u00e1rios de G\u00eanova fecharam o porto em uma greve significativa para que nunca mais ali, se pudessem embarcar armas para o Estado de Israel. Como valorizar esses sinais de esperan\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>Veio-me \u00e0 mente uma hist\u00f3ria do velho oeste americano que Pedro Ribeiro me contou: Era uma cidade do sul dos Estados Unidos e ali, uma jovem apareceu assassinada. Os policiais prenderam um negro sem-teto que, por acaso, naquele dia, passava pela cidade. Decidiram execut\u00e1-lo sumariamente. No entanto, para manter uma apar\u00eancia de justi\u00e7a, lhe deram uma chance. Colocariam duas bolas em um saquinho. Uma bola branca e uma preta. O rapaz deveria colocar a m\u00e3o no saco fechado e escolher uma. Se, por acaso, escolhesse a branca, seria libertado. Se, ao contr\u00e1rio, tomasse nas m\u00e3os a preta, seria enforcado.<\/p>\n\n\n\n<p>O pior \u00e9 que no momento exato do processo, o rapaz viu que o delegado colocou no saquinho as duas bolas pretas. N\u00e3o colocou a branca que tinha mostrado ao povo. Assim, n\u00e3o haveria esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o. O que ningu\u00e9m esperava foi que ele colocou a m\u00e3o no saco, tirou uma das bolas e ainda com a m\u00e3o fechada, mais do que depressa, a engoliu. Depois, calmamente disse ao delegado e ao povo reunido:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Vejam a bola que ficou no saco. Se foi a branca, \u00e9 sinal de que eu tirei a preta e morrerei, mas se voc\u00eas encontrarem a preta, \u00e9 sinal de que eu engoli a branca e sou inocente. Estou livre.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; E ningu\u00e9m pode contestar. Sempre resta uma esperan\u00e7a para quem n\u00e3o desiste de lutar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AINDA H\u00c1 ESPERAN\u00c7A PARA O MUNDO &#8211; Por Marcelo Barros Neste m\u00eas de setembro, esse foi o assunto que, em diferentes lugares do norte da It\u00e1lia, companheiros e companheiras de grupos crist\u00e3os de base escolheram<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14765,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14764","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14764","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14764"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14764\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14766,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14764\/revisions\/14766"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14765"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}