{"id":14847,"date":"2025-11-02T20:57:33","date_gmt":"2025-11-02T23:57:33","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14847"},"modified":"2025-11-02T21:00:37","modified_gmt":"2025-11-03T00:00:37","slug":"o-massacre-no-rio-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-massacre-no-rio-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"O MASSACRE NO RIO &#8211; Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O MASSACRE NO RIO<\/strong> &#8211; Por Frei Betto<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/images.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14848\" width=\"702\" height=\"442\"\/><figcaption>Frei Betto<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Houve um tempo em que o Rio de Janeiro era qualificado de \u201cCidade Maravilhosa\u201d. Hoje, o apelido soa como ironia amarga diante das chamas que consumiram quase cem \u00f4nibus, das ruas sitiadas e do medo que paralisou milh\u00f5es de pessoas. O Comando Vermelho disseminou o terror, e o Estado respondeu com o mesmo idioma da barb\u00e1rie: balas, cerco e corpos espalhados. Ao fim, cento e vinte e uma vidas se perderam, entre elas, quatro policiais mortos.&nbsp;&nbsp;Nenhum dos mortos consta na den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio que motivou a opera\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 At\u00e9 a noite de sexta, 109 corpos haviam sido identificados. A maioria pertencia a foragidos e integrantes do CV vindos de outros estados: 78 tinham passagens por tr\u00e1fico, roubo e assassinato; 43 tinham mandados de pris\u00e3o; 39 eram de outros estados. <strong>Trinta \u00a0mortos identificados n\u00e3o tinham sequer passagem pela pol\u00edcia<\/strong>. Todos, culpados ou n\u00e3o, foram tragados pelo mesmo vendaval de viol\u00eancia que reduz a cidade a zona de guerra. A Gaza dos tr\u00f3picos!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Essas mortes n\u00e3o come\u00e7aram no dia da chacina. Come\u00e7aram h\u00e1 d\u00e9cadas, quando o abandono foi oficializado como pol\u00edtica p\u00fablica. Come\u00e7aram quando se privatizou o direito \u00e0 paz e se terceirizou a seguran\u00e7a \u00e0s fac\u00e7\u00f5es. Come\u00e7aram quando o Estado trocou o cuidado pela guerra, a escola pela pris\u00e3o, o di\u00e1logo pelo fuzil.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O narcotr\u00e1fico n\u00e3o brota do nada. Nasce onde o Estado nunca plantou esperan\u00e7a. Cresce na aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, floresce entre muros rachados e becos sem saneamento, alimenta-se da desigualdade e da humilha\u00e7\u00e3o. As fac\u00e7\u00f5es s\u00e3o o espelho deformado do capitalismo brasileiro: hier\u00e1rquico, violento, sedento de lucro e controle. O traficante \u00e9 o empres\u00e1rio da ru\u00edna, e o consumidor dos bairros ricos seu investidor invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>N\u00e3o h\u00e1 o que celebrar. Uma opera\u00e7\u00e3o que termina com 121 mortos n\u00e3o \u00e9 vit\u00f3ria, \u00e9 derrota civilizat\u00f3ria. O Estado n\u00e3o pode combater o crime reproduzindo sua l\u00f3gica. A cada incurs\u00e3o policial em que a favela \u00e9 tratada como campo inimigo, a dist\u00e2ncia entre o poder p\u00fablico e o povo aumenta. N\u00e3o se constr\u00f3i paz sobre o ch\u00e3o ensanguentado da periferia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O narcotr\u00e1fico \u00e9, sim, um flagelo. E cresce onde o Estado nunca chegou com seguran\u00e7a aos moradores e pol\u00edticas p\u00fablicas. As 1.900 favelas cariocas sofrem a insufici\u00eancia de escolas, saneamento, transporte, cultura, atividades esportivas, emprego e perspectiva de vida. As fac\u00e7\u00f5es ocupam o vazio deixado por d\u00e9cadas de omiss\u00e3o governamental. S\u00e3o o espelho perverso de um sistema que exclui, humilha e depois criminaliza os exclu\u00eddos. O traficante, muitas vezes, \u00e9 o produto final de uma pol\u00edtica que trocou direitos por fuzis e pol\u00edticas sociais por opera\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A viol\u00eancia virou rotina, e a brutalidade se institucionalizou. O governo fala em \u201ca\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a\u201d, mas que seguran\u00e7a h\u00e1 em metralhar comunidades inteiras? A seguran\u00e7a p\u00fablica, no Rio, virou gest\u00e3o de cad\u00e1veres. A cada chacina, repete-se o mesmo roteiro: promessas de \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o rigorosa\u201d, notas frias de gabinete e o sil\u00eancio que cobre a cidade quando as c\u00e2meras da m\u00eddia v\u00e3o embora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>Estudiosos do tema s\u00e3o un\u00e2nimes em admitir que n\u00e3o se destr\u00f3i fac\u00e7\u00e3o com fuzil, e sim com pol\u00edticas p\u00fablicas. A guerra \u00e0s drogas fracassa porque n\u00e3o \u00e9 um combate \u00e0s drogas, \u00e9 guerra aos pobres. A cada morte, a favela se torna ainda mais vulner\u00e1vel, o tr\u00e1fico se reorganiza, e o ciclo recome\u00e7a. O verdadeiro inimigo n\u00e3o \u00e9 o jovem armado, mas a aus\u00eancia de Estado que o empurrou para isso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O Rio, sitiado e queimado, assiste ao colapso de suas maiores riquezas, como o turismo, a beleza da paisagem, o bom humor do carioca. Nenhuma cidade sobrevive quando a morte se torna rotina e a injusti\u00e7a persiste. Beleza somente n\u00e3o p\u00f5e mesa, e o cart\u00e3o-postal desbota diante da dor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>Mas h\u00e1 quem resista. M\u00e3es que enterram filhos e ainda erguem faixas nas pra\u00e7as. Cidad\u00e3os que filmam, denunciam, documentam. Gente que, entre o medo e o luto, ainda acredita na vida. S\u00e3o esses os guardi\u00f5es do Rio que resta, o Rio que n\u00e3o se rende.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Os 121 mortos n\u00e3o s\u00e3o apenas n\u00fameros. S\u00e3o o espelho de um pa\u00eds que perdeu o rumo, confunde justi\u00e7a com vingan\u00e7a, e seguran\u00e7a com exterm\u00ednio. <strong>O Brasil precisa escolher: continuar contabilizando corpos tombados pela viol\u00eancia urbana ou finalmente governar para a vida de todos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>S\u00f3 haver\u00e1 paz quando o Estado for presen\u00e7a de direitos, n\u00e3o de morte. S\u00f3 haver\u00e1 futuro quando a favela deixar de ser territ\u00f3rio inimigo. S\u00f3 haver\u00e1 Rio de Janeiro de novo quando a cidade se lembrar de que \u00e9 feita de gente, e gente n\u00e3o \u00e9 descart\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por quem choram as m\u00e3es dos jovens assassinados? Choram ao ver sonhos desfeitos pela letalidade policial e pelo equ\u00edvoco de se buscar na criminalidade a escalada para uma vida melhor. Choram sobretudo por um pa\u00eds que perdeu o senso de justi\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>O axioma\u00a0\u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d\u00a0significa\u00a0barb\u00e1rie travestida de justi\u00e7a.\u00a0Ele nega o Estado de Direito, despreza a dignidade humana e substitui a lei e os direitos por vingan\u00e7a. Ao defender o assassinato em vez de reabilita\u00e7\u00e3o e combate \u00e0s causas do tr\u00e1fico de drogas e de armas, esse pensamento\u00a0fortalece a viol\u00eancia que diz combater\u00a0e\u00a0fragiliza a pr\u00f3pria sociedade civilizada.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor do romance policial &nbsp;\u201cHotel Brasil\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;freibetto.org<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Assine e receba todos os artigos do autor: mhgpal@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O MASSACRE NO RIO &#8211; Por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Houve um tempo em que o Rio de Janeiro era qualificado de \u201cCidade Maravilhosa\u201d. Hoje, o apelido soa como ironia amarga diante das chamas que consumiram quase<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14848,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-14847","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14847","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14847"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14847\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14851,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14847\/revisions\/14851"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14848"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14847"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14847"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14847"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}