{"id":14908,"date":"2025-12-06T09:54:28","date_gmt":"2025-12-06T12:54:28","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14908"},"modified":"2025-12-06T10:06:16","modified_gmt":"2025-12-06T13:06:16","slug":"14908-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/14908-2\/","title":{"rendered":"Nic\u00e9ia, Jesus e a decolonialidade. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p>N<strong>ic\u00e9ia, Jesus e a decolonialidade<\/strong>. Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>No final deste m\u00eas de novembro, Le\u00e3o XIV fez a sua primeira viagem como papa. Foi a Iznic, antiga Nic\u00e9ia, a 130 km de Istambul. Ali, h\u00e1 1700 anos, ocorreu o que se considerou o 1\u00ba conc\u00edlio ecum\u00eanico da Igreja. Neste conc\u00edlio, foi composto o Credo, comum a todo o Cristianismo. De fato, a recorda\u00e7\u00e3o de Nic\u00e9ia nos faz reviver tempos nos quais as Igrejas eram diversas, em cada local, mas ainda n\u00e3o se tinham dividido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter um Credo comum a todas as Igrejas foi \u00f3timo, mas, ao fazer isso, Nic\u00e9ia levou \u00e0 Igreja a definir a f\u00e9 pela express\u00e3o dogm\u00e1tica. N\u00e3o fez distin\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e uma express\u00e3o da f\u00e9. Al\u00e9m disso, privilegiou o dogma e n\u00e3o a pr\u00e1tica, ou seja, a ades\u00e3o ao projeto divino. Em artigo memor\u00e1vel, Eduardo Hoornaert descreve o momento hist\u00f3rico que a Igreja crist\u00e3 viveu em Nic\u00e9ia e o que representou aquele conc\u00edlio para o futuro do Cristianismo<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, Nic\u00e9ia deu \u00e0 Igreja o direito de existir que, antes, lhe era negado. Possibilitou aos bispos dos diversos recantos do mundo&nbsp; greco-romano a se conhecerem e dialogarem. Teologias divergentes como a da escola de Antioquia e a de Alexandria puderam se encontrar e tentar uma s\u00edntese sobre o m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, mais hist\u00f3rico, ou mais aleg\u00f3rico e sobre quem \u00e9 o Cristo para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Nic\u00e9ia representou a unidade do Cristianismo greco-romano da \u00e9poca, mas desconheceu as formas de ser crist\u00e3s das comunidades s\u00edrias, semitas ou africanas, embora j\u00e1 houvesse comunidades crist\u00e3s na Eti\u00f3pia e em outros locais africanos colonizados pelo Imp\u00e9rio, mas ainda n\u00e3o romanizados, como j\u00e1 era a Tun\u00edsia, ou Hipona de Santo Agostinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada de estranho que os bispos, vindos de todos os recantos do mundo greco-romano, se alegrassem com a acolhida e apoio de Constantino. Afinal, o conc\u00edlio foi feito no pal\u00e1cio de ver\u00e3o do Imperador. Eus\u00e9bio de Cesareia, um dos 300 bispos presentes no conc\u00edlio, escreveu que eles tiveram tratamento de senadores, como o Imp\u00e9rio fazia antes com os sacerdotes da antiga religi\u00e3o imperial. Por isso, a partir de Nic\u00e9ia, os bispos crist\u00e3os assumiram ins\u00edgnias que antes eram dos sacerdotes romanos do culto imperial. At\u00e9 hoje, a maioria dos padres acha normal celebrar com casula e h\u00e1 bispos que pensam que a mitra vem do evangelho, ou pode ajudar na sua miss\u00e3o de pastor (Ver sobre isso: Crossan, J. D., <em>O Jesus hist\u00f3rico: A Vida de um Campon\u00eas judeu do Mediterr\u00e2neo,<\/em> Imago, Rio de Janeiro, 1994, p. 462, tamb\u00e9m citado por Eduardo Hoornaert).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a principal heran\u00e7a de Nic\u00e9ia n\u00e3o foi a doutrina. O povo simples e mesmo muitos eclesi\u00e1sticos precisariam estudar Filosofia grega para compreenderem o que significa dizer que o Filho \u00e9 consubstancial ao Pai. Mais tarde as Igrejas do Ocidente se dividiriam das do Oriente, sobre se o Esp\u00edrito Santo procede do Pai, pelo Filho, ou se procede do Pai e do Filho. A mais concreta heran\u00e7a de Nic\u00e9ia foi organizar a Igreja no modelo das administra\u00e7\u00f5es regionais do Imp\u00e9rio Romano, que se chamavam dioceses e eram governadas por nobres, cujo t\u00edtulo eram vig\u00e1rios. At\u00e9 alguns s\u00e9culos depois, os bispos eram eleitos e o C\u00f3digo de Graciano, um dos primeiros textos de Direito Can\u00f4nico, diz claramente: \u201cnenhum bispo imposto\u201d (<em>Cf. Jos\u00e9 Ignacio Faus. As elei\u00e7\u00f5es episcopais na Hist\u00f3ria da Igreja. Paulus, 1996<\/em>). Na \u00e9poca do Papa Greg\u00f3rio VII (1075), todos os bispos j\u00e1 eram nomeados pelo papa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos culpar Nic\u00e9ia por transformar o Papa em chefe da Igreja Universal e rei, at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, dos Estados Pontif\u00edcios e, hoje, do Vaticano. O modelo de Nic\u00e9ia e a compreens\u00e3o de Deus como poder e da\u00ed, a quase diviniza\u00e7\u00e3o dos minist\u00e9rios eclesiais como representa\u00e7\u00e3o do poder divino no mundo vigora at\u00e9 hoje. Outros pecados vieram depois de Nic\u00e9ia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s da Am\u00e9rica Latina e do Sul Global fica o desafio de jogar fora a \u00e1gua do banho, sem perder junto a crian\u00e7a. \u00c9 o que hoje, em todos os campos da cultura, se chama Decolonialidade. Al\u00e9m de descolonizar a express\u00e3o doutrinal e o estilo eclesial, atrav\u00e9s dos quais vivemos a f\u00e9, precisamos, em comunh\u00e3o com a Igreja Universal, propor a nossa forma pr\u00f3pria de viver a f\u00e9 e sermos Igrejas locais, sem precisar sermos italianos, franceses ou alem\u00e3es para sermos crist\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qualquer pessoa de bom senso percebe que a organiza\u00e7\u00e3o de dioceses e par\u00f3quias n\u00e3o responde mais aos desafios dos nossos dias<\/strong>. O modelo territorial, iniciado em Nic\u00e9ia, \u00e9 o da Cristandade e continua organizado no modelo colonial. Atualmente, em quase todo o mundo, qualquer pessoa toma um carro e participa da comunidade que responde mais ao seu estilo de f\u00e9 e n\u00e3o da par\u00f3quia ou diocese onde mora.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 nos anos 1970, Pedro Casald\u00e1liga e a equipe pastoral da Prelazia de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia n\u00e3o criaram par\u00f3quias e sim zonas pastorais, coordenadas coletivamente por padres, religiosas e leigos. Como pensar que, no modelo hier\u00e1rquico de Igreja, vindo de Nic\u00e9ia e n\u00e3o do Evangelho de Jesus Cristo, seja poss\u00edvel estabelecer a sinodalidade proposta pelo Papa Francisco? Quando Francisco instituiu a Confer\u00eancia Eclesial da Amaz\u00f4nia (CEAMA), um cardeal brasileiro confidenciou a amigos: \u201c<em>Deveria ter feito uma confer\u00eancia episcopal e n\u00e3o eclesial\u201d<\/em>. E este cardeal \u00e9 dos mais abertos a uma Igreja dos pobres. Da\u00ed se v\u00ea que o modelo eclesial definido por Nic\u00e9ia continua vivo e atual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso nos remete ao nosso modo de ver Jesus Cristo e compreender como o seguimos. Nic\u00e9ia fez dele o Cristo Senhor e divino, ao qual devemos servir com o nosso culto. A decolonialidade da nossa f\u00e9 n\u00e3o nega que ele \u00e9 divino, mas como o Cristo C\u00f3smico, do qual Paulo escreveu aos colossenses (Cl, 1, 15), partilha essa condi\u00e7\u00e3o com todas as pessoas humanas e com todos os seres do Universo, inclusive.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio atual para as nossas Igrejas n\u00e3o \u00e9 crer no dogma definido h\u00e1 1700 anos na Turquia e sim fazer um novo concilio ou f\u00f3rum com participantes de todas as Igrejas Crist\u00e3s e em di\u00e1logo com irm\u00e3s e irm\u00e3os de outras religi\u00f5es, principalmente das tradi\u00e7\u00f5es dos povos origin\u00e1rios e comunidades afrodescentes (em todo o mundo). Precisamos testemunhar&nbsp; que Jesus veio ao mundo, como pobre de Nazar\u00e9 para nos fazer ver em toda pessoa humana, mas especialmente, nos povos crucificados, o que no Carnaval de 2020, a Escola de Samba da Mangueira chamou de <em>\u201cJesus da Gente<\/em>\u201d e n\u00e3o o Cristo Rei. Este inspirou o Papa Pio XI a assinar com Mussolini o Tratado de Latr\u00e3o (1925) e, assim voltar a ser&nbsp; chefe de Estado, na \u00fanica monarquia absoluta do Ocidente. \u00c9 o Jesus da Gente que com a Mangueira podemos continuar cantando:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>\u201cEu sou da Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Nazar\u00e9<br>Rosto negro, sangue \u00edndio, corpo de mulher<br>Moleque pelintra no buraco quente<br>Meu nome \u00e9 Jesus da Gente<br>Nasci de peito aberto, de punho cerrado<br>Meu pai carpinteiro, desempregado<br>Minha m\u00e3e \u00e9 Maria das Dores Brasil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em><br>Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira<br>Me encontro no amor que n\u00e3o encontra fronteira<br>Procura por mim nas fileiras contra a opress\u00e3o<br>E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilh\u00e3o<br>E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilh\u00e3o<br>Eu t\u00f4 que t\u00f4 dependurado em cord\u00e9is e corcovados<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em><br>Mas ser\u00e1 que todo povo entendeu o meu recado?<br>Porque, de novo, cravejaram o meu corpo<br>Os profetas da intoler\u00e2ncia<br>Sem saber que a esperan\u00e7a<br>Brilha mais na escurid\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em><br>Favela, pega a vis\u00e3o<br>N\u00e3o tem futuro sem partilha<br>Nem messias de arma na m\u00e3o<br>Favela, pega a vis\u00e3o<br>Eu fa\u00e7o f\u00e9 na minha gente<br>Que \u00e9 semente do seu ch\u00e3o<br>Do c\u00e9u deu pra ouvir<br>O desabafo sincopado da cidade<br>Quarei tambor, da cruz fiz esplendor<br>E ressurgi pro cord\u00e3o da liberdade<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; https:\/\/ihu.unisinos.br\/660458-niceia-1700-anos-um-desafio-artigo-de-eduardo-hoornaert<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nic\u00e9ia, Jesus e a decolonialidade. 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