{"id":1477,"date":"2018-03-27T13:33:47","date_gmt":"2018-03-27T16:33:47","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=1477"},"modified":"2018-03-27T13:33:47","modified_gmt":"2018-03-27T16:33:47","slug":"fama-2018-a-agua-tem-direitos-e-e-bem-comum","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/fama-2018-a-agua-tem-direitos-e-e-bem-comum\/","title":{"rendered":"FAMA 2018: a \u00e1gua tem direitos e \u00e9 bem comum"},"content":{"rendered":"<p><strong>FAMA 2018: a \u00e1gua tem direitos e \u00e9 bem comum. <\/strong>Por frei<strong>\u00a0<\/strong>Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1478 alignleft\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/FAMA-2018-3-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/FAMA-2018-3-300x300.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/FAMA-2018-3-150x150.jpg 150w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/FAMA-2018-3-768x768.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/FAMA-2018-3.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Bras\u00edlia, de 17 a 22 de mar\u00e7o de 2018, aconteceu o F\u00f3rum Alternativo Mundial da \u00c1gua (FAMA) como contraponto ao f\u00f3rum das corpora\u00e7\u00f5es \u2013 F\u00f3rum Mundial da \u00c1gua. O FAMA teve a participa\u00e7\u00e3o de sete mil militantes defensoras\/es da irm\u00e3 \u00e1gua, de 35 pa\u00edses, de todos os continentes, articulados em 450 organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais. Nas oficinas, rodas de conversas, confer\u00eancias, filas do povo, marcha e Ato Inter-religioso ficou claro que o capitalismo \u00e9, de fato, uma m\u00e1quina de moer vidas humanas e vidas de todos os outros seres vivos. Bra\u00e7o do capital no campo, o agroneg\u00f3cio tem demonstrado muitas contradi\u00e7\u00f5es, entre as quais duas se destacam: uso abusivo de agrot\u00f3xicos e dizima\u00e7\u00e3o das fontes de \u00e1gua. Por meio do hidroneg\u00f3cio, o agroneg\u00f3cio est\u00e1 sendo um vampiro das \u00e1guas, e est\u00e1 envenenando a comida do povo com abusivo uso de agrot\u00f3xicos e, com isso, adoecendo a popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o 600 mil pessoas contraindo c\u00e2ncer por ano. Esse n\u00famero est\u00e1 crescendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No FAMA 2018, ouvimos palavras de fogo. Uma integrante do Movimento Sem Terra da \u00c1frica do Sul denunciou: \u201cO governo da \u00c1frica do Sul est\u00e1 na imin\u00eancia de declarar o Dia Zero de \u00c1gua. Primeiro, roubaram nossa terra. Depois, nossos min\u00e9rios; mataram nossos l\u00edderes e agora est\u00e3o dizimando nossas \u00e1guas\u201d. Uma integrante da ANAMURI, do Chile, alertou: \u201cO capitalismo violenta nossa dignidade humana, as fontes da vida \u2013 terra e \u00e1gua \u2013 e nossos corpos\u201d. Aline Ruas, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), de Minas Gerais pontuou: \u201cOs grandes projetos de interesse do capital est\u00e3o devastando o Vale do Jequitinhonha, que tem a maior monocultura de eucalipto da Am\u00e9rica Latina\u201d. Maria das Dores Pereira da Silva, da Pastoral dos Pescadores, conclamou: \u201cDo rio e do mar, cerca nas \u00e1guas, derrubar!\u201d. Do quilombo Rio dos Macacos, na Bahia, com 85 fam\u00edlias, Olinda denunciou: \u201cA marinha invadiu nosso territ\u00f3rio, construiu barragem para lavar navios e, por isso, estamos sendo pisados nos nossos direitos\u201d. Dirlene Marques, feminista de Minas Gerais: \u201cQuando uma mulher \u00e9 assassinada, todas as mulheres s\u00e3o assassinadas um pouco. Entretanto, nos enterram sem saber que somos sementes\u201d. Ana Suely, ind\u00edgena do povo Terena, do Mato Grosso do Sul, revelou mais uma contradi\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio: \u201cO agroneg\u00f3cio tem matado muitos ind\u00edgenas e acabado com nossa \u00e1gua t\u00e3o amada, que \u00e9 uma d\u00e1diva que Deus nos deu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No FAMA 2018, palavras inspiradoras foram socializadas. Maria de F\u00e1tima, do Paran\u00e1, mostrou a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o da \u00e1gua com os biomas: \u201cAs \u00e1rvores s\u00e3o vida e \u00e1gua. Sem \u00e1rvores n\u00e3o vamos proteger nossas \u00e1guas. \u00c1rvore \u00e9 vida. Plante \u00e1rvores e teremos \u00e1gua\u201d. \u201cEucalipto, n\u00e3o, pois \u00e9 vampiro das \u00e1guas\u201d! &#8211; acrescentamos n\u00f3s. Sem resgatar os cerrados, n\u00e3o haver\u00e1 como revitalizar as nascentes e nem as bacias hidrogr\u00e1ficas. Considerar o cerrado como regi\u00e3o de expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio com pr\u00e1ticas predat\u00f3rias est\u00e1 causando um cen\u00e1rio estarrecedor. Uma boliviana apontou o caminho: \u201cNa Bol\u00edvia, estamos lutando pela preserva\u00e7\u00e3o de 77 esp\u00e9cies de milho, porque o milho \u00e9 nossa raiz\u201d. Cristina, defensora do Manancial de V\u00e1rzea das Flores, em Contagem, MG, lan\u00e7ou tr\u00eas propostas: \u201cConstruirmos o Congresso do Povo; votar em quem se comprometer a revogar os cortes nos direitos sociais e boicotar os produtos da Nestl\u00e9, da Coca-Cola e de todas as empresas transnacionais que violam os direitos sociais e causam devasta\u00e7\u00e3o socioambiental.\u201d Ao lado de uma Pag\u00e9 marajoara, Tain\u00e1 marajoara, possu\u00edda por uma ira santa, asseverou: \u201cMonocultura n\u00e3o \u00e9 cultura, pois cultura respeita a biodiversidade. Se a Amaz\u00f4nia cair, a humanidade cair\u00e1 com ela. Sementes crioulas, sim; sementes transg\u00eanicas e agrot\u00f3xicos, n\u00e3o! Pela primeira vez, uma empresa transnacional, a Hydro, vai ser responsabilizada pelos danos \u00e0 cultura tradicional da regi\u00e3o de Barcarena, no Par\u00e1. Nosso povo est\u00e1 doente, porque os rios est\u00e3o sendo adoecidos com merc\u00fario e outros metais pesados despejados por mineradoras. \u00c1gua n\u00e3o \u00e9 apenas direito. A \u00e1gua tem direitos. A \u00e1gua \u00e9 bem comum\u201d. Oriel Rodrigues, da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o Quilombola (CONAQ) falou manifestando rever\u00eancia aos ancestrais e a todos os esp\u00edritos presentes: \u201cPe\u00e7o licen\u00e7a aos nossos ancestrais que atravessaram o oceano Atl\u00e2ntico, em navios negreiros. At\u00e9 1988, \u00e9ramos invisibilizados. Somos descendentes de povos livres na m\u00e3e \u00c1frica, que foram escravizados no Brasil e nos Estados Unidos. At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, \u00e9ramos \u201cpe\u00e7as\u201d, coisas, mercadoria. \u00c9ramos propriedade dos capitalistas. Temos no Brasil atualmente cinco mil comunidades quilombolas. Titular as comunidades quilombolas \u00e9 a primeira t\u00edmida repara\u00e7\u00e3o pela d\u00edvida hist\u00f3rica que o Estado e a sociedade t\u00eam com os povos negros. O capital deve muito para os quilombolas, africanos na di\u00e1spora. H\u00e1 uma Am\u00e9rica Latina negra negada e subalternizada. A hist\u00f3ria de luta do povo haitiano e de Palmares \u00e9 desconhecida. A revolu\u00e7\u00e3o dos escravos no Haiti fez o Haiti, em 1804, o primeiro pa\u00eds a conquistar a aboli\u00e7\u00e3o formal da escravid\u00e3o e a independ\u00eancia pol\u00edtica.\u201d Uma ind\u00edgena Aymara do Altiplano Andino alertou: \u201cPara n\u00f3s, mulheres ind\u00edgenas da descoloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito importante fortalecer as mulheres ind\u00edgenas no feminismo comunit\u00e1rio. A \u00c1gua, para n\u00f3s, significa a m\u00e3e \u00e1gua. \u00c1gua \u00e9 mulher, \u00e9 m\u00e3e. Quem administra a m\u00e3e? Para n\u00f3s, a comunidade \u00e9 um corpo: um lado s\u00e3o os homens e o outro lado, as mulheres. Somos um corpo e comunidade com a natureza.\u201d Oscar Oliveira, da Bol\u00edvia comentou: \u201cPrimeiro, alegria por estar no pa\u00eds de Chico Mendes e de Marielle Franco. Temos que passar da resist\u00eancia \u00e0 reexist\u00eancia. N\u00e3o apenas viver com a \u00e1gua, mas conviver com a \u00e1gua. No fundo, a luta pela \u00e1gua \u00e9 luta pelo territ\u00f3rio, espa\u00e7o pol\u00edtico e social organizativo. A luta pela \u00e1gua \u00e9 luta democr\u00e1tica, porque \u00e9 luta por quem ter\u00e1 o poder de decidir. N\u00e3o esque\u00e7amos que a emancipa\u00e7\u00e3o dos povos superexplorados ser\u00e1 obra deles mesmos. Temos que superar o racismo ambiental.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o uruguaio Nicolas, exames em peixes do Rio Uruguai detectaram 30 tipos de pesticidas na carne dos peixes. 113 trilh\u00f5es de litros de \u00e1gua est\u00e3o sendo exportados do Brasil anualmente atrav\u00e9s de soja, uva, celulose etc.. \u00c9 enorme a gula das grandes empresas transnacionais para abocanhar os aq\u00fc\u00edferos existentes no Brasil e na Am\u00e9rica Afrolat\u00edndia. Por isso tanta press\u00e3o pela privatiza\u00e7\u00e3o das \u00e1guas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua declara\u00e7\u00e3o final, o FAMA 2018 denunciou o objetivo das empresas transnacionais: \u201cexercer o controle privado da \u00e1gua atrav\u00e9s da privatiza\u00e7\u00e3o, mercantiliza\u00e7\u00e3o e de sua titulariza\u00e7\u00e3o, tornando-a fonte de acumula\u00e7\u00e3o em escala mundial, gerando lucros para as transnacionais e ao sistema financeiro.\u201d Denunciou tamb\u00e9m \u201co crime cometido pela Samarco, Vale e BHP Billiton, que contaminou com sua lama t\u00f3xica o Rio Doce, assassinando uma bacia hidrogr\u00e1fica inteira, matando in\u00fameras pessoas, e at\u00e9 hoje seu crime segue impune. Denunciou o recente crime praticado pela norueguesa Hydro Alunorte que despejou milhares de toneladas de res\u00edduos da minera\u00e7\u00e3o por meio de canais clandestinos no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e o assassinato do l\u00edder comunit\u00e1rio Sergio Almeida Nascimento, que denunciava seus crimes.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No encerramento do FAMA 2018, o Ato Inter-religioso foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica inspiradora. Ver irm\u00e3s e irm\u00e3os das mais diversas religi\u00f5es e cren\u00e7as irmanados revelando a dimens\u00e3o espiritual da \u00e1gua foi um sinal forte de que n\u00e3o nos calaremos diante dos crimes cometidos contra a irm\u00e3 \u00e1gua e contra qualquer viola\u00e7\u00e3o dos direitos da natureza. Faz-se urgente o fortalecimento dessa luta e o FAMA mostrou que somos muito mais e podemos muito mais, no mundo todo. Estamos de p\u00e9 contra toda e qualquer forma de viol\u00eancia contra a \u00e1gua, que \u00e9 um bem comum e detentora de direitos.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 27\/3\/2018.<\/p>\n<p><strong>Obs<\/strong>.: Os v\u00eddeos, abaixo, ilustram o texto, acima.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 tema de F\u00f3rum Alternativo em Bras\u00edlia &#8211; JCTV\u00a0<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_36305\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TFJ2p6zTgU8?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<ul>\n<li><strong>F\u00f3rum Alternativo da \u00c1gua luta contra a privatiza\u00e7\u00e3o do recurso natural<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_69373\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h9oYamXXbKU?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG.<\/p>\n<p>E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FAMA 2018: a \u00e1gua tem direitos e \u00e9 bem comum. 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