{"id":14785,"date":"2025-10-14T09:46:44","date_gmt":"2025-10-14T12:46:44","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14785"},"modified":"2025-10-14T10:43:47","modified_gmt":"2025-10-14T13:43:47","slug":"documento-do-papa-leao-xiv-consagra-a-teologia-da-libertacao-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/documento-do-papa-leao-xiv-consagra-a-teologia-da-libertacao-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"DOCUMENTO DO PAPA LE\u00c3O XIV CONSAGRA A TEOLOGIA DA LIBERTA\u00c7\u00c3O. Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>DOCUMENTO DO PAPA LE\u00c3O XIV CONSAGRA A TEOLOGIA DA LIBERTA\u00c7\u00c3O<\/strong>. <strong>Por Frei Betto<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20201016freibetto1joaolaet-1024x682-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14786\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20201016freibetto1joaolaet-1024x682-1.jpg 1024w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20201016freibetto1joaolaet-1024x682-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20201016freibetto1joaolaet-1024x682-1-768x512.jpg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20201016freibetto1joaolaet-1024x682-1-420x280.jpg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Frei Betto. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica&nbsp;Dilexi Te&nbsp;(\u201cEu te amei\u201d), do Papa Le\u00e3o XIV, ressoa como sopro de esperan\u00e7a e significativa reafirma\u00e7\u00e3o do Evangelho vivido a partir dos pobres. No Brasil, onde a desigualdade social tem rosto, cor e territ\u00f3rio \u2014 o rosto das mulheres negras perif\u00e9ricas, o corpo exaurido dos trabalhadores informais, os povos ind\u00edgenas amea\u00e7ados, os jovens de favelas mortos pela viol\u00eancia \u2014, o conte\u00fado do documento n\u00e3o chega como novidade, e sim confirma\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo da caminhada hist\u00f3rica da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nesta \u201cExorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u201d, Le\u00e3o XIV desmascara todo o discurso que considera a exist\u00eancia dos pobres uma fatalidade e enfatiza a meritocracia como via de sa\u00edda da pobreza. Escreve o papa: \u201cOs pobres n\u00e3o existem por acaso ou por um cego e amargo destino. Muito menos a pobreza \u00e9 uma escolha para a maioria deles. No entanto, ainda h\u00e1 quem ouse afirm\u00e1-lo e, assim, demonstra cegueira e crueldade. Entre os pobres h\u00e1 tamb\u00e9m, obviamente, aqueles que n\u00e3o querem trabalhar, talvez porque os seus antepassados, que trabalharam toda a vida, morreram pobres. Mas h\u00e1 muitos homens e mulheres que trabalham de manh\u00e3 \u00e0 noite, recolhendo papel\u00e3o, por exemplo, ou realizando outras atividades semelhantes, embora saibam que este esfor\u00e7o servir\u00e1 apenas para sobreviver e nunca para melhorar verdadeiramente suas vidas. N\u00e3o podemos dizer que a maioria dos pobres est\u00e1 nessa situa\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o obteve \u201cm\u00e9ritos\u201d, de acordo com a falsa vis\u00e3o da meritocracia, segundo a qual parece que s\u00f3 tem m\u00e9rito aqueles que tiveram sucesso na vida.\u201d (14).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A partir do clamor dos pobres,&nbsp;Dilexi Te&nbsp;reafirma que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o pode ser separada do amor concreto, da justi\u00e7a social e da transforma\u00e7\u00e3o das estruturas que geram mis\u00e9ria e exclus\u00e3o. Essa mensagem encontra eco profundo na realidade brasileira, onde as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo perif\u00e9rico, o racismo estrutural, o patriarcado e a devasta\u00e7\u00e3o ambiental ferem diariamente parcela significativa de nosso povo e nossa Casa Comum.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Logo nos primeiros par\u00e1grafos, o documento recorda: \u201cDeus \u00e9 amor misericordioso, que se preocupa com a condi\u00e7\u00e3o humana e, portanto, com a pobreza\u201d (16). Essa op\u00e7\u00e3o divina tem express\u00e3o concreta na conjuntura brasileira. Aqui a pobreza n\u00e3o \u00e9 abstrata, manifesta-se na fome que ainda castiga milh\u00f5es de pessoas, na informalidade que consome as for\u00e7as de quem trabalha sem direitos, no abandono da juventude nas periferias, no desmatamento que expulsa povos origin\u00e1rios e ribeirinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quando a Exorta\u00e7\u00e3o afirma que \u201cDeus guarda em Seu cora\u00e7\u00e3o aqueles que s\u00e3o particularmente discriminados e oprimidos\u201d, fala ao cora\u00e7\u00e3o de uma Igreja que j\u00e1 ouviu esse mesmo apelo em Medell\u00edn (1968) e Puebla (1979), onde os bispos latino-americanos afirmaram a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres como exig\u00eancia da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste documento, o papa Le\u00e3o XIV denuncia a \u201cditadura de uma economia que mata\u201d. Essa frase, t\u00e3o direta, dialoga com a experi\u00eancia brasileira de um sistema que concentra renda, privatiza bens comuns e precariza vidas. O pa\u00eds mais cat\u00f3lico do mundo \u00e9 tamb\u00e9m um dos mais desiguais: 1% da popula\u00e7\u00e3o concentra quase 30% da riqueza nacional, enquanto multid\u00f5es sobrevivem sem acesso \u00e0 moradia, ao saneamento e \u00e0 seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Le\u00e3o XIV lembra que Santo&nbsp;Agostinho, que teve como seu mestre espiritual Santo Ambr\u00f3sio, insistia na exig\u00eancia \u00e9tica de partilhar os bens: \u00abN\u00e3o \u00e9 de tua propriedade aquilo que d\u00e1s ao pobre; \u00e9 dele. Porque tu te apropriaste do que foi dado para uso comum\u00bb.&nbsp;(43)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No Brasil, sabemos que a pobreza tem causas hist\u00f3ricas: a escravid\u00e3o, o racismo estrutural, a desigualdade de g\u00eanero, o latif\u00fandio e a l\u00f3gica de explora\u00e7\u00e3o que moldou nossa forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. A Exorta\u00e7\u00e3o desmente as ideologias que justificam a mis\u00e9ria como falha pessoal ou \u201cpregui\u00e7a\u201d: \u201cA pobreza n\u00e3o \u00e9 uma escolha para a maioria deles.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Essa \u00e9 a linguagem da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o: reconhecer o pecado n\u00e3o apenas em indiv\u00edduos, mas nas estruturas sociais de opress\u00e3o. Quando o papa fala de \u201cestruturas de injusti\u00e7a que criam pobreza e desigualdade extrema\u201d, ele legitima d\u00e9cadas de reflex\u00e3o teol\u00f3gica latino-americana que sempre viu a liberta\u00e7\u00e3o como transforma\u00e7\u00e3o das causas e n\u00e3o apenas al\u00edvio das consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para n\u00f3s, no Brasil, isso significa denunciar o agroneg\u00f3cio predat\u00f3rio que destr\u00f3i o Cerrado e a Amaz\u00f4nia, expulsando povos tradicionais; o racismo institucional que criminaliza a pobreza e transforma as periferias em zonas de exterm\u00ednio; a pol\u00edtica econ\u00f4mica excludente que sacrifica os mais vulner\u00e1veis para amealhar sempre mais lucros; a mercantiliza\u00e7\u00e3o da f\u00e9, que transforma o Evangelho em produto de consumo e promete prosperidade individual enquanto ignora a injusti\u00e7a coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u201cN\u00e3o se trata de levar Deus aos pobres, mas de encontr\u00e1-Lo ali.\u201d (79) Essa afirma\u00e7\u00e3o de&nbsp;Dilexi Te&nbsp;poderia ter sido escrita por Dom H\u00e9lder Camara, Pedro Casald\u00e1liga ou irm\u00e3 Dorothy Stang. Expressa o cora\u00e7\u00e3o da espiritualidade libertadora, para qual o povo n\u00e3o \u00e9 objeto de pastoral, mas sujeito hist\u00f3rico da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O documento valoriza os movimentos populares \u2014 camponeses, urbanos, ecol\u00f3gicos, ind\u00edgenas, de mulheres \u2014 como express\u00f5es concretas da busca por justi\u00e7a. No Brasil, isso significa reconhecer no MST, no MTST, nas centrais sindicais, nas pastorais sociais, nas CEBs, nas juventudes populares e nas organiza\u00e7\u00f5es negras e feministas o rosto do Evangelho vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Escreve Le\u00e3o XIV: \u201cEstes l\u00edderes populares sabem que a solidariedade consiste tamb\u00e9m em \u201clutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de casa, a nega\u00e7\u00e3o dos direitos sociais e laborais. \u00c9 fazer face aos efeitos destruidores do imp\u00e9rio do dinheiro [&#8230;]. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, \u00e9 uma forma de fazer hist\u00f3ria e \u00e9 isto que os movimentos populares fazem\u201d. (72)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;De fato, os movimentos populares convidam a superar \u201caquela ideia das pol\u00edticas sociais concebidas como uma pol\u00edtica para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que re\u00fana os povos\u201d. Se os pol\u00edticos e os profissionais n\u00e3o os ouvirem, \u201ca democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai se desencantando porque deixa de fora o povo na sua luta di\u00e1ria pela dignidade, na constru\u00e7\u00e3o do seu destino\u201d. (81)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u201cEu Te Amei\u201d&nbsp;afirma: \u201cA Igreja deve colocar-se ao lado dos pobres e empenhar-se ativamente pela sua promo\u00e7\u00e3o integral.\u201d Essa \u201cpromo\u00e7\u00e3o integral\u201d inclui n\u00e3o s\u00f3 p\u00e3o e casa, mas o direito \u00e0 cultura, \u00e0 f\u00e9, \u00e0 palavra, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u00c9 nesse sentido que o documento encontra eco nas experi\u00eancias das CEBs, nas Romarias da Terra e das \u00c1guas, na Pastoral da Juventude, nas Pastorais da Terra, Carcer\u00e1ria e dos Migrantes \u2014 espa\u00e7os onde a B\u00edblia \u00e9 lida \u00e0 luz da vida e onde o povo descobre que \u201cDeus est\u00e1 do lado dos pobres\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No Brasil, muitas vezes tenta-se defender que a f\u00e9 nada tem a ver com a pol\u00edtica (exceto quando de direita&#8230;).&nbsp;Dilexi Te rompe com essa falsa dicotomia ao assinalar que \u201cN\u00e3o se pode separar a f\u00e9 do amor pelos pobres.\u201d A f\u00e9 aut\u00eantica n\u00e3o se mede por doutrinas, mas pela pr\u00e1tica da justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O papa vai mais al\u00e9m ao afirmar que&nbsp;\u201co crist\u00e3o n\u00e3o pode considerar os pobres apenas como um problema social: eles s\u00e3o uma \u201cquest\u00e3o familiar\u201d. Pertencem \u201caos nossos\u201d. A rela\u00e7\u00e3o com eles n\u00e3o pode ser reduzida a uma atividade ou setor da Igreja. Como ensina a Confer\u00eancia de Aparecida, \u201csolicita-se dedicarmos tempo aos pobres, prestar a eles am\u00e1vel aten\u00e7\u00e3o, escut\u00e1-los com interesse, acompanh\u00e1-los nos momentos dif\u00edceis, escolh\u00ea-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossa vida, e procurando, a partir deles, a transforma\u00e7\u00e3o de sua situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos esquecer que o pr\u00f3prio Jesus prop\u00f4s isso com seu modo de agir e com suas palavras.\u201d (104)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o sempre enfatizou que o Reino de Deus \u00e9 uma utopia que se concretiza na hist\u00f3ria e desemboca no outro lado da vida, e que a salva\u00e7\u00e3o come\u00e7a aqui e agora, e a evangeliza\u00e7\u00e3o exige transforma\u00e7\u00e3o social. O documento papal confirma que o amor crist\u00e3o deve se traduzir em compromisso social, em a\u00e7\u00f5es que enfrentem as estruturas da exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No Brasil, isso implica uma pastoral que v\u00e1 al\u00e9m do assistencialismo e denuncie as causas da fome, participe da constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, defenda a democracia e os direitos humanos. A f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 fuga da realidade, mas luz e for\u00e7a para transform\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Algumas express\u00f5es da Exorta\u00e7\u00e3o soam como eco direto das dores e esperan\u00e7as do povo brasileiro: \u201cA op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres gera uma renova\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria na Igreja e na sociedade quando somos capazes de ouvir o seu clamor.\u201d (7) \u201cA op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, ou seja, o amor que a Igreja tem por eles, como ensinava S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, \u00e9 decisivo e pertence \u00e0 sua constante tradi\u00e7\u00e3o, impele-a a dirigir-se ao mundo no qual, apesar do progresso t\u00e9cnico-econ\u00f4mico, a pobreza amea\u00e7a assumir formas gigantescas\u201d. A realidade \u00e9 que para os crist\u00e3os os pobres n\u00e3o s\u00e3o uma categoria sociol\u00f3gica, mas a pr\u00f3pria carne de Cristo.\u201d (110)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esses trechos, quando proclamados em nossas comunidades, podem reacender o ardor mission\u00e1rio e pastoral que marcou a caminhada da Igreja no Brasil \u2014 aquela que Dom Paulo Evaristo Arns chamava de \u201cIgreja dos pobres e com os pobres\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A&nbsp;Dilexi Te&nbsp;n\u00e3o \u00e9 apenas um texto de reflex\u00e3o, mas um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o pastoral. No Brasil, essa a\u00e7\u00e3o pode se traduzir em passos concretos, como a forma\u00e7\u00e3o b\u00edblico-popular: retomar a leitura orante da B\u00edblia \u00e0 luz da realidade, fortalecendo C\u00edrculos B\u00edblicos, comunidades de base e pastorais sociais que atuam junto aos pobres e marginalizados. E tamb\u00e9m estimular a economia solid\u00e1ria e ecol\u00f3gica, e promover iniciativas que articulem f\u00e9, trabalho digno e cuidado da Cria\u00e7\u00e3o. Multiplicar a educa\u00e7\u00e3o popular para a forma\u00e7\u00e3o da cidadania, de modo a despertar no povo a consci\u00eancia de seus direitos. Defender os povos ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhos, reconhecendo neles a voz prof\u00e9tica que clama pela Terra e pela vida. E intensificar a presen\u00e7a da Igreja nas periferias, onde as par\u00f3quias devem ser centros de solidariedade, de partilha e de escuta.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dilexi Te&nbsp;convida a uma Igreja \u201cem sa\u00edda\u201d, que abandone o conforto das sacristias e caminhe com o povo.&nbsp;No Brasil, onde a pobreza \u00e9 estrutural e a f\u00e9 \u00e9 popular, o documento pontif\u00edcio chega como refor\u00e7o e confirma\u00e7\u00e3o da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, que nos lembra que o amor de Deus \u00e9 revolucion\u00e1rio, rompe as cadeias da indiferen\u00e7a e denuncia as causas da injusti\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ser crist\u00e3o, \u00e0 luz dessa Exorta\u00e7\u00e3o, \u00e9 estar do lado dos pobres, n\u00e3o por ideologia, mas por fidelidade a Jesus, o Pobre de Nazar\u00e9. \u00c9 deixar-se evangelizar pelos simples, lutar por justi\u00e7a, defender a vida, cuidar da Casa Comum e anunciar que outro mundo \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dilexi Te&nbsp;legitima essa \u201csubvers\u00e3o do amor\u201d ao nos recordar que o amor crist\u00e3o \u00e9 libertador, porque n\u00e3o aceita a mis\u00e9ria, n\u00e3o se conforma com a exclus\u00e3o e n\u00e3o se cala diante da opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tomara que nossas comunidades, inspiradas por este documento papal, sigam construindo um Brasil justo e solid\u00e1rio, onde cada pessoa possa ouvir, n\u00e3o como promessa distante, mas como realidade vivida, as palavras do pr\u00f3prio Deus: \u201cEu Te amei \u2014&nbsp;Dilexi Te&nbsp;\u2014 e continuo Te amando no rosto dos pobres\u201d (Apocalipse&nbsp;3,9).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei Betto \u00e9 escritor, autor da tetralogia sobre os evangelhos \u2013&nbsp;Jesus Militante&nbsp;(Marcos);&nbsp;Jesus Rebelde&nbsp;(Mateus);&nbsp;Jesus Revolucion\u00e1rio&nbsp;(Lucas); e&nbsp;Jesus Amoroso&nbsp;(Jo\u00e3o) -, editado pela Vozes, entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;freibetto.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOCUMENTO DO PAPA LE\u00c3O XIV CONSAGRA A TEOLOGIA DA LIBERTA\u00c7\u00c3O. Por Frei Betto[1] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica&nbsp;Dilexi Te&nbsp;(\u201cEu te amei\u201d), do Papa Le\u00e3o XIV, ressoa como sopro de esperan\u00e7a e significativa reafirma\u00e7\u00e3o do Evangelho vivido a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14786,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,17,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14785","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-destaque","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14785","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14785"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14785\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14787,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14785\/revisions\/14787"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14786"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14785"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14785"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14785"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}