{"id":14840,"date":"2025-10-22T17:23:46","date_gmt":"2025-10-22T20:23:46","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14840"},"modified":"2025-11-01T21:01:47","modified_gmt":"2025-11-02T00:01:47","slug":"acolher-o-estrangeiro-imperativo-divino-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/acolher-o-estrangeiro-imperativo-divino-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"ACOLHER O ESTRANGEIRO, IMPERATIVO DIVINO. Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>ACOLHER O ESTRANGEIRO, IMPERATIVO DIVINO<\/strong>. Por Frei Betto<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"686\" height=\"386\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/hq720.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14841\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/hq720.jpg 686w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/hq720-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O modo como o atual governo do Estado de Israel ataca os palestinos em Gaza e na Cisjord\u00e2nia, causando o genoc\u00eddio de mais de 60 mil pessoas e condenando \u00e0 fome e ao desterro os demais, n\u00e3o encontra fundamento na Tor\u00e1 ou no Primeiro Testamento.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A narrativa b\u00edblica revela um aspecto profundamente humano e espiritual na forma\u00e7\u00e3o do povo hebreu: a consci\u00eancia de que sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria foi marcada pela experi\u00eancia do acolhimento ao estrangeiro. Desde os primeiros patriarcas \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de Israel como na\u00e7\u00e3o, os hebreus viveram como forasteiros em terras alheias, sujeitos \u00e0 hospitalidade ou rejei\u00e7\u00e3o dos povos entre os quais habitavam. Essa mem\u00f3ria coletiva da vulnerabilidade tornou-se fundamento moral e teol\u00f3gico de seu relacionamento com o \u201cger\u201d, o estrangeiro, dentro de suas fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A lei mosaica e os profetas recordavam com insist\u00eancia que o tratamento justo e compassivo aos estrangeiros n\u00e3o era apenas ato de generosidade, mas mandamento divino. Deus, que libertou Israel da opress\u00e3o do Egito, exigia que o povo reproduzisse em suas rela\u00e7\u00f5es sociais o mesmo amor e compaix\u00e3o que d\u2019Ele havia recebido. Assim, o acolhimento do estrangeiro tornou-se express\u00e3o concreta da fidelidade \u00e0 alian\u00e7a com Jav\u00e9 e um reflexo do Seu car\u00e1ter justo e misericordioso.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A identidade de Israel nasce do \u00eaxodo, da passagem da escravid\u00e3o \u00e0 liberdade, e dessa experi\u00eancia brota uma \u00e9tica da lembran\u00e7a. Diversas vezes, a Tor\u00e1 relembra: \u201cN\u00e3o explore o imigrante nem o oprima, porque voc\u00eas foram imigrantes no Egito.\u201d (\u00caxodo 22,21; 23,9). Essa ordem se repete em Deuteron\u00f4mio 10,19: \u201cAmem o imigrante, porque voc\u00eas foram imigrantes no Egito.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essas passagens mostram que o cuidado com o estrangeiro n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o circunstancial ou meramente pol\u00edtica, mas exig\u00eancia espiritual. O povo que fora objeto da compaix\u00e3o divina \u00e9 convocado a reproduzir esse mesmo amor. A mem\u00f3ria do sofrimento e da depend\u00eancia de hospitalidade alheia deveria gerar empatia, justi\u00e7a e solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A legisla\u00e7\u00e3o mosaica, portanto, faz da hospitalidade uma norma religiosa. O estrangeiro n\u00e3o deve ser explorado economicamente nem tratado com desprezo. Deve ter acesso aos mesmos direitos b\u00e1sicos de prote\u00e7\u00e3o e subsist\u00eancia. Lev\u00edtico 19,33-34 expressa isso de maneira exemplar: \u201cQuando um imigrante habitar com voc\u00eas no pa\u00eds, n\u00e3o o oprimam. O imigrante ser\u00e1 para voc\u00eas um concidad\u00e3o: voc\u00ea o amar\u00e1 como a si mesmo, porque voc\u00eas foram imigrantes no Egito.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muito antes da codifica\u00e7\u00e3o da Lei, a hospitalidade aparece como virtude primordial entre os patriarcas. Abra\u00e3o, ao acolher tr\u00eas visitantes desconhecidos junto ao carvalho de Mambr\u00e9 (G\u00eanesis 18), ofereceu-lhes \u00e1gua, descanso e alimento, sem saber que eram mensageiros divinos. A narrativa \u00e9 emblem\u00e1tica por fazer do acolhimento ao estrangeiro lugar de encontro com o pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No contexto cultural do Oriente antigo, oferecer abrigo e comida ao viajante era dever sagrado e negar hospitalidade visto como grave ofensa moral. Em Abra\u00e3o, essa pr\u00e1tica adquire significado teol\u00f3gico. Deus se manifesta na alteridade. O estrangeiro, o desconhecido, pode ser portador da b\u00ean\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Tor\u00e1 coloca o estrangeiro dentro da estrutura legal da sociedade israelita. Em Lev\u00edtico, Deuteron\u00f4mio e N\u00fameros, o \u201cger\u201d aparece constantemente associado aos \u00f3rf\u00e3os e vi\u00favas &#8211; grupos vulner\u00e1veis que dependiam da solidariedade comunit\u00e1ria. O estrangeiro deveria ter direito \u00e0 parte das colheitas deixadas nos campos (Lev\u00edtico 19,9-10), ao repouso sab\u00e1tico (\u00caxodo 20,10), e \u00e0 justi\u00e7a imparcial (Deuteron\u00f4mio 24,17).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A lei de colheita, por exemplo, determinava que o agricultor deixasse as espigas ca\u00eddas ou as bordas da planta\u00e7\u00e3o acess\u00edveis ao estrangeiro e ao necessitado. Era uma forma de garantir a subsist\u00eancia e preservar a dignidade de quem n\u00e3o possu\u00eda terra nem recursos pr\u00f3prios. Essa disposi\u00e7\u00e3o mostra que, na vis\u00e3o de Deus, o estrangeiro n\u00e3o deve ser apenas tolerado, mas integrado \u00e0 vida econ\u00f4mica e religiosa da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, os estrangeiros eram convidados a participar de certas efem\u00e9rides religiosas, como a Festa dos Tabern\u00e1culos (Deuteron\u00f4mio 16,14), s\u00edmbolo de comunh\u00e3o e gratid\u00e3o coletiva. Era inclu\u00eddo na adora\u00e7\u00e3o ao mesmo Deus, como parte da comunidade da alian\u00e7a &#8211; ainda que n\u00e3o fosse etnicamente israelita.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando Israel se afastava desse ideal e ca\u00eda na opress\u00e3o e no exclusivismo, os profetas levantavam a voz. Jeremias, Ezequiel, Isa\u00edas e Malaquias denunciam o desprezo pelos estrangeiros como sinal de corrup\u00e7\u00e3o moral e infidelidade \u00e0 alian\u00e7a. Jeremias 7,6 adverte: \u201cSe n\u00e3o oprimirem o estrangeiro, o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava, e n\u00e3o derramarem sangue inocente neste lugar, ent\u00e3o deixarei voc\u00eas habitarem neste lugar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para os profetas, a injusti\u00e7a social, incluindo o tratamento discriminat\u00f3rio aos estrangeiros, era tida como ofensa direta a Deus. A f\u00e9 aut\u00eantica n\u00e3o pode coexistir com a exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Deus do Primeiro Testamento n\u00e3o \u00e9 tribal nem parcial. Ele se apresenta como o Criador de todos os povos e Juiz de toda a Terra. Sua justi\u00e7a \u00e9 universal, e Sua miseric\u00f3rdia se estende al\u00e9m das fronteiras \u00e9tnicas ou culturais. O preconceito, a discrimina\u00e7\u00e3o e a exclus\u00e3o contrariam o pr\u00f3prio car\u00e1ter de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O estrangeiro, na perspectiva b\u00edblica, \u00e9 uma oportunidade de exercer amor, humildade e f\u00e9. A abertura ao outro \u00e9 sinal de confian\u00e7a em Deus, n\u00e3o de amea\u00e7a. A comunidade que acolhe o diferente reflete a presen\u00e7a divina; a que o rejeita, afasta-se da alian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A exig\u00eancia divina de respeito e acolhimento do estrangeiro antecipa o ideal que mais tarde se tornaria central na mensagem de Cristo: o amor ao pr\u00f3ximo sem distin\u00e7\u00e3o. Assim, o Primeiro Testamento n\u00e3o \u00e9 um texto de isolamento \u00e9tnico, mas de inclus\u00e3o \u00e9tica. Ensina que o verdadeiro povo de Deus \u00e9 reconhecido n\u00e3o por fronteiras, mas por compaix\u00e3o e justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O acolhimento aos estrangeiros na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 mais que um gesto de bondade: \u00e9 um mandamento que expressa a pr\u00f3pria natureza de Deus e a voca\u00e7\u00e3o moral de Israel. O povo que conheceu a dor da opress\u00e3o foi chamado a ser sinal de miseric\u00f3rdia e justi\u00e7a no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na raiz da f\u00e9 hebraica est\u00e1 a lembran\u00e7a de que todos somos, em algum sentido, estrangeiros \u2014 peregrinos na terra de Deus. O mandamento de amar o estrangeiro, portanto, \u00e9 tamb\u00e9m um convite \u00e0 humildade: reconhecer no outro, mesmo no diferente, o reflexo da imagem divina. Em tempos de novas fronteiras e velhos preconceitos, essa antiga sabedoria continua a ecoar como palavra viva e necess\u00e1ria: \u201cO Senhor ama o estrangeiro, dando-lhe p\u00e3o e roupa; portanto, ame o estrangeiro.\u201d (Deuteron\u00f4mio 10,18-19).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso do territ\u00f3rio onde se encontram hoje os habitantes judeus do Estado de Israel e as comunidades palestinenses de Gaza e da Cisjord\u00e2nia, os estrangeiros s\u00e3o, a rigor, os israelenses. Muito antes de invadirem a regi\u00e3o, a partir do s\u00e9culo XIII a.C., como descreve o Livro de Josu\u00e9, era habitada pelos povos semitas. Os atuais palestinos s\u00e3o descendentes dos cananeus e filisteus, povos semitas que ali viviam desde tempos remotos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei Betto \u00e9 escritor, autor da tetralogia sobre os evangelhos \u2013 Jesus Militante (Marcos), Jesus Rebelde (Mateus), Jesus Revolucion\u00e1rio(Lucas) e Jesus Amoroso (Jo\u00e3o) \u2013 editada pela Vozes, entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ACOLHER O ESTRANGEIRO, IMPERATIVO DIVINO. 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