{"id":14852,"date":"2025-11-04T07:58:47","date_gmt":"2025-11-04T10:58:47","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14852"},"modified":"2025-11-04T15:47:32","modified_gmt":"2025-11-04T18:47:32","slug":"na-vida-religiosa-consagrada-moderna-o-ridiculo-tambem-usa-habito-por-julio-cesar-meazza-lima-ir-pascal-obl-osb","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/na-vida-religiosa-consagrada-moderna-o-ridiculo-tambem-usa-habito-por-julio-cesar-meazza-lima-ir-pascal-obl-osb\/","title":{"rendered":"NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA MODERNA, O RID\u00cdCULO TAMB\u00c9M USA H\u00c1BITO \u2013 Por Julio Cesar Meazza Lima (Ir. Pascal, Obl. OSB)"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA MODERNA, O RID\u00cdCULO TAMB\u00c9M USA H\u00c1BITO \u2013 Por <\/strong>Julio Cesar Meazza Lima (Ir. Pascal, Obl. OSB)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/CRB-Mensagem.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14853\" width=\"702\" height=\"385\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/CRB-Mensagem.jpg 584w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/CRB-Mensagem-300x164.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 702px) 100vw, 702px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>(Estou ciente dos v\u00e1rios riscos, sob diferentes aspectos, ao compartilhar a reflex\u00e3o que segue. Fa\u00e7o-o, contudo, movido pela inquieta\u00e7\u00e3o diante da prolifera\u00e7\u00e3o de certas atitudes travestidas de sagrado.)<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1bito ou fantasia? Tradi\u00e7\u00e3o ou caricatura? O que acontece quando um s\u00edmbolo de ren\u00fancia vira figurino de vaidade, ostenta\u00e7\u00e3o e performance, tanto nas redes sociais quanto no cotidiano? Na era da superexposi\u00e7\u00e3o, onde o que n\u00e3o \u00e9 visto parece n\u00e3o existir, at\u00e9 o sagrado precisa recriar seu perfil, mas isso n\u00e3o isenta ningu\u00e9m do cuidado, da coer\u00eancia e da autocr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno que se observa \u00e9 o engajamento de seminaristas e padres, religiosas e religiosos em coreografias e trends esdr\u00faxulas, para dizer o m\u00ednimo, fazendo piadas em reels ou jogando futebol com a batina amarrada na cintura, atitudes que ganham enorme visibilidade nas redes sociais, mas que refletem um comportamento j\u00e1 visto na vida cotidiana, conventual e paroquial.<\/p>\n\n\n\n<p>A inadequa\u00e7\u00e3o, contudo, torna-se ainda mais flagrante quando o fazem usando paramentos lit\u00fargicos, pois o uso dessas vestimentas espec\u00edficas n\u00e3o deve ser encarado como um mero traje de trabalho. Banaliz\u00e1-los \u00e9 ignorar o que representam.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso, portanto, n\u00e3o \u00e9 mero detalhe pitoresco. \u00c9 um profundo esvaziamento simb\u00f3lico e o sintoma agu\u00e7ado de uma crise de identidade, que n\u00e3o \u00e9 apenas pessoal, mas institucional, onde a ordem ou congrega\u00e7\u00e3o religiosa, a diocese ou o semin\u00e1rio, por medo de se tornarem irrelevantes, incentivam ou permitem esse tipo de comportamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Como, ent\u00e3o, compreender o dito amor pelo h\u00e1bito e o desejo de diferenciar-se por seu uso, ao mesmo tempo em que se tenta igualar-se a qualquer um que n\u00e3o o usa? A resposta, na verdade, \u00e9 um paradoxo. E o resultado dessa tens\u00e3o \u00e9 a neutraliza\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo.<\/p>\n\n\n\n<p>O h\u00e1bito e a batina, para muitos, deixaram de ser sinais de consagra\u00e7\u00e3o para se tornarem figurinos de performance que, ironicamente, buscam aplausos justamente daquilo contra o que deveriam alertar: a vaidade. Puxado pelo desejo simult\u00e2neo de ser sagrado e popular, o s\u00edmbolo \u00e9 anulado e perde sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada aqui \u00e9 novo. Em ess\u00eancia, \u00e9 a mesma cr\u00edtica que Jesus fazia aos fariseus, cujo problema, necessariamente, n\u00e3o era o uso dos s\u00edmbolos de piedade, mas a sua amplifica\u00e7\u00e3o e ostenta\u00e7\u00e3o, ou seja, o alargar das faixas na testa e nos bra\u00e7os e o alongar das franjas, feito unicamente &#8220;para serem vistos pelos outros&#8221; (cf. Mateus 23:5). \u00c9 a troca da consagra\u00e7\u00e3o pela performance. A pra\u00e7a p\u00fablica onde se buscava a sauda\u00e7\u00e3o \u00e9 o feed onde se mendiga o like. O esvaziamento do s\u00edmbolo \u00e9 o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa invers\u00e3o \u00e9 um problema porque, historicamente, o argumento para uma vestimenta exclusivamente religiosa era o diferenciar-se. Ela era uma fronteira vis\u00edvel entre o sagrado e o secular; um testemunho silencioso de que aquela pessoa vivia, ou aspirava viver, sob um conjunto diferente de valores. Sua for\u00e7a estava numa inadequa\u00e7\u00e3o deliberada. De muitos modos, ele apontava para o transcendente. Era um uniforme de ren\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A vestimenta evangeliza pela est\u00e9tica. Partindo desse princ\u00edpio, \u00e9 preciso ponderar que o zelo pela visibilidade da voca\u00e7\u00e3o se expressa de forma plena e, por vezes, mais prof\u00e9tica, atrav\u00e9s do traje comum e secular. Para muitos, esta \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica consciente, isto \u00e9, buscar a identifica\u00e7\u00e3o profunda com o cotidiano das pessoas, especialmente das mais empobrecidas, suas causas e suas lutas. Nesse gesto, a busca n\u00e3o \u00e9 por igualar-se, mas identificar-se com a humanidade concreta e sofredora do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento, por\u00e9m, em que se faz a op\u00e7\u00e3o de usar vestimentas exclusivamente religiosas como h\u00e1bito, batina, clergyman, essa escolha pede uma postura diferenciada e explicitamente adequada ao que se veste. Se uma op\u00e7\u00e3o pelo s\u00edmbolo vis\u00edvel da diferen\u00e7a \u00e9 feita, tamb\u00e9m se deve optar por posturas que lhe sejam explicitamente afins.<\/p>\n\n\n\n<p>O religioso midiatizado compreendeu que, no mercado da aten\u00e7\u00e3o, ele precisa de um diferencial. O h\u00e1bito tornou-se sua marca, sua identidade visual. \u00c9 o que o faz ser notado na disputa pela aten\u00e7\u00e3o, seja ela online ou ao vivo. Mas essa ferramenta de marketing pessoal tem um custo, e esse custo \u00e9 a pr\u00f3pria alma do s\u00edmbolo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s capturar a aten\u00e7\u00e3o com o diferente, sente-se a necessidade imediata de ser aceito, de gerar engajamento. Na esfera p\u00fablica atual, a moeda de troca \u00e9 o igualar-se. O religioso precisa provar que \u00e9 gente como a gente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que a estrat\u00e9gia implode. Para se igualar, ele adota o comportamento mais banal do mundo secular: a dancinha esdr\u00faxula, o esporte perform\u00e1tico. O religioso quer os dois mundos, ou seja, a autoridade simb\u00f3lica do sagrado conferida pela vestimenta e a aprova\u00e7\u00e3o popular do profano conferida pelos aplausos e likes, numa tentativa de anima\u00e7\u00e3o vocacional \u00e0s avessas. Nessa troca, a autoridade \u00e9 inevitavelmente devorada pela popularidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 a dessacraliza\u00e7\u00e3o. O h\u00e1bito, que deveria restringir certos comportamentos, torna-se irrelevante. A velha m\u00e1xima de que &#8220;n\u00e3o se vai onde o h\u00e1bito n\u00e3o for adequado&#8221;, um freio que validava o s\u00edmbolo, evaporou. O h\u00e1bito funcionava como uma clausura port\u00e1til, um lembrete vis\u00edvel de um espa\u00e7o interior que devia ser preservado. Se hoje o h\u00e1bito pode estar em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, ele n\u00e3o significa mais nada. Voltou a ser apenas um pano. Ent\u00e3o, por que continuar usando-o?<\/p>\n\n\n\n<p>Para us\u00e1-lo assim, como um pano banalizado, talvez fosse melhor, de fato, n\u00e3o o usar. A \u00fanica justificativa para manter o s\u00edmbolo \u00e9 resgatar sua for\u00e7a original, vivendo a coer\u00eancia que ele exige e pela qual o mundo, sedento de autenticidade, ainda anseia, o que n\u00e3o significa rigorismo triste, f\u00e9 sisuda, cara de vinagre ou carisma de m\u00famia.<\/p>\n\n\n\n<p>A desculpa da humaniza\u00e7\u00e3o, que muitas vezes \u00e9 usada para justificar essa banaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 falha. N\u00e3o se trata, evidentemente, de condenar a presen\u00e7a no mundo digital, que \u00e9 um campo de apostolado fecundo, nem de exigir que o religioso seja um anjo et\u00e9reo. Mas a humaniza\u00e7\u00e3o que se espera dele n\u00e3o \u00e9 a trivialidade superficial, por vezes ing\u00eanua, outras, rid\u00edcula, travestida de proximidade. A humaniza\u00e7\u00e3o aut\u00eantica \u00e9 a proximidade, a miseric\u00f3rdia, a profundidade, a escuta; \u00e9 a humanidade que se revela na luta, na d\u00favida compartilhada, na caridade que n\u00e3o \u00e9 performance, mas servi\u00e7o an\u00f4nimo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o raro, ali\u00e1s, a mesma figura que se entrega \u00e0 performance banal \u00e9 a que, em outro momento, revela o oposto exato da miseric\u00f3rdia, isto \u00e9, o discurso de \u00f3dio e o preconceito. Ambas as atitudes, o rid\u00edculo e a agress\u00e3o, provam ser, assim, manifesta\u00e7\u00f5es da mesma crise de identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O sentido que enfatizava o Papa Francisco ao dizer que &#8220;onde h\u00e1 os consagrados, h\u00e1 alegria,\u201d \u00e9 o da alegria que brota da convic\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o do engajamento f\u00e1cil; n\u00e3o \u00e9 o da trend viral, nem das risadinhas e brincadeirinhas ing\u00eanuas divulgadas como sin\u00f4nimo de voca\u00e7\u00e3o feliz e consagra\u00e7\u00e3o descolada. Ao trocar a profundidade pela performance viral, o religioso n\u00e3o eleva o mundo, ele apenas se rebaixa \u00e0 sua banalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso nos leva \u00e0 dimens\u00e3o da ostenta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9, necessariamente, material, embora tamb\u00e9m o seja, especialmente por parte do clero. \u00c9 uma ostenta\u00e7\u00e3o de relev\u00e2ncia. \u00c9 o p\u00e2nico de se tornar irrelevante na sociedade do espet\u00e1culo, metamorfoseado no consagrado-show.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, o velho argumento de que &#8220;o h\u00e1bito n\u00e3o faz o monge\u201d ganha um novo sentido. Hoje, o h\u00e1bito n\u00e3o faz o monge porque o pr\u00f3prio monge est\u00e1 tratando o h\u00e1bito como fantasia. Quando um s\u00edmbolo de eternidade \u00e9 usado para mendigar a aprova\u00e7\u00e3o do ef\u00eamero, seja um like ou aplauso f\u00e1cil, ele se torna, de fato, rid\u00edculo, caricato e buf\u00e3o. \u00c9 a disson\u00e2ncia cognitiva de ver um sinal do transcendente sendo usado para celebrar o trivial. \u00c9 o sagrado pedindo licen\u00e7a ao banal para poder existir.<\/p>\n\n\n\n<p>COMUNIDADE DA VIG\u00cdLIA<\/p>\n\n\n\n<p>Em busca da paz pela n\u00e3o viol\u00eancia ativa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA MODERNA, O RID\u00cdCULO TAMB\u00c9M USA H\u00c1BITO \u2013 Por Julio Cesar Meazza Lima (Ir. Pascal, Obl. OSB) (Estou ciente dos v\u00e1rios riscos, sob diferentes aspectos, ao compartilhar a reflex\u00e3o que segue. 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