{"id":14918,"date":"2025-12-13T10:36:55","date_gmt":"2025-12-13T13:36:55","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14918"},"modified":"2025-12-13T10:37:00","modified_gmt":"2025-12-13T13:37:00","slug":"o-brasil-de-municipios-com-nomes-curiosos-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-brasil-de-municipios-com-nomes-curiosos-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"O BRASIL DE MUNIC\u00cdPIOS COM NOMES CURIOSOS\u00a0&#8211; Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O BRASIL DE MUNIC\u00cdPIOS COM NOMES CURIOSOS\u00a0&#8211; Por Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Frei_Betto_25385-672x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14919\" width=\"778\" height=\"1186\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Frei_Betto_25385-672x1024.jpeg 672w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Frei_Betto_25385-197x300.jpeg 197w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Frei_Betto_25385-768x1171.jpeg 768w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Frei_Betto_25385-1008x1536.jpeg 1008w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Frei_Betto_25385.jpeg 1312w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Frei Betto &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O Brasil \u00e9 um pa\u00eds de vastid\u00f5es geogr\u00e1ficas, culturais e lingu\u00edsticas. E talvez em nenhum outro aspecto essa diversidade se revele de maneira t\u00e3o pitoresca quanto na topon\u00edmia, ou seja, na arte de batizar lugares. O mapa brasileiro \u00e9 um invent\u00e1rio de nomes que despertam curiosidade, humor e poesia. H\u00e1 cidades que parecem verbos, express\u00f5es populares, promessas ou at\u00e9 avisos. Entre as mais conhecidas, duas se destacam pelo exotismo e pelo sabor regional: Varre-Sai, no noroeste do Rio de Janeiro, e Passa-e-Fica, no agreste do Rio Grande do Norte.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esses nomes, que soam quase como ordens ou prov\u00e9rbios, carregam hist\u00f3rias que misturam anedotas, cultura popular e o modo bem brasileiro de lidar com a linguagem cheia de gra\u00e7a, oralidade e criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Situada na divisa com Minas Gerais e o Esp\u00edrito Santo, Varre-Sai \u00e9 uma pequena cidade de cerca de dez mil habitantes, conhecida pela produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 de montanha. O nome curioso, segundo a tradi\u00e7\u00e3o oral, teria surgido de um fen\u00f4meno natural: os ventos fortes que varriam a regi\u00e3o antes da chegada dos primeiros colonos italianos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Reza a lenda que tropeiros e viajantes, ao passarem pelo local, diziam que ali \u201co vento varria e sa\u00eda levando tudo\u201d. Da\u00ed a express\u00e3o \u201cVarre-Sai\u201d, que acabou fixada como nome do povoado e, mais tarde, do munic\u00edpio, emancipado em 1991.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas h\u00e1 quem veja tamb\u00e9m na denomina\u00e7\u00e3o um tra\u00e7o de humor popular: o verbo \u201cvarrer\u201d, associado ao movimento do vento e \u00e0 limpeza da terra, carrega uma ironia involunt\u00e1ria, como se o lugar estivesse sempre pronto para \u201cvarrer o que chega e deixar sair o que vai\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A cerca de 100 km de Natal, Passa-e-Fica \u00e9 outro exemplo not\u00e1vel da imagina\u00e7\u00e3o popular aplicada aos mapas. Fundada no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a cidade nasceu como ponto de parada para tropeiros e comerciantes que cruzavam o interior potiguar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Conta-se que, ao abrigo das serras, havia uma fazenda onde os viajantes costumavam descansar. Certa vez, um deles teria dito ao dono: \u201cVou s\u00f3 passar\u201d. O anfitri\u00e3o, hospitaleiro, respondeu: \u201cPois passa e fica!\u201d. A express\u00e3o pegou. E quando o povoado cresceu e virou munic\u00edpio, o nome j\u00e1 estava consolidado. Passa-e-Fica \u00e9 s\u00edntese perfeita do acolhimento nordestino e do humor de quem transforma uma conversa casual em identidade coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O curioso \u00e9 que o nome encerra uma contradi\u00e7\u00e3o: passar e ficar s\u00e3o a\u00e7\u00f5es opostas. Mas a linguagem popular \u00e9 mestra em conciliar opostos. Em Passa-e-Fica, o paradoxo se torna convite, pois quem passa, fica; quem fica, quer passar adiante a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Casos como esses n\u00e3o s\u00e3o isolados. O Brasil est\u00e1 repleto de nomes de munic\u00edpios que poderiam figurar em um livro de poesia ou repert\u00f3rio de ditados: Pau dos Ferros (RN), N\u00e3o-Me-Toque (RS), Vai-Vem (BA), Espera Feliz (MG), Rodeio Bonito (RS), Fartura (SP), Bom Jesus do Galho (MG), entre centenas de outros.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esses nomes, longe de serem apenas curiosidades, revelam a profunda rela\u00e7\u00e3o entre l\u00edngua e territ\u00f3rio. Em muitos casos, nasceram de situa\u00e7\u00f5es prosaicas, como uma fazenda, um rio, uma piada local, uma express\u00e3o ind\u00edgena, uma devo\u00e7\u00e3o religiosa. Mas ao serem fixados como top\u00f4nimos, ganham peso simb\u00f3lico ao transformar a fala do povo em hist\u00f3ria oficial.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O ge\u00f3grafo Milton Santos dizia que o territ\u00f3rio \u00e9 tamb\u00e9m um \u201csistema de significados\u201d. Nomes como Varre-Sai e Passa-e-Fica s\u00e3o, assim, mais que palavras no mapa, s\u00e3o narrativas condensadas, peda\u00e7os da mem\u00f3ria oral transformados em geografia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;H\u00e1 quem veja nesses nomes apenas exotismo ou folclore. Mas tamb\u00e9m expressam uma sabedoria discreta, uma ironia diante da vida. Espera Feliz, por exemplo, parece um conselho; Riach\u00e3o das Neves, uma constata\u00e7\u00e3o; N\u00e3o-Me-Toque, um aviso que, segundo alguns, teria origem em uma briga entre vizinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;J\u00e1 Passa-e-Fica e Varre-Sai lembram que o Brasil interiorano vive de movimento, de idas e vindas, de ventos e estradas, de gente que passa, mas deixa um tra\u00e7o, e de lugares que varrem a poeira do tempo, mas preservam a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Estudar os nomes dos munic\u00edpios \u00e9 tamb\u00e9m estudar o pa\u00eds. O Atlas Topon\u00edmico do Brasil, projeto da Universidade Federal de Santa Catarina, mostra que a maioria dos top\u00f4nimos brasileiros tem origem na natureza (rios, serras, plantas, animais), como o pr\u00f3prio nome Brasil, oriundo de vegetal, a \u00e1rvore Pau-Brasil, ou em refer\u00eancias religiosas. Mas h\u00e1 um grupo not\u00e1vel de nomes de origem popular, fruto da oralidade e da cultura sertaneja que d\u00e1 ao mapa brasileiro um tom de cr\u00f4nica viva.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Cada nome curioso \u00e9 um microconto. Varre-Sai fala do vento; Passa-e-Fica, da hospitalidade; Fartura, da esperan\u00e7a; Espera Feliz, do otimismo; N\u00e3o-Me-Toque, da prud\u00eancia. S\u00e3o express\u00f5es de uma imagina\u00e7\u00e3o coletiva que transforma o cotidiano em hist\u00f3ria e o territ\u00f3rio em poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Outros nomes curiosos em nosso mapa: Chor\u00f3 (CE), deriva do choro dos \u00edndios expulsos de suas terras; Trombudo (SC), vem de um rio sinuoso, \u201ctrombudo\u201d como uma tromba; Ressaquinha (MG), prov\u00e1vel refer\u00eancia \u00e0 ressaca de um rio ou, quem sabe, de seus habitantes\u2026 Xique-Xique (BA), nome de um cacto t\u00edpico do sert\u00e3o; Buriti Bravo (MA), buriti \u00e9 palmeira e bravo, uma forma de marcar sua resist\u00eancia; Pau Grande (RJ), terra do lend\u00e1rio Garrincha, jogador do Botafogo, tem este nome herdado da \u00e1rvore monumental de uma antiga fazenda; e Curralinho (PA), diminutivo carinhoso que lembra o tempo dos currais e da pecu\u00e1ria ribeirinha.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nosso mapa \u00e9 um mosaico onde o humor, a natureza e a hist\u00f3ria popular se misturam.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor do livro autobiogr\u00e1fico \u201cQuando fui pai de meu irm\u00e3o\u201d (AltaBoooks\/70), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O BRASIL DE MUNIC\u00cdPIOS COM NOMES CURIOSOS\u00a0&#8211; Por Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O Brasil \u00e9 um pa\u00eds de vastid\u00f5es geogr\u00e1ficas, culturais e lingu\u00edsticas. 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