{"id":15229,"date":"2026-11-07T07:56:27","date_gmt":"2026-11-07T10:56:27","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=15229"},"modified":"2026-11-07T07:56:28","modified_gmt":"2026-11-07T10:56:28","slug":"a-espiritualidade-em-um-mundo-que-perdeu-a-alma-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-espiritualidade-em-um-mundo-que-perdeu-a-alma-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"A ESPIRITUALIDADE EM UM MUNDO QUE PERDEU A ALMA \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A ESPIRITUALIDADE EM UM MUNDO QUE PERDEU A ALMA \u2013 Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"666\" height=\"460\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/images-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15230\" style=\"width:780px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/images-3.jpg 666w, http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/images-3-300x207.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 666px) 100vw, 666px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Irm\u00e3o Marcelo Barros. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algum tempo, em meio a uma viagem, um chefe ind\u00edgena confessou a um amigo que, nessa sociedade da acelera\u00e7\u00e3o, tinha medo de \u201cperder a alma\u201d. Precisava deter-se, conversar com a montanha e retomar a rela\u00e7\u00e3o de intimidade com a M\u00e3e-Terra, para recuperar a alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos volumes do Di\u00e1rio de Pedro Casald\u00e1liga tem como t\u00edtulo: \u201c<em>Quando os dias fazem pensar\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em> Agora, mais ainda, cada dia nos faz perceber mais profundamente, que o tipo de sociedade que vivemos n\u00e3o provoca apenas a perda da alma de algu\u00e9m. Parece ser o pr\u00f3prio mundo que perdeu a alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes a alma do mundo estava aprisionada por religi\u00f5es que absolutizavam uma cultura e excomungavam o diferente. O antigo povo andino que construiu Machu-Pichu, considerava aquela montanha \u201c<em>o umbigo do mundo<\/em>\u201d. Na \u00cdndia, a tradi\u00e7\u00e3o hindu\u00edsta dizia que o rio Ganges deu origem ao universo e, de suas \u00e1guas, emergia a vida. Na B\u00edblia, um salmo afirma que \u201c<em>todas as fontes brotam de Jerusal\u00e9m<\/em>\u201d (Sl 87).<\/p>\n\n\n\n<p>Toda cultura tende a considerar-se a \u00fanica leg\u00edtima. Ao tornar-se dominante, essa cultura considerar\u00e1 as outras como desvios. Foi assim que, durante s\u00e9culos, a cultura da Cristandade ocidental legitimou conquistas e a coloniza\u00e7\u00e3o. Assim, sustentou, ideologicamente, o estatuto da escravid\u00e3o e as guerras, assim como as persegui\u00e7\u00f5es aos hereges. Tudo, em nome de Deus. Essa cultura continua vigente na teologia dominante e no modo de organizar as Igrejas. Isso explica porque, muitos setores de Igrejas crist\u00e3s, cat\u00f3licos, evang\u00e9licos e pentecostais, apoiam projetos sociais e pol\u00edticos de direita, que parecem mais religiosos do que os da sociedade laica e prometem mais prest\u00edgio para as hierarquias eclesi\u00e1sticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses dias, o candidato que, ap\u00f3s perder a elei\u00e7\u00e3o, fugiu do Brasil, para n\u00e3o responder aos muitos processos judiciais, nos quais est\u00e1 envolvido, publicou uma carta com in\u00fameras inverdades e explica\u00e7\u00f5es mentirosas e concluiu a carta, afirmando: \u201cE que Deus nos aben\u00e7oe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem olha, criticamente, para a realidade atual percebe que o mundo que ofereceremos a gera\u00e7\u00e3o de nossos filhos e netos, mesmo se tecnicamente, \u00e9 mais c\u00f4modo e mais desenvolvido, \u00e9 bem menos humano e mais cruel do que aquele que recebemos de nossos pais e av\u00f3s.&nbsp; Basta olhar as estat\u00edsticas de suic\u00eddios na juventude para dar-se conta disso.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil atual, muita gente declara-se incomodada com o que chamam de \u201cpolaridade\u201d que, atualmente, divide pelo meio a popula\u00e7\u00e3o brasileira. A polaridade \u00e9 criada por uma verdadeira ind\u00fastria do \u00f3dio e viol\u00eancia, fabricada pela extrema-direita. Ela se aproveita da inseguran\u00e7a das pessoas e do desejo justo de mudan\u00e7as mais radicais, para semear um discurso de autoritarismo e moralismo, que repete chav\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o e contra os direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa extrema-direita provoca em seus pr\u00f3prios membros uma esp\u00e9cie de fascina\u00e7\u00e3o que os impede de pensar. Em geral, seus l\u00edderes s\u00e3o contra vacinas, mas, de fato, vacinam as pessoas contra qualquer racionalidade e capacidade de pensar. Em um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, o pastor Dietrich Bonhoeffer as definia como alunas e alunos da estupidez e afirmava: <em>\u201cA estupidez humana \u00e9 mais perigosa do que a maldade. Contra o mal pode-se sempre protestar. O mal pode ser exposto. Pode ser revelado. (&#8230;) J\u00e1 com a estupidez, \u00e9 diferente. N\u00e3o h\u00e1 como defender-se da estupidez. N\u00e3o adiantam protestos. Nenhum racioc\u00ednio consegue convencer uma pessoa est\u00fapida. Ela opta por seus pr\u00f3prios preconceitos e por mais que se mostrem fatos, n\u00e3o a convencer\u00e3o<\/em>\u201d (ver: ihu.unisinos.br\/categorias\/592293-da-estupidez-dietrich-bonhoeffer-1943)<\/p>\n\n\n\n<p>Aos que optam pela estupidez do preconceito, no lugar da confian\u00e7a do amor, retomamos a palavra de Jesus para seus advers\u00e1rios: <em>\u201c&#8221;Muitas pessoas vir\u00e3o do Oriente e do Ocidente e tomar\u00e3o lugares \u00e0 mesa com Abra\u00e3o, Isaque e Jac\u00f3 no reino dos c\u00e9us, enquanto os que se consideram filhos do reino ficar\u00e3o de fora&#8221; (Mt 8, 11- 12).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No contexto atual do Brasil e de um mundo, ferido por todo tipo de viol\u00eancia e guerras, o esc\u00e2ndalo mais terr\u00edvel \u00e9 descobrirmos o papel das religi\u00f5es e das Igrejas, nessa ind\u00fastria do \u00f3dio. Se os rabinos chefes do Juda\u00edsmo fossem, claramente, contr\u00e1rios ao genoc\u00eddio, que o Estado de Israel continua a cometer contra o povo palestino, sem d\u00favida, os governantes n\u00e3o poderiam manter a sua sanha assassina. Se as Igrejas Ortodoxas, russa e ucraniana, optassem por verdadeira espiritualidade da paz e garantissem no mundo uma profecia de amor, a guerra n\u00e3o teria lugar. Nas mais de 50 guerras que assolam o mundo, as religi\u00f5es desempenham fun\u00e7\u00e3o lastim\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A modernidade trouxe a rep\u00fablica e a laicidade da vida. O aprofundamento b\u00edblico revela que a pr\u00f3pria f\u00e9 crist\u00e3 tem car\u00e1ter profundamente laical. Jesus denunciou a opress\u00e3o do poder religioso do seu tempo. Ao revelar que Deus \u00e9 Amor e n\u00e3o poder, ele deslegitima todo tipo de clericalismo, seja crist\u00e3o, isl\u00e2mico, budista, ou do Candombl\u00e9. Por isso, foi assassinado, pelo poder pol\u00edtico romano, a pedido do poder religioso.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, os religiosos do tempo de Jesus e de todos os tempos, organizados na cultura da religi\u00e3o, ligada ao poder n\u00e3o poderiam agir diferentemente. Hoje, no Brasil, padres e bispos que defendem a barb\u00e1rie e veem comunismo em qualquer projeto de comunh\u00e3o est\u00e3o mais coerentes com a estrutura na qual vivem e da qual dependem. Os diferentes e esquisitos somos n\u00f3s, crist\u00e3os, que optamos pelo seguimento de Jesus, em seu testemunho sobre o projeto divino para o mundo, que os evangelhos chamam de \u201creino de Deus\u201d. Os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas do reino \u00e9 que est\u00e3o fora do lugar, como Jesus posicionou-se, criticamente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura religiosa do seu tempo, como, nos primeiros s\u00e9culos do Cristianismo, os m\u00e1rtires crist\u00e3os foram condenados pelo Imp\u00e9rio como ateus, quando a f\u00e9 crist\u00e3 ainda priorizava a profecia do Evangelho e n\u00e3o a religi\u00e3o ritualista do Imp\u00e9rio Romano com vestes e linguagem crist\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, s\u00f3 uma espiritualidade prof\u00e9tica, unida \u00e0s culturas &nbsp;origin\u00e1rias, ind\u00edgenas e afrodescendentes, podem contrapor-se \u00e0s estruturas da iniquidade e salvar o que resta de esperan\u00e7a para essa sociedade, condenada a sucumbir, sob o peso da desumanidade de uma economia sem alma. Durante tantos s\u00e9culos e at\u00e9 agora, as espiritualidades origin\u00e1rias souberam ser for\u00e7a e luz para as comunidades ind\u00edgenas e negras resistirem a toda desumanidade e protegerem a M\u00e3e-Terra, \u00e0s \u00e1guas e toda a comunidade de vida no planeta Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste m\u00eas da uni\u00e3o e consci\u00eancia negra, as comunidades eclesiais e grupos de base t\u00eam dois modelos simb\u00f3licos que se op\u00f5em: o da senzala e o do quilombo. A cultura religiosa da senzala alimenta-se do colonialismo introjetado na pr\u00f3pria alma do povo oprimido. Sustenta-se com uma religi\u00e3o de devo\u00e7\u00f5es e crendices superficiais que dispensam as pessoas de pensarem criticamente. Entre seus pr\u00f3prios membros, a cultura religiosa da senzala refaz as rela\u00e7\u00f5es de desigualdade e de hierarquia, que os opressores sempre imp\u00f5em, em nome de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo alternativo \u00e9 a espiritualidade do quilombo, como cen\u00e1culo de resist\u00eancia e comunidade que sabe: Deus que Jesus nos ensinou a chamar de Pai nosso n\u00e3o \u00e9 narcisista. N\u00e3o precisa de nossa adula\u00e7\u00e3o e nem exige nossa adora\u00e7\u00e3o. Quer sim que acolhamos a sua proposta e nos dediquemos a realizar o seu projeto de justi\u00e7a e paz no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer de nosso grupo eclesial e de base um quilombo espiritual exige recriar rela\u00e7\u00f5es de igualdade e comunh\u00e3o. Ensaia nas Igrejas e na sociedade na qual nos inserimos, um novo modo de ser Igreja e de ser comunidade, que \u00e9 in\u00edcio do reinado divino no mundo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Cf. CASALD\u00c1LIGA, Pedro. <strong>Quando os dias fazem pensar. <\/strong><em>Mem\u00f3ria, Ide\u00e1rio, Compromisso.<\/em>S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ESPIRITUALIDADE EM UM MUNDO QUE PERDEU A ALMA \u2013 Por Marcelo Barros H\u00e1 algum tempo, em meio a uma viagem, um chefe ind\u00edgena confessou a um amigo que, nessa sociedade da acelera\u00e7\u00e3o, tinha medo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15230,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-15229","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15229"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15229\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15231,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15229\/revisions\/15231"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15230"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}