{"id":15159,"date":"2026-08-29T08:26:27","date_gmt":"2026-08-29T11:26:27","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=15159"},"modified":"2026-08-29T08:26:27","modified_gmt":"2026-08-29T11:26:27","slug":"o-santuario-do-qual-brotam-as-aguas-da-vida-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-santuario-do-qual-brotam-as-aguas-da-vida-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"O SANTU\u00c1RIO DO QUAL BROTAM AS \u00c1GUAS DA VIDA \u2013 Por MARCELO BARROS"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O SANTU\u00c1RIO DO QUAL BROTAM AS \u00c1GUAS DA VIDA \u2013 Por MARCELO BARROS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/sddefault.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15160\" style=\"width:780px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/sddefault.jpg 640w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/sddefault-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Irm\u00e3o Marcelo Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O Tempo da Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 iniciativa ecum\u00eanica de v\u00e1rias Igrejas crist\u00e3s. Em 1987, o Patriarca Dimitrios de Constantinopla convocou as Igrejas Ortodoxas para celebrarem o 1 de setembro, como o Dia de ora\u00e7\u00e3o pelo cuidado com a Terra. Em 2015, o Papa Francisco assumiu esse costume, j\u00e1 consagrado no Oriente e prop\u00f4s a todas as Igrejas crist\u00e3s que, anualmente, celebrem juntas o Tempo da Cria\u00e7\u00e3o, entre 1\u00ba de setembro a 4 de outubro, festa de S\u00e3o Francisco de Assis, como per\u00edodo especial de ora\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o sobre o cuidado com a M\u00e3e-Terra, a nossa casa comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, a Comiss\u00e3o ecum\u00eanica que prepara os subs\u00eddios para essa celebra\u00e7\u00e3o escolheu como tema a <em>\u201cImers\u00e3o em \u00e1guas vivas\u201d.&nbsp; <\/em>O texto b\u00edblico escolhido como refer\u00eancia \u00e9 Ezequiel 47, 9 a 12<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos estudos sobre o livro de Ezequiel acredita que, como acontece com a imensa maioria dos textos b\u00edblicos, por tr\u00e1s desses escritos, n\u00e3o h\u00e1 apenas uma figura individual e sim uma comunidade<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, a refer\u00eancia \u00e9 um profeta. Ezequiel \u00e9 de fam\u00edlia sacerdotal e teria vivido, no s\u00e9culo VI antes de Cristo. Conforme o livro de sua profecia, ele passou a maior parte de sua vida no ex\u00edlio da Babil\u00f4nia. O imp\u00e9rio escravocrata babil\u00f4nico deixou na terra conquistada a maior parte do povo judeu que passou a viver como escravo e pagar fortes tributos ao conquistador. E levou para serem escravizados na Babil\u00f4nia os grupos de lideran\u00e7a pol\u00edtica e religiosa, como os sacerdotes. Ezequiel era um deles.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto para as pessoas que ficaram, como para as que foram desterradas, houve um elemento mais chocante e terr\u00edvel do que a fome e do que todos os sofrimentos f\u00edsicos pelos quais passavam. Foi a destrui\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m pelo ex\u00e9rcito invasor. As comunidades judaicas interpretaram a profana\u00e7\u00e3o do santu\u00e1rio e o saqueio de todos os objetos sagrados como sinal de que at\u00e9 Deus teria abandonado o seu povo e nada mais poderia unir as pessoas v\u00edtimas do cativeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreendermos melhor o texto que, nesse ano, nos \u00e9 proposto como tema b\u00edblico para o Tempo da Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 bom salientar que ele foi escrito por um migrante escravizado em um imp\u00e9rio estrangeiro. Por isso, para n\u00f3s, hoje, ele \u00e9 ainda mais fortemente uma palavra de esperan\u00e7a e que aponta tempos novos e felizes para o povo cativo. Para reafirmar que Deus nunca abandona o povo oprimido e para ajudar as pessoas a retomarem a esperan\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o, o profeta Ezequiel descreve, como se fosse um sonho, a reconstru\u00e7\u00e3o do templo em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica, o templo n\u00e3o \u00e9 a casa de Deus, como \u00e9 comum as pessoas falarem em nossas Igrejas. Talvez tenha sido naquele tempo do cativeiro e com a pr\u00f3pria experi\u00eancia da opress\u00e3o e longe da terra e sem contar com o conforto de um templo religioso que as comunidades do povo b\u00edblico tenham aprendido que Deus n\u00e3o precisa de templo. No Catolicismo Popular, \u00e9 frequente a cren\u00e7a de que Nossa Senhora apareceu em determinados lugares (Lourdes, F\u00e1tima, Tepeyac) e pediu que se constru\u00edsse naquele lugar um santu\u00e1rio para ela. Na B\u00edblia, Deus diz claramente: \u201c<em>Nunca pedi que constru\u00edsse santu\u00e1rios para mim<\/em>\u201d (2 Sm 7, 7). &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deus n\u00e3o mora em templos e sim est\u00e1 com o povo oprimido, onde ele estiver. Poucos anos depois de Ezequiel, a comunidade do 3\u00ba Isa\u00edas afirmou: \u201c<em>Assim diz o Senhor: O c\u00e9u \u00e9 o meu trono, e a terra \u00e9 a base de apoio para meus p\u00e9s. Assim sendo, que casa voc\u00eas v\u00e3o poder construir para mim? E qual seria o lugar do meu descanso?<\/em>\u201d (Is 66, 1).<\/p>\n\n\n\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o b\u00edblica, o templo \u00e9 a casa em que \u00e9 invocado o Nome Divino. Se o povo mant\u00e9m-se fiel \u00e0 alian\u00e7a, a gl\u00f3ria de Deus, isso \u00e9, um sinal vis\u00edvel da sua presen\u00e7a, pousa sobre aquela casa, assim como, no tempo do deserto, a nuvem descia sobre <em>a tenda de reuni\u00e3o<\/em>, ou <em>tenda do encontro<\/em> com Deus (Cf. Ex 33, 7ss). Ent\u00e3o, na perspectiva de Ezequiel, a reconstru\u00e7\u00e3o do templo \u00e9 fator de unidade do povo e da alian\u00e7a entre as pessoas, assim como de liberta\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o do profeta, o mais importante \u00e9 que o templo novo n\u00e3o \u00e9 constru\u00e7\u00e3o fechada. O espa\u00e7o sagrado vai al\u00e9m das paredes do santu\u00e1rio e se amplia para al\u00e9m do espa\u00e7o do santu\u00e1rio. Manifesta-se na abund\u00e2ncia das \u00e1guas, na b\u00ean\u00e7\u00e3o da fertilidade da terra e nas plantas que curam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse texto, proposto para a ora\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, no Tempo da Cria\u00e7\u00e3o de 2026, do lado direito do templo, corre um rio milagroso, que se espalha por aquela regi\u00e3o \u00e1rida e vai se tornando cada vez mais caudaloso e profundo. O rio corre em dire\u00e7\u00e3o ao Mar Morto e transforma suas \u00e1guas salgadas em \u00e1guas saud\u00e1veis, cheias de vida, que abrigam peixes abundantes e possibilita, em suas margens, \u00e1rvores frut\u00edferas, com folhas medicinais.<\/p>\n\n\n\n<p>No Novo Testamento, o \u00faltimo cap\u00edtulo do livro do Apocalipse retoma essa vis\u00e3o de Ezequiel e afirma: <em>\u201c(O Anjo) mostrou-me o rio puro da \u00e1gua da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da pra\u00e7a, de um e de outro lado do rio, estava a \u00e1rvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de m\u00eas em m\u00eas; e as folhas da \u00e1rvore s\u00e3o para a sa\u00fade das na\u00e7\u00f5es. E ali nunca mais haver\u00e1 maldi\u00e7\u00e3o contra algu\u00e9m. Nela estar\u00e1 o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos e servas o servir\u00e3o\u201d<\/em> (Ap 22, 1- 3). E, mais adiante, conclui: \u201c<em>O Esp\u00edrito e a esposa dizem: Vem! E quem escuta, diga: Vem! E quem tem sede, venha; e quem quiser, gratuitamente, beba a \u00e1gua da vida<\/em>\u201d (Ap 22,17).<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo que Ezequiel viu como b\u00ean\u00e7\u00e3o para o povo judeu no cativeiro, o Apocalipse diz que serve \u00e0 sa\u00fade de todas as na\u00e7\u00f5es, ou seja, de toda a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, os povos origin\u00e1rios creem que todo ser vivo tem esp\u00edrito. As comunidades ind\u00edgenas do Nordeste afirmam que s\u00e3o Encantados. Se \u00e9 assim, a salva\u00e7\u00e3o divina atinge o conjunto dos seres vivos, que Leonardo Boff nomeia como \u201c<em>comunidade de vida<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses textos b\u00edblicos parecem confirmar a esperan\u00e7a do povo Guarani na Terra sem Males. Vem assegurar a certeza dos povos andinos na possibilidade real de fazer acontecer o bem-viver. Manifesta-se na b\u00ean\u00e7\u00e3o das \u00e1guas que a tradi\u00e7\u00e3o Iorub\u00e1 celebra na festa das \u00c1guas de Oxal\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o revela\u00e7\u00f5es que, seja na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, seja nas culturas origin\u00e1rias de nossos povos, atestam que, como escreveu o profeta Ezequiel, a gl\u00f3ria de Deus deixa o santu\u00e1rio de pedra e vem pousar no meio dos povos oprimidos e na M\u00e3e-Terra, v\u00edtima da voracidade dos imp\u00e9rios opressores.<\/p>\n\n\n\n<p>Como seria bom que essa profecia pudesse, de fato, chegar, hoje, \u00e0s nossas Igrejas e ajud\u00e1-las a serem guardi\u00e3s e testemunhas da sacralidade da casa comum e de todos os seres vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria das culturas e os caminhos espirituais da humanidade reconhecem a \u00c1gua como m\u00e3e da vida. \u00c9 a partir da \u00c1gua que renasce a sa\u00fade e a alian\u00e7a amorosa entre todos os seres. Que as Igrejas crist\u00e3s possam exercer essa profecia e unir na mesma caminhada amorosa as mais diversas tradi\u00e7\u00f5es espirituais na defesa da verdadeira democracia pol\u00edtica e da paz, baseada na justi\u00e7a ecossocial e na comunh\u00e3o com as \u00e1guas da vida e com a M\u00e3e-Terra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Cf. https:\/\/seasonofcreation.org\/pt\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> &#8211; Cf. SHOKEL, Luis Alonso. <strong>A B\u00edblia do Peregrino. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002, pp. 2013- 2014.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> &#8211; BOFF, Leonardo. <strong>Ecologia: grito da Terra: grito dos pobres. <\/strong>S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2004, pp. 50- 53.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O SANTU\u00c1RIO DO QUAL BROTAM AS \u00c1GUAS DA VIDA \u2013 Por MARCELO BARROS O Tempo da Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 iniciativa ecum\u00eanica de v\u00e1rias Igrejas crist\u00e3s. 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